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Pio XII sobre a gesta portuguesa


A fé católica, como foi em certo modo a linfa vital, que alimentou a Nação portuguesa desde o berço, assim foi, se não a única, certamente a principal fonte de energia, que elevou a vossa Pátria ao apogeu da sua glória de nação civil e nação missionária, «dilatando a fé e o império». Refere-o a história e os factos o atestam.

Efectivamente, quando os filhos de D. João I lhe pediram, que autorizasse a primeira expedição ultramarina, que havia de levar à libertação de Ceuta, o grande e piedoso monarca, antes de mais nada, quis saber deles, se a empresa seria ou não útil ao serviço de Deus. Como esta, todas as empresas seguintes tiveram igualmente por fim principal a propagação da fé, daquela fé que animara «a Cruzada do Ocidente» e as Ordens militares na épica luta contra o domínio dos Mouros.

Nas caravelas que, arvorando o níveo pendão rubricado com a cruz de Cristo, levavam os intrépidos descobridores lusíadas às praias ocidentais da África e das Ilhas adjacentes, navegavam também os Missionários, «para atraírem as nações bárbaras ao jugo de Cristo», como se exprimia o grande pioneiro da expansão colonial e missionária portuguesa, o Infante D. Henrique, o Navegador.

O príncipe dos descobridores portugueses, Vasco da Gama, quando levantava âncoras para iniciar a sua venturosa viagem das Índias, levava consigo dois Padres Trinitários, um dos quais, depois de ter pregado o evangelho com zelo apostólico aos povos da Índia, havia de coroar o seu laborioso apostolado com o martírio. O sangue deste e doutros heróicos Missionários portugueses foi naquelas remotas paragens, como sempre e em toda a parte o sangue dos mártires, semente de cristãos; e os seus luminosos exemplos foram para todo o mundo católico, mas em primeiro lugar para seus generosos compatriotas chamamento e estímulo ao apostolado missionário.

Viu-se então, – precisamente quando urna série de funestos acontecimentos arrancava grande parte da Europa do grémio da Igreja, que com tanta sabedoria e carinho materno a tinha educado, – viu-se Portugal com a nação irmã, a Espanha, abrir à mística Esposa de Cristo imensas regiões desconhecidas, e trazer ao seu regaço materno, em compensação dos miseramente perdidos, filhos inumeráveis nos vastos continentes da África, Ásia e América. Dioceses e paróquias, seminários e conventos, hospitais e orfanotrófios surgiram e se multiplicaram naquelas terras, a demonstração da perene vitalidade da Igreja católica, pela qual o divino Fundador incessantemente intercede, e na qual o Espírito Paráclito opera incessantemente, mesmo nas horas mais trágicas.

Mas donde veio «que vós, por muito poucos que sejais, muito façais na santa cristandade»? Donde veio a Portugal a força para abraçar no seu domínio tantas plagas da África e da Ásia, e estendê-lo ainda às terras longínquas da América? Donde, se não daquela ardente fé do Povo Lusitano, cantada pelo seu maior poeta, e da sabedoria cristã dos seus governantes, que fizeram de Portugal um dócil e precioso instrumento nas mãos da Providência, para a realização de obras tão grandiosas e benéficas?

De facto, em quanto os Albuquerques, os Castros e outros varões igualmente assinalados, conscientes da própria responsabilidade, governam com rectidão e prudência as diversas colónias portuguesas, e prestam auxílio e protecção aos zelosos pregoeiros da fé, que grandes monarcas, como D. João III, se empenham em mandar aqueles países, então Portugal impõe-se à admiração do mundo inteiro pela potência do seu império e por sua gigantesca obra civilizadora.

Papa Pio XII in encíclica «Saeculo exeunte octavo», 13 de Junho de 1940.

28 de Março: São João de Capistrano


S. João, nascido em Capistrano (Abruzos) a 24 de Junho de 1385, entrou na Ordem de S. Francisco, na idade de 39 anos. Foi escolhido por Deus para libertar a Europa do Islão que ameaçava invadi-la, no século XV. Maomé II apoderava-se de Constantinopla, capital do Império do Oriente e marchava contra Belgrado. O Papa Calisto III decretou a Cruzada. S. João pregou-a na Panónia e noutras províncias. Ajudado pelo nobre húngaro João Hunyadi, alistou setenta mil cristãos. Esses soldados improvisados, só tinham, para combater, forquilhas e flagelos. João, de quem «o Senhor era a força», «obteve com eles a vitória depois de rude combate», assegurando assim o triunfo da Cruz sobre o Crescente. Nessa mesma tarde, 120.000 turcos jaziam sobre o solo, ou haviam fugido, ao passo que Maomé II, ferido, renunciava aos seus projectos contra a Europa cristã. Morreu em 1456. Recorramos à sua protecção e à penitência para repelir os ataques do espírito maligno.

Fonte: «Missal Quotidiano e Vesperal», 1940.

Da Cristandade


Tempo houve em que a filosofia do Evangelho governava os Estados. Nessa época, a influência da sabedoria cristã e a sua virtude divina penetravam as leis, as instituições, os costumes dos povos, todas as categorias e todas as relações da sociedade civil. Então a Religião instituída por Jesus Cristo, solidamente estabelecida no grau de dignidade que lhe é devida, em toda a parte era florescente, graças ao favor dos Príncipes e à protecção legítima dos Magistrados. Então o Sacerdócio e o Império estavam ligados entre si por uma feliz concórdia e pela permuta amistosa de bons ofícios. Organizada assim, a sociedade civil deu frutos superiores a qualquer expectativa, cuja memória subsiste e subsistirá, consignada como está em inúmeros documentos que artifício algum dos adversários poderá corromper ou obscurecer.

Papa Leão XIII in encíclica «Immortale Dei», 1 de Novembro de 1885.

Festa de Cristo Rei


Cristo Rei. Celebra-se a festa de Cristo Rei no último domingo do mês de Outubro. Foi o Papa Pio XI quem instituiu esta festa, dando a Jesus aquele título, para que os homens reconhecessem e confessassem, que Jesus Cristo é o Rei da humanidade, e para afirmarem o dever que têm de obedecer à sua Santa Lei.

Pe. José Lourenço in «Dicionário da Doutrina Católica», 1945.

16 de Outubro: Santa Edviges


Edviges, nascida de família real, e ainda mais ilustre pela inocência de sua vida, era filha de Bertoldo, príncipe de Caríntia, e tia materna de Santa Isabel de Hungria. Dada em casamento a Henrique, Duque da Polónia, cumpriu tão santamente os deveres de esposa que a Igreja a compara à mulher forte, cujo retrato o Espírito Santo nos dá na Epístola deste dia. Teve três filhos e três filhas. Castigava o corpo pelo jejum e vigílias e pela severidade do vestuário; era imensa a sua caridade para com os pobres, servindo-os ela própria à mesa. Lavava e osculava as úlceras dos leprosos. Para melhor entregar-se ao serviço de Deus, conseguiu do esposo a promessa, por voto, de guardarem ambos a continência. Morto o Duque, Edviges, como o negociante de que fala o Evangelho, despojou-se de todos os seus bens para adquirir a pérola preciosa da vida eterna. Após instantes preces, e, por inspiração divina, passou generosamente do seio das pompas do século para a vida humilde da cruz, entrando no Mosteiro de Trebnitz, da Ordem dos Cistercienses, do qual era Abadessa sua filha Gertrudes. Morreu a 15 de Outubro de 1243, e, na Polónia, é venerada como Padroeira, com particular devoção.

Fonte: «Missal Quotidiano e Vesperal», 1940.

8 de Outubro: Santa Brígida da Suécia


Santa Brígida era descendente de sangue real da Suécia. Casada com o Príncipe de Merícia, educou santamente oito filhos, entre os quais figura Santa Catarina da Suécia. Estimulou de tal sorte o esposo na prática da virtude que o levou ao completo desprendimento do mundo e a abraçar a Regra dos Cistercienses, no Mosteiro de Alvastra, onde morreu em odor de santidade (1344). Brígida redobrou de fervor no santo estado de viuvez «aplicando-se a toda sorte de boas obras e perseverando dia e noite na oração e meditações» (Ep.). À semelhança de quem encontra um tesouro e vende tudo para adquiri-lo (Ev.), distribuiu os bens entre os filhos, e, desapegada de tudo, só buscava o reino do Céu. Penetrada do temor de Deus, infligia ao corpo as mais duras penitências (Intr.), e Jesus, cuja paixão imitava, recompensou-a, revelando-lhe os segredos celestes (Or.). Deu-lhe as constituições da Ordem por ela fundada, sob a regra de Santo Agostinho. Morreu em Roma em 1373.

Fonte: «Missal Quotidiano e Vesperal», 1940.

Da criação do "Lar Hebreu" na Palestina


Carta do Núncio Apostólico nos E.U.A., o Arcebispo Amleto Cicognani, ao enviado do Presidente Franklin Roosevelt, o Embaixador Myron Taylor – 22 de Junho de 1943:

Vossa Excelência,

Em referência à nossa conversa de há alguns dias, desejo apresentar para consideração e atenção de Vossa Excelência os seguintes pontos relativos à situação na Palestina.

A Santa Sé, apesar das graves dificuldades, tem manifestado constantemente um profundo interesse e preocupação pelos "não-arianos". Isto é claramente demonstrado pela recente acção tomada em favor dos jovens e crianças judias internados na Eslováquia, para impedir a sua remoção daquela República.

O auxílio da Santa Sé foi recentemente solicitado para ajudar a superar dificuldades, de modo a permitir que crianças judias sejam transportadas para a Palestina. O seu acolhimento, a partir de países europeus, foi autorizado pelo Governo Britânico.

Embora a Santa Sé esteja profundamente interessada no bem-estar dessas crianças, parece oportuno recordar, nesta altura, a questão geral do "Lar Hebreu" na Palestina. Desde 1917, quando a questão surgiu pela primeira vez, a Santa Sé tem manifestado a sua posição sobre o assunto e tem-na repetido em vários documentos formais.

Em 1919, Sua Santidade, o Papa Bento XV, ao discursar num Consistório de Cardeais, mencionou a grande solicitude que os Papas têm demonstrado pela preservação dos lugares santos e veneráveis da Palestina. Durante anos, sacrificaram-se para os manter longe das mãos dos infiéis. Agora que a sua posse foi assegurada, deve ser protegida e reforçada. Se o poder dos infiéis na Palestina aumentar, os monumentos estarão novamente em perigo. (A.A.S. Vol. XI, página 100).

A 13 de Junho de 1921, o mesmo Soberano Pontífice salientou que, embora não quisesse interferir em qualquer direito do povo Judeu, também não desejava prejudicar de nenhuma forma os direitos dos Cristãos na Palestina (A.A.S. Vol. XIII, página 283). A posição da Igreja foi expressa num aide-mémoire ao Conselho da Sociedade das Nações, a 4 de Junho de 1922. Junta-se a esta carta uma cópia desse documento, bem como uma cópia de uma carta do Cardeal Gasparri, datada de 6 de Março de 1922.

Nesta questão, há dois pontos a considerar. O primeiro diz respeito aos Lugares Santos (por exemplo, a Basílica do Santo Sepulcro, Belém, etc.). Os Católicos regozijam-se por deterem certos direitos sobre esses lugares, e, por justiça, tais direitos devem ser reconhecidos e respeitados. Garantias formais e reiteradas de que esses direitos serão respeitados, são sempre necessárias e voltarão a ser exigidas após a presente guerra.

O segundo ponto diz respeito à própria Palestina. Os Católicos do mundo inteiro nutrem uma profunda devoção por esta terra, santificada pela presença do Redentor e estimada como o berço do Cristianismo. Se a maior parte da Palestina fosse concedida ao povo Judeu, isso representaria um duro golpe para a ligação religiosa que os Católicos mantêm com esta terra. Ter o povo Judeu em maioria, seria uma interferência no exercício pacífico dos direitos que os Católicos já possuem na Terra Santa.

É verdade que, em tempos, a Palestina foi habitada pela raça Hebraica, mas não há nenhum princípio histórico que justifique a necessidade de um povo regressar a uma terra que deixou há dezanove séculos.

Se se deseja um "Lar Hebreu", não seria difícil encontrar um território mais adequado do que a Palestina. Com o aumento da população Judaica na região, surgiriam novos e graves problemas internacionais. Os Católicos do mundo inteiro ficariam indignados. A Santa Sé ficaria triste – e com razão – com tal movimento, pois não estaria de acordo com a assistência caritativa que os não-arianos têm recebido e continuarão a receber das mãos do Vaticano.

Estou confiante de que, a partir destes pontos, Vossa Excelência compreenderá a posição da Santa Sé nesta matéria.

Com sentimentos de estima e votos de felicidades, subscrevo-me,
Atenciosamente,

A. G. Cicognani
Arcebispo de Laodicea
Núncio Apostólico nos E.U.A.

Descoberta da Cidade de Malaca


Neste dia [28 de Setembro], ano de 1509, descobriu Diogo Lopes de Sequeira a famosíssima Cidade de Malaca, e foi esta a primeira vez que as bandeiras Católicas e Portuguesas foram vistas naquele porto: Os Mouros armaram várias traições, a fim de destruírem os Portugueses, mas de todas escaparam com valor e com fortuna, reservando-se a conquista daquele célebre Empório Oriental para o Grande Afonso de Albuquerque, como em outros dias dizemos.

Pe. Francisco de Santa Maria in «Ano Histórico, Diário Português: Notícia Abreviada de pessoas grandes e coisas notáveis de Portugal», 1744.

Irmandade da Misericórdia


Em todas as Cidades e Vilas de Portugal há Irmandades deste nome. Servem de dar sepultura aos defuntos e aos pobres, sem interesse algum; sustentam pessoas pobres, bem procedidas; casam e dotam órfãs, negoceiam as causas dos presos desamparados e fazem com suma edificação muitas outras obras pias. Estas santas Irmandades há só em Portugal e não em outra parte de Espanha. Bem diz delas o Mestre Gil Gonçalves de Ávila, Grandezas de Madrid, liv. 4, titulo del Consejo de Portugal: Que es la mayor cosa que hoy se conoce en la Cristiandad. No ano de 1498, das relíquias da antiga Irmandade da Piedade, assentada em uma das Capelas da Claustra da Sé de Lisboa, com a direcção e zelo do venerável Padre Fr. Miguel de Contreiras, Religioso da Ordem da Santíssima Trindade, Confessor d'El-Rei D. João II, se levantou em Lisboa a piíssima e nobilíssima Irmandade da Misericórdia, livre de qualquer outra jurisdicção e favorecida de muitas graças, privilégios e isenções, que lhe concederam os Sumos Pontífices. Para a fábrica do Templo, que consta de três naves, todas de pedraria, concorreu com grandes esmolas El-Rei D. Manuel, que quis ser Irmão e Protector da dita Irmandade. No ano de 1534, reinando já El-Rei D. João III, se passou da Sé à sua nova casa em que a vemos, a qual consta de um nobre Recolhimento para donzelas órfãs e um Hospital para entrevados pobres, casas de despacho e cartórios, com outras muitas oficinas; e hoje de outro Recolhimento magnífico, acrescentado para quarenta donzelas órfãs e com dotes muito bons para casarem. Compõe-se a Irmandade de seiscentos e vinte Irmãos, trezentos nobres e trezentos mecânicos, e vinte letrados; uns e outros provam limpeza para serem nela admitidos. É governada por um Provedor (que sempre é um dos primeiros Fidalgos da Corte), um Escrivão, um Tesoureiro, dois Conselheiros, e seis Irmãos nobres e outros seis mecânicos. Tem sessenta Capelães, que rezam em coro as Horas Canónicas; e tem a seu cargo a administração do Hospital Real de todos os Santos. Chama-se esta Irmandade de Misericórdia, porque nas sete obras de Misericórdia se exercitam os Irmãos dela com grande caridade e dispêndio, parte de dotações dos Reis, Rainhas e Infantes de Portugal, e de pessoas devotas, que importam em cada ano perto de cem mil cruzados. Misericordiae sacrae Sodalitas, atis. Fem. Na obra do P. António Vasconcelos, intitulada Descriptio Regni Lusitanici, pág. 56, acharás um belo discurso das excelências desta Irmandade.

Pe. D. Rafael Bluteau in «Vocabulário Português e Latino», Tomo V, 1716.

Das qualidades dos Cavaleiros da Ordem de Cristo


Pela excelência desta Ordem ser de Jesus Cristo, nosso Senhor, e pela insígnia da Cruz que tem, que entre todas as das Ordens Militares, mais se assemelha e parece à em que Ele padeceu, merece ser muito venerada e respeitada: pelo que os que a ela forem recebidos, devem ser Nobres, Fidalgos, Cavaleiros, ou Escudeiros, limpos sem mácula alguma em seus nascimentos, nem outros impedimentos e defeitos que se apontam abaixo nos interrogatórios, porque se há-de perguntar, quando se habilitarem: e os Papas Pio V e Gregório XIII no ano de 1572 proibiram que nenhuma pessoa que descendesse de Mouro ou Judeu, ou fosse filho de mecânico* ou mecânica, nem neto de avô e avó mecânicos, possam ser recebidos ao hábito desta Ordem; o que ordenamos e definimos que assim se cumpra e guarde inviolavelmente, sem dispensação, nem remissão alguma, por ser tão necessário à autoridade e reputação da Ordem, e conforme ao que el-Rei D. Filipe II, de boa memória, Governador e perpétuo Administrador desta Ordem, com estas considerações resolveu e mandou por sua carta assinada de sua Real mão de 28 de Fevereiro de 1604, de que a cópia é a seguinte...

Fonte: «Definições e Estatutos dos Cavaleiros e Freires da Ordem de Nosso Senhor Jesus Cristo», 1717.

(*) É chamado de mecânico a todo o género de ofícios manuais ou servis, como carpinteiros, pedreiros, alfaiates, sapateiros, etc.

Das qualidades dos Cavaleiros da Ordem de Santiago


Nos estatutos desta Ordem, capítulo quarto, se ordena que o cavaleiro, a quem se houver de dar o hábito, seja de limpa e nobre geração, sem raça alguma de Mouro ou Judeu, ou outra infecta nação, e no Definitório novo se tornou a definir o mesmo; e é isto tão necessário que quem, com alguma das faltas que ali se apontam, recebesse o hábito, cometeria um grande sacrilégio, e por isso quando lhe fazem profissão, depois de lhe perguntarem se tem alguma coisa de Mourisco ou da nação, e ele responder que não, lhe declaram logo que veja bem o que diz, porque em qualquer tempo que se souber o contrário, o deitarão da Ordem, e lhe tirarão o hábito, com o que bem se dá a entender que não ficará válida a profissão, nem o tal professo poderá comer pão algum da Ordem, pois realmente não é professo.
O que nesta matéria é para estranhar mais que tudo, é que haja homens, os quais não podendo ignorar que há alguma falta destas em sua geração, não deixam contudo de ser pretendentes ao hábito, sendo que lhe não pode servir a pretensão mais que de maior ignominia, porque se não alcançar o fim dela por este impedimento, ficará mais patente aquilo que entre muitos, ou se não sabia, ou era duvidoso. E se o alcançar, ainda tenho isto por pior, porque é embaraçar a consciência com os escrúpulos que temos dito.
Costumam-se fazer as diligências com grande exacção e com muito segredo, sem intervir o pretendente, nem outrem por ele, mais que com os custos que primeiro se depositam; e não permita Deus que nesta matéria haja cavaleiro, ou freire, que não faça com toda a inteireza o que tem obrigação, porque além de cometer um grave pecado de perjúrio e sacrilégio; seria digno de gravíssimo castigo, pois se pode daí seguir um tão grande absurdo, como é desonrar toda uma Religião [= Ordem Religiosa] por amor de um sujeito, que por outros caminhos pode alcançar grandes honras, se as merece.

Pe. António Pereira in «Compêndio e Declaração da Regra e Estatutos da Ordem Militar de Santiago», 1659.

Das qualidades dos Cavaleiros da Ordem de Avis


Esta nossa Ordem em seu primeiro princípio foi estabelecida e fundada por generosos Cavaleiros, nobres e de grande linhagem: os quais ordenaram que nenhuma pessoa fosse recebida nela, não sendo Fidalgo, ou tal Cavaleiro que pudesse exercitar a arte Militar. E segundo isto, e constituições antigas, e Breves Apostólicos, ordenamos e definimos que a pessoa que houver de ser recebida por Cavaleiro nesta nossa Ordem Militar seja Fidalgo, Cavaleiro ou Escudeiro, de linhagem por parte de pai e mãe, legítimo e Cristão-Velho; sem raça alguma (por remota que seja) de Mouro, Judeu, ou Cristão-Novo; e sem que descenda de pessoa que cometesse crime de lesa-Majestade divina ou humana; e que seus Pais e Avós, inclusive de ambas as partes, não houvessem exercitado ofício ou ministério vil, e vivessem deles; nem tivessem em tempo algum ofício mecânico, nem algum outro baixo e indecente à nossa Cavalaria: nem menos que os que pretendem entrar tivessem servido qualquer ofício que lhes desse de comer pela mecânica de suas mãos; nem que sejam infamados ou afrontados de coisas que os façam incapazes de honras, por causas de que não estejam já limpos. E para que isto se guarde melhor, mandamos que os que forem recebidos ao hábito Militar desta nossa Ordem sejam avisados antes que se lhes der; que depois de o terem recebido, ainda que sejam professos e tenham comenda ou tença da Ordem, em qualquer tempo que se achar que tem alguma das faltas sobreditas, o lançarão fora dela e lhe tirarão o hábito. E os que o tomarem com fraude, ainda que não conste de seu defeito, só com eles o saberem, ficarão perdendo o domínio dos bens que tiverem da Ordem ipso jure; e como incapazes deles, ficarão obrigados aos restituir, sem esperar outra sentença ou acusação. E logo os aplicamos à redenção dos cativos. E no defeito de ter raça de Mouro, Judeu, Cristão-Novo, ou Herege, se não poderá dispensar para este efeito de não serem lançados da Ordem; assim como está definido que se não dispense para tomar o hábito.

Fonte: «Regra da Cavalaria e Ordem Militar de S. Bento de Avis», 1631.

17 de Outubro: Santa Margarida Maria Alacoque


Margarida Maria Alacoque nasceu em Verosvres (diocese de Autun) em 1647. Muito jovem consagrou-se a Jesus Cristo pelo voto de virgindade perpétua. Aos 23 anos entrou para o convento das Visitandinas de Paray-le-Monial. O Sagrado Coração revelou-se a ela por três grandes revelações, sem que a comunidade o suspeitasse. Santa Margarida Maria empregou os seus últimos anos em espalhar essa admirável devoção ao divino Coração e morreu a 17 de Outubro de 1690 na idade de 43 anos. O seu corpo virginal foi sepultado sob uma laje do coro, perto da grade onde estava de joelhos quando lhe apareceu o divino Mestre. Foi beatificada por Pio IX em 1864 e Bento XV canonizou-a na festa da Ascensão, a 13 de Maio de 1920. Para seguir o espírito litúrgico, que é o espírito da Igreja, e consagrar-lhe, como nos exorta, por indulgências concedidas a primeira sexta-feira do mês ao Sagrado Coração, adaptemos esta devoção ao Ciclo. Será dar-lhe grande variedade, tanto no seu objecto material (o Coração de Jesus nascendo pelo Natal, morrendo na Seixa-Feira Santa e ressuscitando pela Páscoa), como no seu objecto formal, o amor de Jesus nos seus mistérios gozosos, dolorosos e gloriosos.

Fonte: «Missal Quotidiano e Vesperal», 1940.

Portugal: Terra de Santa Maria


Pusemos sempre, no caminho da Fé, o facho mais luminoso. Fomos nós, Portugueses, que mais alto erguemos as nossas preces de adoração à Virgem. Ela, Rainha das almas, velará! Por todo o lado onde foi preciso chegar, chegámos com a espada e com a Fé. O mundo abriu-se, quando, desfeitas as lendas, lhe abrimos as portas de par em par.

Padre Cruz in revista «Vida Mundial Ilustrada», Nº 56, 11 de Junho de 1942.

Do apostolado missionário português


Afinal, quando os filhos do Rei D. João I lhe pediram autorização para a primeira expedição ultramarina, que implicou depois na libertação de Ceuta, o grande e piedoso monarca, antes de qualquer outra coisa, quis saber se a iniciativa seria útil para o serviço de Deus. A semelhança de todas as outras iniciativas que se seguiram, também esta teve como escopo principal a propagação da Fé, aquela mesma Fé que teria animado a cruzada do ocidente e as ordens de cavalaria na épica luta contra o domínio dos mouros.
Nas caravelas que, ostentando o branco pendão assinalado pela cruz de Cristo, deslocavam os intrépidos descobridores portugueses nas costas ocidentais da África e das ilhas adjacentes, navegavam também os missionários, "para atrair as nações bárbaras ao jugo de Cristo", como se exprimia o grande pioneiro da expansão colonial e missionária portuguesa, o Infante D. Henrique, o navegador.
O príncipe dos exploradores portugueses, Vasco da Gama, quando levantou âncora para iniciar a sua aventurosa viagem à Índia, levou consigo dois padres trinitários, um dos quais, após ter pregado com zelo apostólico o evangelho às gentes da Índia, coroou o seu árduo apostolado com o martírio. O seu sangue, e aquele de outros heróicos missionários portugueses, foi naqueles lugares remotos, como sempre e em toda parte é o sangue dos mártires, semente de cristãos; o seu luminoso exemplo foi para todo o mundo católico, mas antes de tudo para os seus generosos compatriotas, uma chamada e um estímulo ao apostolado missionário.

Papa Pio XII in encíclica «Saeculo Exeunte Octavo», 13 de Junho de 1940.

Das judiarias e mourarias


De certos considerandos de capítulos de Côrtes antigas, deduzo uma coisa: tinha-se, me parece, relaxado um pouco a sequestração absoluta do elemento mouro; tinha insensivelmente havido mistura gradual de mouros e judeus com a colmeia cristã; por isso as Côrtes de Elvas, em 1361 (Era 1399), representavam a El-Rei D. Pedro que disso provinham algumas coisas desordenadas, de que os cristãos recebem escândalo e nojo; ao que ele respondeu determinando que essas raças infectas morassem em lugar apartado, como as antigas leis lhes impunham.

Júlio de Castilho in «Lisboa Antiga», volume III, 1885.

Portugal reconhece Urbano VI como verdadeiro Papa


Flutuava a Barca de São Pedro na direcção de dois Pilotos, arrogando cada um deles a si o governo dela: Eram estes Urbano VI e Clemente VII. E a Cristandade se achava dividida no séquito de um e outro: Os Portugueses se conservavam neutrais, posto que pela maior parte se inclinavam para Clemente. Porém, como então se achava a nossa Corte cheia de Príncipes Ingleses; cujo Rei seguia as partes de Urbano, persuadiram estes a El-Rei de Portugal que tratasse de tomar resolução em um ponto de tanta importância, para o bem e sossego das consciências dos seus Vassalos. Disputou-se logo a controvérsia com grande ardor, e finalmente assentaram os Prelados e homens mais doutos do Reino que Urbano era (como era sem dúvida) o verdadeiro Pontífice; Em consequência desta resolução, El-Rei D. Fernando e toda a Corte, neste dia [29 de Agosto], ano de 1381, lhe prometeram e juraram solenemente obediência na Catedral de Lisboa, pondo as mãos sobre uma Hóstia consagrada, estilo com que se prometiam e juravam naquele tempo as coisas de maior consideração; E logo todo o restante do Reino seguiu o exemplo de El-Rei e da Corte.

Pe. Francisco de Santa Maria in «Ano Histórico, Diário Português: Notícia Abreviada de pessoas grandes e coisas notáveis de Portugal», 1744.

Breve discurso contra a herética perfídia do Judaísmo


INDEX DOS CAPÍTULOS QUE CONTÉM ESTE DISCURSO.
Capítulo I. Da definição da santa Fé Católica e de como Jesus Cristo, Salvador nosso, é o verdadeiro Messias vindo ao mundo.
Capítulo II. De como Deus, nosso Senhor, é pai verdadeiro dos Católicos Cristãos e a Igreja Santa, Sua Esposa, Mãe pelo conseguinte somente dos fiéis.
Capítulo III. Da grande e antiga nobreza da geração Hebreia e dos três nomes que tiveram, Hebreus, Israelitas e Judeus.
Capítulo IV. Da razão porque os Judeus estão em desgraça de Deus e de como a observância da Lei de Moisés Lhe não é agradável agora.
Capítulo V. De alguns dos castigos com que o Senhor tratou de reduzir os Israelitas, a saída do Egipto, vida e morte de Moisés.
Capítulo VI. Dos governos principais que teve o povo Hebreu, os cativeiros de Babilónia e algumas outras coisas sucedidas aqueles dias.
Capítulo VII. Da vinda de nosso Salvador ao mundo, da conveniência de Seu santíssimo nome e de Sua morte em Jerusalém pelos Judeus.
Capítulo VIII. Do gravíssimo pecado que os Judeus cometeram na morte de Jesus Cristo e de como por ele têm todas as presentes misérias.
Capítulo IX. De alguns dos trabalhos que os Judeus padeceram depois da morte de Jesus Cristo, com os sucessos maiores da destruição de Jerusalém por Tito.
Capítulo X. Do grandíssimo ódio que os Judeus têm a nosso Salvador Jesus Cristo, a Suas imagens e a todos os Cristãos geralmente, e em particular ao Tribunal do Santo Ofício e a seus ministros, e de alguns graves insultos feitos em prova desta verdade.
Capítulo XI. De como os Judeus foram lançados de quase todos os Reinos Cristãos por gravíssimas culpas que cometeram neles.
Capítulo XII. De como os Judeus entraram em Portugal e dos concertos com os Reis dele sobre sua saída.
Capítulo XIII. Do primeiro tribunal do Santo Ofício que houve nos Reinos de Castela e de como teve princípio neste de Portugal.
Capítulo XIV. Da razão porque os baptizados Hebreus se chamam Cristãos-novos e se penitenciam com sambenitos os que apostatam da Fé.
Capítulo XV. De como os Hebreus não têm de presente honra ou nobreza alguma, e a grande que tinham, perderam na morte de Jesus Cristo.
Capítulo XVI. De como os Judeus são também idólatras e Sodomitas.
Capítulo XVII. De como quase todos os pecados são originários nos Judeus e os herdaram em seus maiores.
Capítulo XVIII. De como os Judeus são defeituosos e assinalados em muitas coisas, em castigo de sua perfídia.
Capítulo XIX. De como as primeiras e principais perseguições da Igreja, assim corporais como espirituais, foram pelos Judeus e por eles o há-de ser também a última do Anticristo.
Capítulo XX. De algumas das muitas coisas guardadas entre o Judaísmo deste Reino, em ordem a sua conservação.
Capítulo XXI. De como convém a este Reino a expulsão dos delinquentes Hebreus em nossa santa Fé, e dos que, se não estão convencidos, têm contudo provas bastantes para desterro, com suas mulheres e filhos, para outros fora dos de sua Majestade.
Capítulo XXII. Em que se trata com convém e é necessário para o bem temporal deste Reino a expulsão dele dos Hebreus Judaizantes.
Capítulo XXIII. De como convém e é necessário fazer esta expulsão e para que partes e Reinos.
Capítulo XXIV. De como convém, é útil, proveitoso e necessário desterrar com os pais apostatas os filhos e mulheres, e os que não estando claramente convencidos têm contudo prova bastante para desterro.
Capítulo XXV. Como se suposto que tudo o dito convém, é útil e necessário, se se poderá fazer com justiça.
Capítulo XXVI. De como convém a este Reino a sobredita expulsão dos apostatas Judeus por prudência de estado.
Capítulo XXVII. De como por razão de estado convém a expulsão dos Hebreus judaizantes dos Reinos de Portugal.

São Luís, Rei de França


Luís IX, nascido em 1214, tornou-se Rei de França aos doze anos; foi muito piedosamente educado pela Rainha Branca, sua mãe, que lhe ensinou a preferir a morte a cometer um pecado mortal. Gostava de se chamar Luís de Poissy, lugar onde fora baptizado, a fim de indicar ser o seu mais glorioso título de nobreza, o de Cristão. «Desprezando as delícias do mundo, procurou unicamente agradar a Jesus Cristo, o verdadeiro Rei», e foi, diz Bossuet, «o mais santo e o mais justo Rei que tenha trazido uma coroa». Assíduo aos ofícios da Igreja, fazia celebrá-los solenemente em seu palácio, onde diariamente assistia a duas missas. Levantava-se à meia-noite para dizer Matinas, começando pelo ofício de Prima o seu dia real. Introduziu em sua capela o hábito de dobrar-se o joelho a estas palavras do Credo: Homo factus est, e de prostrar-se à leitura da Paixão, quando se narra a morte de Jesus Cristo. Essas duas piedosas práticas foram, depois, adoptadas pela Igreja. «Julgam um crime a minha assiduidade à oração», dizia ele, «porém nada diriam, se as horas nelas empregadas, as passasse no jogo ou na caça». A piedade jamais o impediu de dar a maior parte de seu tempo aos negócios do Reino. Depois de uma doença, fez voto de empreender uma cruzada, a fim de reconquistar Jerusalém. Primeiramente vitorioso, caiu em seguida nas mãos dos Sarracenos. Libertado, permaneceu ainda cinco anos no Oriente para socorrer os cristãos; voltando à França, ocupou-se com numerosas fundações piedosas e fez construir a Santa Capela, com o insigne relicário da santa coroa de espinhos e da importante parcela da verdadeira Cruz que lhe oferecera Balduíno II, imperador de Constantinopla. Muito austero para consigo e muito caridoso para com os outros, dizia: «Mais vale a um Rei arruinar-se pelas esmolas feitas por amor de Deus, do que pelo fausto e a vã glória». «Muitas vezes», diz Joinville, «vi o bom Rei, depois da Missa, ir ao bosque de Vincennes, assentar-se junto a um carvalho e dar audiência a todos que precisavam falar-lhe». Sargento de Cristo, trazia continuamente a cruz, a fim de indicar que seu voto estava por se realizar. Em 1270, empreendeu nova cruzada, porém uma epidemia lhe dizimou o exército na África, atingindo-o também. Com os braços em cruz, deitado na cinza, entregou a alma a Deus, em 1270, à mesma hora em que Cristo morreu sobre a Cruz. Na véspera de morrer, ouviram-no repetir: «Iremos a Jerusalém». Na Jerusalém celeste, conquistada pela sua paciência no meio das adversidades, devia ele reinar com o Rei dos Reis.

Fonte: «Missal Quotidiano e Vesperal», 1940.

Justiça secular castiga um atroz e sacrílego delito


Neste dia [23 de Agosto], ano de 1728, em segunda-feira, foi levado à praça do Rossio de Lisboa, um homem de dezoito para dezanove anos, arrastado à cauda de um cavalo, e na mesma praça, em um alto poste, se lhe cortaram as mãos, se lhe deu garrote, e foi seu corpo queimado, em castigo do atroz e sacrílego delito, que cometeu ao roubar a Píxide [ou Cibório], em que estava o Santíssimo Sacramento na Igreja Paroquial de Monforte, na Província de Alentejo.

Pe. Francisco de Santa Maria in «Ano Histórico, Diário Português: Notícia Abreviada de pessoas grandes e coisas notáveis de Portugal», 1744.