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Da arquitectura moderna


A arquitectura pré-modernista foi concebida para aproveitar a luz solar para o aquecimento e iluminação dos edifícios (e as brisas, que também são produzidas pela acção solar no ar, para o arrefecimento). O desenvolvimento dessas técnicas tradicionais foi uma acumulação lenta e dolorosa de experiências ao longo de séculos. Foi a abundância anómala de petróleo e gás baratos na nossa época que permitiu aos construtores, e sobretudo aos arquitectos, preocupados com questões de estilo, afastarem-se das práticas tradicionais que tiravam partido da energia solar passiva. O século XX foi a era das curtain walls de vidro nos prédios de escritórios, das janelas que não abriam (ou que não existiam), das fachadas em titânio e de outras façanhas da moda destinadas a decorar os edifícios para proclamar o génio ousado e criativo de quem os concebia. Este comportamento narcisista só foi possível numa sociedade com uma energia barata, na qual pouco mais importava na arquitectura do que a moda e o estatuto, associados a um lugar de vanguarda. Num museu concebido por Frank Gehry, pouco importava que entrasse ar ou luz, porque era para isso que serviam o ar condicionado e os focos de halogéneo. O que importava era que a cidade fosse abençoada com um objectivo da moda criado por um xamã célebre. Ora, nada está mais sujeito a desvalorizar-se por deixar de estar na moda, do que uma coisa que só é valorizada por ser moderna.

James Howard Kunstler in «The Long Emergency», 2005.

A Igreja de Arroios e o apostolado pós-Conciliar


Há documentos antigos, onde se lê que a paróquia de Arroios foi uma das primeiras [de Lisboa], mas que andou transferida por igrejas e capelas até ao último quartel do século XVIII. Nessa época foi adquirido um terreno no Largo de Arroios para se construir uma igreja paroquial, só inaugurada em 1829.
(...)
Em 1969 a igreja não satisfazia e a urbanização da cidade fê-la demolir por não comportar um mínimo necessário ao apostolado moderno; e foi então que principiou um movimento de pessoas de boa vontade para a sua reconstrução. Os paroquianos de Arroios queriam ter a sua igreja e conseguiram-no. A primeira pedra foi colocada no dia 8 de Dezembro de 1970 pelo Patriarca, que nessa época era o Cardeal Cerejeira.
No decorrer do tempo os trabalhos prosseguiram com fé e força de vontade, e assim se construiu um bonito templo de linhas modernas, funcional e com capacidade para dois mil fiéis.

Fonte: «Olisipo: Boletim do Grupo Amigos de Lisboa», nº 136, Janeiro/Dezembro 1973.


Mais fotos da monstruosidade aqui.

O embrutecimento artístico


Quando começamos a substituir os Salmos de David pelos conselhos de auto-ajuda, e os trágicos gregos e Dante, por biografias de celebridades, já não conseguimos exigir muita coisa da inteligência. E com o consequente embotamento da sensibilidade, os nossos olhos e os nossos ouvidos perdem a antiga capacidade de captar imagens e sons que dantes faziam parte do registo poderoso de uma cultura da qual ficámos, em poucas décadas, completamente órfãos.

Ângelo Monteiro in «Arte ou Desastre», 2011.

Proporção

Que casa escolherá esta família?

Quais são os elementos primordiais de que o arquitecto dispõe para o seu trabalho? Se existisse um evangelho da arquitectura, começaria por certo assim: "No princípio era a Proporção..." E realmente é a proporção base de toda a arquitectura.

Raul Lino in «Casas Portuguesas», 1933.

Imaginem um mundo sem modernismo


A beleza fundamental do aspecto exterior de uma casa está nas suas proporções; estas, porém, não se estabelecem por meio de tabelas; é indispensável uma educação especial do sentido da vista para se poder proporcionar com harmonia e nobreza. No entanto, de um modo geral se pode afirmar que está actualmente incutido entre nós um gosto desnatural, uma noção falsa de elegância, a qual se julga ser exclusivamente atributo das coisas altas e estreitas; como se vãos, pilastras, painéis, esteios, – tudo tivesse para ser elegante.
É um vício de sentimento cuja origem facilmente se descobre.
É que desde que há decadência do sentimento artístico, todas as vezes que se pretende fazer obra imponente, antolha-se-nos grandeza das coisas passadas; quando há compreensão grosseira da arquitectura, julga-se ganhar imponência pelo simples aumento das dimensões.

Raul Lino in «A Nossa Casa», 1918.