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Funda-se o Convento de Santa Cruz de Lamego


No mesmo dia [14 de Setembro], dedicado à Exaltação da Cruz, no ano de 1596, teve princípio a fundação do Convento de Santa Cruz dos Cónegos Seculares da Congregação de São João Evangelista da Cidade de Lamego. Saiu da Sé o Bispo Dom António Telles, vestido em Pontifical, acompanhado do Cabido, do Clero, e de grande concurso de nobreza e povo; e chegando ao sítio da fundação, no lugar destinado para o Altar-mor da Igreja, onde estava arvorada uma Cruz, benzeu quatro pedras de dois palmos em quadro: a primeira de cor vermelha, à semelhança de rubim, que em nome da Sacratíssima Cruz de Cristo, rubricada com o seu langue, lançou na parte do Evangelho o Doutor Lourenço Mourão, natural da mesma Cidade, Desembargador do Paço, Comissário Geral da Cruzada, e principal dotador da nova fundação: a segunda pedra, que era branca, lançou na parte da Epístola, em nome da puríssima Virgem Maria Nossa Senhora o Padre Miguel do Espírito Santo, Geral dos Cónegos Seculares: a terceira de cor verde, à semelhança de esmeralda, lançou o Deão da Sé na parte direita do arco da mesma Capela, em nome do Evangelista, protector da mesma Congregação, comparado na Escritura àquela pedra preciosa: na parte esquerda lançou o Cónego Secretario da Congregação a quarta pedra de cor azul, á semelhança de safira, cm nome do Patriarca São Lourenço Justiniano. Benzeu o Bispo todo o sítio demarcado para o novo Templo, e tudo se fez com grande aplauso, e alegria da Cidade.

Pe. Francisco de Santa Maria in «Ano Histórico, Diário Português: Notícia Abreviada de pessoas grandes e coisas notáveis de Portugal», 1744.

A milagrosa fonte de Santa Ana


Junto ao lugar do Vacalar, termo da Cidade de Lamego, observou casualmente um morador dele, em um sítio muito estéril e seco, em que nunca houve água, alguma humidade no chão, e reparando nela por ver que ia continuando com mais força para junto de um pequeno mato, com a curiosidade de saber se a terra a vertia, ou se alguém a tinha ali lançado, começou a cavar por curiosidade, e vendo que saía do lugar cavado alguma água, disse para outro que o acompanhava, que lhe parecia milagrosa e queria com ela lavar os olhos, que tinha gravissimamente inflamados; assim o fez e se achou logo são. Com a voz deste sucesso, que ele divulgou, começaram a concorrer a lavar-se com ela, e a bebê-la alguns enfermos de maleitas do mesmo lugar, e todos ficaram livres das suas queixas. Foi-se abrindo mais a terra, para crescer mais a água, e nela se descobriu um grande número de pedras quadradas da mesma forma e cor das do Oriente, das quais se repartiu uma grande quantidade pela Comarca de Lamego, e se mandaram por todo o Reino. Deu-se-lhe o nome de fonte de Santa Ana, por ser descoberta neste dia [26 de Julho], dedicado à mesma gloriosa Santa, no ano de 1720.

Pe. Francisco de Santa Maria in «Ano Histórico, Diário Português: Notícia Abreviada de pessoas grandes e coisas notáveis de Portugal», 1744.