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Da estratégia de Gramsci


Deste modo, a principal estratégia revolucionária, além da guerrilha em países subdesenvolvidos, é a descoberta por António Gramsci e hoje em dia aplicada pelos partidos comunistas. Trata-se de conquistar o poder por meio do domínio da Cultura, das instituições tradicionais, do desarmamento ideológico. O objectivo não é ganhar eleições e ter votos: é eliminar a influência da Igreja, conquistar a Universidade e a Escola, controlar o Exército, possuir os meios de comunicação, bombardear a população com novos conceitos, fazendo as pessoas mudar a sua mundivisão. Em resumo: é a conquista ideológica do Estado, que uma vez efectuada, é seguida pela tomada do poder.
É neste sentido que os esforços se encaminham e não há dúvida que esta estratégia revolucionária parece ser a mais adequada às sociedades modernas, tão vulneráveis e com tantos pontos-chave. Na rota para este objectivo, de pouca relevância será o resultado das votações, porque não é aí que assenta a manobra. Muito mais importante se revelará o domínio de um jornal, a conquista de uma empresa, o controle de um bispo ou de um general, a publicação de uma revista pornográfica, a criação de um grupo de intelectuais afectos às directivas do partido.

António Marques Bessa e Jaime Nogueira Pinto in «Introdução à Política», 1977.

A propaganda e a vinculação pelo medo


A propaganda reforça as solidariedades de diferentes modos. Já se analisou o mecanismo da vinculação pelo medo e viu-se que um indivíduo aterrorizado procura o contacto com os seus congéneres. Ora, sempre que há dificuldades internas, crises, conflitos insanáveis, o poder constituído recorre em regra a este mecanismo instintivo. Cria-se, então, o inimigo externo, exibe-se o perigo da perda da independência, explica-se que esse inimigo é vicioso e deseja a aniquilação total. Inventam-se internamente os traidores, as maquinações, as quintas-colunas. A ameaça, que a propaganda torna verosímil, vincula os cidadãos pelo medo, estimula as solidariedades de combate, canaliza a agressão colectiva para o exterior ou contra o bode expiatório que entretanto se descobriu dentro do País. Os judeus, os fascistas, os capitalistas, os estrangeiros, os americanos, os brancos, têm desempenhado frequentemente este papel, bem como os bolcheviques, os sovietes, os russos. Mas se nuns casos a ameaça é possível, noutros não passa de mera construção propagandística ao serviço da classe política instalada.

António Marques Bessa e Jaime Nogueira Pinto in «Introdução à Política», 1977.

O mito da grande imprensa


Como veículo das ideologias, a chamada grande imprensa merece um tratamento especial. De facto, os grandes jornais mundiais estão geralmente associados à informação objectiva, à notícia correcta, ao profissionalismo mais completo, enfim, ao jornalismo como deve ser. Para o efeito cita-se Le Monde, The Times, The Economist, Die Welt e outras publicações periódicas de âmbito mundial, como símbolo da independência e da análise desapaixonada dos assuntos. É o mito da grande imprensa, tendente a fazer aceitar como verdades incontestáveis tudo o que aparece nas suas páginas. Ora, um exame mais atento deste problema indica que essa reputação anda longe de corresponder aos factos.
Em primeiro lugar, há por detrás dessas publicações a questão do mercado. Em sentido económico, isto quer dizer que a publicação, para ser rentável (cobrir as despesas), não pode desagradar aos seus consumidores e muito menos aos seus anunciantes, que constituem as principais fontes de entrada de dinheiro. Não podem, portanto, colidir com os interesses das multinacionais ou com os gostos dos seus leitores. Se isso viesse a suceder, a empresa jornalística tornar-se-ia deficitária e acabaria comprada por uma multinacional ou simplesmente desapareceria do mercado.
Por outro lado, o director e os redactores têm as suas próprias idiossincrasias, as suas preferências partidárias, as suas adesões ideológicas. Tudo isso transparece na forma do jornal, nos títulos, no modo de redigir a notícia, na disposição das fotografias, no método de abordar os assuntos. Sob a capa de neutralidade, há toda uma focagem muito particular do acontecer político-social.
A tudo isto soma-se a mentalidade nacional das publicações, que procuram defender os interesses dos seus respectivos países, acompanhando frequentemente o poder político nas suas acções a nível mundial, ou até mesmo preparando o terreno para certas diligências através de campanhas bem orquestradas.
Outro factor que normalmente se esquece é a corrupção. Como em todas as actividades relacionadas com o poder, directa ou indirectamente, há sempre a possibilidade de comprar espaço e tempo nos meios de comunicação, subornar os redactores e directores, comprar campanhas, e, inclusive, comprar os próprios meios de informação.
Por outro lado, a evolução da técnica respeitante ao jornalismo, a subida das matérias-primas, o custo da mão-de-obra e do pessoal especializado, faz com que a larga maioria das publicações de importância mundial caiam nas mãos de fortes empresas internacionais, que as utilizam como meios de pressão sobre o poder político e instrumentos de luta no campo económico. Os jornalistas são autorizados a algumas originalidades, desde que não vão contra a política geral do grupo económico-financeiro (caso do Washington Post e da celebérrima denúncia de Watergate), mas em muitos não deixam de ser empregados de uma cadeia que tanto produz revistas como sabonetes e detergentes.

António Marques Bessa e Jaime Nogueira Pinto in «Introdução à Política», 1977.

O Fascismo só existiu em Itália


Os autores marxistas, e toda uma gama de divulgadores pouco preocupados com o rigor classificativo, costumam incluir os regimes autoritários peninsulares dentro dos "fascismos", como variantes regionais do sistema, que nos anos vinte e trinta, se estabeleceu na Alemanha e na Itália, e deu lugar a experiências não europeias, como o Japão antes da guerra e o peronismo argentino. Por outro lado, o termo "fascista", utilizado como adjectivo, assumiu tal carga emocional, que em situações polémicas e de profundo confusionismo terminológico, se torna difícil a sua precisão. Como diz Maurice Bardèche «é-se sempre o fascista de alguém», para a direita ou para a esquerda. Estalinistas e eurocomunistas chamaram-se de fascistas, como de tal pecado se acusaram, sucessivamente, Adenauer, De Gaulle, Nixon, Kossiguine. No actual processo revolucionário português, poucos dirigentes ou grupos políticos, todos de reconhecido e comprovado passado antifascista, escaparam a tal classificação por parte dos seus adversários de momento. E souberam, generosamente, retribuir o epíteto.
Num sentido mais restrito, o qualificativo é dado a qualquer regime autoritário, ou às práticas autoritárias de qualquer regime; nesta acepção, fascista contrapõe-se a democrático. A acepção também não é muito feliz, pois a utilizá-la, descobrir-se-ia uma infinidade de regimes e práticas "fascistas", desde a União Soviética ao Portugal pós 25 de Abril, ao Brasil, a Cuba, e a quase todos os estados socialistas do chamado Terceiro Mundo. Em sentido técnico, o termo apenas se aplica à ideia ou realidade a que historicamente está associado: a experiência italiana entre 1922 e 1945.

António Marques Bessa e Jaime Nogueira Pinto in «Introdução à Política», 1977.

Totalitarismo democrático


Talmon filia o nascimento desta concepção na revolução intelectual operada na segunda metade do século XVIII. Nessa época, um sector da filosofia ocidental, conclui que «as condições resultantes da fé, tempo e costumes, nas quais tinham vivido até então, eles e os seus antepassados, eram anti-naturais e tinham que ser substituídas por normas uniformes, deliberadamente planeadas, naturais e racionais».
No essencial, a democracia totalitária assenta na ditadura como método de imposição da utopia. A sociedade perfeita, o reino da vitória, é o fim supremo da acção humana e política. Para a instaurar, todos os meios são bons, todas as resistências devem ser esmagadas. Os Niveladores, os Jacobinos, os Bolcheviques, instauraram, ou tentaram instaurar, modelos de totalitarismo democrático: para que venha o Paraíso, a República dos Iguais, ou a Sociedade sem Classes, matam-se refractários, cortam-se cabeças, criam-se campos de reeducação e apetrecham-se hospitais psiquiátricos. A sociedade política não é um quadro de regras de jogo e compromissos, mas um instrumento, um degrau, um ensaio no caminho para a sociedade final, perfeita e acabada. Começa-se em Rousseau e acaba-se no Arquipélago Gulag, com uma lógica intrinsecamente perfeita.

António Marques Bessa e Jaime Nogueira Pinto in «Introdução à Política», 1977.

O poder conformador dos mass media


Referindo-se à influência dos meios de comunicação nas sociedades modernas, e às suas características como força determinante de certos comportamentos, Wright Mills escreveu: «Os meios de comunicação, tal como estão organizados e operam, não são apenas uma das causas principais da transformação da América do Norte numa sociedade de massas. São também um dos mais importantes instrumentos de poder, cada vez mais numerosos, de que dispõem hoje as elites do dinheiro e do poder».

António Marques Bessa e Jaime Nogueira Pinto in «Introdução à Política», 1977.

Gramscianismo ou Marxismo Cultural


Deste modo, a principal estratégia revolucionária, além da guerrilha em países subdesenvolvidos, é a descoberta por António Gramsci e hoje em dia aplicada pelos partidos comunistas. Trata-se de conquistar o poder por meio do domínio da Cultura, das instituições tradicionais, do desarmamento ideológico. O objectivo não é ganhar eleições e ter votos: é eliminar a influência da Igreja, conquistar a Universidade e a Escola, controlar o Exército, possuir os meios de comunicação, bombardear a população com novos conceitos, fazendo as pessoas mudar a sua mundivisão. Em resumo: é a conquista ideológica do Estado, que uma vez efectuada, é seguida pela tomada do poder.
É neste sentido que os esforços se encaminham e não há dúvida que esta estratégia revolucionária parece ser a mais adequada às sociedades modernas, tão vulneráveis e com tantos pontos-chave. Na rota para este objectivo, de pouca relevância será o resultado das votações, porque não é aí que assenta a manobra. Muito mais importante se revelará o domínio de um jornal, a conquista de uma empresa, o controle de um bispo ou de um general, a publicação de uma revista pornográfica, a criação de um grupo de intelectuais afectos às directivas do partido.

António Marques Bessa e Jaime Nogueira Pinto in «Introdução à Política», 1977.

Meios de desinformação em massa


A imprensa, a rádio e a televisão, que constituem os meios de comunicação de massas, são, a par de importantes meios de combate, instrumentos fundamentais das ideologias. Os jornais, os boletins informativos, ou formativos, da televisão, os programas da rádio, nunca são neutrais: veiculam uma concepção do mundo e da vida, defendem um determinado tipo de doutrina, fazem a propaganda de certos modelos e atacam directa, ou indirectamente, as outras posições.
O seu alcance é considerável: os mass media cobrem todo o território, transformando os Estados no que McLuhan chamou de "aldeia global". Penetram todos os rincões, invadem todos os lares, difundem verdades, factos, mentiras e semi-mentiras, a um ritmo inultrapassável. Os estudos de propaganda política, que se ocupam da eficácia destes meios no tratamento das populações, demonstram que bem manipulados e cientificamente utilizados, os mass media podem controlar os gostos e as aspirações dos cidadãos. Encaminhá-los num sentido ou empurrá-los para outro. Fazê-los odiar o que antes admiravam, levá-los a desejar o que anteriormente recusavam. (...)
A imprensa, mais antiga, reparte-se por formações partidárias, grupos industriais e comerciais, bancos, empresas jornalísticas, instituições sociais e, normalmente, reflecte a ideologia dos seus detentores. Cada partido procura possuir um ou vários diários, controlar semanários, editoras, emissoras, e daí difundir a sua propaganda sob o aspecto de notícias ou comentários objectivos. Como afirmava Lenine, um jornal é indispensável à organização e progresso de um partido. É efectivamente o "grande organizador colectivo", e, à falta de meios mais eficazes como a televisão, ele ainda desempenha essa tarefa primordial.

António Marques Bessa e Jaime Nogueira Pinto in «Introdução à Política», 1977.

Duas faces da mesma moeda


Se na teoria progressista a fase marxista surge como um estádio superior à fase «burguesa», uma vez que tenta dar nova lógica e reformular problemas concretos que não encontram solução nos quadros mentais e materiais do capitalismo, o certo é que, na prática, a ideologia marxista não passa de uma tentativa de complementar a ideologia demoliberal, divergindo apenas nos meios que consagra para a obtenção dos fins últimos. Na realidade, o marxismo defende os mesmos objectivos que o liberalismo político: a felicidade material do indivíduo na terra, equitativamente distribuída por todos os homens até à igualdade universal. É precisamente na instrumentação da igualdade real dos homens que as doutrinas racionalistas divergem.

António Marques Bessa in «Ensaio sobre o fim da nossa Idade», 1978.

Ideologias contra a Verdade


No tempo de Estaline, os grandes biólogos russos, que descobriram o gene como núcleo invariável da herança humana, foram condenados por Lisenko e enviados a morrer na Sibéria. De facto, o gene, invariável, estabilizado, passando a mesma herança cromossómica de pais para filhos, não se acomodava à dialéctica marxista, e era, segundo a óptica dos funcionários do partido, uma heresia idealista. Mas mais recentemente, nos Estados Unidos, vários professores universitários foram banidos e caluniados por terem descoberto uma sensível diferença entre a inteligência de negros, brancos e mestiços. Além disso, puseram a claro uma correlação entre a herança genética e o grau de inteligência. Tais descobertas iam contra a ideologia reinante que afirmava ser a inteligência um factor igual para todos e só dependente da educação e do meio familiar. Toda a investigação foi paralisada e os cientistas foram condenados como racistas e nazis.
Estes dois exemplos demonstram que embora a ciência contrarie as teses fundamentais das ideologias mais divulgadas, estas conservam a sua dinâmica e poder de proselitismo, porque o seu impacto nas massas não se baseia na verdade, ou falsidade, dos seus dogmas e explicações. Antes repousa nos mitos, nas emoções que desencadeiam e nos interesses que cobrem.

António Marques Bessa e Jaime Nogueira Pinto in «Introdução à Política», 1977.

O assalto à cultura pelos marxistas culturais


Ora, o que Gramsci faz é inovar no leninismo, ao introduzir a possibilidade de controlar o Estado a partir da cultura. No reducionismo marxista, cultura é uma superestrutura gerada pela infra‑estrutura económica. As relações de produção, de exploração, isto é, o sistema económico, determinam um super-sistema de justificação, que está ao serviço do explorador e serve para dominar intelectualmente o explorado. A esse sistema, integrado pela religião, educação, arte, meios de comunicação, etc., chamam os marxistas de cultura.
Na tradição leninista derrubava‑se o Estado a partir da Economia, e assim se punha fim à Cultura, que não passava de um gigantesco sistema de justificação ideológica. Com Gramsci altera‑se o esquema revolucionário. Para ele é fundamental dominar primeiro a "cultura burguesa" e substituí-la progressivamente por uma "cultura proletária". As transformações e substituições operadas, assim, na "cultura burguesa", irão influenciar a infra‑estrutura económica, as relações de produção, o sistema social, mudando a mentalidade dos cidadãos. Só depois desta operação é que se deve conquistar politicamente o Estado, visto que este se encontra desarmado. A resistência, sempre baseada nas estruturas culturais de valores, nos conceitos internos da cultura, sem esse suporte, nem sequer poderia existir. Daqui que o caminho para o poder nos Estados burgueses, desde há muito, seja este: assalto à cultura, abastardamento de todas as características positivas do carácter e imagem nacionais, substituição de padrões nacionais por elementos culturais importados, enfraquecimento e eliminação da resistência dos intelectuais patriotas e, finalmente, domínio das principais alavancas da cultura: meios de comunicação, universidades, institutos e instituições, editoras, escolas, arte, etc.

António Marques Bessa in «A Cultura na Luta Política».

A Termodinâmica contraria o Marxismo


Em primeiro lugar há uma matéria macrofísica, que vai desde o objecto conhecido às estrelas e galáxias. Está formada por sistemas de moléculas, de átomos, de partículas, e é governada pelo princípio da degradação de energia (em virtude da segunda lei da Termodinâmica). Num sistema fechado, a energia degrada-se, ou seja, passa de formas mais complexas de organização para outras menos complexas e menos estruturadas. Aqui encontra o materialismo dialéctico a sua sentença de morte, já que a matéria que ele perspectiva não é passível de evolução, ou seja, de passar a níveis superiores de organização e heterogeneidade. O que sucede é precisamente o contrário e por isso mesmo, no seu tempo, Marx e Engels se recusaram, com inteira lógica, a aceitar como verdadeira a segunda lei da Termodinâmica.

António Marques Bessa in «Ensaio sobre o fim da nossa Idade», 1978.


Nota: Assumindo as leis físicas da Termodinâmica, não apenas o Marxismo, mas também o Evolucionismo é uma impossibilidade física e natural.

25º aniversário da queda do Muro de Berlim


O quadro acima reproduzido chama-se Reunificação e é do pintor alemão Herbert Smagon, conhecido pelas suas obras bastante polémicas. Neste caso, o pintor quis ilustrar as duas Alemanhas separadas pelo Muro de Berlim, que representavam simultaneamente os dois blocos que governavam o mundo de então: o capitalista e o comunista. Do lado capitalista, vemos representado o individualismo, o consumismo e a luxúria dos prazeres sensuais. Do lado comunista, vemos o colectivismo uniforme, cinzento, frio e desprovido de vida. Em ambos os lados, vemos o materialismo, a ausência da dimensão espiritual. Como diria António Marques Bessa no seu Ensaio sobre o fim da nossa Idade: "tanto a Este como a Oeste o que domina é o reino imundo da quantidade, das ideias reflexas, do homem vegetativo" e acrescenta ainda que "a vida amputada da dimensão espiritual, vai-se progressivamente concentrando no económico, no puramente material". Também por isso, segundo este autor, "as angústias mais características do nosso tempo e da nossa civilização são as espirituais, que nascem da tensão entre o homem e a sociedade de massa, que o sufoca e aniquila em tudo aquilo que tem de supramaterial". De facto, o Muro caiu, as Alemanhas reunificaram-se e a guerra entre os dois blocos terminou. Venceu o materialismo. Perdemos todos.

Léon Degrelle


Para Degrelle, o que estava em jogo não eram mais pequenas questões de política local, mas o nascimento de uma Europa de nações solidárias, readquirindo, sob a direcção militar alemã, a importância geopolítica que lhe pertencia de direito próprio. Na reordenação do continente, voltaria a ter lugar uma unificação entre a França e a Alemanha, segundo as linhas do estado medieval formado pelos duques da Borgonha no séc. XV, desaparecido numa conjunção de acidentes dinásticos e desastres militares; através da aspa vermelha em campo de prata dos seus estandartes, o sonho borgonhês esteve presente em todos os combates da brigada Wallonie.
O que teria sido a evolução política de uma Europa aglutinada sob as ideologias antidemocráticas da época, jamais saberemos, mas é talvez importante notar que, mais que o poder de atracção das mesmas, foi o combate anti-comunista que fez correr um grande número de voluntários à frente leste. Degrelle é um daqueles para quem ambas as motivações existiram, e as suas palavras não deixam dúvidas disso. O destino da Europa Central e Oriental, na sequência da vitória aliada, no entanto, deveria temperar a nossa tentação de culpabilizar excessivamente os que duvidaram do monopólio aliado da virtude...

António Marques Bessa in jornal «O Diabo», 15 de Maio de 1991.

A Era do Álibi


Os cientistas oficiais preferem explicar o Estado pela luta de classes, o canibalismo pela deficiência em proteínas, a guerra pelas indústrias de armamento e pelo capitalismo, a droga pela falta de amor, o crime pela frustração, e assim por diante. O ciclo cultural que nos integra culminou afinal numa gigantesca Era do Álibi. Tudo está desculpado. Ninguém tem culpa de nada.

António Marques Bessa in «Ensaio sobre o fim da nossa Idade».

O Nacionalismo em acusação


Sabemos que o nacionalismo está em acusação. Quem o professa ou defende arrisca a reputação perante os "colegas"; é apontado de retrógrado pelos universalistas utópicos, e burguês-tachista, por todos em geral.
O nacionalismo devido a interesses da plutocracia e propaganda capitalista-marxista tornou-se réu. Dificulta negócios. Quando as ideias desta Europa, a única que perdeu a Guerra, são os dólares, as mais-valias e os salários, e onde os jovens se tornam espectadores idiotas (convencidos que são activistas) da derrocada, os utilitaristas podem-se congratular. Mais: quando as nações são encaradas como mercados, e unicamente como mercados, do capital apátrida, tem-se toda a conveniência em que os focos nacionalistas sejam suprimidos.
O nacionalismo, portanto, vê-se atacado numa ampla frente: desde os militantes e simpatizantes comunistas até aos "palermas de café", que falam de cór consoante a propaganda impingida pelos meios de informação onde eles bebem usualmente a "cultura política" com que fazem revoluções radicais.

António Marques Bessa in revista «Política», Fevereiro de 1969.

As elites ideológicas


Que podem fazer então as elites ideológicas? Influenciar os modos de pensamento, como entendeu Antonio Gramsci, e preparar o caminho de uma nova ideologia ou de uma nova fórmula política triunfante, mobilizadora, capaz de derrubar a fórmula da elite dirigente. Neste sentido, funcionariam em aliança com a contra-elite. Gramsci chamou a estes intelectuais afectos ao novo príncipe (novo poder) os intelectuais orgânicos, destinados a destruir as bases e fundamentos ideológicos de elites enraizadas, como seja a religiosa, a militar e a política. A sua função crítica é deletéria e é preciso que o seja nesta conjuntura. As sociedades burguesas encontram-se defendidas no plano intelectual por diversos mecanismos de justificação e o que é preciso e urgente é desmontá-los. Entre eles está o Direito, a Religião, o conceito de Família, de Escola, o Serviço Militar e assim por diante, como nos haveria de especificar o francês Althusser. O melhor será a infiltração e o uso dos meios de comunicação de massa para alterar a cultura. Se há uma teoria de mudança social e política muito coerente vinda dos marxistas reflexivos é sem dúvida esta: as trincheiras intelectuais das sociedades capitalistas têm de ser derrubadas pelos intelectuais orgânicos situados nos mais diversos meios de influência, nomeadamente os meios de comunicação de massa, os quartéis, as universidades, as igrejas.

António Marques Bessa in «Elites e Movimentos Sociais», 2002.

Marxismo


Tomando por base Rousseau e aceitando que o homem é intrinsecamente bom e perfeito, como requer a falácia humanista e expôs metafisicamente o filósofo de Genebra, os pais do marxismo desenvolveram a temática que se viria também a tornar o fundamento filosófico da Era Moderna. No «Discurso Sobre a Desigualdade» Rousseau tinha escrito: o homem é naturalmente bom. Qualquer traço de violência no seu íntimo é produzido pelas instituições sociais. A propriedade privada e o Estado são as duas instituições predominantes de invenção e autoria humanas. A primeira, produz a desigualdade e requer a segunda para a manter. A propriedade privada e o Estado combinam-se para produzir a ruína do homem. Glosando este tema Proudhon haveria de escrever: «a propriedade privada é o roubo» e Owen, Fourier, Marx, Engels e outros utópicos, aplicar-se-iam a determinar cientificamente a validade destes raciocínios.
Marx chegou inevitavelmente ao diagnóstico e à receita: aceitando que a natureza humana é pacífica e boa, adiantou que o ambiente social é que é responsável pela violência e o vício. A natureza da sociedade humana é determinada pela posse da terra e dos meios de produção. Portanto, a natureza do homem é determinada pela posse do capital. Enquanto a propriedade for privada, a humanidade permanecerá dividida entre explorados e exploradores, e os Estados existirão para proteger os exploradores. Toda a História, por conseguinte, deve ser interpretada em termos de luta de classes, todo o conflito em termos de esforços da classe exploradora para manter as suas vantagens. Porém, se os explorados conseguirem chegar ao controlo do Estado, a propriedade privada será extinta e terminará a luta de classes. A guerra, a miséria e o vício, a violência e a necessidade do Estado acabarão, porque nesse momento o homem será naturalmente pacífico e bom. É claro que nos países onde esta lógica foi levada até às suas últimas consequências pode constatar-se a ironia final: quando um homem confia na bondade de outro, nunca perde mais do que a vida.

António Marques Bessa in «Ensaio sobre o fim da nossa Idade», 1978.

Igualitarismo


Uma perspectivação biológica do comportamento humano no nosso tempo só pode contrariar as doutrinas de repercussão mundial. E a doutrina simplificada dos reflexos condicionados faz tudo o que pode para destruir as adversas. Esta doutrina – chamo-lhe pseudodemocrática – tem profundas raízes e é muito perigosa. De facto, uma teoria que postula que o homem não é mais que o produto do meio é confortável para toda a gente. Os cidadãos assim igualizados são tão bem-vindos ao capitalismo americano, que procura o consumidor padrão, como ao totalitarismo vermelho que quer um cidadão sem ideias.
Se, seguindo Freud, estudarmos com atenção as reacções mentais e emocionais que os behavioristas têm contra tudo o que não seja reflexos condicionados, descobriremos a ideologia subjacente a todas as doutrinas políticas da actualidade. O tratamento e controlo de largas massas assentam na presunção errónea de que não há programa inato no homem, isto é, nenhum programa psicogenético. Este ponto de vista igualitário é completamente contrário a toda a evidência biológica.
Nas sociedades humanas a divisão do trabalho é fundada numa diferença, numa desigualdade dos membros da sociedade, que por si só pressupõe uma diferença de capacidades. Hoje em dia assiste-se a uma tentativa de demonstrar a justiça de uma sociedade composta por elementos manipuláveis e intermutáveis. Por outras palavras: o melhor dos mundos possíveis para tiranos russos ou monopolistas americanos. Os adversários da Etologia acusam-nos muitas vezes de ser antidemocratas, já para não dizer racistas, e rodeiam a sua própria doutrina com o halo da democracia. Ora, o fenómeno foi analisado por um escritor americano, Philip Wylie. Ele afirma que a doutrina pseudodemocrática frui a sua força de uma verdade que foi transformada numa mentira. A verdade é que todos os homens devem ter as mesmas possibilidades para desenvolver cabalmente as suas capacidades. Mas quem é que jamais negou isto? Esta verdade indisputável é torcida um pouco e eles proclamam: «se todos os homens têm as mesmas possibilidades, todos os homens serão seguramente iguais». E isto não é verdade. É absolutamente falso, porque todos os homens são desiguais desde o momento da concepção. Porém há a pretensão de que a igualdade é uma chave, o sine qua non da vida colectiva – o que também é falso. Tanto quanto diz respeito aos manipuladores de massas, o cão de Pavlov ainda é o cidadão ideal.
Hoje em dia já se sente uma certa hostilidade contra a elite intelectual em certos estudantes contestatários. Ora, o igualitarismo – não tenhamos dúvidas – que proíbe um homem de ser mais inteligente que a média, é a morte de todo o desenvolvimento intelectual.

Konrad Lorenz in «Ensaio sobre o fim da nossa Idade» de António Marques Bessa.