Mostrar mensagens com a etiqueta Finados. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Finados. Mostrar todas as mensagens

Antigo costume português na noite de Todos-os-Santos


Na noite da véspera de Todos-os-Santos, era costume na Idade Média, percorrerem homens as ruas de várias cidades, a tocar uma campainha e a gritar de espaço a espaço: "Levantai-vos, gente que dormis, rogai a Deus pelos finados; pensai na morte; pensai na morte."

Fonte: «Almanaque de Lembranças Luso-Brasileiro», 1862.

Assombração no Hospital de Évora


No Hospital Real da Cidade de Évora se começaram a ouvir de noite tais estrondos que, atemorizados os enfermos e enfermeiros, pediam que os mudassem para outro sítio. Luís Gonçalves, natural da mesma Cidade, mancebo de grande ânimo e de bons costumes, fortalecido com os Sacramentos da Penitência e Eucaristia, neste dia [30 de Janeiro] de 1647, foi de noite ao Hospital, onde, posto em oração, pedia a Deus que livrasse aquela casa da Caridade de tão importunas moléstias. Adormeceu, e com o abano forte de uma mão, acordou e viu um vulto, como humano, que lhe disse estas palavras: Não temas Luís. Quatro anos há, que morri neste Hospital, deixando nas mãos do Padre Capelão, dinheiro para me dizer certas Missas, e porque não o tem feito, por justos juízos de Deus, padeço aqui o meu purgatório. Faz diligência para que se me satisfaçam estes sufrágios, e cessarão os estrondos e as minhas penas. Contestada esta informação de Luís Gonçalves, com a confissão do Capelão, que depôs se ter esquecido de dizer as Missas; o Provedor da Misericórdia, Administrador do Hospital, que então era o Arcediago Dom Rodrigo de Melo, não só mandou dizer as Missas determinadas, mas muitas mais, e ultimamente um Ofício de Defuntos. Com isto cessaram totalmente os estrondos do Hospital. Creditou Deus ainda mais a verdade deste caso com outra prova; e foi que, toda a cera que ardeu no tempo do Ofício, e de vinte e cinco Missas, não diminuiu coisa alguma do peso que antes tinha. Tudo se justificou com testemunhos autênticos.

Pe. Francisco de Santa Maria in «Ano Histórico, Diário Português: Notícia Abreviada de pessoas grandes e coisas notáveis de Portugal», 1744.

As Alminhas


«As almas do Purgatório são socorridas pelos sufrágios dos fiéis, principalmente pelo sacrifício do Altar», declarou o Concílio de Trento, prescrevendo ainda «aos Bispos que se empenhem diligentemente para que a sã doutrina sobre o Purgatório, transmitida pelos Santos Padres e pelos Sagrados Concílios, seja acreditada, mantida, ensinada e prégada por toda parte» (sessão de 3 e 4 de Dezembro de 1563).
Foi da devoção popular às almas do Purgatório, sustentada pelas disposições de Trento, que surgiram em Portugal as Alminhas, pequenos retábulos ou nichos, pintados, esculpidos ou azulejados, que se encontram sobretudo pelos caminhos e estradas rurais, edificados pela fé dos mais simples, a recordar aos vivos a obrigação de sufragarem os mortos.
«As alminhas são uma criação genuinamente portuguesa e não há sinais de haver este tipo de representação das almas do Purgatório, pedindo para os vivos se lembrarem delas para poderem purificar e subir até ao Céu, em mais lado nenhum do mundo a não ser em Portugal», diz o investigador e professor de História, António Matias Coelho, ao jornal Público (2 de Novembro de 2009).
Apesar da fé dos cristãos estar hoje muito abalada, ainda é possível encontrar em Portugal quem se lembre das Alminhas, sobretudo no dia dos Fiéis Defuntos, oferecendo-lhes orações, velas, flores e algumas esmolas.

Meditação sobre a morte


Muito depressa chegará o teu fim neste mundo; vê, pois, como te preparas: hoje está vivo o homem, e amanhã já não existe. Entretanto, logo que se perdeu de vista, também se perderá da memória. Ó cegueira e dureza do coração humano, que só cuida do presente, sem olhar para o futuro! De tal modo te deves haver em todas as tuas obras e pensamentos, como se fosse já a hora da morte. Se tivesses boa consciência não temerias muito a morte. Melhor fora evitar o pecado que fugir da morte. Se não estás preparado hoje, como o estarás amanhã? O dia de amanhã é incerto, e quem sabe se te será concedido?

Que nos aproveita vivermos muito tempo, quando tão pouco nos emendamos? Oh! nem sempre traz emenda a longa vida, senão que aumenta, muitas vezes, a culpa. Deus queira que tivéssemos, um dia sequer, vivido bem neste mundo! Muitos contam os anos decorridos desde a sua conversão; frequentemente, porém, é pouco o fruto da emenda. Se for tanto para temer o morrer, talvez seja ainda mais perigoso o viver muito. Bem-aventurado aquele que medita sempre sobre a hora da morte, e para ela se dispõe cada dia. Se já viste alguém morrer, reflecte que também tu passarás pelo mesmo caminho.

Pela manhã, pensa que não chegarás à noite, e à noite não te prometas o dia seguinte. Por isso anda sempre preparado e vive de tal modo que te não encontre a morte desprevenido. Muitos morrem repentina e inesperadamente; pois na hora em que menos se pensa, virá o Filho do Homem (Lc 12,40). Quando vier aquela hora derradeira, começarás a julgar muito diferentemente toda a tua vida passada, e doer-te-á muito teres sido tão negligente e remisso.

Quão feliz e prudente é aquele que procura ser em vida como deseja que o ache a morte. Pois o que dará grande confiança de morte abençoada é o perfeito desprezo do mundo, o desejo ardente do progresso na virtude, o amor à disciplina, o rigor na penitência, a prontidão na obediência, a renúncia de si mesmo e a paciência em sofrer, por amor de Cristo, qualquer adversidade. Muito fácil é praticar o bem enquanto estás são; mas, quando estás enfermo, não sei o que poderás. Poucos melhoram com a enfermidade; raros também se santificam os que andam em muitas peregrinações.

Não confies em parentes e amigos, nem proteles para mais tarde o negócio da tua salvação, porque mais depressa do que pensas te esquecerão os homens. Melhor é providenciar agora e fazer algo de bem, do que esperar pelo socorro dos outros. Se não cuidas de ti no presente, quem cuidará de ti no futuro? Muito precioso é o tempo presente: agora são os dias da salvação, agora é o tempo favorável (2 Cor 6,2). Mas, ai! Que melhor não aproveitas o meio pelo qual podes merecer viver eternamente! Tempo virá de desejares, um dia, uma hora sequer, para a tua emenda, e não sei se a alcançarás.

Olha, meu caro irmão, de quantos perigos te poderias livrar e de quantos terrores fugir, se sempre andasses temeroso e desconfiado da morte. Procura agora de tal modo viver, que na hora da morte te possas antes alegrar que temer. Aprende agora a desprezar tudo, para então poderes voar livremente para Cristo. Castiga agora o teu corpo pela penitência, para que possas então ter legítima confiança.

Ó louco, que pensas viver muito tempo, quando não tens seguro nem um só dia! Quantos têm sido logrados e, de improviso, arrancados ao corpo! Quantas vezes ouviste contar: morreu este à espada; afogou-se aquele; este outro, caindo do alto, quebrou a cabeça; um morreu comendo, outro expirou jogando. Estes se terminaram pelo fogo, aqueles pelo ferro, uns pela peste, outros pelas mãos dos ladrões, e de todos é o fim a morte, e, depressa, qual sombra, acaba a vida do homem (Sl 143,4).

Quem se lembrará de ti depois da morte? E quem rogará por ti? Faz já, irmão caríssimo, quanto puderes; pois não sabes, quando morrerás nem o que te sucederá depois da morte. Enquanto tens tempo, ajunta riquezas imortais. Só cuida da tua salvação, ocupa-te só nas coisas de Deus. Granjeia agora amigos, venerando os santos de Deus e imitando as suas obras, para que, ao saíres desta vida, te recebam nas eternas moradas (Lc 16,9).

Considera-te como hóspede e peregrino neste mundo, como se nada tivesses com os negócios da Terra. Conserva livre o teu coração, e erguido a Deus, porque não tens aqui morada permanente. Para lá dirige as tuas preces e gemidos, cada dia, com lágrimas, a fim de que mereça a tua alma, depois da morte, passar venturosamente ao Senhor.

Fr. Tomás de Kempis in «Imitação de Cristo».

A Vida


A vida é o dia de hoje,
a vida é ai que mal soa,
a vida é sombra que foge,
a vida é nuvem que voa;
a vida é sonho tão leve
que se desfaz como a neve
e como o fumo se esvai:
A vida dura um momento,
mais leve que o pensamento,
a vida leva-a o vento,
a vida é folha que cai!

A vida é flor na corrente,
a vida é sopro suave,
a vida é estrela cadente,
voa mais leve que a ave:
Nuvem que o vento nos ares,
onda que o vento nos mares
uma após outra lançou,
a vida – pena caída
da asa de ave ferida –
de vale em vale impelida,
a vida o vento a levou!

João de Deus in «Campo de Flores».