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Crimes soviéticos apontados à Rússia


O Ocidente – com indiferença, mas para nossa grande amargura – confunde os termos «Russo» e «Soviético», «Rússia» e «U.R.S.S.», muito embora aplicar os primeiros aos segundos seja o mesmo que conceder ao assassino o direito de usar a roupa e a identidade da sua vítima. É um erro irreflectido considerar os Russos da U.R.S.S. como «nação dominante». Não o são, certamente. Os Russos sofreram o primeiro golpe devastador no tempo de Lenine; desde então, fizeram-se milhões de mortos (e o que é pior ainda: assassinados de modo selectivo, devido à sua elevada qualidade, em relação aos outros), mesmo antes desse genocídio que foi a colectivização. Foi a partir de então que toda a história russa começou a ficar conspurcada, que a Igreja e a cultura foram esmagadas, e que religiosos, nobres, negociantes, e, dentro de pouco tempo também, o campesinato, foram aniquilados. Seguidamente, outros povos sofreram também golpes desses; mas ainda hoje são as regiões rurais da Rússia que têm o nível de vida mais baixo em toda a U.R.S.S., sendo as cidades de província as que possuem os mais baixos índices de abastecimento. Em vastas regiões do nosso País não há nada para comer e as importações de cereais americanos em nada beneficiaram o povo em geral (os cereais são guardados em silos de reserva para serem usados em caso de mobilização). Os Russos constituem a massa principal dos escravos deste Estado. O povo russo está extenuado, em via de degeneração biológica, e a sua consciência nacional aviltada e esmagada.

Alexandre Soljenitsin in «O Erro do Ocidente», 1980.


Nota: Vale a pena lembrar que faz muitos anos que a propaganda nacionalista ucraniana usa o Holodomor como "prova" histórica da prepotência russa face à Ucrânia, omitindo: 1) que a sua autoria não foi russa, mas soviética [*]; 2) que não apenas os Ucranianos, mas também Russos, Cazaques, Tártaros, etc. foram vítimas da Grande Fome de 1930-1933.

[*] O primeiro governo soviético era composto por 80-85% de Judeus, conforme reconheceu Vladimir Putin em 2013.

A estranha confusão entre «Rússia» e «URSS»


Em primeiro lugar, usa-se a palavra «Rússia» a torto e a direito: diz-se «Rússia» por «U.R.S.S.» e «russos» por «soviéticos», conferindo sempre uma certa superioridade emocional aos segundos («os blindados russos entraram em Praga», «o imperialismo russo», mas: «as explorações soviéticas no cosmos», «os êxitos do ballet soviético»). Ora, importa estabelecer uma distinção muito nítida entre estes dois conceitos, não apenas opostos, mas inimigos um do outro. A relação existente entre eles assemelha-se àquela que liga um homem à sua doença. Não confundimos o homem com o seu mal, não lhe damos o nome da sua doença, nem o culpamos de a ter! Ao Estado, como entidade actuante, ao País, com o seu governo, a sua política e o seu exército, não se pode chamar Rússia desde 1917. É ilegítimo aplicar a palavra «russo» ao actual governo da U.R.S.S., aos seus próximos êxitos militares e ao poder que virá a implantar nos quatro cantos do mundo, mesmo que o russo continue a ser a sua língua oficial.

Alexandre Soljenitsin in «O Erro do Ocidente», 1980.


Estalinismo: bode expiatório do Comunismo


Alguns especialistas recorrem a este processo a fim de demonstrarem que o comunismo é apenas possível nos países cuja história tenha sido «viciada»; e outros para tirar as culpas ao comunismo e imputarem os erros da sua instauração às características peculiares da nação russa. Encontramos esta concepção numa série recente de artigos dedicados ao centenário de Estaline (em especial do Prof. Robert Tucker no New York Times de 21 de Dezembro de 1979).
Sucinto, mas enérgico, o artigo de Tucker causa espanto: não teria sido escrito há vinte e cinco anos? Como é que um especialista em ciências políticas ainda pode, actualmente, ter ideias tão erradas sobre o fenómeno comunista? Nele voltamos a encontrar os infalíveis «ideais revolucionários», que o infame Estaline teria arruinado, visto não ter ido beber a sua ciência a Marx, mas sim à infame história russa. O Prof. Tucker apressa-se a salvar o crédito do socialismo ao declarar que Estaline nunca foi um verdadeiro socialista! A sua acção não foi inspirada pela teoria de Marx, mas pelo exemplo dos eternos Ivã, o Terrível, e Pedro, o Grande. Toda a época estalinista não passaria do regresso radical ao tempo dos czares e não seria a aplicação metódica do marxismo às realidades do mundo contemporâneo. Estaline teria arruinado o bolchevismo (em vez de o ter perpetuado). A minha modéstia não me permite pedir, nem esperar, que o Prof. Tucker leia, pelo menos, o primeiro volume d'O Arquipélago de Gulag (de facto, seria preferível que ele lesse os três). A sua leitura refrescar-lhe-ia a memória: lembrar-se-ia de que o aparelho policial comunista, que viria a fazer sessenta milhões de vítimas, foi criado por Lenine, Trotsky e Dzerjinski. A Tcheca, sua primeira manifestação, tinha poderes ilimitados para, sem instauração de processo, fuzilar grande número de pessoas. Foi Lenine quem, com o seu próprio punho, redigiu o artigo 58 do Código Penal, fundamento de todo o Gulag estalinista. Todo o terror vermelho e a repressão de milhões de camponeses foram obra de Lenine e de Trotsky. Foram as suas instruções que Estaline aplicou escrupulosamente, se bem que estupidamente, à medida da sua capacidade intelectual. Apenas num ponto se afastou de Lenine: foi quando, a fim de reforçar o seu poder, decidiu eliminar os dirigentes do Partido Comunista. Mas também nesse ponto ele se contentou em seguir a lei de todas as revoluções sangrentas: elas acabam, infalivelmente, por devorar os seus próprios autores. Na U.R.S.S. dizia-se com razão: «Estaline é o Lenine de hoje». É verdade: toda a época estalinista é apenas a continuação directa do leninismo, mas com mais maturidade nos resultados e um desenvolvimento mais vasto e mais igual. O estalinismo nunca existiu, nem na teoria, nem na prática: não se pode falar nem de fenómeno estalinista, nem de época estalinista; estes conceitos foram inventados pela ideologia ocidental de esquerda, após 1956, apenas para defender os ideais comunistas. Nem um fantasma perverso conseguiria fazer de Estaline um nacionalista russo, muito embora tenha liquidado quinze milhões de camponeses, e dos melhores, quebrando a espinha ao campesinato russo, isto é, à própria Rússia, sacrificando mais de trinta milhões de homens durante a segunda guerra mundial em que participou, sem se preocupar minimamente em economizar o potencial humano e sem a mais pequena consideração pelo seu povo.

Alexandre Soljenitsin in «O Erro do Ocidente», 1980.

Quando a ideologia é justificação para o mal


As justificações de Macbeth eram débeis e os remorsos roíam-lhe a consciência. Mas Iago era um cordeiro. Se a fantasia e as forças interiores dos malfeitores shakespearianos se limitavam a uma dezena de cadáveres, era porque eles não tinham ideologia.
A ideologia! Ela fornece a desejada justificação para a maldade, para a firmeza necessária e constante do malfeitor. Ela constitui a teoria social que o ajuda, perante si mesmo e perante os outros, a desculpar os seus actos e a não escutar censuras nem maldições, mas sim elogios e testemunhos de respeito.

Alexandre Soljenitsin in «Arquipélago Gulag», 1973.

Um rebanho... de ovelhas negras


No Ocidente, sem censura, as correntes de pensamento e ideias politicamente correctas são cuidadosamente separadas daquelas que não o são; nada é proibido, mas o que não é politicamente correcto dificilmente encontrará forma de se expressar nos jornais, livros ou nas faculdades. Por lei os vossos investigadores são livres, mas na realidade estão condicionados pelo que está na moda. Não há uma violência aberta como no Leste, contudo, uma selecção ditada pelo que é politicamente correcto e a necessidade de corresponder a critérios de massa impede frequentemente as pessoas intelectualmente livres de darem a sua contribuição à vida pública. Há uma tendência perigosa para formar um rebanho...

Aleksandr Solzhenitsyn in «O Declínio da Coragem», 1978.

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A doença análoga de Capitalismo e Comunismo


Pusemos demasiadas esperanças nas transformações político-sociais e notamos que nos tiraram o que tínhamos de mais precioso: a nossa vida interior. A Leste, é a feira do Partido que a calca aos pés, a Oeste, a feira do Comércio: e o que mais apavora nem é o facto do mundo ter estilhaçado, é o facto dos principais pedaços estarem atingidos por uma doença análoga.

Aleksandr Solzhenitsyn in «O Declínio da Coragem», 1978.

O testemunho de um dissidente soviético


Palavras de quem sofreu directamente a brutalidade do sistema comunista:

Se me perguntarem se eu quero propor ao meu país como modelo o Ocidente, tal como hoje se apresenta, devo responder com franqueza: não, não posso recomendar a vossa sociedade como ideal para a transformação da nossa. (...) Uma sociedade não pode permanecer no fundo do abismo sem leis, como é o nosso caso, mas será irrisório manter-se à superfície lisa de um juridismo sem alma, como sucede convosco. Uma alma humana acabrunhada por muitas dezenas de anos de violência aspira a algo de mais elevado, mais quente e mais puro do que o que pode propor-lhe a existência de massa no Ocidente, anunciada, como se fosse um cartão-de-visita, por uma pressão enjoativa de publicidade, pelo embrutecimento da televisão e por uma música insuportável.

Aleksandr Solzhenitsyn in «O Declínio da Coragem», 1978.