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Quando a História não está ao serviço da Verdade


Os nossos historiadores, de há cinquenta anos para cá, têm sido homens de partido. Por sinceros que eles fossem, por imparciais que julgassem sê-lo, obedeciam apenas a uma ou a outra das opiniões políticas que nos dividem. Investigadores ardentes, pensadores vigorosos, punham o seu ardor e o seu talento ao serviço de uma causa. A nossa história parecia-se com as nossas assembleias políticas: distinguia-se nela uma direita, uma esquerda e até situações intermédias. Era um campo fechado onde as opiniões se debatiam. Escrever a história de França representava uma maneira de trabalhar por um partido e de combater um adversário. A história tornou-se assim entre nós uma espécie de guerra civil em permanência. O que ela nos ensinou, sobretudo, foi a odiar-nos uns aos outros.

Fustel de Coulanges in «De la manière d'écrire l'histoire en France et en Allemagne depuis cinquante ans», 1872.

Contra o mito do absolutismo


Voltando ao tema do absolutismo, tomemos o exemplo de França:

Como bem o mostraram os trabalhos de Fustel de Coulanges, o poder de Clóvis e de todos os seus sucessores, era de facto tão absoluto como o dos Reis depois de Luís XIV. Este Rei, na pessoa do qual se encarna o absolutismo, não destruiu em parte alguma os estados provinciais, os quais a monarquia costumava respeitar, quando tinham bastante vitalidade.
José Pequito Rebelo in jornal «Monarquia», Junho de 1917.

Tal como hoje em dia a esquerda acusa de "fascismo" qualquer oposição à sua direita, os liberais do século XVIII e XIX acusavam os Reis de "absolutismo" como forma de os fazer parecer odiosos, para assim melhor passar a sua mensagem revolucionária (maçónica, democrática, republicana). Foram, portanto, os liberais-iluministas quem inventou a tese do "absolutismo", segundo a qual a monarquia do período barroco seria uma degeneração totalitária da monarquia medieval – que segundo eles seria democrática. No entanto, como bem demonstrou Fustel de Coulanges, não existiam diferenças no poder do Rei entre o período medieval e o período barroco. Fica assim mais uma vez desfeita a teoria segundo a qual estávamos perante dois tipos diferentes de Monarquia. Pelo contrário, a natureza e as leis da Monarquia sempre foram as mesmas, até que surgiram os revolucionários maçónicos e introduziram o veneno do constitucionalismo, usurpando a soberania do Rei. Contudo, o pior de tudo é verificar que existem alguns monárquicos que se auto-intitulam como "tradicionalistas", mas que seguem a mesma tese maçónica sobre o absolutismo. Ora, com esses pseudo-tradicionalistas há que ter muita cautela, para que o seu erro não leve os mais desatentos. Que ninguém se engane, numa Monarquia católica, seja em França ou em Portugal, a soberania sempre residiu no Rei, responsável pela governação, e cujo poder e legitimidade vem de Deus, não do Povo por meio das Côrtes, como afirmam os falsos tradicionalistas.