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Bizarro sucesso nas portas de Marrocos


Diogo Lopes, Alcaide de Safim, com quatrocentos e trinta e sete de cavalo, chegou neste dia [30 de Outubro], ignoramos o ano, a uns aduares pouco mais de uma légua de Marrocos [Marraquexe], onde matou muitos Mouros, cativou cinquenta e três, arrebanhou dez mil ovelhas, e trezentos e trinta camelos. Posta em seguro esta preza, foram alguns dos nossos Cavaleiros bater com os cotos das lanças nas portas de Marrocos, bradando: Viva El-Rei Dom Manuel Nosso Senhor. Foi tal o susto da Cidade, que o seu Rei em pessoa, com a maior parte da sua gente, saiu aos nossos Cavaleiros, os quais se defenderam de maneira, que matando quatro dos Mouros, mais bizarros, que se adiantaram a acometer os nossos, se recolheram estes aos Aduares, onde os esperavam os mais, e daí a Safim com a referida preza, onde foi muito celebrado este sucesso.

Pe. Francisco de Santa Maria in «Ano Histórico, Diário Português: Notícia Abreviada de pessoas grandes e coisas notáveis de Portugal», 1744.

Gloriosa facção em África


No mesmo dia [1 de Julho], ano de 1541, saiu Dom Rodrigo de Castro da praça de Safim [em Marrocos] com cento e oitenta lanças, e proporcionado número de infantes, e deu improvisadamente sobre mais de cinquenta aduares [acampamentos] de Mouros, e depois de uma leve resistência, os pôs em temerosa confusão e precipitada fugida. Rebanhou quinze mil cabeças de gado menor, mil camelos, duzentos bois e oitenta pessoas, e com este despojo se fez na volta de Safim; Recobrados, porém, os Mouros à vista do nosso pouco poder e unidos brevemente em grande número, nos começaram a cercar por todas as partes, com fúria tão desesperada, que a troco de matar, não receavam morrer; Por todos os lados era vanguarda para a nossa gente, a qual com repetidas cargas e vigorosas voltas da cavalaria, foi rebatendo a cada passo novas e furiosas sortidas, e assim ia ganhando terra aos palmos, sem alguma turbação ou desordem; Caminharam em combate sucessivo cinco léguas (não era menor a distância) sempre com firmeza inexpugnável e sem outra perda mais que a de dois soldados e poucos feridos, ficando mortos dos Mouros mais de oitenta; Entraram finalmente gloriosos e triunfantes com toda a presa pelas portas de Safim; Foi este um dos mais galhardos sucessos que em África lograram nossas armas: Porque em marcha tão dilatada, se conservou acometido de imensa multidão de Mouros o nosso pequeno esquadrão, como se fora uma torre portátil, tão forte nos peitos dos defensores, como outras em parapeitos e muralhas.

Pe. Francisco de Santa Maria in «Ano Histórico, Diário Português: Notícia Abreviada de pessoas grandes e coisas notáveis de Portugal», 1744.

O famoso Lopo Barriga


O Nobre Cavaleiro e famoso Adail Lopo Barriga militou em África com merecido aplauso. O seu nome era o terror dos infiéis; Com ele amedrentavam as mães aos filhos. Achou-se na defesa de muitas Praças e na expugnação de outras, sempre com assinalado valor; Repetia as entradas com tão impetuosas e não esperadas invasões, que não deixava aos Mouros, nem tempo, nem lugar livre de sobressalto. De uma vez chegou a pregar o seu punhal nas portas de Marrocos [=Marraquexe]; Acção, posto que inútil, gloriosa. A sua ousadia, bem-sucedida tantas vezes, de uma o levou ao cativeiro. Vinham muitos Mouros nobres de terras mui distantes a ver este milagre do valor; Sucedeu que um, por desprezo, lhe pegou da barba, mas pagou o atrevimento, porque pegando Lopo Barriga (ainda que carregado de ferros) de um pau, que ali achou, lhe deu tamanha pancada na cabeça, que logo lhe caiu morto aos pés. Foi por esta causa tão cruelmente açoitado, que a camisa lhe ficou moída dos golpes e despedaçada: Assim a mandou a El-Rei Dom João II, o qual logo procurou e conseguiu o seu resgate. Vindo pouco depois a Lisboa, sucedeu perguntar um vez o mesmo Rei a certos Fidalgos que lhe assistiam: Se Lopo Barriga fora ferido muitas vezes? Respondeu um com mais inveja que juízo: Senhor, Lopo Barriga é muito mofino, sempre o ferem. Poucos dias depois, indo El-Rei ao campo e correndo um cavalo, caiu; E falando-se à noite na queda, estando presente Lopo Barriga, disse para El-Rei: Senhor, quem corre cai, e quem peleja ferem-no; E feriu com estas palavras, não pouco, ao Fidalgo que se achava presente, e que em tom de graça, o quisera desluzir, e se honrou e acreditou a si mesmo: Porque só quem peleja valeroso e constante, recebe feridas, e estas, recebidas na guerra, são a verdadeira prova do valor e o mais ilustre timbre da nobreza. Voltou outra vez a África, e seguindo sempre com o mesmo esforço aquela guerra, faleceu neste dia [17 de Fevereiro], deixando imortal nome de valeroso e destemido.

Pe. Francisco de Santa Maria in «Ano Histórico, Diário Português: Notícia Abreviada de pessoas grandes e coisas notáveis de Portugal», 1744.

Transladação dos Santos Mártires de Marrocos


No tempo que entraram em Marrocos os cinco Mártires, que da mesma Cidade tomaram o nome, assistia nela o Infante Dom Pedro, filho de El-Rei Dom Sancho I, por discórdias que teve com seu irmão El-Rei Dom Afonso II. Sabida por ele a morte e martírio dos Santos, fez esquisitas diligências por haver os seus sagrados corpos, e logrou o intento com grande felicidade: Alegre com tamanho tesouro, partiu com eles para Portugal, e por sua intercessão, o livrou Deus na jornada de muitos e evidentes perigos: Chegou ao Reino e entrou em Coimbra neste dia [10 de Dezembro], ano de 1219, e os sagrados corpos foram recebidos naquela ilustre Cidade (então Corte) com soleníssima pompa, e depositados no Real Convento de Santa Cruz, onde os inumeráveis prodígios que obram cada dia, são outras tantas provas dos grandes poderes que tem para com Deus a sua intercessão.

Pe. Francisco de Santa Maria in «Ano Histórico, Diário Português: Notícia Abreviada de pessoas grandes e coisas notáveis de Portugal», 1744.

Conquista da cidade de Casablanca


No ano de 1468 passou a África o Infante Dom Fernando, Irmão de El-Rei Dom Afonso V, com uma poderosa Armada, em que levava dez mil combatentes, e neste dia [18 de Novembro], no ano referido, conquistou a Cidade chamada Anfá, ou Anafé, situada na Costa do mar Atlântico, donde os Mouros infestavam continuamente as fronteiras de Espanha [Península Ibérica], e depois de saqueada, a mandou arrasar: Desta Cidade veio a Portugal o trigo que, por ela, se chama Anafil.

Pe. Francisco de Santa Maria in «Ano Histórico, Diário Português: Notícia Abreviada de pessoas grandes e coisas notáveis de Portugal», 1744.

16 de Janeiro: Santos Mártires de Marrocos


Os Santos Mártires de Marrocos, Berardo, Pedro, Acúrsio, Adjuto e Otão eram franciscanos, e foram mandados a pregar em África pelo próprio S. Francisco de Assis. Detidos pelos mouros, e conduzidos à presença do Miramolim, este, em ódio à fé de Cristo, por suas próprias mãos lhes deu a morte. Depois de andarem por muito tempo errantes, os corpos dos Santos Mártires foram depositados no Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra, onde ainda hoje se conservam com sumo respeito e veneração.

Fonte: «Missal Romano Quotidiano», 1963.


O Purim de Alcácer-Quibir


Ontem, dia 4 de Agosto, aniversário da Batalha de Alcácer-Quibir, foi um dia de má memória para Portugal, mas um dia de boa memória para os judeus do Magrebe. Pois ontem os judeus de Marrocos celebraram o anual Purim, uma festa religiosa que comemora o salvamento "miraculoso" dos judeus, vítimas de uma suposta perseguição dos portugueses. Segundo a lenda judaica, D. Sebastião teria jurado, antes de embarcar para Alcácer-Quibir, converter à força todos os judeus do Magrebe. Mas estes anteciparam-se, e através de dois soldados desertores, souberam das supostas intenções do Rei de Portugal. Assim, como forma de evitar a dita "crueldade", os judeus teriam feito um dia de jejum e oração. Tudo isto foi escrito numa Meguilá, rolo em pergaminho manuscrito, de que ainda existem alguns exemplares em Israel, e provavelmente em outros países. São lidas nas sinagogas e nas famílias, no dia a que eles chamam "Purim Sebastiano", ou "Purim de Sebastian YSV" (abreviatura de "Que se apaguem o seu nome e a sua memória"). É isto que os judeus de Tânger e de Tetuão comemoram todos os anos naquela data.