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A lei


Parece-me então que, na opinião dos mais eminentes sábios, a lei não é o produto da inteligência humana, nem da vontade popular, mas algo eterno que rege o universo por meio de sábios mandatos e sábias proibições. Logo – como costumavam dizer – esta lei que é, por sua vez, a primeira e a última, identifica-se com a mente divina, enquanto esta trabalha racionalmente, dando ou tirando impulso a todas as coisas. Portanto, é legítimo celebrar uma lei que é o presente dos deuses ao género humano e que é a razão e a inteligência do sábio que, no entanto, é capaz de mandar e proibir.

Cícero in «De Legibus», séc. I a.C.

Pensador


Pensador – Entre os Republicanos ninguém merece este nome, senão aquele que, à força de pensar, tem arrojado de seu pensamento a Deus, a Religião, a imortalidade da alma, e tudo quanto há e pode haver de bom. Aristóteles, Platão, Cícero, etc. foram tidos até agora loucamente por sublimes pensadores; das primeiras noções naturais tiraram eles o verdadeiro resultado, e seguindo o fio do raciocínio, chegaram a dar com a existência de Deus, com a essência de Sua natureza, com a moral e a imortalidade da alma, etc. Porém que estúpido modo de pensar! Para chegar ao mais alto e sublime grau de pensadores tomaram os Filósofos modernos o caminho bem ao contrário. Começam por Deus; porém para anular a Sua existência, ou admiti-lo por mera cerimónia. Desce-se logo depois com a maior ligeireza até anular tudo, e assim vai a pique a Religião, a Moral, etc. E quando se há chegado a transtornar o juízo, de modo que chegue a crer que os homens, depois de uma vida ocupada toda em comer, beber, e zurrar como os burros, merecem com o livre-arbítrio e com a razão, o mesmo que eles, que não têm nem uma, nem outra coisa; e que depois da vida presente nada há a esperar, e que todos morremos como asnos, então sim, é quando filosoficamente se merece o sublime epíteto de pensador, de filósofo, e de iluminado. E haverá todavia homens, que depois disto, não queiram confessar que o género humano deve viver sumamente reconhecido às brilhantes luzes da Filosofia moderna, e a seu modo sublime de pensar?!

D. Frei Fortunato de São Boaventura in «Novo Vocabulário Filosófico-Democrático, indispensável para todos os que desejem entender a nova língua revolucionária», Nº 4, 1831.

O traidor


Um povo pode sobreviver aos seus tolos e até mesmo aos ambiciosos. Mas não pode sobreviver à traição a partir de dentro. Um inimigo às portas é menos formidável, porque é conhecido e carrega o seu estandarte abertamente. Mas o traidor move-se livremente entre aqueles dentro de portas, os seus sussurros maliciosos percorrem todas as ruas e são ouvidos até nos corredores do próprio governo. Pois o traidor não parece um traidor; ele fala num tom familiar às suas vítimas e usa a sua face e os seus argumentos, ele apela à baixeza que jaz nas profundezas dos corações dos homens. Ele apodrece a alma de uma nação, ele trabalha secretamente e a coberto da noite para minar os pilares da cidade, ele infecta o corpo político para que este não possa mais resistir. Um assassino é menos de temer.

Cícero em discurso ao Senado Romano, 58 a.C.

O moral e o vantajoso


Jamais alguma coisa é vantajosa, se ao mesmo tempo não é moralmente boa, e não por ser vantajosa é moralmente boa, mas por ser moralmente boa é vantajosa.

Cícero in «De Officiis», 44 a.C.

O pior inimigo é o interno


Uma nação pode sobreviver aos seus loucos, mesmo aos ambiciosos. Mas não consegue sobreviver à traição vinda de dentro. Um inimigo às portas é menos formidável, pois ele é conhecido e transporta a sua bandeira à vista. Mas o traidor movimenta-se livremente entre aqueles que estão dentro de portas, o seu murmúrio malicioso percorre todas as ruelas e é ouvido nos corredores do governo, ele próprio. Pois o traidor não aparenta ser traidor; ele fala de um modo familiar às suas vítimas, e desgasta a sua face e os seus argumentos; ele apela à vileza que mora fundo no coração de todos os homens. Ele apodrece a alma de uma nação; ele trabalha secretamente e oculto na noite, a fim de minar os pilares da cidade, ele infecta o corpo político a fim de que este não mais possa resistir. Um assassino é menos de temer.



Lei Natural


Se a vontade dos povos, os decretos dos príncipes, as sentenças dos juízes, constituíssem o direito, seriam então de direito o latrocínio, o adultério, a falsificação dos testamentos, desde que aprovados pelo sufrágio e beneplácito das multidões.
Se fosse tão grande o poder das sentenças e das ordens dos insensatos, que chegassem estes ao ponto de alterar, com suas deliberações, a natureza das coisas, por que motivo não poderiam os mesmos decidir que o que é mau e pernicioso se considerasse bom e salutar? Ou por que motivo a lei, podendo transformar algo injusto em direito, não poderia do mesmo modo transformar o mal em bem? É que, para distinguir a lei boa da má, outra norma não temos senão aquela da natureza. Não apenas o justo e o injusto são discernidos pela natureza, mas também tudo o que é honesto e o que é torpe. Esta nos deu, assim, um senso comum, por ela insculpido em nosso espírito, para que identifiquemos a honestidade com a virtude e a torpeza com o vício.
Pensar que isso depende da opinião de cada um, e não da natureza, é coisa de louco.

Cícero in De Legibus.