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Das sagradas Quinas


Em algumas memórias antigas e particularmente no livro das Armas composto por António Soares de Albergaria, se acha que as Armas antigas do Reino de Portugal eram uma Cidade branca em campo azul, sobre ondas verdes e douradas, em memória do Porto de Gale que lhe deu princípio, junto da foz do Rio Douro. Cessaram estas Armas tanto quando o Conde D. Henrique entrou no Senhorio de Portugal, porque este Príncipe usou algum tempo de um escudo branco somente, sem figura nem divisa alguma. Depois assentou no escudo uma Cruz azul, daquele feitio a que na frase de Armaria chamam Potetea. Destas mesmas Armas usou seu filho el-Rei D. Afonso Henriques, até que Cristo Senhor nosso, querendo fundar no Reino de Portugal uma Monarquia singularmente Sua, no ano de mil cento e trinta e nove do Seu Nascimento, estando o dito Príncipe recolhido na sua tenda, na noite antecedente à batalha em que venceu cinco Reis Mouros e lhes tomou cinco bandeiras e cinco escudos, lhe apareceu cercado de resplendores, e depois de lhe prometer grandes vitórias contra os infiéis, lhe deu com o título de Rei suas cinco Chagas por Armas, e os trinta dinheiros porque foi vendido aos Judeus. Seguiu-se ao outro dia a vitória e foi aclamado Rei de Portugal o Príncipe D. Afonso Henriques, não só pelo exército, mas pelos povos nas Cortes que logo celebrou em Lamego; e fazendo solene juramento em Coimbra deste sucesso a vinte e nove de Outubro, ano de mil cento cinquenta e dois, mandou a seus descendentes que trouxessem por Armas cinco escudos postos em Cruz, e em cada um deles os trinta dinheiros; Timbre a Serpente de Moisés, por ser figura de Cristo. Por diferentes modos organizaram este escudo das Armas os Reis antigos de Portugal, até que ultimamente el-Rei D. João II o formou pela ordem com que hoje o vemos, e em campo de prata cinco escudos azuis postos em Cruz; e em cada escudo cinco dinheiros de prata em aspa. Representam os cinco escudos as cinco Chagas, e estes contados segunda vez com os vinte e cinco dinheiros, fazem trinta, porque foi vendido Cristo aos Judeus. El-Rei D. Afonso III lhe acrescentou por orla sete castelos de prata em campo de sangue, que são as Armas do Reino do Algarve.

Pe. D. Rafael Bluteau in «Vocabulário Português e Latino», Tomo VII, 1720.

Inquisição


Inquisição. Tribunal Eclesiástico estabelecido para inquirir sobre os erros na Fé católica e sobre a corrupção dos costumes. Este Santo Tribunal introduziu neste Reino o católico zelo de seus Príncipes. El-Rei D. João III alcançou a concessão deste primeira vez do Sumo Pontífice Clemente VII no ano de 1531. Foi reduzido à forma que hoje tem pelo Sumo Pontífice Paulo III no ano de 1536 à instância do mesmo Rei. O primeiro Bispo Inquisidor foi D. Diogo da Silva, Bispo de Ceuta; o segundo foi o Cardeal D. Henrique, filho d'el-Rei D. Manuel. Tem Portugal três tribunais do Sto. Ofício da Inquisição; o de Lisboa, cabeça dos mais, onde reside o Inquisidor-Geral, que sempre é Bispo, e seis Inquisidores, que chamam do Conselho Geral, ou Mesa grande, com seu Secretário; e outra mesa, chamada pequena, com três Inquisidores, um deles Presidente, e alguns Deputados, que não tem número certo, e a de Évora e Coimbra, que constam de menor número de ministros. (...)

Pe. D. Rafael Bluteau in «Vocabulário Português e Latino», Tomo IV, 1713.

Adágios portugueses sobre o mês de Setembro


Agosto madura, Setembro vindima.
Agosto tem a culpa, Setembro leva a fruta.
Setembro, ou seca as fontes, ou leva as pontes.

Fonte: «Vocabulário Português e Latino», Tomo VII, 1720.

Irmandade da Misericórdia


Em todas as Cidades e Vilas de Portugal há Irmandades deste nome. Servem de dar sepultura aos defuntos e aos pobres, sem interesse algum; sustentam pessoas pobres, bem procedidas; casam e dotam órfãs, negoceiam as causas dos presos desamparados e fazem com suma edificação muitas outras obras pias. Estas santas Irmandades há só em Portugal e não em outra parte de Espanha. Bem diz delas o Mestre Gil Gonçalves de Ávila, Grandezas de Madrid, liv. 4, titulo del Consejo de Portugal: Que es la mayor cosa que hoy se conoce en la Cristiandad. No ano de 1498, das relíquias da antiga Irmandade da Piedade, assentada em uma das Capelas da Claustra da Sé de Lisboa, com a direcção e zelo do venerável Padre Fr. Miguel de Contreiras, Religioso da Ordem da Santíssima Trindade, Confessor d'El-Rei D. João II, se levantou em Lisboa a piíssima e nobilíssima Irmandade da Misericórdia, livre de qualquer outra jurisdicção e favorecida de muitas graças, privilégios e isenções, que lhe concederam os Sumos Pontífices. Para a fábrica do Templo, que consta de três naves, todas de pedraria, concorreu com grandes esmolas El-Rei D. Manuel, que quis ser Irmão e Protector da dita Irmandade. No ano de 1534, reinando já El-Rei D. João III, se passou da Sé à sua nova casa em que a vemos, a qual consta de um nobre Recolhimento para donzelas órfãs e um Hospital para entrevados pobres, casas de despacho e cartórios, com outras muitas oficinas; e hoje de outro Recolhimento magnífico, acrescentado para quarenta donzelas órfãs e com dotes muito bons para casarem. Compõe-se a Irmandade de seiscentos e vinte Irmãos, trezentos nobres e trezentos mecânicos, e vinte letrados; uns e outros provam limpeza para serem nela admitidos. É governada por um Provedor (que sempre é um dos primeiros Fidalgos da Corte), um Escrivão, um Tesoureiro, dois Conselheiros, e seis Irmãos nobres e outros seis mecânicos. Tem sessenta Capelães, que rezam em coro as Horas Canónicas; e tem a seu cargo a administração do Hospital Real de todos os Santos. Chama-se esta Irmandade de Misericórdia, porque nas sete obras de Misericórdia se exercitam os Irmãos dela com grande caridade e dispêndio, parte de dotações dos Reis, Rainhas e Infantes de Portugal, e de pessoas devotas, que importam em cada ano perto de cem mil cruzados. Misericordiae sacrae Sodalitas, atis. Fem. Na obra do P. António Vasconcelos, intitulada Descriptio Regni Lusitanici, pág. 56, acharás um belo discurso das excelências desta Irmandade.

Pe. D. Rafael Bluteau in «Vocabulário Português e Latino», Tomo V, 1716.

Adágios portugueses sobre o mês de Agosto


Água de Agosto, açafrão, mel e mosto.
Agosto e vindima, não vem cada dia.
Agosto madura, Setembro vindima.
Agosto tem a culpa, Setembro leva a fruta.
Agosto frio em rosto.
A quem não tem pão semeado, de Agosto se faz Maio.
Em Agosto sardinha e mosto.
Em Agosto aguilhoa o preguiçoso.
Por Santa Maria de Agosto, repasta a vaca um pouco.
Quando chover em Agosto, não metas teu dinheiro em mosto.
Quem não debulha em Agosto, debulha com mau rosto.
Nem em Agosto caminhar, nem em Dezembro marear.
Lá vem Agosto com seus Santos ao pescoço.
Maio come o trigo, Agosto bebe o vinho.
Não é bom o mosto colhido em Agosto.
Primeiro dia de Agosto, primeiro dia de Inverno.

Fonte: «Vocabulário Português e Latino», Tomo I, 1712.

Adágios portugueses sobre o mês de Junho


Em Junho foice em punho.
Feno alto ou baixo, em Junho é segado.
Junho, Julho e Agosto, senhora não sou vosso.

Fonte: «Vocabulário Português e Latino», Tomo IV, 1713.

O significado de "Colónia" e "Colono"


Colónia. Gente que se manda para alguma terra novamente descoberta, ou conquistada, para a povoar. A mesma terra assim povoada também se chama Colónia. Colonia, ae. Fem. Cic.
Os que são mandados para fazer uma Colónia, ou os moradores da Colónia. Coloniorum. Masc. Plur. Cic.
Fundar ou estabelecer colónias. Colonias constituere, ou collocare. Cic.
Levar uma colónia. Coloniam, ou Colonos deducere. Cic.
Coisa concernente a Colónia. Colonicus, a, um. Sueton. Foi povoada de antiga e nobre gente, que chegou com o domínio e Colónias à mesma Itália. Vida do Princ. Teod., pág. 6.
Colónia. Cidade de Alemanha sobre o Reno, cujo Arcebispo é Príncipe e Eleitor do Império. É uma das quatro cabeças das Cidades Hanseáticas; chamam-lhe a Roma de Alemanha e lhe dão o título de Santa, porque tem no seu recinto 365 igrejas, e nelas as relíquias de muitos corpos de Santos, e entre as cidades livres é a única que não está infecta de Heresia. Na Igreja Matriz de S. Pedro se vêm, entre muitos Mausoléus magníficos, as sepulturas dos três Reis que adoraram ao Divino Infante no presépio, os quais (segundo a tradição) foram trazidos de Constantinopla a Milão, e de Milão a Colónia. É cercada de grandes muros e guarnecidos de 83 torres, banhados de um triplicado toso, tem belas praças, fermosas ruas e sumptuosos edifícios, com a glória de ser pátria de S. Bruno, fundador dos Cartuxos. Colonia Agrippinensis, ou Colonia Agrippinae. Tomou este nome, ou porque no reinado de Augusto esteve debaixo da protecção de Agripa, ou porque Agripina, neta do dito Agripa e mãe de Nero, nascera em Colónia e acrescentara o seu circuito.
De Colónia. Coloniensis, is. Masc. et Fem. se, is. Neut.
Colono. Um dos fundadores de uma Colónia. Colonus, i. Masc. Cic. Distrito capaz para os novos Colonos. Mon. Lusit. tom. 5, pág. 100, col. 2.
Colono. Agricultor. Colonus, i. Masc. Cic. E no-lo tirará o mesmo Senhor, que no-lo deu como a maus Colonos. Vieira. tom. 4, pág. 548.

Pe. D. Rafael Bluteau in «Vocabulário Português e Latino», Tomo II, 1712.

Adágios portugueses sobre o mês de Maio


A quem em Maio come sardinha, em Agosto lhe pica a espinha.
Câmaras de Maio, saúde de todo o ano.
Em Maio vai e torna com recado.
Enxame de Maio, quem to pedir dá-lho, e de Abril, guarda-o para ti.
Em Maio a quem não tem, basta-lhe o saio.
Guarda pão para Maio e lenha para Abril.
Uma água de Maio e três de Abril, valem por mil.
Sono de Abril deixa-o a teu filho dormir, e o de Maio a teu cunhado.
Maio couveiro não é vinhateiro.
Maio come o trigo e Agosto bebe o vinho.
Maio hortelão, muita palha, pouco pão.
Maio pardo, Junho claro.
Maio pardo faz o pão grado.
Pão tremês, não o comas nem o dês, mas guarda-o para Maio.
Primeiro de Maio, corre o lobo e o veado.
Quanto Maio acha nado, tudo deixa espigado.
Quem em Maio relia, não tem pão nem erva.
Quem em Maio não merenda, aos mortos se encomenda, ou aos finados se encomenda.
Touro, galo e barbo, todos têm sazão em Maio.

Fonte: «Vocabulário Português e Latino», Tomo V, 1716.

Os Nominais


Nominais. É o nome de uns Filósofos, que, seguindo a opinião de Guilherme de Occam, Religioso de S. Francisco, de nação Inglês, e discípulo de Escoto, querem provar que não há ciência das coisas [= entes, seres] em geral, mas só dos nomes comuns das ditas coisas; por isso lhes chamam Nominais. Pretendem que o que os Lógicos chamam Universais, sejam meros conceitos dos homens, sem que realmente exista no mundo natureza [= essência] alguma comum a muitos; por esta razão se diz deles que são escassos de coisas e pródigos de palavras. Santo Anselmo da Cantuária [Doutor da Igreja] lhes chama Hereges da Dialéctica.

Pe. D. Rafael Bluteau in «Vocabulário Português e Latino», Tomo V, 1716.

Adágios portugueses sobre o mês de Abril


Abril águas mil, coadas por um mandil.
Abril frio, pão e vinho.
Abril frio e molhado, enche o celeiro e farta o gado.
A ti chova todo o ano, e a mim chova Abril e Maio.
Altas ou baixas, em Abril vêm as Páscoas.
Do grão te sei contar, que em Abril não há-de estar nascido, nem por semear.
Em Abril queijos mil, e em Maio três ou quatro.
Em Abril vai onde hás-de ir e torna ao teu covil.
Frio de Abril, nas pedras vai ferir.
No princípio ou no fim, Abril soe ser ruim.
Por todo Abril, mau é descobrir.
Sono de Abril, deixa-o a teu filho dormir.
Fica-te embora mundo, deixar-me-ás Abril e Maio.
Uma água de Maio, e três de Abril, valem por mil.
Por Abril dorme o moço ruim, e por Maio o moço e o amo.
Entre Abril e Maio, moenda para todo o ano.
Quem me vir e me ouvir, guarde pão para Maio e lenha para Abril.
A rês perdida, em Abril cobra a vida.
As manhãs de Abril são doces de dormir.

Fonte: «Vocabulário Português e Latino», Tomo I, 1712.

Adágios portugueses sobre o mês de Março


Água de Março, pior é que nódoa no pano.
Em Março, queima a velha o maço.
Em Março, nem rabo de gato molhado.
Março Marçagão, pela manhã rosto de cão, à tarde Verão.
Março ventoso, Abril chuvoso, do bom colmeal farão astroso.
Quando troveja em Março, aparelha os cubos e o braço.
Quem não poda em Março, vindima no regaço.
Se não chover entre Março e Abril, venderá El-Rei o carro e o carril.
Sol de Março pega como pegamaço e fere como maço.
Se queres bom cabaço, semeia em Março.

Fonte: «Vocabulário Português e Latino», Tomo V, 1716.

Adágios portugueses sobre o mês de Fevereiro


A Castanha e o Vesugo em Fevereiro não tem sumo.
Água de Fevereiro mata o onzeneiro.
Fevereiro couveiro faz a perdiz ao poleiro.
Fevereiro coxo, em seus dias vinte e outo.
Fevereiro, severas de frio e não de linho.
Lá vem Fevereiro, que leva a ovelha e o carneiro.
Para parte de Fevereiro, guarda lenha.
Janeiro geoso, Fevereiro nevoso, Março molinhoso, Abril chuvoso, Maio ventoso, faz o ano formoso.
Quando não chove em Fevereiro, não há bom prado, nem bom centeio.
Fevereiro faz dia, e logo Santa Maria.

Fonte: «Vocabulário Português e Latino», Tomo IV, 1713.

Adágios portugueses sobre o mês de Janeiro


Da flor de Janeiro, ninguém encheu o celeiro.
Em Janeiro põe-te no outeiro, se vires verdejar, põe-te a chorar, e se vires terrear, põe-te a cantar.
Em Janeiro, sete capelos e um sombreiro.
Em Janeiro, um pouco ao sol, outro ao fumeiro.
Em Janeiro, mete obreiro, mês meante, que não dante.
Janeiro molhado, se não é bom para o pão, não é mau para o gado.
Janeiro, poucos em sendeiro, um dia, e não cada dia.
Lua de Janeiro não tem parceiro; mas lá vem o de Agosto, que lhe dá de rosto.
Minguante de Janeiro, corta madeiro.
O mês de Janeiro como bom cavaleiro, assim acaba, como a entrada.
Obreiro em Janeiro, pão te comerá, mas obra te fará.
Primeiro dia de Janeiro, primeiro dia de Verão.
Qualquer ramo em Janeiro, torcido está quedo.
Quem azeite colhe antes de Janeiro, azeite deixa no madeiro.
Sol de Janeiro sempre anda de trás do outeiro.
Em Janeiro, nem Galgo laboreiro, nem Açor perdigueiro.
Em Janeiro seca a ovelha suas madeixas no fumeiro, e em Março no prado, e em Abril os vai urdir.
Janeiro geoso, Fevereiro nevoso, Março molinhoso, Abril chuvoso, Maio ventoso, fazem o ano formoso.
Vai-te embora Janeiro, cá fica o meu cordeiro.
O madeiro para tua casa, corta-o em Janeiro.
Vai-te embora Janeiro, deixar-me-ás Abril e Maio.

Fonte: «Vocabulário Português e Latino», Tomo IV, 1713.

A Porta de Martim Moniz


A Porta de Martim Moniz é a que fica no postigo de fronte de N. Senhora da Graça, por detrás do Castelo de Lisboa. Ficou-lhe este apelido do insigne Capitão Martim Moniz, que foi morto pelos Mouros na tomada de Lisboa, o qual, abrindo-se a porta, se lançou no meio dela, para que, ficando o corpo atravessado, não pudessem os Mouros fechá-la, e ali o mataram, ficando aquela porta sempre aberta ao eterno triunfo da sua fama.

Pe. D. Rafael Bluteau in «Vocabulário Português e Latino», Tomo VI, 1720.

Ditador


Ditador. Soberano magistrado na antiga Roma, que o Senado elegia nas urgentes necessidades da República e cujo poder acabava com a causa que lhe dera o ser, ou quando muito durava seis meses. Desta suprema dignidade não havia apelação. O primeiro que logrou este título foi Tito Lárcio Flavo, que por ter aplacado uma sedição, conseguiu esta honra, ano da Fundação de Roma duzentos e cinquenta e seis. E como Roma, depois de lançados os Reis, sempre se regera por dois Cônsules, que acabavam cada um ano, ficou o povo com receio, vendo o senhorio da sua liberdade em mão de uma só pessoa, mas tornou a se aquietar com a notícia da brevidade deste cargo, que só em Sila e em Júlio César foi denominado Perpétuo. (...)
Ditador. O cavalo de César, chamado o Ditador, tinha os pés fendidos a modo de pés humanos. Quando este nasceu, tinha César o governo de Portugal, foi murzelo [=cavalo preto]. Não consentiu que se pusesse nele [montar], senão o mesmo César. Galvão, Tratado da Gineta, pág. 18.

Pe. D. Rafael Bluteau in «Vocabulário Português e Latino», Tomo III, 1713.

Angola


Angola. Cidade e Reino na praia meridional de África, entre os rios Danda e Cuanza. O próprio nome deste Reino é Dongo; antigamente foi chamado Ambundo. Angola é o nome do primeiro fundador deste Reino, que com ele se levantou contra o Rei do Congo, do qual era tributário. Pela parte Norte confina o Reino de Angola com o do Congo, e pela parte do Sul com o de Matamba; a Este tem o Reino de Malemba, e a Oeste o Oceano. Haverá alguns cento e sessenta anos, que um dos Sobas do Congo, chamado Angola, e confederado com os Portugueses, venceu os Príncipes seus vizinhos: erigiu em Reino as suas conquistas e tomou o título de Inene. Seu filho, Dambi Angola, que lhe sucedeu, foi inimigo mortal dos Portugueses, mas o filho e sucessor deste, chamado Guilonge Angola, renovou amizade e união com os Portugueses. O primeiro governador de Angola foi Paulo Dias de Novais, que se apoderou de várias Cidades e Províncias. Na sua Descrição da África, pág. 368, escreve Dapper, que no ano de 1584, quinhentos Portugueses desbarataram 1 200 000 Negros de Angola. Foram os Holandeses algum tempo senhores de Angola, mas Salvador Correia de Sá a recuperou.

Pe. D. Rafael Bluteau in «Vocabulário Português e Latino», Tomo I, 1712.

Centro


Centro. O centro, Matemática e Cosmograficamente considerado, é o ponto que está no meio do Universo. Este ponto central é simples, e como tal, não tem composição, e pelo conseguinte é indivisível, e sendo tão pequeno que não tem partes, responde a todas as partes da mais ampla circunferência; e assim tem a circunferência tão grande dependência do centro, que nem centro se pode perceber sem circunferência, nem circunferência sem centro. Como pois a Divina Sabedoria tem tirado, e como desenvolvido e desenrolado do centro o Universo, se tirardes o centro, não haverá evolução de corpos, e se faltar evolução de corpos, não terá o Mundo amplitude, e faltando esta no Mundo, os corpos dele nenhuma disposição poderão ter, nenhuma ordem, nenhum influxo, nenhum movimento; e como todas estas faltas seriam absurdos, é preciso dizer que para o centro do qual emanaram, todas as coisas se ordenam. Logo, o centro é coisa que todas as coisas apetecem; centro é o que todas as coisas desejam, como coisa absolutamente necessária para a união dos corpos e conservação do Universo. Da virtude do centro todas as virtudes dos movimentos naturais e elementais emanam; sem a virtude do centro, nem o vegetante poderia crescer, nem a ave voar, nem o quadrupede andar, nem o homem fazer acção alguma corpórea, como doutamente o mostra o Padre Atanásio Kircher no I. tomo do seu Mundo Subterrâneo, por todo o livro primeiro Centrográfico. Finalmente, do centro tudo sai e para o centro tudo se dirige.

Pe. D. Rafael Bluteau in «Suplemento ao Vocabulário Português e Latino», Parte I, 1727.

Cruz


Antigo patíbulo dos malfeitores em várias nações do mundo e de diferente figura, segundo a variedade dos tempos. As primeiras cruzes eram uns madeiros direitos e às vezes troncos de árvores, em que atavam de pés e mãos o padecente. As cruzes, compostas de dois paus, foram de três maneiras. 1. De um pau atravessado pelo meio de outro, como a letra X. 2. De um pau atravessado pela extremidade superior de outro pau a plumo, como a letra T. 3. De um pau direito e atravessado por outro, não totalmente por cima dele, mas deixando um pedaço livre e mais alto que os braços da cruz, como nesta figura +, o que se pode facilmente provar com a Cruz de Jesus Cristo, em cuja sumidade havia no meio um espaço, em que sobre a cabeça de Cristo, pendente na Cruz, mandou Pilatos pôr a fatal inscrição, reputada por causa legítima de Sua morte. Nas mais célebres nações do mundo foi usado o suplício da cruz. Entre os Assírios, antes do nascimento de Abraão, Farno, Rei da Média, foi crucificado por mandado de Nino, seu vencedor. Entre os Hebreus, Janeu seu Rei, filho de Hircano, mandou crucificar oitocentos deles. Entre os Egípcios, estando José em um cárcere, foi crucificado o Padeiro do Faraó. Entre os Persas, por mandado se Assuero, morreu Amã em uma cruz de cinquenta cúbitos de alto, preparada por ele para Mardoqueu. Entre os Gregos, Xantipe, General dos Atenienses, condenou ao suplício da cruz a Artaíctes, Governador de Etólia. Entre os Romanos era tão comum a morte da cruz, que até às mulheres se dava, como se viu no exemplo de Ida, sacrílega liberta de Décio Mundo, violador do Templo de Ísis, reinando Tibério. E é muito para admirar, que sendo a cruz o mais infame dos suplícios e o castigo ordinário de ladrões de estradas, assassinos, traidores e escravos, quisesse o Filho de Deus e Eterna Sabedoria e Redentor do mundo, sujeitar-Se a este género de morte, mas achamos em S. Paulo alguma razão deste incompreensível mistério, e é que Encarnando o Verbo Divino para livrar da maldição o género humano, tomara a maldição, que na estimação dos Judeus andava vinculada com a ignomínia do suplício da cruz. Mas no mesmo tempo foi a cruz o trono e carro triunfal (como lhe chamam os Padres) em que o filho de Deus venceu a morte e o Inferno.

Pe. D. Rafael Bluteau in «Vocabulário Português e Latino», Tomo II, 1712.

Sigilo da confissão


Sigilo. Selo. Sigilo da confissão; de ordinário não se usa esta palavra senão neste sentido. É o segredo que o Confessor está obrigado a guardar dos pecados que ouviu na confissão sacramental, de tal maneira, que nem por medo, nem por censuras, nem por perigo de morte, pode revelar pecado algum, ou circunstância, pela qual se descubra directa, ou indirectamente, em geral o pecado do penitente, ainda que seja levíssimo; e ainda se há-de recatar de referir em geral contos, dizendo v.g. sucedeu-me que ouvindo de confissão, etc. porque destas histórias se hão seguido grandes inconvenientes. Os Teólogos morais lhe chamam Sigillum confessionis. (Não falava a seus Padres espirituais, senão debaixo de Sigilo. Cartas de Fr. António das Chagas, parte 2, pág. 23).
Revelar o sigilo. Peccata sacramentali confessione commissa, patefacere et aperire. (Nenhum caso há em que seja lícito revelar o Sigilo da confissão. Prontuário Moral, 34).
Guardar o sigilo. Peccata sacramentali confessione commissa, silentio tegere. É tomado de Quinto Cúrcio, que diz, Affirma jurejurando, quae committam, silentio esse tecturum, quer dizer, Jura que guardarás segredo. (Está o Confessor obrigado a guardar o Sigilo do Sacramento. Prontuário Moral, 285).

Pe. D. Rafael Bluteau in «Vocabulário Português e Latino», Tomo VII, 1720.

Intrudo ou Entrudo


Intrudo ou Entrudo. É corrupto de Intróito, porque Intrudo é como Intróito dos dias Santos da Quaresma, que imediatamente se segue ao último dia do Intrudo; por isso diziam os nossos velhos em Latim macarrónico Sanctus introitus, tempus quebrare panellas. Querem outros que Intrudo seja quase o mesmo que Intruso, pelos muitos abusos que no tempo do Intrudo se introduziram, e ainda hoje em alguns Reinos que em outros barbaramente dominam. Em Salamanca chamam ao Intrudo Antruejo e nas aldeias circunvizinhas Antruydo, donde parece se derivou o nosso Entrudo ou Intrudo. A estas palavras, Antruejo e Antruydo, lhe busca o Licenciado Covarrubias várias etimologias no seu vocabulário da Língua Portuguesa, ao qual remeto os curiosos.

Pe. D. Rafael Bluteau in «Vocabulário Português e Latino», Tomo IV, 1713.