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Ladainha de São Marcos


Ladainha de S. Marcos. No dia 25 de Abril reza-se ou canta-se nas igrejas a Ladainha de Todos os Santos, a que nesse dia se dá o nome de Ladainha de S. Marcos, com ou sem Procissão. É esta a sua origem: No ano de 589 trasbordou o rio Tibre, de tal modo que quase submergiu a cidade de Roma, causando a inundação uma violenta peste, da qual uma das primeiras vítimas foi o Papa Gelásio II. O seu sucessor, S. Gregório Magno, exortou o povo à oração e à penitência, para aplacar a justiça divina que pesava tão duramente. Instituiu preces públicas com procissões pelas ruas da cidade, e ao fim de três dias cessou o flagelo. Em memória deste acontecimento a Igreja continua a fazer preces públicas no dia 25 de Abril, dia em que se celebra a festa do Evangelista S. Marcos.
Segundo alguns autores esta procissão fora instituída para substituir outra pagã que se fazia no mesmo dia em Roma. Nas Igrejas Paroquiais deve-se fazer a Procissão (C. P).

Pe. José Lourenço in «Dicionário da Doutrina Católica», 1945.

A herança do "colonialismo"


Conta-se que, depois do 25 de Abril, um diplomata do Leste europeu visitou Lourenço Marques. Acompanhou-o ali um dos dirigentes da FRELIMO e apontou indignado para as palhotas:
Isto é uma herança do colonialismo!
O diplomata do Leste sorriu e comentou:
Isto aqui é África. A herança do colonialismo está ali.
E apontava para os altos prédios que se erguiam imponentes a umas centenas de metros...

Barradas de Oliveira in «Quando os Cravos Murcham», Volume II – A Vergonhosa Descolonização, 1984.


Relembro:

Um "abrileiro" que não morreu iludido


Coimbra, 20 de Junho de 1975 – Estranha revolução esta, que desilude e humilha quem sempre ardentemente a desejou. A mais imunda vasa humana a vir à tona, as invejas mais sórdidas vingadas, o lugar imerecido e cobiçado tomado de assalto, a retórica balofa a fazer de inteligência. Mas teimo em crer que, apesar de tudo, valeu a pena assistir ao descalabro. Pelo menos não morro iludido, como os que partiram nas vésperas do terramoto.

Miguel Torga in «Diário», Volume XII, 1977.

O roubo dos arquivos da PIDE e o seu envio para a URSS


Um dos episódios mais estranhos nas operações europeias do KGB, durante o meu mandato, ocorreu em meados da década de 1970, em Portugal, não muito depois da queda da ditadura salazarista. O Partido Comunista Português era o terceiro maior na Europa (a seguir aos de Itália e de França), e, em meados da década de 1970, o socialismo e o comunismo gozavam de amplo apoio em Portugal. Na verdade, nós tínhamos agentes infiltrados no serviço português de inteligência, e, no caos que se seguiu à revolução socialista que derrubou o salazarismo, os nossos agentes deram um golpe ousado. Uma noite, com a ajuda de infiltrados e simpatizantes dentro do aparelho de segurança, portugueses ao serviço do KGB conduziram um camião até à sede da PIDE e roubaram uma montanha de dados de informação confidencial, incluindo as listas de agentes da polícia secreta que trabalhavam para o regime salazarista. O camião, cheio de documentos, foi entregue na nossa embaixada em Lisboa e depois enviado de avião para Moscovo, onde os analistas passaram meses debruçados sobre os papéis. Portugal era membro da NATO e havia algum material de interesse limitado sobre as operações militares americanas na Europa. Mas o material realmente valioso foi a lista dos milhares de agentes e informadores que trabalharam para a ditadura salazarista. Mais tarde, os nossos oficiais usaram essas informações para coagir alguns desses agentes a trabalhar para o KGB. Na história dos golpes de espionagem da Guerra Fria, a operação portuguesa não foi uma conquista notável. Mas a audácia de fugir com um camião carregado de material directamente da sede da PIDE, não tinha exemplo. No início da década de 1990, viajei para Portugal, onde as autoridades portuguesas me trataram da forma mais cordial, levando-me a todo o país, entretendo-me abundantemente, incentivando-me a falar com diferentes grupos de pessoas. Fui entrevistado pelos principais meios de comunicação nacionais e não poupei nas palavras sobre o papel do Partido Comunista Português no apoio generoso às operações de espionagem soviética. Fui imediatamente denunciado por Álvaro Cunhal, líder do Partido, como mentiroso e traidor. Falando no dia seguinte em rede nacional, não respondi às acusações de Cunhal. Repeti o que já tinha dito várias vezes: "O Partido Comunista Português é o nosso melhor e mais leal aliado na Europa, e como cidadão e membro do Partido Comunista da ex-URSS, só lhes posso estar grato."

Oleg Kalugin in «Spymaster», 1994.

Foi o 25 de Novembro que consolidou o 25 de Abril


Ao domesticar os agitadores e radicais de esquerda, contra os quais se levantava uma forte reacção popular, a mobilização militar de 25 de Novembro de 1975 permitiu consolidar um regime do tipo liberal-maçónico-republicano, integrando e assimilando as diversas sensibilidades políticas no mesmo sistema democrático, pluralista e partidário. O General Galvão de Melo esclarece-nos:

O 25 de Novembro, montado e conduzido com certa habilidade táctica, só enganou e engana os desatentos. De facto, o 25 de Novembro não se fez para afastar os comunistas dos lugares de comando, bem pelo contrário, o seu objectivo primário, que cumpriu, foi parar a violenta reacção, espontânea, popular, que grassava por todo o País, contra os comunistas: reacção que vinha muito maltratando os militantes de par, com destruição das sedes. Enganados, os portugueses pararam a acção purificadora. O outro objectivo, também cabalmente cumprido, foi alcandorar o Major Ramalho Eanes a General Chefe do Estado-Maior do Exército, o qual, no acto de posse, várias vezes enalteceu o socialismo, sem bem se perceber se referia o socialismo dos socialistas, ou o socialismo dos comunistas.

General Galvão de Melo in «Um Militar na Política», 2001.

O 25 de Novembro foi a consolidação do 25 de Abril


Ao domesticar os agitadores radicais de esquerda, contra os quais se estava a levantar uma reacção popular, a mobilização militar de 25 de Novembro de 1975 permitiu consolidar um regime do tipo maçónico-liberal-pluralista, integrando e assimilando as várias sensibilidades políticas no mesmo sistema democrático. É o próprio Mário Soares quem nos confirma:
E, no entanto, [o 25 de Novembro] é, na história contemporânea de Portugal, uma data tão importante, para a afirmação da democracia pluralista, pluripartidária e civilista que hoje temos, como a Revolução dos Cravos.

Mário Soares in revista «Visão», 2 de Dezembro de 2010.

25 de Abril: São Marcos e a Batalha de Trancoso


Na vila de Trancoso (uma das mais célebres da Beira) o milagroso aparecimento do Evangelista S. Marcos, naquela tão renhida como sanguinolenta batalha, que ali houve entre Portugueses e Castelhanos, governando o Mestre d'Avis, na qual se viu pelejar de nossa parte visivelmente, em um ginete pombo [cavalo alado], trocando a pena em lança e o livro em adarga. E tantos dos inimigos experimentaram o rigor de seu luzente ferro, que ficaram os campos alastrados de corpos mortos, voltando muitos vergonhosamente as costas, com grave dano seu e crédito nosso. E para memória de tão assinalado favor, deixou aquele ilustre e valeroso General [S. Marcos], esculpidas numa viva laje, as ferraduras do brioso ginete [cavalo] em que vinha. A quem os moradores da dita vila reedificaram logo (em sinal de agradecimento) sua antiga ermida, que os Castelhanos haviam abrasado, a qual persevera ainda com a pintura deste furor e bélico conflito: recorrendo todos (de então até agora) ao sagrado Evangelista no tempo dos maiores apertos e necessidades, como a singular asilo e defensor seu. Pela qual razão vai o Senado todos os anos, com solene procissão, a ela neste dia, em que se renova a lembrança desta maravilhosa vitória.

Pe. Jorge Cardoso in «Hagiológio Lusitano dos Santos e Varões ilustres em virtude, do Reino de Portugal e suas conquistas», Tomo II, 1657.


25 da Perfídia


Em 25 de Abril ocorreu a revolução da perfídia. Toda ela estava viciada, chocou-se um ovo de monstro no nosso ventre, que quando a casca se partiu, rapidamente cresceu e nos quis devorar. Os portugueses resistiram e fizeram-lhe frente, mas dos seus tentáculos cortados escorreu um visco venenoso que ainda hoje se agarra a tudo e nos tolhe os movimentos. Fomos aldrabados por "heróis de pacotilha" que se encheram de honras e de dinheiros fáceis. O sonho rapidamente se transformou em pesadelo e aqueles que já acordaram rangem os dentes de impotência. Era bom voltar a sonhar com outros protagonistas: a verdade, a humanidade e a justiça. Mas dizem-nos dos bastidores que essa peça não está no repertório desta companhia de teatro. Só temos guarda-roupa para interpretar peças de vilões e de perfídia.
Teremos de continuar com a "revolução da perfídia", peça estreada há mais de trinta anos, de autor estrangeiro, sempre com protagonistas que se esquecem de olhar para o público, nem nisso estão interessados, pois o público, embora remoendo impropérios, não tem outro espectáculo para ver.
(...)
Existem ainda umas dúzias de pessoas, e de grupos, interessados em manter vivas as festividades do 25 de Abril. São todos os que querem fazer passar a ideia de que foram figuras de proa no pronunciamento que derrubou o salazarismo/marcelismo, e que publicitam anualmente o seu feito às novas gerações; querem ser conhecidas como fazedoras de História.
Mas, se atentarmos na lógica da tese apresentada neste livro, melhor fora que se escondessem para ajudar a esquecer uma revolução e uma data que nada teve de patriótica nem de libertadora. Na verdade, a revolução do 25 de Abril foi planeada por estrangeiros que pretendiam, primeiro, ganhar o controlo das então portuguesas terras ultramarinas, e, por fim, estabelecer no nosso País uma linha avançada do comunismo na Europa. Os encenadores estrangeiros fizeram entrar em palco os actores portugueses na altura que mais lhes conveio e eles limitaram-se a apresentar a tragicomédia e vir à boca de cena receber os aplausos, sem se darem conta do que se passava nos bastidores, nem dos interesses do público.

General Silva Cardoso in «25 de Abril de 1974: A Revolução da Perfídia», 2008.


O 25 de Abril dos bons


25 de Abril – Dia de São Marcos evangelista


25 de Abril de 1385 – Aparição de S. Marcos e vitória em Trancoso


25 de Abril de 1775 – Nascimento da Rainha D. Carlota (Joaquina)


25 de Abril de 1828 – D. Miguel é proclamado Rei de Portugal


25 de Abril de 1991 – D. António de Castro Mayer parte desta vida para a outra

Para onde foi a riqueza acumulada no Estado Novo?


No dia 19 de Julho de 2011 o jornal "Público" divulgava a seguinte notícia:

Nas últimas três décadas, mais concretamente de 1974 a 2006, Portugal desfez-se de mais de metade das suas reservas de ouro, amealhadas durante o Estado Novo. Nesse período de tempo, o total de reservas passou de 865,9 toneladas, em 1974, para 382,5 toneladas em 2006.
As vendas iniciaram-se após o 25 de Abril, numa altura em que o primeiro recurso utilizado foi as divisas acumuladas, recorda o economista Silva Lopes. Em apenas três anos, foram vendidas mais de 100 toneladas. Seguiram-se cinco anos de alguma contenção, mas em 1983 o país não tinha quem lhe emprestasse dinheiro e, antes do apoio do Fundo Monetário Internacional, recorreu ao ouro como garantia de empréstimos bancários de curto prazo. A amortização desses empréstimos foi feita através da venda de ouro. Nos quatro anos entre 1983 e 1987 foram vendidas 63 toneladas.
As reservas mantiveram-se estáveis na década que passou entre 1987 e 1997, iniciando uma descida significativa a partir daí. Entre 1998 e 2006 Portugal vendeu 242 toneladas de ouro, reduzindo as reservas para as actuais 382,5 toneladas. O Banco de Portugal justificou essas vendas como gestão de activos, para aproveitar a subida do preço do ouro nos mercados internacionais. Entretanto, nos últimos cinco anos, Portugal não vendeu ouro.

Memórias do 25 de Abril


Pela via aritmética, clamando que são eleitos pelo voto popular, vemos alçados ao poder analfabetos, traidores e desonestos que conhecemos de longa data. Alguns nem serviam para criados de quarto e chegam a presidentes de câmara, a deputados, a governadores civis e mesmo, quando não querem, a ministros. Quem pode governar bem um país se não tem competência nem preparação para isso? Mas os partidos ordenam que assim se proceda e o interesse nacional não reage em contrário.

Marcello Caetano, citado por Joaquim Veríssimo Serrão in «Marcello Caetano: Confidências no Exílio», 1985.

De revolução em revolução: 1820, 1910, 1974...


Pintáveis a nação reduzida à última miséria, para melhor a subjugardes com promessas de grandes felicidades. Ora comparai o estado em que ela se achava, quando fazíeis essas declamações, com aquele em que a deixastes, quando vo-la arrancaram das mãos, morrendo de fome, esgotadas todas as fontes de prosperidade, a dívida pública elevada ao duplo ou triplo, sem comércio, sem indústria, dividida em partidos, perdidas quase todas as possessões ultramarinas, oprimida, e praguejando-vos em altos gritos. Eis a vossa regeneração! Eis o fruto das vossas luzes do século: luzes do inferno, em que as fúrias acendem as suas tochas, para abrasarem o mundo!

José Acúrsio das Neves in «Cartas de um Português aos seus Concidadãos sobre diferentes objectos de utilidade geral e individual», Carta XI, 1823.

A face da República


Muitas vezes fui vencido em discussões dentro do meu próprio partido. Nunca dei uma excessiva importância aos debates ideológicos e sempre condicionei muito mais a minha acção pelas relações políticas e tácticas no terreno, por forma a, pragmaticamente, levar a água ao meu moinho.

Mário Soares in jornal «Diário de Notícias», 24 de Abril de 1984.

Oração Democrática


Há tantos judas vivos, que a minha ciência
não consegue explicar, de nenhuma maneira,
se os judas estão vivos por inconsciência
ou se por cada um não ter sua figueira.

Uni-vos! Proletários de herdades colectivas,
que entreteneis o ócio em meio de azinhais:
mandai a educação política às ortigas
e plantai, sem demora, cem mil figueirais.

Gil Roseira Cardoso Dias in «Leva de Abril», 2003.

O 25 de Abril e o petróleo de Cabinda


Quanto mais o tempo passa, mais admiro Salazar. Conto-lhe uma história: numa altura em que Salazar estava doente com uma pneumonia, Supico Pinto disse-lhe que tinha uma excelente notícia: havia sido descoberto petróleo em Cabinda. Salazar, debaixo da sua pneumonia, disse: "Só nos faltava mais essa. Estamos tramados!" Já sabia que isso ia atrair os americanos e a CIA. Foi isso que derrubou o regime.

José Hermano Saraiva in jornal «O Diabo», edição de 8 de Junho de 2004.

Rebentou um cano de esgoto


Na manhã de 25 de Abril de 1974 um amigo do professor Bissaia Barreto telefonou-lhe: rebentara uma revolução, que já se declarava triunfante. O velho mestre de Coimbra, que fora dentro do Estado Novo o cabecilha da corrente democrática, teve apenas este comentário: – «Olhe, meu amigo, rebentou um cano de esgoto».

Barradas de Oliveira in «Quando os Cravos Murcham», 1975.