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Democratizar e Democrático


Democratizar – Largo tempo se tem passado sem se poder compreender que coisa significasse positivamente esta palavra republicana no idioma novo. Julgou-se, ao princípio, que teria alguma relação com o que antigamente se chamava formar um governo popular. Porém, que loucura! A experiência mostrou imediatamente quão errada era esta ideia, e o engano nascia principalmente da mudança de significado na palavra Povo. Quando vimos democratizar aos Estados mais democráticos da Europa, compreendemos que democratizar um Estado, no moderno idioma, não quer dizer outra coisa que denegrir e abater o Governo que existia, seja ele qual for; esbulhar dele os homens de bem, que mandavam; pôr em seu lugar, ou tolos, ou ímpios e bandidos; formar destes o Povo, e ao verdadeiro Povo escravizá-lo; roubar quanto haja de precioso; e aniquilar a Religião, especialmente a Católica; sem se esquecer um só instante de despojar e oprimir seus Ministros, etc. etc. É por este modo, que hão sido constante e invariavelmente democratizadas a Flandres, a Holanda, Milão, Bolonha, Modena, Ferrara, etc. etc. Desta explicação se deduz naturalmente a inteligência de muitos Vocábulos derivativos, como
Democrático – Que pela activa significa ateu, ladrão, assassino, colocado no mando e governo; e pela passiva, a parte honrada e religiosa de uma Nação ultrajada e oprimida, tiranizada e roubada por bandidos, ateus e assassinos.

D. Frei Fortunato de São Boaventura in «Novo Vocabulário Filosófico-Democrático, indispensável para todos os que desejem entender a nova língua revolucionária», Nº 2, 1831.

20 de Setembro de 1870


Esta data representa na história deste século um facto sacrílego e usurpador. Recordar 20 de Setembro de 1870 é lembrar a brecha da Porta Pia, a entrada dos piemonteses em Roma e o esbulho dos Estados do Soberano Pontífice. E é o vigésimo quinto aniversário deste sacrilégio, que o governo italiano quis solenizar este ano como festa nacional, quando o povo geme esmagado debaixo de pesados tributos que lhe cisam até a pele. Os católicos, porém, não esqueceram seu Pai comum, o Sumo Pontífice, e de todos os pontos do globo, onde há corações que oram, lhe foram dirigidas consoladoras mensagens.

Fonte: «Voz de S. António: Revista Mensal Ilustrada», Nº 9, Setembro de 1895.

A Revolução e o Beato Pio IX


Em 1815 escrevia José de Maistre: «A Revolução Francesa é satânica, e a Contra-Revolução é inútil, se não for divina». E na verdade, a divisa da Revolução é a derradeira palavra de Satanás Non serviam! Para quem a seguisse até ao fim, sem parar a meio caminho, nos compromissos que a mesma lógica reprova, conheceria que a Revolução tinha absoluta negação do direito de mandar e do dever de obedecer. Nada mais de governo que falasse em nome das eternas leis da Justiça: a lei suprema era a vontade individual do homem: nada mais de Deus, pelo menos não se quer saber do Deus sindicador dos actos da humanidade: cada indivíduo é o seu próprio Deus.
Pio IX foi o pontífice providencial, o escolhido para opor a esse delírio do espírito moderno as imutáveis afirmativas do Cristianismo. Era ele que devia desmascarar o monstro, arrastando-o à plena luz, e fazendo ver aos povos assombrados o sinal da besta que tinha na fronte. Ora, tornar conhecida a besta era vencê-la; mas não decerto, sem que a luta findasse. Debaixo da sua máscara liberal, Satanás chegou quase a fascinar a humanidade, e a Igreja vê-se na necessidade de reconquistar o mundo como nos séculos pagãos.

Jacques-Melchior Villefranche in «Pio IX: sua vida, sua história e seu século», 1874.

Da Sinagoga de Satanás


Todo aquele que bem compreender o carácter, as tendências e o fim das sociedades secretas, sob qualquer disfarce em que se envolvam, comparando-as com o carácter, a natureza e o desenvolvimento desta guerra declarada à Igreja, quase sobre toda a superfície do globo, não poderá duvidar que todas as calamidades presentes, não devem ser atribuídas, senão à sua causa principal, isto é, às maquinações e aos ardis dessas seitas. São elas que compõem a Sinagoga de Satanás, cujas forças reunidas, como um exército em ordem de batalha, marcham, com as bandeiras desfraldadas ao assalto da Igreja.

Papa Pio IX in encíclica «Etsi multa», 21 de Novembro de 1873.

Um "abrileiro" que não morreu iludido


Coimbra, 20 de Junho de 1975 – Estranha revolução esta, que desilude e humilha quem sempre ardentemente a desejou. A mais imunda vasa humana a vir à tona, as invejas mais sórdidas vingadas, o lugar imerecido e cobiçado tomado de assalto, a retórica balofa a fazer de inteligência. Mas teimo em crer que, apesar de tudo, valeu a pena assistir ao descalabro. Pelo menos não morro iludido, como os que partiram nas vésperas do terramoto.

Miguel Torga in «Diário», Volume XII, 1977.

Bandeiras da rebelião


[É] uma facção, que odiando a glória e honra da Nação, mudou as Bandeiras, o Pavilhão Português, com o qual fizemos tremer a África, a Ásia, e América; é uma facção tão anti-nacional, que substitui aquele Estandarte sempre vencedor, sempre glorioso, por outro, que não sendo o Português, é o da rebelião.

Fonte: «Gazeta de Lisboa», Nº 142, 16 de Junho de 1832.

Caso de um assédio republicano ao Padre Cruz


«Uma vez em Alfama...»
E o Padre Cruz não nos deixou acabar a frase.
«É uma nuvem, dolorosamente negra, na paisagem da minha vida! Já lá vão tantos anos. A República chegara, num alvoroço. Vivia-se a hora trágica da indecisão. Nas ruas da cidade, numa esquina, do escuro de um portal, a cilada, o atentado, espreitavam sinistramente.
«Eu vinha dos lados da Sé. Nunca deixei de vir à rua – mesmo quando as bombas rebentavam à porta das igrejas. Meti ali ao coração de Alfama – ia ver um doente, coitadinho. Levava-lhe qualquer coisa... Nisto, oiço uma gritaria. Eu não percebia bem. Era de noite e as luzes estavam apagadas. A algazarra avizinhou-se e, em alta grita, ecoou sonora esta sentença: Mata-se o padre! Mata-se o padre!
«O resto – diz o Padre Cruz, com a voz ainda trémula da emoção – toda a gente sabe... e não tem importância!»
O leitor que se não recorde, deve querer saber. Por isso contamos esse episódio do 14 de Maio [de 1915]. A turba cresceu. Havia furor – o ódio à Igreja era tremendo. Faias gingando, ébrios, abeiraram-se do Padre Cruz. Fizeram-lhe um cerco. Mas nenhum, dominado por aquele olhar de doçura, se resolvia a tocar-lhe. Padre Cruz, no meio deles, sereno, esperava com resignação a hora do seu sacrifício. Neste entretanto, um mais afeito, gritou: «Estamos a adorá-lo!?». A turba animou-se, pareceu despertar de ódio. Passaram, neste momento, uns marinheiros, de espingarda, na busca pelos bairros suspeitos. Viram a aglomeração, chegaram-se mais ao pé, mais ainda, até descobrirem o rosto do Padre. E logo gritaram: «Alto! É o Padre Cruz!»
Então os ébrios, debaixo da cegueira do álcool, tiveram um «Ah!» de espanto.
E mesmo ali pediram perdão – alguns a chorar. Todos o conheciam [da cadeia] do Limoeiro!

Fonte: «Vida Mundial Ilustrada: Semanário Gráfico de Actualidades», Ano II, Nº 56, 11 de Junho de 1942.

O desmembramento da Monarquia (II)



Nos últimos meses do ano 1820, quando não saiam das nossas prensas senão elogios aos rebeldes e imprecações ao Governo legítimo; quando se não tratava senão de caluniar e fazer odioso esse mesmo Governo, imputando-lhe tudo o que era mau, e até aquelas mesmas infelicidades que ele com forças mais que ordinárias trabalhava por desviar da nação, mas que eram inevitáveis, como arrojadas sobre nós pelo turbilhão dos acontecimentos públicos; eu escrevi em sentido bem diverso a minha Memória sobre os meios de melhorar a indústria, de que distribui gratuitamente mais de metade da edição. Procurei reconduzir os efeitos às suas causas, os factos à sua verdadeira origem, as coisas ao seu lugar, e expus com franqueza os meus pensamentos sobre os meios de melhorar a sorte da nação, que consiste em edificar e reparar, e não em destruir e desbaratar. Porém Obras desta natureza não eram do gosto daquele tempo; e serviam somente de excitar o ódio contra os seus autores.
Vendo que o grande número, deslumbrado com promessas lisonjeiras, corria cego após de vãs quimeras, sem advertir nos perigos que estavam eminentes, procurei excitar a atenção das classes industriosas sobre os seus verdadeiros interesses. Não era possível deixar de prever a separação do Brasil e de procurar evitar as suas consequências. Tratando pois do comércio, eu dediquei a este ponto algumas páginas daquele opúsculo. «O primeiro objecto que se me apresenta (disse eu na pág. 87) é o comércio do Brasil. Com a abertura dos portos deste imenso país às nações estrangeiras perdemos o direito exclusivo de prover os seus habitantes das mercancias da Europa, e deixando Portugal de ser o entreposto dos géneros coloniais, que daqui se distribuíam para os lugares do seu consumo, só esta causa era bastante, independentemente das mais que com ela concorreram, para produzir uma revolução completa no nosso comércio e o transtorno geral das nossas antigas relações. Daqui vem os principais clamores dos nossos negociantes, porque é donde procedem as maiores perdas que sofremos em quase todas as praças com que comerciamos. Nesta nova ordem de coisas compete ao Soberano (nunca lhe neguei este nome, ainda que debaixo do jugo da facção) procurar novos laços para unir Portugal e o Brasil; porém os nossos comerciantes desenganando-se de que o sistema colonial não pode mais voltar, devem também ir alongando as vistas pela extensão do globo, para abrirem novos canais às suas especulações: Jam tempus agit res. E devem ambos os países respeitar mutuamente os vínculos do sangue, de interesse, e de reconhecimento que os ligam para permanecerem firmes na sua união.
Tem o Brasil todas proporções para vir a ser com o andar dos tempos um grande império; mas por ora é um país novo, sem fábricas, e com uma agricultura limitada, precisa dos socorros da Mãe Pátria tanto na paz como na guerra, sob pena de ficar em uma eterna infância, ou ser esmagado pelo primeiro ocupante. Olhe para os vastos territórios da América Espanhola que o rodeiam e veja neles o seu retrato. Deve além disso lembrar-se de que a Mãe Pátria lhe deu a existência.
Por outra parte é necessário que Portugal conheça as vantagens que ainda tira do Brasil»… Aqui me voltei para os nossos comerciantes, agricultores e artistas, e por meio de várias reflexões e cálculos estatísticos procurei convencê-los do muito que ainda interessava a Portugal a conservação do Brasil, insistindo principalmente nos seguintes pontos: Os produtos de um capital de 44 milhões de cruzados, que se empregavam no comércio entre os dois países; as negociações da Ásia, que quase todas se faziam pelo intermédio do Brasil; o comércio de reexportação dos géneros coloniais para países estrangeiros; o consumo que se fazia no Brasil das manufacturas das nossas fábricas, que importava em alguns milhões de cruzados por ano e de alguns dos produtos da agricultura de Portugal, e principalmente dos nossos vinhos, que excedia a 20.000 pipas por ano nos tempos imediatos à revolução de 1820, em que este consumo se tinha aumentado como se mostra dos registros públicos, apesar das sinistras vozes que corriam em contrário; porque para se fazer odiosa a administração pública em todos os seus ramos, tudo se procurava exagerar e desacreditar.
Demonstradas assim as grandes vantagens reciprocas que resulta vão aos dons países da ma união, e que agora se conhecerão melhor pela sua falta, eu continuei (pág. 91): «O Brasil, comerciando livre, crescerá sem dúvida em prosperidade, e quanto mais crescer, mais vinho e manufacturas consumirá, e maiores vantagens oferecerá a Portugal; com tanto que os dois países permaneçam ligados entre si por meio de laços recíprocos de um Governo comum, justo e sábio, que atenda com igualdade as suas vistas protectoras sobre todas as partes do império. É assim que o Reino unido poderá ainda operar os grandes desenvolvimentos, para que a natureza o convida, e o pavilhão nacional, discorrendo com dignidade por todos os mares, reconquistar a parte que nos pertence no comércio do mundo. Se pelo contrario viesse a faltar-lhe o centro de união, desorganizado o corpo da Monarquia, cada um dos seus membros perderia todo o vigor, recebendo como massa inerte as impressões que quisessem dar-lhe, até chegar o momento em que desbaratada a herança de nossos avós, o nome Português desapareceria como o fumo, confundido com o de alguma nação mais poderosa».
Estas últimas palavras não foram escritas ao acaso. Incerta ainda a facção do resultado que teriam as suas maquinações no Brasil, agitavam-se várias opiniões em seus clubs sobre a direcção que se daria aos negócios de Portugal, e segundo o que transpirava no público, prevalecia muito naquele tempo a de se unir este reino á Espanha, provavelmente debaixo de uma forma republicana, que é o ponto a que se dirigem as revoluções populares. Seguem-se no meu opúsculo alguns §§ em que expus os meus pensamentos sobre os novos laços de união reciproca entre Portugal e o Brasil: tudo inútil no estado actual. Os meus vaticínios ou não foram lidos, ou tiveram a sorte dos vaticínios da infeliz Cassandra, a quem, segundo a fábula, os Deuses concederão o conhecimento do futuro, porém determinaram que não fosse acreditada.

José Acúrsio das Neves in «Cartas de um Português aos seus Concidadãos sobre diferentes objectos de utilidade geral e individual», Carta XII, 1823.

O registo civil


A satânica Maçonaria envida todos os esforços para arrancar do Povo português a sua alma cristã e patriótica. Manifestações, comissões, brochuras, jornais, romances, de tudo se vale para descristianizar o Povo.
Há em Lisboa a Associação Propagadora do Registo Civil que trabalha incessantemente na sua obra imoral e anti-católica.
Os seus esforços não têm sido baldos. Já se têm feito registos civis de nascimentos e promovido enterros também civis.
Nas administrações dos bairros da Capital são aceites os registos civis de nascimento para assentar praça no Exército e na Armada.
É necessário que o Clero português não olhe de braços cruzados e indiferente para essa onda avassaladora dos princípios religiosos e cristãos. A missão do Clero é nobre e digna, cumpre que ele bem a desempenhe.

Fonte: «Voz de S. António: Revista Mensal Ilustrada», 2º Ano, Nº 20, Agosto de 1896.

Os destruidores


Nós, judeus, somos acusados de sermos destruidores: tudo o que vocês constroem, nós destruímos. Isso é verdade apenas num sentido relativo. Nós não somos deliberadamente iconoclastas: não somos inimigos das vossas instituições simplesmente por causa da nossa antipatia. Nós somos uma massa apátrida que procura satisfação para os nossos instintos construtivos. E nas vossas instituições não conseguimos encontrar satisfação; elas são as instituições lúdicas dos esplêndidos filhos do homem – e não do próprio homem. Nós procuramos adaptar as vossas instituições às nossas necessidades, porque enquanto existirmos necessitamos de ter expressão; e tentando reconstruí-las para as nossas necessidades, desconstruímo-las para as vossas.
(...)
Um século de tolerância parcial deu-nos, a nós, judeus, acesso ao vosso mundo. Nesse período, foi feita a grande tentativa, pela guarda avançada da reconciliação, de unir os nossos dois mundos. Foi um século de fracasso. Os nossos radicais judeus estão a começar a compreendê-lo vagamente.
Nós, judeus, nós, os destruidores, continuaremos a ser eternamente destruidores. Nada do que vocês façam irá ao encontro das nossas necessidades e exigências. Destruiremos para sempre porque precisamos de um mundo próprio, um mundo divino, que não é da vossa natureza construir. Para além de todas as alianças temporárias com esta ou aquela facção, reside a divisão final entre natureza e destino, a inimizade entre o Jogo e Deus. Mas aqueles de nós que não conseguem compreender esta verdade serão sempre encontrados em aliança com as vossas facções rebeldes, até que chegue a desilusão. O destino miserável que nos espalhou entre vós impôs-nos este papel indesejável.

Maurice Samuel in «You Gentiles», 1924.

A face esquerda e a face direita da Revolução


Todo o mundo moderno se dividiu em conservadores e progressistas. A função dos progressistas é cometer erros continuamente. A função dos conservadores é evitar que os erros sejam corrigidos. Mesmo quando um revolucionário se arrepende da sua própria revolução, o falso tradicionalista já a defende como parte da sua "tradição". Assim, temos dois tipos de pessoas: o avançado, que nos leva à ruína, e o retrospectivo, que admira as ruínas. Cada novo erro do progressista, ou pedante, torna-se instantaneamente numa lenda de imemorial antiguidade para o snob. E isto é chamado de equilíbrio, ou controlo mútuo, na nossa Constituição.

G. K. Chesterton in revista «The Illustrated London News», 19 de Abril de 1924.


A dialéctica como método de subversão revolucionária


A dialéctica hegeliana é o método filosófico revolucionário por excelência, segundo o qual a Verdade não é fixa e definida, mas em constante renovação e aperfeiçoamento, enquanto síntese de ideias contrárias.
Segundo o método dialéctico hegeliano a ideia/posição original é chamada de tese, à qual se contrapõe uma ideia/posição radical chamada de antítese. Como solução entre esses dois "extremos" procura-se um consenso, um meio-termo entre as duas posições opostas, que é chamada de síntese. Com o tempo esta síntese converte-se numa nova tese, a qual é confrontada com uma nova antítese, de onde surge uma nova síntese, etc. E assim, dialecticamente, de síntese em síntese, ou de consenso em consenso, vai avançando a Revolução ou subversão ideológica na Ordem moral, social, política e religiosa.
A Revolução, ou implementação do Reino Social do Anti-Cristo, tem-se desenvolvido gradualmente desde o Iluminismo nas inteligências e nas sociedades, demolindo e corrompendo, fazendo uso de processos dialécticos. Um exemplo clássico e bem evidente de subversão dialéctica foi a criação das chamadas Monarquias constitucionais e parlamentares, como síntese entre Monarquia e República.

A seita socialista em 1881


O socialismo ou niilismo trabalha deveras. Entre nós já se contam os seus periódicos por dezenas. O seu desideratum não é somente acabar com os tronos; é sobretudo acabar com a religião.
«Enforcar o último rei seria pouco; seja enforcado com as tripas do último padre, e a humanidade deixará de ser escrava»: – eis o supremo desideratum dos grandes humanitários!
Embrutecer as multidões; desmoralizar a juventude; criar em cada escola um centro de impiedade e de ateísmo; nivelar todas as classes e prégar às turbas o grande princípio: – a propriedade é um roubo – tal o fim satânico dos inimigos de Deus e da sociedade.
Em Espanha, na Itália, na Rússia, na Bélgica, em Portugal, em França, em toda a extensão do orbe, existe a mesma seita, predomina o mesmo pensamento, e não há fronteiras nem cordões sanitários que livrem os povos desta contagião terrível e assustadora...
Enganamo-nos: há um cordão sanitário que nos pode preservar, é o dos princípios católicos aplicados à política e a tudo, mas os moderados e conservadores do liberalismo sentem calafrios quando nisso se lhes fala, e não os querem aplicar! Tempo virá... em que já talvez não seja tempo.

Fonte: Revista «O Progresso Católico», 3º Ano, Nº 14, 15 de Maio de 1881.

50 anos de (in)dependência da Guiné


Quando Portugal foi traído e escorraçado do Ultramar por sinistras forças internacionais, a Guiné tinha tudo o que era de materialmente necessário a uma vida digna e civilizada. Deixámos lá escolas, igrejas, hospitais, estradas, pontes, portos, etc. Mas mais do que meros objectos materiais, deixámos a Fé e a Civilização, que Portugal levou àquelas gentes de África, que até então viviam nas trevas da superstição e da ignorância.
Hoje, cinquenta anos depois da "descolonização exemplar", a Guiné é um Estado falhado e falido, mergulhado em intermináveis guerras e golpes de Estado, não tendo sequer luz eléctrica própria, regredindo a tempos pré-coloniais, estando totalmente dependente de um barco privado turco para fornecer electricidade à capital guineense. Eis os frutos das maçónicas revoluções, que quanto mais proclamam a libertação dos Povos, mais os agrilhoam na realidade.


Lembremos para o efeito as já aqui citadas palavras de José Acúrsio das Neves, dirigidas aos revolucionários liberais:
Pintáveis a nação reduzida à última miséria, para melhor a subjugardes com promessas de grandes felicidades. Ora comparai o estado em que ela se achava, quando fazíeis essas declamações, com aquele em que a deixastes, quando vo-la arrancaram das mãos, morrendo de fome, esgotadas todas as fontes de prosperidade, a dívida pública elevada ao duplo ou triplo, sem comércio, sem indústria, dividida em partidos, perdidas quase todas as possessões ultramarinas, oprimida, e praguejando-vos em altos gritos. Eis a vossa regeneração! Eis o fruto das vossas luzes do século: luzes do inferno, em que as fúrias acendem as suas tochas, para abrasarem o mundo!

A Maçonaria e o Socialismo


No Congresso Maçónico de Grenoble, onde se fizeram representar 32 lojas, o Ir∴ Ponnard pediu, em nome da sua loja, que aprovasse a Franco-Maçonaria as aspirações do Partido Socialista.
A esta proposta, respondeu o Ven∴ Presid∴ «que a Maçonaria, digam o que disserem, trabalhou sempre a favor desta quarta ordem social, o Socialismo, a que vós aludis, e por quem trabalha ainda hoje.» (Congresso Maç∴ de Grenoble, p. 11).
É bom que se vão registando estas interessantes confissões, para instrução dos que eles chamam profanos.

Fonte: «Voz de S. António: Revista Mensal Ilustrada», Nº 14, Fevereiro de 1896.

20 de Setembro de 1870


Data memorável nos fastos da iniquidade é o dia 20 de Setembro de 1870!
O triunfo da revolução; a ostentação da mais horrorosa das impiedades; a perpetração de um inaudito sacrilégio; – eis o que significa essa data nefasta, que manchou a história de um povo, que por tantos títulos devia ser piedoso, virtuoso e santo!
A conculcação dos mais sagrados direitos; a perseguição infamíssima do mais cru dos despotismos contra inocentes e indefesos; a revolta dos filhos contra um pai, que era todo amor, todo bondade, todo carinho para com seus filhos; – é isso que nos faz lembrar o dia 20 de Setembro de 1870!
As ofensas, insultos, doestos, arbitrariedades com a pessoa que mais presa toda a cristandade; que é o sustentáculo de seus irmãos, o arrimo de seus filhos, o guia de todos os cristãos; – eis o que nos trás à memória o dia 20 de Setembro de 1870!
E nós, os católicos, havemos de calar-nos, quando a impiedade tripodia em honra dessa memorável infâmia?
E a Voz de S. António calar-se-á quando o Vigário de Jesus Cristo é insultado, quando a verdade é sem pejo conculcada, quando são espezinhados os sacrossantos foros da justiça e do direito?
Que são, para nós os católicos, esses festejos que a revolução está celebrando na veneranda cidade dos Papas, depois que o inexorável relógio do tempo marcou sobre eles um quarto de século? Que é que eles são? Um insulto, que devia fazer subir o rubor às faces de todos os filhos da Igreja, porque a todos eles é dirigido; uma infâmia que devia excitar em todos os membros da Cristandade um grito de indignação; um desafio que devia despertar do seu torpor todas as nações católicas.
E os ecos da Revolução e do Inferno repercutiram-se pelos quebrados do campo social, sem que um som sequer viesse abafar o seu medonho fragor!
Vergonha para a sociedade actual, em nome da justiça e do direito!
E qual é a razão por que os Estados católicos viram com indiferença inqualificável o mais sacrílego dos atentados; e por que não bradam eles, ao menos agora, aos partidários de Lucifer, e empunhando a espada do direito e da justiça: – Parai, não ultrajeis nosso Pai!
Custa dizê-lo, mas diga-se porque é verdade, o sentimento católico deixou de ser a mola real das sociedades cristãs; o sangue que gira pela veias sociais está depauperado com a enfermidade do indiferentismo e corroído com a gangrena da descrença; sintomas horríveis a que deu origem o vírus envenenado do liberalismo.
Por isso se perpetrou esse horrendo parricídio que há-se ser a nódoa mais vergonhosa do século XIX, e que a História imparcial há-de verberar, quando a pena do escritor não for peada com as algemas do respeito humano.
A nós não nos compete ir com a espada na mão reivindicar os direitos do nosso supremos Pai espiritual, isso não; mas ao menos, resta-nos a consolação de, com a liberdade dos filhos de Deus, exprimir desassombradamente nossos sentimentos de católicos.
Por isso, em nome de todos os assinantes da Voz de S. António, de seus numerosos amigos e de todos os membros da Pia União em Portugal, que decerto comungam nas nossas ideias; nós levantamos aqui um solene protesto contra os insultos que se estão perpetrando em Roma e que vão ferir e amargurar o coração de nosso Pai espiritual – Leão XIII.
Pela boca de S. António, brada a sua Voz, como outrora no século XII contra o tirano Frederico Barba-Ruiva e contra o bárbaro e cruel Ezelino bradava o nosso Santo Taumaturgo, ao defender intrépido os direitos do Pontífice Romano:
– Viva Leão XIII, Papa e Rei!

Fonte: «Voz de S. António: Revista Mensal Ilustrada», Nº 9, Setembro de 1895.

Da importância de guardar memória


O primeiro passo para liquidar um povo – disse Hubl – é apagar a sua memória. Destruir os seus livros, a sua cultura, a sua história. Depois, mandar alguém escrever novos livros, fabricar uma nova cultura, inventar uma nova história. Em breve a nação começará a esquecer o que é e o que foi. O mundo à sua volta esquecerá ainda mais rápido.

Milan Kundera in «O Livro do Riso e do Esquecimento», 1979.

O desmembramento da Monarquia (I)


Si regnum in se dividatur, non potest regnum illud stare.
S. Marcos

Um triste acontecimento que deve trazer consequências, as mais funestas para a Nação, se a Sabedoria de S. Majestade, e de seus Ministros, as não poder prevenir, vem interromper o fio das reflexões que comecei na carta precedente e continuarei nas seguintes; porém a matéria é análoga. À perda da Baía de Todos-os-Santos e do Maranhão, seguiu-se rapidamente a do Grão-Pará. De todas aquelas vastas regiões, que se estendem desde o Equador até à embocadura do Rio da Prata, as quais os nossos antepassados descobriram, povoaram e cultivaram, e de cuja união à Mãe Pátria resultava o esplendor do Trono, a riqueza e a grandeza da Nação, já não possuímos nem um palmo de terra. Novo mimo da nossa regeneração política!
O que sabemos das nossas possessões da Ásia e da África oriental, é que ficavam convulsas. Terão elas seguido a sorte do Brasil? Que mágoa, que dor penetrante para o Digno Herdeiro do Trono do Venturoso, Manuel, e daquela abençoada série de Reis, que levaram o nome e as armas Portuguesas mais longe que os Assírios, que os Persas, que Alexandre, que os Romanos e que os Árabes as suas! Que mágoa, que dor penetrante para os descendentes dos ilustres guerreiros, que à custa do seu sangue fundaram e defenderam este império gigantesco, que agora vemos despedaçado!
Tal é o efeito do veneno, que os nossos chamados Regeneradores introduziram nas entranhas da Pátria, para fazerem cair em dissolução todos os seus membros. Adeus, senhor Brasil, dizia um deles com insultante e bárbara enfâse, quando viu que o Brasil nos ia escapando: fazia um objecto dos seus gracejos a perda da mais vasta e rica porção do Reino unido. Outros pretendiam consolar-nos deste desastre com a ilusão das futuras vantagens, que poderíamos tirar dos nossos actualmente miseráveis estabelecimentos da África ocidental. Não nos enganemos com quimeras. Os dias da nossa glória são passados, desapareceram as nossas riquezas, acabou a nossa grandeza, a não vir algum novo Gama, que nos conduza ao Oriente por novos caminhos desconhecidos; algum novo Cabral, que nos descubra outro Brasil.
Este golpe devia prever-se, porque outras não podiam ser as consequências do nosso S. Bartolomeu de 1820, na verdade menos sanguinoso que o de França, em 1571; porém mais transcendente nos seus resultados. A Monarquia Francesa, depois das mortandades e das guerras civis que acompanharam e seguiram aquela catástrofe, ressurgiu nos brilhantes dias de Henrique IV, mais robusta e florescente do que antes fora: o Império Português está destruído e desmembrado talvez para sempre. E poderão os povos ver com bons olhos os autores de tantos males, os seus cooperadores e adeptos, ou coisa que a eles se assemelhe? Poderão os povos pôr neles alguma confiança, esperar que lhes venha por eles algum bem, ou deixar de odiar qualquer obra, que haja de sair das suas mãos?
Revolucionou-se a França e perdeu todas as suas colónias: revolucionou-se a Espanha e perdeu também as suas. E porque seria Portugal isento desta lei, que é a lei das revoluções filiais, que se dirigem pelo espírito da Revolução Francesa, mãe e mestra de todas as que depois vieram? Nápoles e Sardenha não perderam colónias, porque as não tinham: haviam de perdê-las se as tivessem, e se mãos poderosas não acudissem a apagar o incêndio logo no seu princípio. É o carácter de todas as revoluções de cunho moderno.
Apenas rompeu a revolução em França, partiram emissários, que levaram o espírito de desorganização a todas as colónias Francesas. Apenas rompeu em Portugal, todas as possessões Portuguesas foram convidadas à revolta; e não foi necessário que partissem emissários, porque os apóstolos da revolução já por lá andavam em numerosa quantidade, e mesmo tinham já feito alguns ensaios. Filhos Primogénitos, diziam os povos do ultramar pela boca de um dos chamados representantes da Nação (ou antes os insinuava este para que eles o dissessem) em um discurso de estilo teatral proferido na sessão das Cortes de 30 de Janeiro de 1821: Filhos primogénitos da grande família, a que temos a honra de pertencer; por espaço de mais de trezentos anos, só nos vieram da Europa as rajadas do despotismo; porque nos quereis privar agora da viração prestadia da liberdade constitucional? Mas este convite foi muito tardio: em consequência dos que o tinham precedido, já nesse tempo lavrava o fogo por todos nossos estabelecimentos, e não ficou um só que se não revolucionasse.
Tornando às colónias Francesas, nada é tão espantoso como a revolução da de S. Domingos: drama trágico em dois actos, que custou 80 000 vidas dentro de uma ilha. No primeiro acto figuravam brancos e negros da América contra brancos da Europa; no segundo somente negros contra brancos, e os negros ficaram de cima, compreendendo nesta denominação os mulatos. Enchei-vos de horror à vista dos seguintes extractos de uma proclamação, com que o chefe negro Dessalines excitou os seus à matança dos brancos: «Meu braço suspendido sobre as suas cabeças tem demorado por muito tempo descarregar o golpe... sede cruéis e sem misericórdia, semelhantes a uma torrente furiosa que tem rompido os seus diques, e que arrasta tudo o que tenta opor-se às suas ondas. Vossa fúria vingadora destruiu, e levou tudo no seu curso impetuoso... Onde está o vil habitante do Haiti, tão indigno da regeneração, que não julgue ter cumprido os Decretos do Eterno exterminando estes tigres sequiosos de sangue? Se há algum, fuja: A nação indignada o expulsa do seu seio; vá ocultar a sua vergonha longe de nós. O ar puro, que nós respiramos, não é feito para os seus órgãos grosseiros; é o ar puro da liberdade augusta e triunfante... Eu tenho salvado a minha pátria; eu tenho vingado a América. Esta confissão, que eu faço à face da terra e do Céu, faz o meu orgulho e a minha glória. Guerra de morte aos tiranos! eis a minha divisa. Liberdade e Independência! eis o grito da nossa reunião.»
E não achais vós que as rajadas do despotismo e a viração prestadia da liberdade, do nosso Deputado em Cortes, tem uma tendência particular para influir na América Portuguesa alguma coisa semelhante às atrocidades do negro Dessalines! A revolução do Brasil tem sido semelhante ao primeiro acto da de S. Domingos. A Divina Providencia salve o Brasil dos horrores do segundo acto daquele tremendo drama.


José Acúrsio das Neves in «Cartas de um Português aos seus Concidadãos sobre diferentes objectos de utilidade geral e individual», Carta XII, 1823.

Da Revolução Haitiana


Tornando às colónias Francesas, nada é tão espantoso como a revolução da de S. Domingos: drama trágico em dois actos, que custou 80.000 vidas dentro de uma ilha. No primeiro acto figuravam brancos e negros da América contra brancos da Europa; no segundo somente negros contra brancos, e os negros ficaram de cima, compreendendo nesta denominação os mulatos. Enchei-vos de horror à vista dos seguintes extractos de uma proclamação, com que o chefe negro Dessalines excitou os seus à matança dos brancos: «Meu braço suspendido sobre as suas cabeças tem demorado por muito tempo descarregar o golpe... sede cruéis e sem misericórdia, semelhantes a uma torrente furiosa que tem rompido os seus diques, e que arrasta tudo o que tenta opor-se às suas ondas. Vossa fúria vingadora destruiu, e levou tudo no seu curso impetuoso... Onde está o vil habitante do Haiti, tão indigno da regeneração, que não julgue ter cumprido os Decretos do Eterno exterminando estes tigres sequiosos de sangue? Se há algum, fuja: A nação indignada o expulsa do seu seio; vá ocultar a sua vergonha longe de nós. O ar puro, que nós respiramos, não é feito para os seus órgãos grosseiros; é o ar puro da liberdade augusta e triunfante... Eu tenho salvado a minha pátria; eu tenho vingado a América. Esta confissão, que eu faço à face da terra e do Céu, faz o meu orgulho e a minha glória. Guerra de morte aos tiranos! eis a minha divisa. Liberdade e Independência! eis o grito da nossa reunião.»

José Acúrsio das Neves in «Cartas de um Português aos seus Concidadãos sobre diferentes objectos de utilidade geral e individual», Carta XII, 1823.

O espírito das revoluções (I Parte)


Lede, vos torno a dizer, a história da Revolução Francesa, deste horrendo quadro que desonra os anais do género humano; subi à sua origem, examinai as suas causas e os seus progressos e vede a sua perfeita analogia com as revoluções que renasceram das suas cinzas. A de Espanha vai correspondendo perfeitamente ao seu modelo; a de Nápoles e a do Piemonte começaram adoptando por base a de Espanha, donde emanaram as inspirações; quanto à nossa de Portugal, os factos não precisam comentário: observai e julgai. Todas são filhas da mesma mãe, beberam o mesmo leite e hão-de derramar sobre os homens iguais favores.
João Wycliff, transferindo de Deus para os homens a origem de todo o poder, armou os povos contra os Governos, desenvolvendo no século XIV as sementes da revolução que rebentou no século XVIII. Se ele não as desenvolvesse, outro as desenvolveria, porque existem no espírito humano impaciente de subordinação e amigo da novidade. Era um simples controversista; e as suas doutrinas tiveram a maior influência nos destinos de uma grande parte do género humano. Questões de escola tem por muitas vezes alagado o mundo em sangue.
Tiraram um lugar da Universidade de Oxford a certos religiosos para o darem a Wycliff; e sobrevindo questões a este respeito, tornaram a tirá-lo a este para o restituírem aos religiosos. Wycliff apelou para o Papa, que decidiu contra ele; e daqui começaram as suas declamações contra a Cúria Romana e contra o clero em geral, que o conduziram a atacar os dízimos e a propriedade nos indivíduos e a pregar a igualdade e a independência entre os homens. O efeito foi pronto e nada menos do que uma sublevação geral dos homens do campo, que, segundo as leis de Inglaterra, eram obrigados a cultivar as terras dos senhores territoriais, e quiseram fazer-se independentes. Mais de duzentos mil pegaram em armas e cometeram os maiores excessos gritando liberdade, liberdade. Vede como vão de acordo as revoluções modernas.
De Inglaterra estas doutrinas passaram para Alemanha; e se consultardes a história de João Hus e de Jerónimo de Praga, vereis como estes famosos entusiastas inflamaram com elas o espírito público. João o Vesgo (Žižka) foi ainda mais longe. Formou exércitos, sublevou os povos, queimou cidades, devastou os países por onde passava e tentou estabelecer o Governo republicano, destruindo o monárquico. Três exércitos mandou contra ele o Imperador Sigismundo e todos destruiu Žižka; e perdendo em uma batalha o olho que lhe restava, assim mesmo continuou as suas devastações à frente das tropas. Conta-se que ordenara em seu testamento, que da sua pele se fizesse um tambor, cujo som reunisse os seus sequazes; e aqui tendes um facto que pinta ao vivo o atroz entusiasmo de semelhantes chefes. O certo é que depois de morrer, o seu espírito foi ainda fatal por muito tempo ao Imperador, que gastou 16 anos para pacificar a Boémia. Vede quanto pode o fanatismo revolucionário.
Este mesmo espírito sopeado, mas não extinto, surgiu mais de um século depois para reproduzir ainda por outro as mesmas perturbações em escala mais extensa. Martinho Lutero foi o novo campeão, que em um canto da Saxónia, levantou o estandarte da revolta, na aparência somente contra a Igreja, mas na realidade contra todos os poderes. Comoveu-se todo o Norte com os seus erros teológicos e com as suas máximas políticas: uma delas era a invasão das propriedades eclesiásticas, e foi um meio de dar ainda maior força ao seu partido. No seu tratado do Fisco comum, deu a ideia de um tesouro público em que se recolhessem as rendas de todos os Bispados, Mosteiros e Abadias, e, em geral, de todas as propriedades da Igreja, que intentava usurpar. Com isto acendeu a cobiça dos Governos avarentos e empobrecidos, fornecendo-lhes meios de suprir à sua vaidade; e com estes novos Baltazares não houve mais segurança para os bens eclesiásticos. Vede também como nisto vão de acordo as revoluções modernas.
Se por este meio conseguiu Lutero chamar ao seu partido Príncipes, Senhores e Magistrados, sublevando-os contra os Papas e contra os Bispos: Müntzer, um dos seus mais célebres sectários, achou o de sublevar os povos contra todos estes, pregando a igualdade. Ele e os seus discípulos armaram novos bandos de furiosos, que cometeram, em nome de Deus, cruezas inauditas, despedaçando tudo quanto encontravam nas suas correrias, principalmente os eclesiásticos e os nobres, que são também o alvo principal a que se encaminha o ódio dos revolucionários modernos. Aqui teve principio a seita dos Anabaptistas, que como feras assolaram ainda por muito tempo a Alemanha depois da morte dos seus chefes.
Por outra parte João Calvino, chefe de uma nova seita conforme à de Lutero em muitos princípios, e diversa em outros, ateava o fogo da discórdia e das guerras civis nos países onde lavrou. O espírito do Calvinismo era republicanizar os povos. Depois que Genebra o admitiu é que foi verdadeiramente República. Executou a mesma empresa na Holanda; e se o não conseguiu em França não foi por falta de diligências. Uma longa série de perturbações e de guerras civis desde Francisco I até Luís XIV foi o fruto das intrigas dos Reformadores: os Reis foram obrigados a conceder-lhes muitas praças de segurança e verificou-se por monumentos autênticos que o seu projecto era fazer de toda a França uma República dividida em departamentos, como depois fizeram os revolucionários de 1792; e escolhendo La Rochelle para sua capital, nesta cidade sustentaram dois cercos, sendo as tropas Reais obrigadas a levantar o primeiro e indo o Cardeal de Richelieu comandar o segundo, que durou mais de um ano, depois do qual foram obrigados a render-se.
Destas doutrinas nasceu em Inglaterra a facção dos Puritanos, que por muito tempo dispôs do trono, e mais de uma vez o ensanguentou. Foram elas as que sublevaram os povos na longa série de revoluções e de guerras civis que devastaram as ilhas Britânicas. Estes mesmos Puritanos chegaram também a formar uma espécie de República na Escócia. Dentre eles se levantou o famoso Prégador João Knox, que com as suas declamações violentas concitou os povos contra a Rainha Maria Stuart e foi o mais ardente promotor das desgraças desta infeliz Princesa, que só terminaram no cadafalso.
Foram estas mesmas doutrinas, estes mesmos Puritanos os que animaram os Comuns de Inglaterra a declararem-se Soberanos; os que levaram Carlos I ao patíbulo, os que formaram a efémera República Inglesa, a qual teve de ceder bem depressa ao génio e às intrigas do hipócrita Cromwell, que no meio de tantas perturbações se apoderou facilmente do poder supremo debaixo do título de Protector. As perturbações que a Inglaterra sofreu nesta época foram o prelúdio e o modelo porque depois se havia de desenvolver a Revolução Francesa: Cromwell o protótipo de Bonaparte. Por morte do Protector, seu filho Ricardo Cromwell, que não tinha o génio do pai, foi expulso, e os Ingleses chamaram ao trono Carlos II; mas a tranquilidade pública continuou a ser perturbada durante o seu reinado; e o de Jacques II pelas mesmas facções, imbuídas nos mesmos princípios. Jacques foi expulso e em lugar dele foi entronizado seu genro Guilherme III, que sabendo reinar com firmeza, soube também conter as facções.
Assim acabaram na Inglaterra as guerras de opinião, depois de terem feito correr ondas de sangue. No Continente as perturbações causadas pela Reforma só acalmaram com a paz de Vestefália, que sancionou muitos daqueles princípios contra os quais se tinham levantado tantos Príncipes e deu à Europa um novo Direito público. Digo que acalmaram e vai muito do acalmar ao extinguir. O espírito da Reforma sobreviveu aos Reformadores do século XVI e não podia saciar-se sem uma revolução geral de princípios que desorganizasse toda a ordem existente, confundindo todos os seus elementos. A matéria é mui vasta, e eu não tenho feito mais do que marcar certos pontos cardeais na história de quatro séculos, para que possais, sem divagar muito, chegar ao conhecimento do mais essencial. Lançai uma vista de olhos sobre eles e sobre todos os grandes acontecimentos públicos que com ele tem relação, vereis como estão ligados entre si, formando uma longa cadeia bem perceptível desde Wycliff e seus sequazes, até Mirabeau e seus confrades, em que aparece sempre o amor da novidade agitando o mundo para destruir tudo o que é antigo, ou seja bom, ou seja mau; e as paixões procurando sacudir o freio que lhes impõe a Religião e os Governos; e uma vez que o tenham conseguido perturbar o mundo com seus excessos.

(Continua...)

José Acúrsio das Neves in «Cartas de um Português aos seus Concidadãos sobre diferentes objectos de utilidade geral e individual», Carta VIII, 1822.