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O irrealismo profundo dos "intelectuais"


Por essas e por outras é que sempre aconselho aos jovens intelectuais a prática de trabalhos manuais. Aprendam a consertar torneiras, a descobrir curto-circuitos e assim terão um exercício de docilidade ao real. Não é só com a cabeça que o homem pensa, é também com as mãos. É preciso nunca ter mudado um fusível, ou nunca ter pregado um botão nas calças, para chegar ao irrealismo profundo dos "intelectuais" que trazem os seus brilhantes talentos para pronunciamentos que deveriam versar sobre coisas simples, como o pão e a água, e por excesso de categorias mentais, deixam de ver o elefante, o piano e outras coisas mais volumosas.

Gustavo Corção in jornal «O Globo», 29 de Agosto de 1970.

Da Imitação de Cristo


Capítulo II – Dos humildes juízos que cada um deve ter de si mesmo

Todos os homens desejam naturalmente saber. Mas de que aproveita o conhecimento sem o temor de Deus? Por certo, melhor é um humilde rústico que serve a Deus, do que um soberbo Filósofo que, deixando de se conhecer a si mesmo, observa os movimentos dos astros. Aquele que perfeitamente se conhece, tem-se por vil, e não se deleita nos louvores humanos. Se eu soubesse tudo o que há no mundo, e não estivesse em graça, de que me aproveitaria este conhecimento diante de Deus, que me há-de julgar pelas minhas obras?

Não tenhas demasiado desejo de saber, porque se acha nele grande distracção e engano. Os Letrados gostam de ser tidos e aplaudidos como tais. Muitas coisas há, que sabe-las, pouco ou nada aproveita à alma: e muito louco é quem atende a outras coisas mais, que às que tocam à sua salvação. As muitas palavras não enchem a alma, mas a boa vida a refrigera, e a pura consciência lhe dá grande confiança em Deus.

Quanto mais e melhor souberes, tanto mais gravemente serás julgado, se não viveres muito santamente. Não te desvaneças pois em alguma arte ou ciência, antes teme o teu saber. Se te parece que sabes muito, tem por certo que é muito mais é o que ignoras. Não presumas de alta sabedoria, mas confessa a tua ignorância. Para que te queres ter em mais que os outros, havendo muitos que te são superiores na ciência da Lei? Se queres saber e aprender alguma coisa com utilidade, deseja ser desconhecido e reputado por nada.

O verdadeiro conhecimento, e desprezo de si mesmo, é a mais útil e a mais sublime lição. Grande sabedoria e perfeição é sentir cada um sempre bem e grandemente dos outros, e de si não presumir nada. Se vires que alguém peca publicamente, ou comete culpas graves, não te deves julgar por melhor; pois não sabes quanto poderás perseverar no bem. Todos somos fracos, mas a ninguém tenhas por mais fraco que tu.

Frei Tomás de Kempis in «Imitação de Cristo», Livro I, 1441.


O mal do seguidismo

Cegos guiando cegos

Torno à ideia que lhe queria dar da Lógica. Digo, pois, que o método de filosofar não se deve seguir, porque o diz este, ou aquele autor: mas porque a razão e experiência mostram que se deve abraçar. Isto é o que eu não posso meter na cabeça a muita gente: porque a maior parte do mundo não examina os princípios das coisas; mas vão uns detrás dos outros como carneiros; sem mais eleição que o costume: e antes querem errar, por cabeça alheia, que acertar pela própria. Persuadem-se que os autores não podem ensinar coisa alguma má: e recebem os tais ditames com a possível veneração. Nenhum toma o trabalho de examinar, se a opinião é boa, ou má: uma vez que a disseram os antigos mestres, é o que basta.

Pe. Luís António Verney in «Verdadeiro método de estudar para ser útil à República e à Igreja: proporcionado ao estilo e necessidade de Portugal», 1746.

O erro do Historicismo


Não foram os Papas que cometeram um erro histórico, ou que estavam prisioneiros de circunstâncias históricas, mas são estes teólogos que estão imbuídos do preconceito historicista, apesar daquilo que possam dizer. Basta-nos ler as referências históricas que trazem Roger Aubert e John Courtney Murray sobre a liberdade religiosa, para comprovar que eles revêem sistematicamente os ensinamentos do Magistério dos Papas do século XIX, segundo um princípio que se pode expressar assim: "Todo o enunciado doutrinal é estritamente relativo ao seu contexto histórico, de tal modo que, mudado o contexto, a doutrina pode mudar".

Não será necessário dizer o quanto este relativismo e este evolucionismo doutrinal é contrário à estabilidade da Rocha de Pedro no meio das flutuações humanas, e o quão contrário é à Verdade imutável que é Nosso Senhor Jesus Cristo.

Estes teólogos, de facto, não são teólogos, nem bons historiadores, pois não têm qualquer noção da Verdade ou de uma doutrina permanente da Igreja, principalmente em matéria social e política; extraviam-se na sua erudição e são prisioneiros dos seus próprios sistemas de interpretação; são pensadores cheios de ideias, mas não são bons pensadores. Razão teve Pio XII ao condenar a sua teologia cambiante, sob o nome de Historicismo:
A isto se soma um falso historicismo que, aferrando-se unicamente aos acontecimentos da vida humana, subverte os fundamentos de toda a Verdade e de toda a Lei Absoluta, tanto no que se refere à filosofia como no que se refere aos dogmas cristãos. (Encíclica «Humani Generis»)

Mons. Marcel Lefebvre in «Do Liberalismo à Apostasia: A Tragédia Conciliar», 1987.

Contra a vã curiosidade


Não procures saber o que excede a tua capacidade, e não especules o que ultrapassa as tuas forças (intelectuais), mas pensa sempre no que Deus te mandou, e nas muitas obras Suas não sejas curioso. Porque não te é necessário ver com os teus olhos o que está escondido.
Não te apliques a esquadrinhar com ânsia as coisas supérfluas, e não indagues com curiosidade as diversas coisas de Deus. Porque muitas coisas te foram reveladas, que excedem a inteligência humana. A muitos enganou a falsa opinião que formavam delas, e as suas conjecturas sobre tais coisas conservaram-nos no erro.

Eclesiástico III, 22-26

Um ensino laico?


Foi dito que o aperfeiçoamento da instrução, tornando mais culto e esclarecido o povo, tê-lo-ia prevenido suficientemente contra as más tendências e o conservado nos limites da honestidade e da rectidão. Entretanto, a dura realidade torna evidentes os resultados da instrução destituída de uma sólida educação religiosa e moral. As inteligências jovens, na sua inexperiência e no arrebatamento das paixões, deixam-se fascinar pelas máximas perversas, particularmente pelas que o jornalismo indisciplinado não hesita em semear com largueza, e que, pervertendo a mente e a vontade, alimentam o espírito de orgulho e insubordinação, que perturba frequentemente a paz da família e da sociedade.

Papa Leão XIII in «Parvenu à la vingt-cinquième année», 1902.


O intelectualismo leva ao irrealismo


Por essas e por outras é que sempre aconselho aos jovens intelectuais a prática de trabalhos manuais. Aprendam a consertar torneiras, a descobrir curto-circuitos e assim terão um exercício de docilidade ao real. Não é só com a cabeça que o homem pensa, é também com as mãos. É preciso nunca ter mudado um fusível, ou nunca ter pregado um botão nas calças, para chegar ao irrealismo profundo dos "intelectuais" que trazem os seus brilhantes talentos para pronunciamentos que deveriam versar sobre coisas simples, como o pão e a água, e por excesso de categorias mentais, deixam de ver o elefante, o piano e outras coisas mais volumosas.

Gustavo Corção in jornal «O Globo», 29 de Agosto de 1970.

Livros e Salvação


Entrei numa livraria. Pus-me a contar os livros que há para ler e os anos que terei de vida. Não chegam, não duro nem para metade da livraria.
Deve certamente haver outras maneiras de se salvar uma pessoa, senão estou perdido.
No entanto, as pessoas que entravam na livraria estavam todas muito bem vestidas de quem precisa salvar-se.

José de Almada Negreiros in «A Invenção do Dia Claro», 1921.