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Das sagradas Quinas


Em algumas memórias antigas e particularmente no livro das Armas composto por António Soares de Albergaria, se acha que as Armas antigas do Reino de Portugal eram uma Cidade branca em campo azul, sobre ondas verdes e douradas, em memória do Porto de Gale que lhe deu princípio, junto da foz do Rio Douro. Cessaram estas Armas tanto quando o Conde D. Henrique entrou no Senhorio de Portugal, porque este Príncipe usou algum tempo de um escudo branco somente, sem figura nem divisa alguma. Depois assentou no escudo uma Cruz azul, daquele feitio a que na frase de Armaria chamam Potetea. Destas mesmas Armas usou seu filho el-Rei D. Afonso Henriques, até que Cristo Senhor nosso, querendo fundar no Reino de Portugal uma Monarquia singularmente Sua, no ano de mil cento e trinta e nove do Seu Nascimento, estando o dito Príncipe recolhido na sua tenda, na noite antecedente à batalha em que venceu cinco Reis Mouros e lhes tomou cinco bandeiras e cinco escudos, lhe apareceu cercado de resplendores, e depois de lhe prometer grandes vitórias contra os infiéis, lhe deu com o título de Rei suas cinco Chagas por Armas, e os trinta dinheiros porque foi vendido aos Judeus. Seguiu-se ao outro dia a vitória e foi aclamado Rei de Portugal o Príncipe D. Afonso Henriques, não só pelo exército, mas pelos povos nas Cortes que logo celebrou em Lamego; e fazendo solene juramento em Coimbra deste sucesso a vinte e nove de Outubro, ano de mil cento cinquenta e dois, mandou a seus descendentes que trouxessem por Armas cinco escudos postos em Cruz, e em cada um deles os trinta dinheiros; Timbre a Serpente de Moisés, por ser figura de Cristo. Por diferentes modos organizaram este escudo das Armas os Reis antigos de Portugal, até que ultimamente el-Rei D. João II o formou pela ordem com que hoje o vemos, e em campo de prata cinco escudos azuis postos em Cruz; e em cada escudo cinco dinheiros de prata em aspa. Representam os cinco escudos as cinco Chagas, e estes contados segunda vez com os vinte e cinco dinheiros, fazem trinta, porque foi vendido Cristo aos Judeus. El-Rei D. Afonso III lhe acrescentou por orla sete castelos de prata em campo de sangue, que são as Armas do Reino do Algarve.

Pe. D. Rafael Bluteau in «Vocabulário Português e Latino», Tomo VII, 1720.

Reis absolutos: todos os nossos


Rei absoluto quer dizer: um Rei como sempre foram os nossos, que fundaram, restauraram e ampliaram a monarquia... Foi Rei absoluto o Senhor D. Afonso Henriques... Foi Rei absoluto o Senhor D. João I, foi Rei absoluto o Senhor D. Manuel, e foi Rei absoluto o Senhor D. João III. Rei absoluto é um Rei que governa o seu Reino sem conhecer por seu superior senão o mesmo Deus... O poder dos Reis é absoluto, porque não é responsável a nenhuma jurisdição humana, do que fizer ou determinar, porque se houvesse jurisdição de inquirir do seu procedimento, seguia-se que este se devia chamar propriamente Soberano, e o Soberano seria ao mesmo tempo inferior e dependente, o que repugna segundo a hipótese!

D. Frei Fortunato de São Boaventura in «O Mastigóforo: Prospecto de um Dicionário das Palavras e Frases Maçónicas», Nº 1, 1824.

Batalha de Valdevez


Pelos anos de 1128 veio El-Rei de Leão e Castela Dom Afonso VII, chamado Emperador, contra El-Rei (então Infante) Dom Afonso Henriques. Avistaram-se neste dia [25 de Junho] na Veiga de Valdevez, que está entre a Vila dos Arcos e a freguesia de Santo André de Guilhadeses. Ali se deu batalha, e foi uma das bem disputadas daqueles tempos. Venceram os Portugueses com tanta perda dos inimigos, que por ela se chama ainda hoje àquela Veiga da Matança. Deu o Infante insignes provas de valor, e todos os seus obraram maravilhas. El-Rei de Leão escapou ferido, ficando prisioneiros sete Condes e os principais senhores que o acompanhavam. Colheu-se entre os despojos uma grande relíquia do Santo Lenho, que se depositou na Igreja de Grade, distante quase uma légua do lugar da batalha, e se conserva ainda hoje com memória continuada de muitos milagres; e como abonado testemunho daquela famosa vitória.

Pe. Francisco de Santa Maria in «Ano Histórico, Diário Português: Notícia Abreviada de pessoas grandes e coisas notáveis de Portugal», 1744.

Vitória admirável de D. Afonso Henriques em Palmela


Sendo o grande Rei Dom Afonso Henriques já de setenta e um anos de idade, assim andava envolto nas facções militares contra os infiéis, como se estivera no ardor dos primeiros anos. No de 1165 conquistou a Vila de Sesimbra, fortíssima então; E quando já estava capitulando, destacou das suas tropas sessenta de Cavalo e um pequeno esquadrão de Infantes, com intento de dar uma vista ao Castelo de Palmela, naqueles tempos inexpugnável. Vinha pelo mesmo caminho a socorrer Sesimbra, o Rei Mouro de Badajoz, e trazia quatro mil de Cavalo e sessenta mil de pé; E como os inimigos entendiam que o nosso Rei estava ainda sobre Sesimbra, nesta consideração marchavam sem ordem e sem temor de algum acometimento. Viu El-Rei aquela multidão tumultuária e confusa, e logo se inflamou em tão elevados e generosos brios, que dando de esporas ao cavalo, enristando a lança, mandou aos seus que o seguissem. Só a resolução, neste caso, merecia elogios imortais; Mas o sucesso assim correspondeu a ela, que, postos os Mouros em confusão, entendendo que tinham sobre si todo o poder dos Portugueses, voltaram as costas, e tropeçando uns em outros, foram destroçados inteiramente. Sucedeu esta milagrosa vitória neste dia [21 de Fevereiro], no ano acima referido, e pouco depois, se rendeu o Castelo de Palmela, mais à fama de tão ilustre feito, que aos impulsos de alguma expugnação.

Pe. Francisco de Santa Maria in «Ano Histórico, Diário Português: Notícia Abreviada de pessoas grandes e coisas notáveis de Portugal», 1744.

Reis de Portugal e Leão celebram Pazes em 1168


Ficou lastimado o valeroso Rei Dom Afonso Henriques, quando se viu em estado tão alheio de sua grandeza, pois sobre tantas vitórias e triunfos passados, descaindo ao presente daquele alto ponto da prosperidade que até então o acompanhara, estava não só preso, mas sua vida posta em grande perigo. El-Rei Dom Fernando não pode negar a compaixão devida a espectáculo tão triste, antes como Príncipe dotado de prudência e humanidade não só usou temperadamente da vitória, mas tratou a El-Rei Dom Afonso com grande cortesia e regalo, e não menor cuidado de sua saúde do que pudera ter o Infante Dom Sancho, filho do próprio Rei Dom Afonso. E porque o quebrantamento da perna d'El Rei pedia remédio com brevidade, o fez aplicar logo; e com a mesma diligência se foi continuando todo o tempo que El-Rei esteve em suas terras, a primeira das quais diz que foi Zamora e depois Ávila, donde cobrada alguma melhoria e firmados os contractos das pazes se tornou para seu Reino.

Frei António Brandão in «Terceira parte da Monarquia Lusitana: Que contém a História de Portugal desde o Conde Dom Henrique, até todo o reinado d'El-Rei Dom Afonso Henriques», 1632.

Transladação do Mártir São Vicente


Neste dia [15 de Setembro] se viu a Metrópole da Monarquia Portuguesa ditosamente enriquecida com um tesouro de mais alto preço, que quantos (correndo os tempos) tributou o Indo ao Tejo. Entrou neste dia pela barra de Lisboa, em uma só Nau, uma riquíssima frota, porque trazia aquela só Nau (que Lisboa então tomou por Armas) o sagrado cadáver do invictíssimo e gloriosíssimo Mártir São Vicente, foi achado e conduzido no ano de 1173, a diligências do primeiro Rei de Portugal, e colocado na Capela-mor da Catedral de Lisboa, em majestoso túmulo; A mesma Cidade, com discreta e venturosa eleição, o elegeu e experimentou sempre singular advogado e beneficentíssimo Protector.

Pe. Francisco de Santa Maria in «Ano Histórico, Diário Português: Notícia Abreviada de pessoas grandes e coisas notáveis de Portugal», 1744.

Aniversário de nascimento d'El-Rei D. Afonso Henriques


Dom Afonso Henriques, filho do Conde D. Henrique e de sua mulher, a Rainha Dona Tereza, senhores de Portugal, nasceu na Vila de Guimarães, neste dia [25 de Julho], ano de 1109, e logo no princípio da vida participou favores do Céu; porque nascendo com um defeito natural, que o fazia inábil para os exercícios militares (único meio de conseguir a Coroa) seu aio, o famoso Egas Moniz, o levou a uma milagrosa imagem da Mãe de Deus, em cuja soberana protecção achou pronto remédio; e restituído à inteira perfeição da natureza, assistido de sobrenatural protecção, veio a ser um dos mais esclarecidos Príncipes, de quantos enobreceu a fama e eternizou a memória.

Pe. Francisco de Santa Maria in «Ano Histórico, Diário Português: Notícia Abreviada de pessoas grandes e coisas notáveis de Portugal», 1744.

Bula do Papa Alexandre III a Dom Afonso Henriques


Alexandre, Bispo, Servo dos Servos de Deus, ao Caríssimo Filho em Cristo, Afonso, Ilustre Rei de Portugal, e a seus Herdeiros, in perpetuum.

Está claramente demonstrado que, como bom filho e Príncipe católico, prestaste inumeráveis serviços a tua Mãe, a Santa Igreja, exterminando intrepidamente, em porfiados trabalhos e proezas militares, os inimigos do nome Cristão, e propagando diligentemente a Fé cristã, assim deixaste aos vindouros nome digno de memória e exemplo merecedor de imitação. Deve a Sé Apostólica amar com sincero afecto e procurar atender eficazmente, em suas justas súplicas, os que a Providência divina escolheu para governo e salvação do povo. Por isso, Nós, atendendo às qualidades de prudência, justiça e idoneidade de governo que ilustram a tua Pessoa, tomamo-la sob a protecção de São Pedro e Nossa, e concedemos e confirmamos por Autoridade Apostólica ao teu excelso domínio o Reino de Portugal com inteiras honras de Reino e a dignidade que aos Reis pertence, bem como todos os lugares que com o auxílio da graça celeste conquistaste das mãos dos Sarracenos e nos quais não podem reivindicar direitos os vizinhos Príncipes cristãos. E para que mais te afervores em devoção e serviço ao Príncipe dos Apóstolos, São Pedro, e à Santa Igreja de Roma, decidimos fazer a mesma concessão a teus Herdeiros e, com a ajuda de Deus, prometemos defender-lha, quanto caiba em nosso apostólico ministério. Continua, pois, a mostrar-te filho caríssimo, tão humilde e devotado à honra e serviço da tua Mãe, a Santa Igreja Romana, e a ocupar-te em defender os seus interesses, a dilatar a Fé cristã de tal modo que esta Sé Apostólica possa alegrar-se de tão devoto e glorioso filho e não duvide da sua afeição. Para significar que o referido Reino pertence a São Pedro, determinaste como testemunho de maior reverência pagar anualmente dois marcos de oiro a Nós e aos Nossos sucessores. Cuidarás, por isso, de entregar tu e os teus sucessores, ao Arcebispo de Braga pro tempore, o censo que a Nós e a Nossos sucessores pertence. Determinamos, portanto, que a nenhum homem seja lícito perturbar temerariamente a tua Pessoa, ou as dos teus Herdeiros, e bem assim o referido Reino, nem tirar o que a este pertence, ou, tirado, retê-lo, diminuí-lo ou fazer-lhe quaisquer imposições. Se de futuro qualquer pessoa eclesiástica, ou secular, intentar cientemente contra o que dispomos nesta nossa Constituição, e não apresentar satisfação condigna depois de segunda ou terceira advertência, seja privada da dignidade da sua honra e poder, saiba que tem de prestar contas a Deus por ter cometido uma iniquidade, não comungue do sacratíssimo Corpo e Sangue de Jesus Cristo nosso divino Senhor e Redentor, e nem na hora da morte se lhe levante a pena. Com todos, porém, que respeitarem os direitos do mesmo Reino e do seu Rei, seja a paz de Nosso Senhor Jesus Cristo, para que neste mundo recolham o fruto das boas obras e junto do soberano Juiz encontrem o prémio da eterna paz. Ámen. Ámen. Alexandre. (...)

Dada em Laterão, por mão de Alberto, Cardeal presbítero e Chanceler da Santa Igreja Romana, a 10 das Calendas de Junho [23 de Maio], indicção XI, ano MCLXXIX da Encarnação do Senhor e XX do Pontificado do Papa Alexandre III

D. Sancho derrota o Rei mouro de Sevilha


Desejando El-Rei Dom Afonso Henriques que seu filho primogénito, o Infante Dom Sancho, não perdesse os brios na ociosidade da paz e se costumasse a pelejar e vencer, lhe mandou que fizesse uma entrada em terra de Mouros pela parte de Andaluzia. Saiu o Infante de Coimbra, e no meio da Ponte se despediu de El-Rei, seu pai, e lhe beijou a mão, com semblante tão alegre e com palavras tão cheias de espírito militar, que bem asseguravam a vitória antes da batalha. Passou à Província do Além-Tejo e dali entrou por Andaluzia, e chegou a avistar a famosa Cidade de Sevilha; O Rei que era daquela Cidade e o mais poderoso dos que então havia em Espanha, picado da resolução do Infante, lhe saiu com um Exército de mais de trinta mil combatentes; Constava o nosso de dois mil e trezentos de cavalo e quatro mil de pé, mas escolhidos e bem disciplinados e costumados a vencer. Atacou-se a batalha com grande valor de uma e outra parte, e sobre o esquadrão do Infante caiu tanto peso de inimigos, que se viu em perigo manifesto de perder a vida, ou a liberdade; Correram em sua defesa os principais senhores Portugueses, e à imitação do seu Príncipe, e por seu respeito, obraram estupendas proezas; Até que, lançado por terra o estandarte d'el-Rei de Sevilha e represadas muitas bandeiras dos Mouros, foram estes postos em fugida, com tanta mortandade, que por muitas horas correram envoltas em sangue bárbaro as águas do celebrado Bétis [Rio Guadalquivir]. Colheram os Portugueses riquíssimos despojos, e mais cheios ainda de fama que de riquezas, voltaram para o Reino a lograr os frutos e parabéns de tão insigne vitória, sucedida neste dia [5 de Novembro], ano de 1178.

Pe. Francisco de Santa Maria in «Ano Histórico, Diário Português: Notícia Abreviada de pessoas grandes e coisas notáveis de Portugal», 1744.

Tomada de Beja aos Mouros


Havia posto El-Rei Dom Afonso Henriques à sua obediência a antiga Cidade de Beja; Porém os Mouros, que só guardam fé enquanto a não podem violar, logo que puderam, sacudiram o jugo Português. Fernão Gonçalves, Cavaleiro valeroso daqueles tempos, tratou com grande segredo, que foi admiravelmente guardado, com outros Capitães de a tomar aos Mouros, como fizeram por assalto na noite deste dia [30 de Novembro], ano de 1162, com copioso sangue e horrível confusão dos defensores, que de nada menos se temiam naquela hora.

Pe. Francisco de Santa Maria in «Ano Histórico, Diário Português: Notícia Abreviada de pessoas grandes e coisas notáveis de Portugal», 1744.

Fundação da Ordem Militar de Avis


Neste dia [11 de Agosto], ano de 1161, foi instituída em Coimbra, por El-Rei Dom Afonso Henriques, com autoridade Apostólica, na presença dos maiores Prelados e Cavaleiros de Portugal, a Ordem Militar de Avis. Deu-lhe o mesmo Santo Rei por Protectora a Santíssima Virgem Maria, por Grão-Mestre a Dom Pedro Afonso, meio-irmão do mesmo Rei, por regra a de São Bento, conforme aos estatutos e reforma de Cister, com a direcção e aprovação do Venerável Abade João Cirita, naquele tempo Legado Apostólico, que depois confirmou o Papa Inocêncio III, passando esta Ordem para a Cidade de Évora no Reinado d'el-Rei Dom Sancho I. Depois passou para a Vila de Avis, que lhe deu o nome, e à mesma Vila, por se verem duas águias no sítio em que se fundou o seu Castelo e Convento, em 1213. Têm os Cavaleiros desta esclarecida Ordem quarenta e oito rendosas Comendas, por hábito e venera uma Cruz verde com quatro flores-de-lis.

Pe. Francisco de Santa Maria in «Ano Histórico, Diário Português: Notícia Abreviada de pessoas grandes e coisas notáveis de Portugal», 1744.

Juramento d'El-Rei Dom Afonso Henriques


Neste dia [29 de Outubro] do ano de 1152, celebrando El-Rei D. Afonso Henriques, primeiro de Portugal, Côrtes com todos os estados do Reino na Cidade de Coimbra, fez juramento da Visão que tivera de Nosso Senhor Jesus Cristo, treze anos antes, no de 1139, estando com seu exército, pequeno em número, mas grande em valor, no campo de Ourique, junto à Vila de Castro Verde da Província do Alentejo, tendo em frente contrária um formidável exército de cinco Reis Mouros, dos quais o certificou a Majestade divina, que não só triunfaria e venceria a presente batalha, mas quantas pelejasse contra os inimigos da fé, como se viu naquela ocasião, em que venceu e destruiu totalmente os cinco Reis Mouros, e em todas quantas pelejou contra os inimigos da Cruz de Cristo. Em memória deste vencimento, e daquela Visão, deixou o mesmo Rei por armas a este Reino, as cinco quinas em forma de Cruz, tão conhecidas e respeitadas em todo o mundo por vencedoras e triunfantes. O original do auto do sobredito juramento está no Real Mosteiro de Alcobaça.

Pe. Francisco de Santa Maria in «Ano Histórico, Diário Português: Notícia Abreviada de pessoas grandes e coisas notáveis de Portugal», 1744.

Portugal: Reino Católico fundado por Deus


Não menos podemos nós dizer felizmente da nossa Monarquia, pois que aparecendo Cristo Nosso Senhor, na noite antecedente ao dia da batalha do Campo de Ourique, ao nosso primeiro Rei, e querendo fundar neste Reino uma Monarquia, lhe deu com o título de Rei as Suas cinco chagas por Armas e os trinta dinheiros por que fora vendido aos Judeus. E portanto, sendo o nosso adorado Monarca descendente daqueles que legitimamente lhe sucederam, e que conservaram a mesma forma de Governo com que fora plantado, que Direito haveria legítimo (a não ser o da força) para alterar a forma estabelecida de Governo, e despojar ao Monarca Reinante de seus Direitos primitivos e legitmamente estabelecidos?

António Joaquim de Gouveia Pinto in «Os Caracteres da Monarquia», 1824.

Reconquista de Santarém e São Miguel Arcanjo


Em Santarém, a soleníssima festa da Aparição de S. Miguel, esclarecido patrono desta antiga e populosa Vila, em cujo feliz dia [8 de Maio] foi recuperada dos Bárbaros pelo ínclito Rei D. Afonso Henriques, acompanhado mais de seu católico zelo e confiança divina, que do numeroso exército de soldados e bélicos instrumentos, com que se achava naquela apertada ocasião, aparecendo no Céu à noite precedente à batalha sinais demonstrativos da famosa vitória, que no seguinte dia havia de alcançar dos inimigos da Fé. Arvorado então o Estandarte Real nas ameias de seus muros por três valerosos soldados, que no maior silêncio da noite, subiram a eles com admirável ousadia. Aberta a porta daquela inexpugnável praça com um martelo de ferro, que outros administraram de fora, entrou logo o S. Rei, e ajoelhado em terra, mãos e olhos no Céu, fez oração a Deus e uma breve fala aos seus, dizendo em alta voz, para que de todos fosse ouvido: Eia valentes Soldados, aqui tendes a vosso Rei e companheiro, não só para testemunha das façanhas que neste comenos obrardes, mas para exemplo do muito que estais obrigados a executar contra os inimigos da Igreja. Animados com estas fervorosas palavras, os Cristãos, invocando o Patrão de Espanha [Patrono da Península Ibérica], fizeram bravo estrago e carniceira lastimosa nos Mouros, avantajando-se entre todas, aquela invencível espada, banhada tantas vezes do Agareno sangue, executando tão inauditas proezas, que escurecem as mais célebres que publica a trombeta da fama, ouvindo-se por todas as partes desentoados gritos e alaridos, acrescentando este miserável labirinto a confusão das armas e obscuridade da noite, com que não havia quem se pudesse valer e dar a conselho, até que passados aos fios dos luzentes ferros os principais Mouros que lhe resistiram. Ao romper da alva, teve a duvidosa e travada peleja feliz remate em favor dos Cristãos. Porque no tempo que os invencíveis Portugueses, em companhia de seu vitorioso Rei, meneavam as armas temporais nas terras de sua conquista, contra esta vil e infame canalha, em defesa da liberdade Real e exaltação da Religião Católica, meneavam as espirituais, não somente S. Teotónio no Mosteiro de S. Cruz de Coimbra, com seus Cónegos, mas também S. Bernardo no de Claraval, com seus Monges, implorando cada qual o glorioso triunfo, que o S. Rei conseguiu de seus contrários e declarados inimigos de Cristo. E vendo ambos com os olhos do espírito o processo de combate pouco favorável aos nossos, apressaram as rogativas e preces, com maior veemência, até que se decretou no Consistório divino, ficasse o campo e a vitória pelas Armas Católicas. Passados 24 anos, veio el-Rei de Sevilha, Albaraque, sobre a dita Vila com poderosíssimo exército, e vendo-se o magnânimo Rei D. Afonso Henriques apertado, recorreu (como tinha de costume) ao Céu, negociando o feliz despacho por meio do Arcanjo S. Miguel (de quem era particular devoto) e saindo os nossos ao campo, animados de suas afectuosas palavras e alentados com o diviníssimo Sacramento do Altar, andando o esforçado Rei no maior conflito da batalha, apareceu a seu lado um Braço armado com asa no coto, que jogava as armas destrissimamente (insígnia com que ordinariamente se pinta este tutelar da Igreja Católica e defensor do povo Cristão) fazendo bravo estrago nos Mouros, com que brevemente a duvidosa vitória ficou pelo S. Rei, e reconhecendo a ele a tão soberano patrocínio, instituiu no Real Mosteiro de Alcobaça a Cavalaria da Ala, com particulares Constituições, debaixo da Regra de S. Bento, que perseverou somente enquanto viveu. Por estes e outros singulares benefícios, que por intercessão do S. Arcanjo, alcançou esta nobre Vila do Senhor dos exércitos, lhe levantou Ermida, aonde vai o Senado dela todos os anos neste dia [8 de Maio], com solene Procissão, render as graças das assinaladas vitórias que ali conseguiram as Lusitanas Armas dos inimigos da Fé, nos primórdios deste escolhido e santificado Reino de Portugal.

Pe. Jorge Cardoso in «Hagiológio Lusitano dos Santos e Varões ilustres em virtude, do Reino de Portugal e suas conquistas», Tomo III, 1666.

Portugal e a Serpe


A propósito da referência à serpente na publicação anterior...

Também diz o A. que o Timbre da Serpe de Portugal foi tomado por El-Rei D. Afonso Henriques, outros sentem que foi tomado por El-Rei D. João I, pondo sobre suas Armas Reais a Serpe de ouro pela de Moisés, que figurava a Cristo Senhor Nosso levantado na Cruz, ainda que parece que sua Crónica diz que pela devoção que tinha ao Mártir S. Jorge, por quem apelidava nas Batalhas contra Castela, por aquela Serpe que o Santo matou, como também por este Santo ser Padroeiro da Cavalaria e Ordem da Jarreteira, de que era Cavaleiro o mesmo Rei D. João Gracia Dei, dá por Timbre às Armas de Portugal um Cordeiro de prata assentado sobre uma Coroa de espinhos de sua cor, figura de Cristo Jesus, ainda que não achamos este Timbre usado nem nos Livros de Armaria.

D. António Caetano de Sousa in «Provas da História Genealógica da Casa Real Portuguesa», Tomo VI, 1748.

Fundação do Mosteiro de Alcobaça


Neste dia [2 de Fevereiro], ano de 1148, em que se celebra a festa da Purificação da puríssima Virgem Maria, Senhora nossa, se abriram, por ordem de Dom Afonso Henriques, Iº Rei de Portugal, os fundamentos da Igreja do Real Mosteiro de Alcobaça; sendo o mesmo Rei o primeiro que com uma enxada nas mãos, tirou uma seira de terra e a levou a seus ombros, do mesmo modo que em Roma tinha feito o grande Constantino, na fundação da Basílica Vaticana. O Infante Dom Pedro, e os mais Magnates da Côrte, seguiram o mesmo exemplo de Dom Afonso. O qual dotou este Mosteiro de todas as terras que se viam até ao mar, do alto do monte de Mendiga, junto a Santarém, em que existe um padrão, onde prometera de as dar a Religiosos de São Bernardo, se vencesse e expulsasse, como conseguiu, os Mouros de Santarém. Em riqueza e grandeza, é aquele Mosteiro um dos grandes da Cristandade.

Pe. Francisco de Santa Maria in «Ano Histórico, Diário Português: Notícia Abreviada de pessoas grandes e coisas notáveis de Portugal», 1744.

6 de Dezembro: Venerável Dom Afonso Henriques


A modéstia e piedade d'el-Rei Dom Afonso Henriques se descobre em alguns exercícios de sua vida, pois sabemos que quando os negócios da guerra lhe davam lugar, a maior consolação que tinha era assistir nos conventos dos Religiosos e ocupar o tempo na meditação das coisas sagradas. Algumas vezes sabemos que se retirou aos mosteiros de Alcobaça e São João de Tarouca, como em seus lugares deixamos advertido. E ordinariamente quando estava em Coimbra acompanhava os Religiosos de Santa Cruz, e com uma sobrepeliz vestida, assistia no Coro aos divinos ofícios, como se sabe de memórias antigas daquela casa. De tudo o sobredito, se pode coligir que foi el-Rei Dom Afonso Henriques não só um dos ínclitos Reis da Cristandade em guerra, e paz igualmente claríssimo, mas varão admirável consumado em todo o género de virtudes.
Alguns indícios há de bem-aventurança de sua alma, os quais proporei como os alcancei de memórias antigas. Em um livro de mão do Mosteiro de Alcobaça, em que se trata de São Martinho, e se contém algumas coisas escritas por Gregório Turonense, Severo Sulpício e outros autores, há estas palavras referidas a el-Rei Dom Afonso Henriques:
Este bom Rei Dom Afonso, a noite em que se filhou Ceuta aos Pagãos pelo honrado Senhor Rei Dom João, o Primeiro, apareceu no Convento de Santa Cruz de Coimbra, todo ornado, sendo os Frades Cónegos em sembra no Coro às Matinas; a lhe disse que ele por querer de Deus fora com Dom Sancho, seu filho, ajudar a cobrar Ceuta aos Mouros, a logo transportaleceu que não foi então mais visto, quedando costeiros todos, pasmados do que haviam visto.
Também em memórias de Santa Cruz se contam alguns aparecimentos deste Rei em defesa daquela casa: Uma só apontarei, feita ao próprio Rei Dom João I. Tinha ele mandado a um seu oficial que todas as terras de seus Reinos pertencentes aos reguengos Reais, ainda que estivessem sujeitas às Igrejas, ou pessoas particulares, se aplicasse à Coroa até se informar do modo e causa porque foram desmembradas. Com esta diligência se tomou ao Mosteiro de Santa Cruz a quinta da Atamuia, que é em termo de Alenquer. Apareceu em sonhos el-Rei Dom Afonso Henriques a el-Rei Dom João, e com palavras graves lhe disse que restituísse ao seu Mosteiro de Santa Cruz a quinta que ele lhe dotara quando vivia, e soubesse como tinha tomado debaixo de sua protecção as coisas daquele Mosteiro. Acordou el-Rei Dom João, e contando à gente de sua casa o que lhe acontecera, mandou logo restituir a Santa Cruz a quinta que lhe fora tomada.
Destes e de outros casos semelhantes se fica entendendo que vive el-Rei Dom Afonso glorioso na eterna bem-aventurança, pois do lugar dos mortos não era conveniente que viesse exercitar estes actos de esforço e religiosa piedade. Bem entendiam isto os Religiosos antigos de Alcobaça, pois não só ordenaram se fizessem os ofícios e celebrassem Missas por este Rei com ornamentos de festa, como ainda hoje se usa, mas também lhe compuseram uma comemoração como de bem-aventurado. Em o Mosteiro de Lorvão vi um livro de pequena leitura escrito em pergaminho, em o qual está a comemoração que digo d'el-Rei Dom Afonso Henriques. E outra quase do mesmo teor, ainda que mais acrescentada nas palavras, achei em a livraria de Alcobaça, em o fim do livro da vida de São Martinho, em o qual há muitas coisas tocantes a São Tiago e ao Imperador Carlos Magno. Diz a comemoração deste modo:


Frei António Brandão in «Terceira parte da Monarquia Lusitana: Que contém a História de Portugal desde o Conde Dom Henrique, até todo o reinado d'el-Rei Dom Afonso Henriques», 1632.

Prodígio numa estátua de D. Afonso Henriques


No mesmo dia [6 de Novembro], ano de 1632, se colocou no mais alto lugar do frontispício de um dormitório do Real Mosteiro de Alcobaça, uma figura de vulto do Santo e invencível Rei Dom Afonso Henriques: Era já perto da noite quando se acabou de assentar, e pouco mais de uma hora depois, se viu, com grande admiração dos Religiosos e dos moradores da Vila, que da parte do mar vinha correndo um grande globo de fogo para a figura, na mesma altura dela, mostrando claramente que a buscava, e tanto que chegou, parou sobre a Coroa do glorioso Rei, sobre a qual se desfez, deixando o ar alumiado por bom espaço: Fizeram-se vários juízos sobre esta maravilha, parece que acertaram melhor os que disseram que quisera o Céu coroar aquela Cabeça com os resplendores que lhe faltavam e se deviam, às excelentes virtudes e religiosas acções daquele grande herói, não menos Santo que valeroso.

Pe. Francisco de Santa Maria in «Ano Histórico, Diário Português: Notícia Abreviada de pessoas grandes e coisas notáveis de Portugal», 1744.

D. Afonso Henriques e a Ordem de S. Miguel da Ala


Feito isto, entendendo o bom Rei a dívida grande em que a Deus estava, pelo benefício presente, lhe deu as graças, e com demonstração particular, gratificou um favor extraordinário do Céu, que nesta ocasião experimentou; e foi este. Andando o valeroso Rei no mais fervoroso na batalha, se viu a seu lado um braço com asa, pelejando com espada, que se julgou assistência do glorioso Arcanjo São Miguel, a quem se encomendara, favorecendo-o e abrigando-o o Céu com este socorro, como outra vez o fizera a Judas Macabeu na perigosa batalha em que venceu a Timóteo. Reconhecido el-Rei Dom Afonso disto, dizem que instituiu uma cavalaria com a insígnia da asa, que é sinal com que pintam os Anjos, e daqui se intitulou a Cavalaria, ou Ordem da Ala, ou Asa: não permaneceu muito, porque nem todas as coisas bem ordenadas alcançam perpetuidade.

Frei António Brandão in «Terceira parte da Monarquia Lusitana: Que contém a História de Portugal desde o Conde Dom Henrique, até todo o reinado d'El-Rei Dom Afonso Henriques», 1632.

§

Relembro que, por Tradição, São Miguel Arcanjo é o Anjo Custódio do Reino de Portugal.

Ser católico português e republicano?


Na véspera da Batalha de Ourique, Nosso Senhor Jesus Cristo apareceu milagrosamente a D. Afonso Henriques, dizendo:

Eu Sou o fundador e destruidor dos Reinos e Impérios, e quero em ti, e teus descendentes, fundar para Mim um Império, por cujo meio seja Meu Nome publicado entre as nações mais estranhas. E para que teus descendentes conheçam quem lhes dá o Reino, comporás o escudo de tuas armas do preço com que Eu remi o género humano, e daquele porque fui comprado dos Judeus, e ser-Me-á Reino santificado, puro na fé e amado por Minha piedade.

Temos, então, que Portugal é por definição ontológica um Reino Católico, fundado pelo próprio Deus sobre D. Afonso Henriques e a sua directa e legítima descendência. Donde se conclui que o Catolicismo e a Monarquia são parte da essência e indissociáveis do ente chamado Portugal.

Portanto, para um católico português pretender ser republicano, terá que:

1. Negar a aparição milagrosa de Jesus Cristo a D. Afonso Henriques, chamando de mentiroso ao nosso primeiro Rei, e a todos os que testemunharam em seu favor, nomeadamente São Teotónio, confessor de D. Afonso Henriques e primeiro santo português. (Se não negar o facto do milagre, terá pelo menos que negar a fundação divina do Reino de Portugal, dizendo que Deus mentiu, ou enganou, quando edificou uma Monarquia sobre D. Afonso Henriques).

2. Dizer que a Igreja se enganou quando deu crédito ao Milagre de Ourique, e quando declarou D. Afonso Henriques como Venerável. Pois se o Milagre de Ourique é uma mentira, então D. Afonso Henriques nunca poderia ser digno de heroicidade nas virtudes, tal como reconheceu a Igreja ao proclamá-lo Venerável.

3. Dizer que os nossos antepassados estavam enganados, e que Portugal foi um erro até 1910, ano em que finalmente viu a "luz". Ou seja, Portugal só passou a existir verdadeiramente a partir de 1910, uma vez que antes disso só havia erro e engano.

4. Entrar em rebelião contra Deus, a Igreja, a Pátria e os Antepassados. Pecar contra o 4º Mandamento, que nos manda honrar pai e mãe, e outros legítimos superiores.

Assim, conclui-se que é impossível um católico português ser republicano. Trata-se de uma contradição moral e ontológica. Haverá uns que são republicanos por ignorância, mas também haverá outros que o são por culpa própria. Estes últimos não são portugueses verdadeiramente, uma vez que se colocam na posição de inimigos de Portugal, contradizendo uma verdade conhecida como tal.