Mostrar mensagens com a etiqueta Milagres. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Milagres. Mostrar todas as mensagens

Batalha de Valdevez


Pelos anos de 1128 veio El-Rei de Leão e Castela Dom Afonso VII, chamado Emperador, contra El-Rei (então Infante) Dom Afonso Henriques. Avistaram-se neste dia [25 de Junho] na Veiga de Valdevez, que está entre a Vila dos Arcos e a freguesia de Santo André de Guilhadeses. Ali se deu batalha, e foi uma das bem disputadas daqueles tempos. Venceram os Portugueses com tanta perda dos inimigos, que por ela se chama ainda hoje àquela Veiga da Matança. Deu o Infante insignes provas de valor, e todos os seus obraram maravilhas. El-Rei de Leão escapou ferido, ficando prisioneiros sete Condes e os principais senhores que o acompanhavam. Colheu-se entre os despojos uma grande relíquia do Santo Lenho, que se depositou na Igreja de Grade, distante quase uma légua do lugar da batalha, e se conserva ainda hoje com memória continuada de muitos milagres; e como abonado testemunho daquela famosa vitória.

Pe. Francisco de Santa Maria in «Ano Histórico, Diário Português: Notícia Abreviada de pessoas grandes e coisas notáveis de Portugal», 1744.

Raro prodígio em Meliapor, na Índia


Na Cidade de Meliapor, que também se chama de São Tomé, por haver padecido nela o glorioso Apóstolo deste nome, se achou, muitos séculos depois do seu martírio, uma antiga e misteriosa Cruz: É de meio relevo, esculpida com todo o primor em fino mármore branco, borrifada com algumas nódoas de cor de sangue, as pontas rematam em flores de Liz, e sobre a do meio se vê uma bem formada Pomba, que lhe faz como sombra com as azas; Foi descoberta no tempo que a famoso Dom João de Castro governava o Estado da Índia, por cuja ordem se colocou no Altar-mor da Igreja, que já ali havia, dedicada ao mesmo Apóstolo São Tomé; Sucedeu, pois, neste dia [18 de Dezembro], ano de 1558, que ao tempo que se celebrava a Missa maior, e que se cantava o Evangelho, começou a Cruz a mudar de cor, trocando a branca, que tinha de sua natureza, em amarela, logo em negra, e depois em azul celeste, e assim como ia fazendo estas mudanças, começaram aquelas nódoas vermelhas a destilar um humor sanguíneo, em tanta copia, que o Sacerdote banhou nele os Corporais, e a Cruz ficou mais lustrosa, que de antes, com um resplandor maravilhoso, que durou enquanto durou a Missa, e no fim dela se lhe restituiu a sua cor antiga e natural: Repetia-se este raro Prodígio todos os anos, no mesmo dia e na mesma hora em que a Missa se cantava, e se viu repetido em nossos tempos, no ano de 1695, em que o Arábio tomou a Ilha e Fortaleza de Mombaça.

Pe. Francisco de Santa Maria in «Ano Histórico, Diário Português: Notícia Abreviada de pessoas grandes e coisas notáveis de Portugal», 1744.

Estupendo milagre de Santo António


A Ambição Luterana, com desejo de saquear a grande e muito opulenta Cidade da Baía, na América Portuguesa, saiu no ano de 1595 do porto da Rochela de França, com uma esquadra de doze naus bem guarnecidas de soldados hereges, mandadas pelo seu grande herege e Capitão General Pandemilho. Na costa de África roubaram de caminho uma povoação Portuguesa, que por ser pequena e desarmada, se lhe entregou a partido das vidas, o qual sendo-lhe prometido, lhe não foi guardado; porque degolaram a todos por serem poucos. Não satisfeitos com esta tirania e com a falta desta fé, passaram a ultrajar a do sagrado, profanando o Templo da mesma povoação. Dele levaram uma Imagem de Santo António, que conduziram à nau do General, para que na viagem, de espaço, e muito à sua vontade, a desprezassem e tiranizassem, como pessoa viva, como com efeito fizeram, lançando-lhe um cão ensinado a morder as Santas Imagens, dando-lhe cutiladas pela cabeça e mãos, pregando-lhe grossos pregos nas costas, pelas quais ataram a mesma Imagem com uma corda e a içavam ao alto, deixando-a cair na coberta, dizendo em grandes alaridos: Guia, guia, António para a Baía. Ouviu o Santo a súplica e guiou do modo seguinte. Em um instante, estalaram todos os arcos das pipas e se perdeu o vinho e água; corrompeu-se todo o biscoito e mais sustento que levavam. Caíram mortos, repentinamente, os soldados que o acutilaram, subverteu o mar onze naus com toda a sua gente, ficando só a de Pandemilho, em que ia a Imagem de Santo António e um pataxó, que levou a nova à Rochela, onde também foi morto o seu Capitão. O General, vendo-se sem sustento e com desejo de salvar a vida, chegou à Baía e se entregou ao Governador Dom Francisco de Sousa, lançando primeiro ao mar a dita Imagem, para que não constassem aos Portugueses as injúrias com que a tinham tratado. Não bastou porém esta cautela; porque a imagem, como se fora vidente, chegou sobre as águas à praia, e levantando-se em pé, esperou aos Luteranos, que por junto dela passaram presos com o seu General Pandemilho, o qual pondo os olhos no Santo, proferiu as palavras seguintes: Em efeito, António, hás tomado vingança de nós, trazendo-nos à Baía como te pedíamos? Pelo Santo respondeu a justiça mandando enforcar ao General e a todos os seus, e a Imagem foi levada com soleníssimo aparato à Igreja de São Francisco da mesma Cidade da Baía, onde foi colocada e é venerada com grande devoção e respeito.

Pe. Francisco de Santa Maria in «Ano Histórico, Diário Português: Notícia Abreviada de pessoas grandes e coisas notáveis de Portugal», 1744.

Milagre no cerco castelhano de Tavira


No ano de 1337 veio El-Rei Dom Afonso XI de Castela com mão armada sobre a Cidade de Tavira do Algarve, e posto seu arraial para a combater, neste dia [15 de Setembro] de manhã, em Sábado, olhando acaso para o telhado da Igreja de Santa Maria, viu nele a sete Cavaleiros de grande estatura, vestidos de branco, com Cruzes de Santiago nos peitos, brandindo as lanças; Perguntou El-Rei aos seus que lhe assistiam, se viam aqueles Cavaleiros, e como lhe respondessem que não, mandou chamar ao Guardião de São Francisco; Outros dizem que a um velho Ermitão de boa vida; para que lhe interpretasse aquela visão, como fez deste modo: Senhor, aquele telhado é da Igreja de Santa Maria, onde foram sepultados os sete Mártires que ajudaram a conquistar e tirar do poder dos Mouros esta Cidade, morrendo pela Fé de JESUS Cristo, como esforçadas Cavaleiros e verdadeiros Cristãos, quiçá serão eles que virão agora a defendê-la. Vendo o prudente Rei tão grande maravilha, levantou o seu arraial e voltou para Castela, dizendo: Que ele não pelejava com os Santos do Céu, mas com os homens da terra. Divulgado o sucesso, renderam os Tavirenses as devidas graças a Deus e aos Santos Mártires; e ficaram estes dali em diante mais conhecidos e venerados. Falamos deles em outra parte.

Pe. Francisco de Santa Maria in «Ano Histórico, Diário Português: Notícia Abreviada de pessoas grandes e coisas notáveis de Portugal», 1744.

Milagre na reconquista de Alcácer do Sal


Haviam os Mouros recuperado a Vila de Alcácer do Sal, depois de conquistada por El-Rei Dom Afonso Henriques, e a fortificaram de modo que parecia ficar insuperável a todos os meios de expugnação que havia naqueles tempos; Mas Dom Sueiro, Bispo de Lisboa, Prelado de igual virtude e valor, aproveitando-se da ocasião de haver chegado ao porto da mesma Cidade uma poderosa Armada do Norte; Ajustando-se com os Capitães dela, partiu à Conquista daquela Praça, e os Estrangeiros navegaram ao porto de Setúbal, e daí pelo Rio acima, em embarcações ligeiras, se foram incorporar com os Portugueses; seguindo uns e outros o mesmo fim, por diferente caminho. Tiveram os inimigos notícia antecipada, e reforçando novamente os reparos, se preveniram à defesa, implorando ao mesmo tempo os socorros dos Reis de Badajoz, de Jaén, de Córdova, e de Sevilha; os quais, com um Exército de quinze mil Cavalos e oitenta mil Infantes, vieram em demanda dos Cristãos; E atacando-se a batalha neste dia [10 de Setembro], ano de 1217, foram estes vencidos e derrotados com grande perda. Dividiu-os a noite e o sucesso os encheu, a uns de alegria e alvoroço, e a outros de dor e confusão: Choravam os Católicos o fracasso, temiam outros maiores, e levados da aflição, a que na Terra não achavam fácil remédio, puseram os olhos no Céu: Eis que de repente, se lhes representou no ar, a pouca distância, o salutífero sinal da Cruz, mais luminoso e claro que o mesmo Sol: Foi visto e adorado de todos os soldados do Exército, naturais e estrangeiros, e todos conceberam firme esperança, de que no dia seguinte haviam de vencer e derrotar aos inimigos da mesma Cruz, que agora se lhes oferecia aos olhos, como sinal e penhor de uma felicíssima vitória.

Pe. Francisco de Santa Maria in «Ano Histórico, Diário Português: Notícia Abreviada de pessoas grandes e coisas notáveis de Portugal», 1744.

Nossa Senhora da Assunção e o prodígio em Cananor


No mesmo dia [15 de Agosto], ano de 1507, estando sitiada a Fortaleza de Cananor, defendida pelos Portugueses, se viram estes reduzidos ao último aperto, pela falta também última e total de mantimentos: Recorreram ao patrocínio da Mãe de Deus, e neste dia com maior fervor, por ser dia tanto seu; Não tardou o mar em levantar-se, e batendo ao pé da Fortaleza com grande ímpeto, em cada onda lhe trazia e deixava uma grande quantidade de lagostas, mantimento naquelas partes, não só saboroso aos sãos, mas útil aos enfermos, como mostrou o efeito: Porque com ele cobraram saúde os enfermos que havia na Fortaleza, e eram em grande número, e todos os defensores cobraram novos alentos, à vista de tão rara maravilha; Durou este socorro do Céu os dias que restaram do sítio, até o último combate, e se faltara naquela tão precisa ocasião, sem dúvida se perdia a Fortaleza.

Pe. Francisco de Santa Maria in «Ano Histórico, Diário Português: Notícia Abreviada de pessoas grandes e coisas notáveis de Portugal», 1744.

A milagrosa fonte de Santa Ana


Junto ao lugar do Vacalar, termo da Cidade de Lamego, observou casualmente um morador dele, em um sítio muito estéril e seco, em que nunca houve água, alguma humidade no chão, e reparando nela por ver que ia continuando com mais força para junto de um pequeno mato, com a curiosidade de saber se a terra a vertia, ou se alguém a tinha ali lançado, começou a cavar por curiosidade, e vendo que saía do lugar cavado alguma água, disse para outro que o acompanhava, que lhe parecia milagrosa e queria com ela lavar os olhos, que tinha gravissimamente inflamados; assim o fez e se achou logo são. Com a voz deste sucesso, que ele divulgou, começaram a concorrer a lavar-se com ela, e a bebê-la alguns enfermos de maleitas do mesmo lugar, e todos ficaram livres das suas queixas. Foi-se abrindo mais a terra, para crescer mais a água, e nela se descobriu um grande número de pedras quadradas da mesma forma e cor das do Oriente, das quais se repartiu uma grande quantidade pela Comarca de Lamego, e se mandaram por todo o Reino. Deu-se-lhe o nome de fonte de Santa Ana, por ser descoberta neste dia [26 de Julho], dedicado à mesma gloriosa Santa, no ano de 1720.

Pe. Francisco de Santa Maria in «Ano Histórico, Diário Português: Notícia Abreviada de pessoas grandes e coisas notáveis de Portugal», 1744.

Maravilhosa pedra que se achou na praia de Ceilão


No mesmo tempo que Francisco Barreto governava a Índia, encontrou um soldado Português na praia da Ilha de Ceilão a um Jogue (que são, entre os Gentios, homens penitentes e que peregrinam por lugares solitários), o qual tinha na mão várias conchas e pedras de formas e cores diferentes, que acabava de colher. Por uma delas lhe deu o soldado uma esmola: Era parda do tamanho de um ovo e nela figurados sete Céus de outras cores, e entre eles uma figura de mulher com um menino nos braços. Tudo fábrica da natureza, e uma das maiores maravilhas que ela produziu. Veio à mão do Governador Francisco Barreto, que fez presente dela à Rainha Dona Catarina [esposa de D. João III], e, sem dúvida, mais para estimar que a melhor jóia que pode fabricar a arte e a vaidade.

Pe. Francisco de Santa Maria in «Ano Histórico, Diário Português: Notícia Abreviada de pessoas grandes e coisas notáveis de Portugal», 1744.

O Santo Cristo de Bouças


É antiquíssima em Portugal a sagrada Imagem de Cristo crucificado, que o mar lançou nas praias de Matosinhos, uma légua de distância da Cidade do Porto. É tradição constante que foi feita por Nicodemos, discípulo do Senhor, que como testemunha de vista e escultor excelente, faria sem dúvida o retrato muito conforme ao Divino Original. O mesmo se afirma de outras Imagens semelhantes, como são a de Luca em Itália, a de Burgos em Castela. Faltava à nossa Imagem um braço, e por mais que vários Escultores se esforçaram a suprir com outro aquela falta, nunca a obra saiu com tanta perfeição, que suprisse com igualdade a diferença. Era grande, por este motivo, a pena e desconsolação dos devotos, sucedeu, pois, que andando uma mulher junto do mar, viu na área um pequeno vulto. Não lhe soube distinguir a forma, mas conhecendo que pela matéria servia para o lume, voltando para casa, o lançou nas brasas; e vendo que elas o respeitavam e que o lançavam de si, ou reverentes, ou medrosas, deu parte daquela maravilha a pessoas de juízo, as quais com fácil exame, conheceram ser o braço que faltava do Santo Cristo: Assim o comprovou a experiência: porque sem diferença do outro ajustou com admirável proporção. Obra o Senhor invocado nesta santa Imagem contínuas e raras maravilhas.

Pe. Francisco de Santa Maria in «Ano Histórico, Diário Português: Notícia Abreviada de pessoas grandes e coisas notáveis de Portugal», 1744.

Novo milagre de Nossa Senhora da Piedade


No mesmo dia [27 de Maio], ano de 1663, estando na Ermida de N. Senhora da Piedade de Santarém as mesmas pessoas que no dia precedente ali se acharam, e outras muitas que concorreram de novo, rogando todas a Deus, por intercessão de sua Santíssima Mãe, para que se apiedasse deste Reino e lhe desse vitória de seus inimigos, tendo todas os olhos nas Soberanas Imagens da mesma Senhora e de seu Filho morto, se viu patentemente que a deste Senhor levantava o rosto para cima, e juntamente o corpo, em forma que ficou muito mais levantado do que estava nos braços da Senhora, ficando os rostos de ambos tão chegados um ao outro, que dificultosamente havia lugar de caber pelo meio deles um dedo, sendo que dantes estavam desviados em forma que cabia bem uma mão-travessa. E outrossim se viu o sangue da mesma Sacrossanta Imagem de cor muito viva e fresca, estando dantes denegrido e encoberto.

Pe. Francisco de Santa Maria in «Ano Histórico, Diário Português: Notícia Abreviada de pessoas grandes e coisas notáveis de Portugal», 1744.

Milagre de Nossa Senhora da Piedade de Santarém


Venerava-se de tempos antigos em uma pobre Ermida na Vila de Santarém, uma Imagem da Senhora da Piedade, com o Senhor morto nos braços, caído, ou inclinado o rosto do mesmo Senhor, em forma que ficava mais de uma mão-travessa apartado do rosto da Senhora. É uma e outra Imagem de barro, e ambas muito devotas. Achava-se no ano de 1663 este Reino em grande aperto pela invasão dos Castelhanos, os quais com poderoso Exército, haviam conquistado a Cidade de Évora, e prometiam, não sem grandes fundamentos, muito maiores operações. Concorriam àquela Ermida algumas pessoas devotas a invocar a protecção da Mãe de Deus sobre as calamidades e perigos em que o Reino se achava, e à vista daquele Sagrado Corpo defunto e cinco chagas, que nele se representavam, eram, sem dúvida, um poderoso motivo para se pedir e esperar, com grande fervor e confiança, a liberdade de um Reino que tem as mesmas chagas por brasão. Eis que neste dia [26 de Maio], em Sábado, das seis para as sete horas da tarde, do ano referido, estando presentes muitas pessoas, foi visto o rosto da Senhora muito mais encarnado e resplandecente, e o do Senhor muito mais enfiado e pálido, e ambos muito diferentes do que dantes eram. Admirados os presentes, e atónitos à vista daquela maravilha, não se atreveram a publicá-la, persistindo perplexos e duvidosos na averiguação do mesmo que estavam vendo, por se julgarem indignos de tão soberano favor. Maior prodígio se viu no dia seguinte, como nele diremos.

Pe. Francisco de Santa Maria in «Ano Histórico, Diário Português: Notícia Abreviada de pessoas grandes e coisas notáveis de Portugal», 1744.

13 de Outubro: Milagre do Sol


Vou relatar de uma maneira breve e concisa, sem frases que velem a verdade, o que vi em Fátima no dia 13 de Outubro de 1917.
As horas a que me referirei são as que nessa época marcavam oficialmente o tempo, segundo a determinação do governo que unificara a nossa hora com a dos países beligerantes. Faço isto para maior verdade, pois não me era fácil designar com precisão o momento em que o sol alcançou o zénite.
Cheguei ao meio-dia. A chuva que desde manhã caía miúda e persistente, tocada de um vento agreste, prosseguira irritante, na ameaça de querer tudo liquefazer.
O céu baço e pesado tinha uma cor pardacenta, prenhe de água, prenúncio de chuva abundante e de longa duração.
Quedei-me na estrada, ao abrigo da capota do automóvel e um pouco sobranceiro ao local que diziam ser o da aparição, não ousando meter-me no lamaçal barrento e pegajoso do campo frescamente lavrado. Estaria a pouco mais de cem metros dos elevados postes, que uma tosca cruz encimava, vendo distintamente em redor deles o largo círculo de gente que, com os guarda-chuvas abertos, parecia um vasto sobrado de broquéis.
Pouco depois de uma hora, chegaram a este sítio as crianças a quem a Virgem (garantiam elas) marcara lugar, dia e hora da aparição. Ouviam-se os cânticos entoados pelo povo que as cercava.
Numa determinada altura, esta larga massa, confusa e compacta, fechou os guarda-chuvas e descobriu-se num gesto que devia ser de humildade ou respeito, mas que me deixou surpreso e admirado, porque a chuva, numa continuidade cega, molhava agora cabeças, encharcava e ensopava. Disseram-me depois que esta gente, que acabou por ajoelhar na lama, tinha obedecido à voz de uma criança.
Devia ser uma e meia (treze e meia) quando se ergueu, no local preciso onde estavam as crianças, uma coluna de fumo, delgada, ténue e azulada, que subiu direita até dois metros, talvez, acima das cabeças para nessa altura se esvair. Durou este fenómeno, perfeitamente visível a olho nu, alguns segundos. Não tendo marcado o tempo da duração, não posso afirmar se foi mais ou menos de um minuto. Dissipou-se bruscamente o fumo e passado algum tempo voltou a repetir-se o fenómeno, uma segunda e uma terceira vez. Das três vezes, e sobretudo da última, destacaram-se nitidamente os postes esguios na atmosfera cinzenta.
Dirigi para lá o binóculo. Nada consegui ver além das colunas de fumo, mas convencido fiquei de que eram produzidas por algum turíbulo, não agitado, em que se queimava incenso. Depois, pessoas dignas de fé, afirmaram-me que era uso produzir-se o acontecimento no dia treze dos cinco meses anteriores, e que nesses dias, como neste, nunca ali se queimara nada nem fizera fogo.
Continuando a olhar o lugar da aparição, numa expectativa serena e fria, e com uma curiosidade que ia amortecendo, porque o tempo decorrera longo e vagaroso sem que nada activasse a minha atenção, ouvi o bruaá de milhares de vozes e vi aquela multidão, espraiada pelo largo campo que se estendia a meus pés, ou concentrada em vagas compactas, em redor dos madeiros erguidos, ou sobre os baixos socalcos que retinham as terras, voltar as costas ao ponto que até então convergiam os desejos e ânsias, e olhar o céu do lado oposto.
Eram quase duas horas.
O sol, momentos antes, tinha rompido ovante a densa camada de nuvens que o tivera escondido, para brilhar clara e intensamente.
Voltei-me para este íman que atraía todos os olhares e pude vê-lo semelhante a um disco, de bordo nítido e aresta viva, luminosa e luzente, mas sem magoar.
Não me pareceu bem a comparação, que ainda em Fátima ouvi fazer, de um disco de prata fosca. Era uma cor mais clara, activa e rica, e com cambiantes, tendo como que o oriente de uma pérola. Em nada se assemelhava à lua em noite transparente e pura, porque se via e sentia-se ser um astro vivo.
Não era como a lua, esférica, não tinha a mesma tonalidade nem os claros-escuros. Parecia uma rodela brunida cortada no nácar de uma concha. Isto não é uma comparação banal de poesia barata. Os meus olhos viram assim; também não se confundia com o sol encarado através de nevoeiro (que aliás não havia àquele tempo), porque não era opaco, difuso e velado. Em Fátima tinha luz e calor, e desenhava-se nítido e com toda a borda cortada em aresta, como uma tábula de jogo.
A abóbada celeste estava enevoada de cirros leves, tendo frestas de azul aqui e acolá, mas o sol algumas vezes se destacou em rasgões de céu limpo. As nuvens que corriam ligeiras de poente para oriente, não empanavam a luz (que não feria) do sol, dando a impressão facilmente compreensível e explicável de passar por detrás; mas por vezes esses flocos, que vinham brancos, pareciam tomar, deslizando ante o sol, uma tonalidade rosa ou azul diáfana.
Maravilhoso é que, durante longo tempo, se pudesse fixar o astro, labareda de luz e brasa de calor, sem uma dor nos olhos e sem um deslumbramento na retina, que cegasse.
Este fenómeno, com duas breves interrupções, em que o sol bravio arremessou os seus raios mais coruscantes e refulgentes, e que obrigaram a desviar o olhar, devia ter durado cerca de dez minutos.
Este disco nacarado tinha a vertigem do movimento. Não era a cintilação de um astro em plena vida. Girava sobre si mesmo numa velocidade arrebatada.
De repente, ouve-se um clamor, como que um grito de angústia de todo aquele povo. O sol, conservando a celeridade da sua rotação, destaca-se do firmamento e sanguíneo avança sobre a terra, ameaçando esmagar-nos com o peso da sua ígnea e ingente mó. São segundos de impressão terrífica.
Durante o acidente solar, que detalhadamente tenho vindo a descrever, houve na atmosfera coloridos impressionantes. Não posso precisar bem a ocasião, porque já lá vão dois meses passados e eu não tomei notas. Lembra-me que não foi logo no princípio e antes creio que foi para o fim.
Estando a fixar o sol, notei que tudo escurecia à minha volta.
Olhei o que estava perto e alonguei a vista até ao extremo horizonte, e vi tudo cor de ametista. Os objectos, o céu e a camada atmosférica tinham a mesma cor. Uma carvalheira arroxeada, que se erguia na minha frente, lançava sobre a terra uma sombra carregada.
Receando ter sofrido uma afecção da retina, hipótese pouco provável, porque, dado este caso, não devia ver as coisas de roxo, voltei-me, cerrei as pálpebras e retive-as com as mãos para interceptar toda a luz. Ainda de costas, abri os olhos e reconheci que, como antes, a paisagem e o ar continuavam da mesma cor roxa.
A impressão que se tinha não era de eclipse. Vi um eclipse do sol, que em Viseu, onde eu estava, foi total. À medida que a lua marcha a esconder o sol, a luz vai-se acinzentando até que tudo se torna baço e negro. A vista alcança um pequeno círculo, para lá do qual os objectos se vão tornando cada vez mais confusos, até que se perdem no negrume. Baixa a temperatura consideravelmente e dir-se-á que a vida da terra se extinguiu. Em Fátima, a atmosfera, embora roxa, permaneceu transparente até aos confins do horizonte, que se distingue e vê claramente, e eu não tive a sensação de uma paragem na energia universal.
Continuava a olhar o sol, reparei que o ambiente tinha aclarado. Logo depois ouvi um campónio, que cerca de mim estava, a dizer com voz de pasmo: «Esta senhora está amarela!»
De facto, tudo agora mudara, perto e distante, tomando a cor de velhos damascos amarelos. As pessoas pareciam doentes e com icterícia. Sorri-me de as achar francamente feias e desairosas. Ouviram-se risos. A minha mão tinha o mesmo tom amarelo.
Dias depois, fiz a experiência de fixar o sol uns breves instantes. Retirada a vista, vi após alguns momentos manchas amarelas, irregulares na forma. Não se vê tudo de uma cor uniforme, como se no ar se tivesse volatilizado um topázio, mas umas nódoas ou malhas que com o movimento do olhar se deslocam.
Todos estes fenómenos que citei e descrevi, observei-os eu sossegada e serenamente sem uma emoção ou sobressalto.
A outros cumpre explicá-los ou interpretá-los.
Para terminar, devo fazer a afirmação de que nunca, nem antes, nem depois do dia 13 de Outubro, vi iguais fenómenos solares ou atmosféricos.

José Maria Proença de Almeida Garrett
Professor na Universidade de Coimbra
18 de Dezembro de 1917

Um testemunho insuspeito do Milagre do Sol


Quebrando um silêncio de mais de vinte anos, e com a invocação dos longínquos e saudosos tempos em que convivemos numa fraternal camaradagem, iluminada então pela fé comum e fortalecida por idênticos propósitos, escreves-me para que te diga, sincera e minuciosamente, o que vi e ouvi na charneca de Fátima, quando a fama de celestes aparições congregou naquele desolado ermo dezenas de milhares de pessoas, mais sedentas, segundo creio, de sobrenatural, do que impelidas por mera curiosidade ou receosas de um logro... Estão os católicos em desacordo sobre a importância e a significação do que presenciaram.
Uns convenceram-se de que se tinham cumprido prometimentos do Alto; outros acham-se ainda longe de acreditar na incontroversa realidade de um milagre. Foste um crente na tua juventude e deixaste de sê-lo. Pessoas da família arrastaram-te a Fátima, no vagalhão colossal daquele povo que ali se juntou a 13 de Outubro.
O teu racionalismo sofreu um formidável embate e queres estabelecer uma opinião segura socorrendo-te de depoimentos insuspeitos como o meu, pois que estive lá apenas no desempenho de uma missão bem difícil, tal a de relatar imparcialmente para um grande diário, "O Século", os factos que diante de mim se desenrolassem e tudo quanto de curioso e de elucidativo a eles se prendesse. Não ficará por satisfazer o teu desejo, mas decerto que os nossos olhos e os nossos ouvidos, não viram nem ouviram, coisas diversas, e que raros foram os que ficaram insensíveis à grandeza de semelhante espectáculo, único entre nós e de todo o ponto digno de meditação e de estudo...
O que ouvi e me levou a Fátima?
Que a Virgem Maria, depois da festa da Ascensão, aparecera a três crianças que apascentavam gado, duas mocinhas e um zagalete, recomendando-lhes que orassem e prometendo-lhes aparecer ali, sobre uma azinheira, no dia 13 de cada mês, até que em Outubro lhes daria um sinal do poder de Deus e faria revelações. Espalhou-se a nova por muitas léguas em redondeza; voou, de terra em terra, até aos confins de Portugal, e a romagem dos crentes foi aumentando de mês para mês, a ponto de se juntarem na charneca de Fátima, em 13 de Outubro, umas cinquenta mil pessoas, consoante os cálculos de indivíduos desapaixonados.
Nas precedentes reuniões de fiéis não faltou quem tivesse suposto ver singularidades astronómicas e atmosféricas, que se tomaram como indício de imediata intervenção divina.
Houve quem falasse de súbitos abaixamentos de temperatura, de cintilação de estrelas em pleno meio-dia e de nuvens lindas e jamais vistas em torno do Sol. Houve quem repetisse e propalasse comovidamente que a Senhora recomendava penitência, que pretendia a criação de uma capela naquele local, que em 13 de Outubro manifestaria, por intermédio de uma prova sensível a todos, a infinita bondade e a omnipotência de Deus.
Foi assim que, no dia célebre e tão ansiado, afluíram de perto e de longe a Fátima, arrostando com todos os embaraços e todas as durezas das viagens, milhares e milhares de pessoas, umas que palmilharam léguas ao sol e à chuva, outras que se transportaram em variadíssimos veículos, desde os quase pré-históricos até aos mais recentes e maravilhosos modelos de automóveis, e ainda muitíssimas que suportaram os incómodos das terceiras classes dos comboios, dentro dos quais, para percorrer hoje relativamente pequenas distâncias, se perdem longas horas e até dias e noites! Vi ranchos de homens e de mulheres, pacientemente, como enlevados num sonho, dirigirem-se de véspera para o sítio famoso, cantando hinos sacros e caminhando descalços ao ritmo deles e à recitação cadenciada do terço do Rosário, sem que os importunasse, os demovesse ou desesperasse, a mudança quase repentina do tempo, quando as bátegas de água transformaram as estradas poeirentas em fundos lamaçais, e às doçuras do Outono sucederem, por um dia, os aspérrimos rigores do Inverno. Vi a multidão, ora comprimida à volta da pequenina árvore do milagre e desbastando-a dos seus ramos para guardar como relíquias, ora espraiada pela vasta charneca que a estrada de Leiria atravessa e domina, e que a mais pitoresca e heterogénea concordância de carros e pessoas atravancou naquele dia memorável, aguardar na melhor ordem as manifestações sobrenaturais, sem temer que a invernia as prejudicasse, diminuindo-lhes o esplendor e a imponência... Vi que o desalento não invadiu as almas, que a confiança se conservou viva e ardente, a despeito das inesperadas contrariedades, que a compostura da multidão, em que superabundavam os campónios, foi perfeita e que as crianças, no seu entender privilegiadas, tiveram a acolhê-las as demonstrações do mais intenso carinho por parte daquele povo que ajoelhou, se descobriu e rezou a seu mandado, ao aproximar-se a hora do milagre, a hora do sinal sensível, a hora mística e suspirada do contacto entre o Céu e a Terra...
E, quando já não imaginava que via alguma coisa mais impressionante do que essa rumorosa mas pacífica multidão animada pela mesma obsessiva ideia e movida pelo mesmo poderoso anseio, que vi eu ainda de verdadeiramente estranho na charneca de Fátima? A chuva, à hora pré-anunciada, deixar de cair; a densa massa de nuvens romper-se e o astro-rei – disco de prata fosca – em pleno zénite aparecer e começar dançando num bailado violento e convulso, que grande número de pessoas imaginava ser uma dança serpentina, tão belas e rutilantes cores revestiu sucessivamente a superfície solar.
Milagre, como gritava o povo? Fenómeno natural, como dizem os cientistas? Não curo agora de sabê-lo, mas apenas de te afirmar o que vi... O resto é com a Ciência e com a Igreja...

Avelino de Almeida, agnóstico e jornalista de «O Século», Outubro de 1917.