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Defende-se a Cidade de Colombo de um grande assalto


Desde cinco deste mês até este dia em que estamos [20 de Agosto], do ano de 1587, foi prosseguindo o tirano Rajú furiosos assaltos contra a Fortaleza e Cidade de Colombo [no Ceilão]; E (deixando outros, que pela semelhança causaria fastio o repeti-los) neste dia sobre a tarde, mandou despregar duas bandeiras, uma branca e outra vermelha, e logo começaram a soar os tristes instrumentos de que usam os Gentios da Índia, nas ocasiões em que se fazem Amoucos, isto é, oferecidos a morrer ou vencer; E com grandes alaridos e brados (a que eles chamam cuquiadas) acometeram a Cidade, arrimando-lhe grande número de escadas por muitas partes, e pela do mar veio com o mesmo intento uma armada inimiga; Grande foi a consternação em que se viram os poucos Portugueses que havia na Cidade! Grande a fúria e resolução com que foram acometidos! Mas ainda foi maior o seu esforço; Assim rebateram a porfia dos Infiéis: Assim lhe quebraram os primeiros ímpetos, que finalmente se começaram a retirar com mais confusão, do que haviam trazido arrogância. Ficou o campo ao pé das muralhas juncado de corpos mortos e despedaçados, que formavam uma horrível representação: A armada se retirou também diminuída de velas e de soldados; Assistiram alguns Religiosos de São Francisco, que havia na Cidade, aos maiores perigos com admirável constância, acudindo a todas as partes com os remédios do corpo e do espírito.

Pe. Francisco de Santa Maria in «Ano Histórico, Diário Português: Notícia Abreviada de pessoas grandes e coisas notáveis de Portugal», 1744.

Maravilhoso conflito em Ceilão


Pelos anos de 1616 dominava em grande parte da Ilha de Ceilão um tirano chamado Nicapete, o qual sendo por nascimento humilde, se levantou tanto em soberba, que se havia feito aclamar Rei, e já o era poderoso, por meio de várias indústrias, animadas de um valor não vulgar, de que a natureza o dotara. Com um Exército de vinte e quatro mil soldados, abalou neste dia [18 de Dezembro] no ano referido, em demanda de um pequeno troço de Portugueses, de que era Comandante Manuel César. Achou-os prontos a provar fortuna, ainda que com poder tão desigual; E depois de uma brava refrega, foram desbaratados os inimigos, com morte de quase mil, e constrangido o Nicapete a despir as insígnias Reais para melhor facilitar a fugida: Dos nossos morreu um só homem; Tão pouco nos custou este glorioso sucesso, atribuído a milagre da Mãe de Deus, de quem era o dia.

Pe. Francisco de Santa Maria in «Ano Histórico, Diário Português: Notícia Abreviada de pessoas grandes e coisas notáveis de Portugal», 1744.

Maravilhosa pedra que se achou na praia de Ceilão


No mesmo tempo que Francisco Barreto governava a Índia, encontrou um soldado Português na praia da Ilha de Ceilão a um Jogue (que são, entre os Gentios, homens penitentes e que peregrinam por lugares solitários), o qual tinha na mão várias conchas e pedras de formas e cores diferentes, que acabava de colher. Por uma delas lhe deu o soldado uma esmola: Era parda do tamanho de um ovo e nela figurados sete Céus de outras cores, e entre eles uma figura de mulher com um menino nos braços. Tudo fábrica da natureza, e uma das maiores maravilhas que ela produziu. Veio à mão do Governador Francisco Barreto, que fez presente dela à Rainha Dona Catarina [esposa de D. João III], e, sem dúvida, mais para estimar que a melhor jóia que pode fabricar a arte e a vaidade.

Pe. Francisco de Santa Maria in «Ano Histórico, Diário Português: Notícia Abreviada de pessoas grandes e coisas notáveis de Portugal», 1744.

Rei de Portugal, Rei do Ceilão


No mesmo dia [29 de Maio], ano de 1597, se ajuntaram na Cidade de Colombo, por ordem do Capitão General Dom Jerónimo de Azevedo, todos os Fidalgos Portugueses que andavam na mesma Ilha, e os principais Senhores, naturais da terra, e todos juraram solenemente Rei de Ceilão a El-Rei de Portugal, por força do testamento do último Rei [de Ceilão], chamado Dom João Parêa Pandar, o qual morrendo sem sucessão, deixou ao nosso Rei por seu universal herdeiro. Celebrou-se a função com grandes demonstrações de alegria e vivas do povo.

Pe. Francisco de Santa Maria in «Ano Histórico, Diário Português: Notícia Abreviada de pessoas grandes e coisas notáveis de Portugal», 1744.

Conflito memorável em Ceilão


Havendo-se levantado com a maior parte da Ilha de Ceilão um Gentio, por nome Rajú, não se dava por inteiramente ditoso, até não lançar os Portugueses fora da mesma Ilha. A este fim veio com numerosos esquadrões sobre a Cidade de Colombo, e neste dia [5 de Agosto], ano de 1587, lhe deu fortíssimos assaltos, ao mesmo tempo por três partes: Os Portugueses eram em pouco número, e os inimigos sem ele, e não lhes faltava disciplina, sobre resolução e valor; Traziam elefantes de guerra, que são naquela Ilha por extremo ferozes e belicosos, a que ajuntavam todos os outros instrumentos de expugnação. Caiu esta grande máquina sobre aquela Cidade, e o estrondo da artilharia, e mais bocas-de-fogo, as nuvens de fumo, as vozes desentoadas e roucas de uns e outros combatentes, os urros dos elefantes, as lágrimas e prantos das mulheres e meninos, as feridas, as mortes, os gemidos, tudo formava uma confusão indistinta e temerosa. Por vezes subiram os inimigos as muralhas e outras tantas foram despenhados delas: Aos que caiam, sucediam outros, e os nossos sempre os mesmos. Assim durou a peleja muitas horas, bem disputada e ferida de ambas as partes; Até que, não podendo os inimigos sustentar mais o peso dos defensores, se retiraram destroçados.

Pe. Francisco de Santa Maria in «Ano Histórico, Diário Português: Notícia Abreviada de pessoas grandes e coisas notáveis de Portugal», 1744.