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Reis de Portugal e Leão celebram Pazes em 1168


Ficou lastimado o valeroso Rei Dom Afonso Henriques, quando se viu em estado tão alheio de sua grandeza, pois sobre tantas vitórias e triunfos passados, descaindo ao presente daquele alto ponto da prosperidade que até então o acompanhara, estava não só preso, mas sua vida posta em grande perigo. El-Rei Dom Fernando não pode negar a compaixão devida a espectáculo tão triste, antes como Príncipe dotado de prudência e humanidade não só usou temperadamente da vitória, mas tratou a El-Rei Dom Afonso com grande cortesia e regalo, e não menor cuidado de sua saúde do que pudera ter o Infante Dom Sancho, filho do próprio Rei Dom Afonso. E porque o quebrantamento da perna d'El Rei pedia remédio com brevidade, o fez aplicar logo; e com a mesma diligência se foi continuando todo o tempo que El-Rei esteve em suas terras, a primeira das quais diz que foi Zamora e depois Ávila, donde cobrada alguma melhoria e firmados os contractos das pazes se tornou para seu Reino.

Frei António Brandão in «Terceira parte da Monarquia Lusitana: Que contém a História de Portugal desde o Conde Dom Henrique, até todo o reinado d'El-Rei Dom Afonso Henriques», 1632.

Reis de Espanha ou Reis de Castela?


Irei nomeando sempre a este Príncipe Rei de Castela; e não pareça que me abstenho de lhe dar título de Rei de Espanha sem fundamento; porque enquanto houve Reis nesta Coroa, nunca deram tal título aos Reis daquele Reino, intitulando no sobrescrito, até ao Imperador Carlos V, Rei de Castela somente: porque logo que Alexandre VI concedeu este título a el-Rei Dom Fernando, o Católico, se reclamou em Portugal: e ainda que confirmado depois por Leão X a Carlos V, não consentiram em tal coisa os Reis deste Reino, sentidos justamente do agravo que se lhes fazia em dar título de Reis de Espanha absolutamente a seus vizinhos, sendo que é Portugal uma parte tão principal de Espanha.
Mais, razão mostraram os Reis de Castela em contrariar aos Pontífices dar título de Rei de Toscana ao Duque de Florença, por serem eles senhores do lugar de Piombino naquele Estado, e por respeito deste lugar que ali possuem, contendem que a aquele Príncipe se não dê nome de Rei da Toscana, senão Rei na Toscana. Quanto é mais um Reino, e tal Reino como o de Portugal, que um lugar limitado, qual Piombino, tanto mais razão temos os Portugueses de não aprovar este capricho dos Reis de Castela, e não lhe conceder nunca o título de Reis de Espanha, maiormente em ocasião que se lhe desuniu a Coroa de Portugal e se restituiu a V. Majestade; e o Cristianíssimo Rei de França, Luís XIII, está jurado Conde de Barcelona, cabeça do Principado da Catalunha, outra porção de Espanha tão considerável. El-Rei de Leão e Castela Dom Afonso VI se fez chamar Imperador das Espanhas, porém o Conde de Barcelona Dom Ramon Berenguer, seu sogro, se intitulou Marquês das Espanhas para mostrar que, em Província aonde havia dois senhores independentes, não podia um deles presumir título em que ficasse incluído o Estado do outro: e quando um quisesse ampliar o título, ficava lugar ao vizinho para a mesma ampliação. Hoje é el-Rei Cristianíssimo Conde de Barcelona: quem impedirá dar-se título de Conde das Espanhas, vendo que el-Rei de Castela conserva o título de Rei de Espanha, sendo ele legítimo Senhor da Catalunha? Quem notará também a Vossa Majestade intitular-se Rei (se quiser) de Espanha, aonde o Reino de Portugal está situado. O Bispo de Palência, D. Rodrigo Sanches, trabalhou quanto pôde por persuadir que nos Reis de Leão e Castela andava direitamente o título de Reis de Espanha, mas foi com tão pouco fundamento, como o que teve António de Nebrissa para atribuir aos Castelhanos o nome de Espanhóis, que qualquer das outras nações de Espanha pode aplicar a si quando não queira usar do próprio e particular de cada Província. Costumou a nação Castelhana a introduzir-se tanto no alheio, que é razão, quando o desapossarmos dos Reinos, lhe não fique por restituir o título e apelido que lhe não é próprio; antes vai mostrando o tempo que lhe sucede a el-Rei de Castela o que a Suvatislão, Rei de Moscóvia, que sem causa quis ocupar a Grécia e foi a causa de ficar perdido, mandando-lhe o Príncipe Cures por esta letra: BUSCANDO O ALHEIO PERDEU O PRÓPRIO. Quarendo aliena propria amicit: em perder este Reino, que tinha usurpado, e dando lugar a V. Majestade ser restituído, nos ocasionou o primeiro dia de boa dita.

Frei Francisco Brandão in «Discurso gratulatório sobre o dia da feliz restituição e aclamação da Majestade d'el-Rei D. João IV N. S.», 1642.

Sobre o 1º de Dezembro de 1640


Quem negará ser o melhor dia de Portugal o primeiro de Dezembro, em que se viu sujeito a Vossa Majestade, e livre do governo d'el-Rei D. Filipe IV de Castela? Não digo que se viu livre Portugal então de um mau Príncipe, porque o decoro que se deve às Majestades, o não permite, nem as excelências pessoais d'el-Rei católico poderão nunca ser menoscabadas. De um mau governo digo, que se livrou justamente, e nesta parte não fica ofendida a católica Majestade, a quem sempre veneraremos, pelo que foi enquanto tolerado Rei deste Reino... Nunca da nação Portuguesa, observantíssima veneradora dos Príncipes que teve, emanarão indecências descorteses, contra a imunidade de Príncipe tão grande. (...)
Nas Crónicas de São Francisco se conta que estando o Seráfico Patriarca em Portugal, vaticinara que nunca este Reino havia de ser unido a Castela. Muitos, que, sem considerar as coisas as desestimam, negavam esta predicação vendo que entrou Filipe II na herança do Reino: mas ainda assim sustentava o doutíssimo Padre Frei Lucas Wandingo, cronista da mesma Ordem, ser verdadeira a profecia do Santo, porque ainda que unidos os Reinos de Portugal e Castela num herdeiro, entre si eram distintos, tanto que os naturais de um Reino se reputavam por estrangeiros no outro; a moeda era diferente e as provisões se passavam em diferentes línguas, em forma que se não podiam chamar Reinos unidos. Intentou nos dois anos passados a soberba Castelhana apertar mais o ponto, e fazer que esta união de Reinos, que havia na pessoa do injusto possuidor, estivesse também entre os mesmos Reinos. Aqui acudiu São Francisco, e mostrou com efeito o entendimento de sua profecia, que era não ser Portugal nunca unido a Castela, e assim quando naquele Reino pretendiam a união de ambos, executámos nós a total separação...

Frei Francisco Brandão in «Discurso gratulatório sobre o dia da feliz restituição e aclamação da Majestade d'el-Rei D. João IV N. S.», 1642.