Mostrar mensagens com a etiqueta Costumes. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Costumes. Mostrar todas as mensagens

O bioco algarvio


O bioco, este extraordinário bioco, é digno de crónica para esclarecimento e regalo do leitor estranho a esta região.
O bioco desenha-se em dois traços. Um capote, de farto cabeção, pesado e tão abundante de pano, que por completo encobre o corpo amplamente e até aos pés, encimando-se, e esta é a característica proeminente da estranha vestidura, por um chale preto, que, envolvendo e rebuçando rosto e cabeça, se enrola em forma pontiaguda, lembrando o bico enorme de uma ave fantástica e tenebrosa. Este tubo cónico termina por um pequeno orifício, fresta única para a respiração e raios visuais. De resto fica hermeticamente fechado o corpo humano que se encarcera nesta farpela impenetrável a toda as curiosidades, inacessível a todos os contactos, porque o bioco é inviolável, como coisa sagrada reverentemente velada em arca santa.

Júlio Lourenço Pinto in «O Algarve», 1894.

Pão por Deus


Na vila de Alpedriz, minha terra natal, é costume, assim como talvez em todo o nosso Reino, saírem os rapazes, pela festa de Todos os Santos, a pedir a oferta (chamada aqui pão por Deus) que os lavradores abastados costumam então fazer-lhes, de merendeiras, tremoços, maçãs, nozes, ou outra qualquer fruta, ou coisa semelhante, própria para contentar a rapaziada miúda. Até aqui não temos nada de singular em Alpedriz; mas em que a temos, e não pouco, é no modo porque os rapazes aqui formulam a sua petição, e na praga que dirigem aos lavradores que lhes recusam este mimo, a que se julgam com direito.

PETIÇÃO

Pão, pão por Deus
À mangaróla;
Encham-me o saco,
E vou-me embora.

PRAGA

O gorgulho, gorgulhóte
Lhe dê no pote,
E lhe não deixe farelo
Nem farelóte.

Teotónio José de Figueiredo Costa in «Almanaque de Lembranças Luso-Brasileiro para o ano de 1861», 1860.

Da Tourada


Pois é verdade, tenho esse fraco português, prefiro touros. Cada raça possui o seu sport próprio, e o nosso é o touro: o touro com muito sol, ar de dia santo, água fresca, e foguetes... Mas sabe o Sr. Salcede qual é a vantagem da tourada? É ser uma grande escola de força, de coragem e de destreza... Em Portugal não há instituição que tenha uma importância igual à tourada de curiosos. E acredite uma coisa: é que se nesta triste geração moderna ainda há em Lisboa uns rapazes com certo músculo, a espinha direita, e capazes de dar um bom soco, deve-se isso ao touro e à tourada de curiosos...
O marquês entusiasmado bateu as palmas. Aquilo é que era falar! Aquilo é que era dar a filosofia do touro! Está claro que a tourada era uma grande educação física! E havia imbecis que falavam em acabar com os touros! Oh, estúpidos, acabais então com a coragem portuguesa!...

Eça de Queirós in «Os Maias», 1888.

Antigo costume português na noite de Todos-os-Santos


Na noite da véspera de Todos-os-Santos, era costume na Idade Média, percorrerem homens as ruas de várias cidades, a tocar uma campainha e a gritar de espaço a espaço: "Levantai-vos, gente que dormis, rogai a Deus pelos finados; pensai na morte; pensai na morte."

Fonte: «Almanaque de Lembranças Luso-Brasileiro», 1862.

As Alminhas


«As almas do Purgatório são socorridas pelos sufrágios dos fiéis, principalmente pelo sacrifício do Altar», declarou o Concílio de Trento, prescrevendo ainda «aos Bispos que se empenhem diligentemente para que a sã doutrina sobre o Purgatório, transmitida pelos Santos Padres e pelos Sagrados Concílios, seja acreditada, mantida, ensinada e prégada por toda parte» (sessão de 3 e 4 de Dezembro de 1563).
Foi da devoção popular às almas do Purgatório, sustentada pelas disposições de Trento, que surgiram em Portugal as Alminhas, pequenos retábulos ou nichos, pintados, esculpidos ou azulejados, que se encontram sobretudo pelos caminhos e estradas rurais, edificados pela fé dos mais simples, a recordar aos vivos a obrigação de sufragarem os mortos.
«As alminhas são uma criação genuinamente portuguesa e não há sinais de haver este tipo de representação das almas do Purgatório, pedindo para os vivos se lembrarem delas para poderem purificar e subir até ao Céu, em mais lado nenhum do mundo a não ser em Portugal», diz o investigador e professor de História, António Matias Coelho, ao jornal Público (2 de Novembro de 2009).
Apesar da fé dos cristãos estar hoje muito abalada, ainda é possível encontrar em Portugal quem se lembre das Alminhas, sobretudo no dia dos Fiéis Defuntos, oferecendo-lhes orações, velas, flores e algumas esmolas.

O moço de forcado


Então, o forcado. Ele disgrega-se do grupo dos valentes, que nessa manhã chegaram de Alcochete ou de Aldeia Galega [hoje Montijo], e só, no campo desafogado, adianta-se para o bicho em costume de gala: jaleca de ramagens, calção d'anta, cinta encarnada, meias bordadas, e sapatos de prateleira. O seu aspecto cheira ao sol da lezíria, ao rosmaninho da charneca e à terra revolvida pelas charruas. Palpita-lhe a força em cada músculo, e canta-lhe a saúde, vermelha e salgada em cada poro da pele. O touro investe com ele pela barriga. Ele empolga o touro de frente por entre os cornos, escarrancha-se-lhe na cara e afocinha-o no chão.
Não havia no mundo espectáculo mais nobremente sugestivo, mais virilmente belo, mais legitimamente português. Os que governam Lisboa, proibindo as pégas, suprimiram o moço de forcado. Depois demoliram a praça. Acabaram por fim com as tardes de touros em Lisboa.
De sorte que é por esse Ribatejo fora, as corridas da Alhandra, de Vila Franca de Xira, de Samora Correia, de Salvaterra de Magos, que eu terei de ir mais este Verão, de jaleca ao ombro, faca no bolso e uma melancia debaixo do braço, refazer-me de nacionalidade, de força, de literatura e de poesia na sagrada tradição da minha terra.
Às razões de brandura de costumes, de humanidade, de filosofia, de civilização, invocadas pelos que dirigem esta jigajoga, eu, humilde intérprete do povo, só uma coisa oponho: é que maus raios partam o zelo tísico de tanto maricas, de tanto chochinha, de tanto lambisgóia!

Ramalho Ortigão in «Álbum de Costumes Portugueses», 1888.