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Aniversário dos Reis D. Fernando e D. Duarte


Neste dia [31 de Outubro], em segunda-feira, ano de 1345, nasceu em Coimbra o Infante Dom Fernando, depois Rei de Portugal; foi o terceiro e último parto, de que faleceu a Infanta Dona Constança, mulher do Infante Dom Pedro, depois Rei, primeiro do nome, de Portugal. Já falámos do seu Reinado.


No mesmo dia [31 de Outubro], ano de 1391, nasceu em Viseu o Infante Dom Duarte, Rei de Portugal, filho dos Reis Dom João I e Dona Filipa, que lhe puseram aquele nome, em memória de seu bisavô materno Duarte III de Inglaterra.

Pe. Francisco de Santa Maria in «Ano Histórico, Diário Português: Notícia Abreviada de pessoas grandes e coisas notáveis de Portugal», 1744.

Aniversário da morte d'El-Rei Dom Fernando


E sentindo sua morte mui cerca, sendo já manifesto, requereu que lhe dessem o Sacramento; e quando lhe foi apresentado, e contaram os artigos da Fé, como é costume, dizendo-lhe se cria assim tudo e aquele Santo Sacramento que havia de receber, respondeu ele e disse:
– «Tudo isso creio, como fiel cristão, e creio mais que Ele [Deus] me deu estes Reinos para os manter em direito e justiça; e eu, por meus pecados, o fiz de tal guisa que Lhe darei deles mui mau conto».
E dizendo isto, chorava mui de vontade, rogando a Deus que lhe perdoasse; e choravam com piedade dele, todos os que presentes eram. E assim com grande reverência e devoção recebeu o Santo Sacramento, jazendo vestido no hábito de S. Francisco. E quando veio aos vinte e dois de Outubro da Era já escrita de mil e quatrocentos e vinte e um, numa quinta-feira à noite, começou ele de se aficar, e lidando o espírito com a carne, naquela áspera hora, por se partir dela, em breve espaço desamparou o corpo e ele deu a alma a Deus, a Quem, por Sua mercê, praza de a fazer reinar com os Seus santos.
E viveu El-Rei D. Fernando cinquenta e três anos e dez meses e dezoito dias, e reinou dezasseis anos e nove meses, com grande trabalho de si e de seu povo.

Fernão Lopes in «Crónica d'El-Rei Dom Fernando», 1450.

Portugal reconhece Urbano VI como verdadeiro Papa


Flutuava a Barca de São Pedro na direcção de dois Pilotos, arrogando cada um deles a si o governo dela: Eram estes Urbano VI e Clemente VII. E a Cristandade se achava dividida no séquito de um e outro: Os Portugueses se conservavam neutrais, posto que pela maior parte se inclinavam para Clemente. Porém, como então se achava a nossa Corte cheia de Príncipes Ingleses; cujo Rei seguia as partes de Urbano, persuadiram estes a El-Rei de Portugal que tratasse de tomar resolução em um ponto de tanta importância, para o bem e sossego das consciências dos seus Vassalos. Disputou-se logo a controvérsia com grande ardor, e finalmente assentaram os Prelados e homens mais doutos do Reino que Urbano era (como era sem dúvida) o verdadeiro Pontífice; Em consequência desta resolução, El-Rei D. Fernando e toda a Corte, neste dia [29 de Agosto], ano de 1381, lhe prometeram e juraram solenemente obediência na Catedral de Lisboa, pondo as mãos sobre uma Hóstia consagrada, estilo com que se prometiam e juravam naquele tempo as coisas de maior consideração; E logo todo o restante do Reino seguiu o exemplo de El-Rei e da Corte.

Pe. Francisco de Santa Maria in «Ano Histórico, Diário Português: Notícia Abreviada de pessoas grandes e coisas notáveis de Portugal», 1744.

Os Reis como ministros de Deus


Os Reis sabiam bem que os Reinos não se lhes encontravam à frente, senão para os dirigir em bondade e em direitura. Tudo se resume, afinal, com a mais vigorosa das simplicidades, nas últimas palavras de D. Fernando sobre o leito de morte, segundo o texto de Fernão Lopes: "Tudo isso creio como fiel cristão, e logo creio mais que Ele [Deus] me deu estes Reinos para os manter em direito e justiça; e eu por meus pecados o fiz de tal guisa, que lhe darei deles muito mau conto: e em dizendo isto, chorava com muita vontade, rogando a Deus que lhe perdoasse". À Realeza anda assim ligado um património espiritual de que não pode abdicar, sem abdicar da sua íntima razão de ser.

António Sardinha in «Ao Ritmo da Ampulheta», 1925.