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10 de Junho: Festa do Anjo de Portugal


Todos os Reinos e Pátrias têm o seu Anjo Custódio, que os protege dos perigos e auxilia nas adversidades. A fidelíssima Nação Portuguesa é a única cujo Santo Anjo tem culto litúrgico próprio, oficial e instituído pela Igreja em 1504. Por origem o Anjo de Portugal é São Miguel Arcanjo, guardião do Reino pelo qual o Príncipe da Milícia Celeste batalhou ao lado de D. Afonso Henriques na reconquista de Santarém aos Mouros. Roguemos ao nosso Anjo Custódio do Reino de Portugal, para que sempre nos defenda e dignifique:

Vinde, Anjo de Portugal, livrar a Pátria e os Portugueses de todo o mal.

Vinde, Anjo de Portugal, afastar da Pátria a vós confiada os males espirituais, assim como tudo o que puder perturbar a paz dos Portugueses.

Anjo Custódio de Portugal, defendei a nossa Pátria!
Anjo Custódio de Portugal, salvai a nossa Pátria!
Anjo Custódio de Portugal, santificai a nossa Pátria!

Pio XII sobre a gesta portuguesa


A fé católica, como foi em certo modo a linfa vital, que alimentou a Nação portuguesa desde o berço, assim foi, se não a única, certamente a principal fonte de energia, que elevou a vossa Pátria ao apogeu da sua glória de nação civil e nação missionária, «dilatando a fé e o império». Refere-o a história e os factos o atestam.

Efectivamente, quando os filhos de D. João I lhe pediram, que autorizasse a primeira expedição ultramarina, que havia de levar à libertação de Ceuta, o grande e piedoso monarca, antes de mais nada, quis saber deles, se a empresa seria ou não útil ao serviço de Deus. Como esta, todas as empresas seguintes tiveram igualmente por fim principal a propagação da fé, daquela fé que animara «a Cruzada do Ocidente» e as Ordens militares na épica luta contra o domínio dos Mouros.

Nas caravelas que, arvorando o níveo pendão rubricado com a cruz de Cristo, levavam os intrépidos descobridores lusíadas às praias ocidentais da África e das Ilhas adjacentes, navegavam também os Missionários, «para atraírem as nações bárbaras ao jugo de Cristo», como se exprimia o grande pioneiro da expansão colonial e missionária portuguesa, o Infante D. Henrique, o Navegador.

O príncipe dos descobridores portugueses, Vasco da Gama, quando levantava âncoras para iniciar a sua venturosa viagem das Índias, levava consigo dois Padres Trinitários, um dos quais, depois de ter pregado o evangelho com zelo apostólico aos povos da Índia, havia de coroar o seu laborioso apostolado com o martírio. O sangue deste e doutros heróicos Missionários portugueses foi naquelas remotas paragens, como sempre e em toda a parte o sangue dos mártires, semente de cristãos; e os seus luminosos exemplos foram para todo o mundo católico, mas em primeiro lugar para seus generosos compatriotas chamamento e estímulo ao apostolado missionário.

Viu-se então, – precisamente quando urna série de funestos acontecimentos arrancava grande parte da Europa do grémio da Igreja, que com tanta sabedoria e carinho materno a tinha educado, – viu-se Portugal com a nação irmã, a Espanha, abrir à mística Esposa de Cristo imensas regiões desconhecidas, e trazer ao seu regaço materno, em compensação dos miseramente perdidos, filhos inumeráveis nos vastos continentes da África, Ásia e América. Dioceses e paróquias, seminários e conventos, hospitais e orfanotrófios surgiram e se multiplicaram naquelas terras, a demonstração da perene vitalidade da Igreja católica, pela qual o divino Fundador incessantemente intercede, e na qual o Espírito Paráclito opera incessantemente, mesmo nas horas mais trágicas.

Mas donde veio «que vós, por muito poucos que sejais, muito façais na santa cristandade»? Donde veio a Portugal a força para abraçar no seu domínio tantas plagas da África e da Ásia, e estendê-lo ainda às terras longínquas da América? Donde, se não daquela ardente fé do Povo Lusitano, cantada pelo seu maior poeta, e da sabedoria cristã dos seus governantes, que fizeram de Portugal um dócil e precioso instrumento nas mãos da Providência, para a realização de obras tão grandiosas e benéficas?

De facto, em quanto os Albuquerques, os Castros e outros varões igualmente assinalados, conscientes da própria responsabilidade, governam com rectidão e prudência as diversas colónias portuguesas, e prestam auxílio e protecção aos zelosos pregoeiros da fé, que grandes monarcas, como D. João III, se empenham em mandar aqueles países, então Portugal impõe-se à admiração do mundo inteiro pela potência do seu império e por sua gigantesca obra civilizadora.

Papa Pio XII in encíclica «Saeculo exeunte octavo», 13 de Junho de 1940.

Das sagradas Quinas


Em algumas memórias antigas e particularmente no livro das Armas composto por António Soares de Albergaria, se acha que as Armas antigas do Reino de Portugal eram uma Cidade branca em campo azul, sobre ondas verdes e douradas, em memória do Porto de Gale que lhe deu princípio, junto da foz do Rio Douro. Cessaram estas Armas tanto quando o Conde D. Henrique entrou no Senhorio de Portugal, porque este Príncipe usou algum tempo de um escudo branco somente, sem figura nem divisa alguma. Depois assentou no escudo uma Cruz azul, daquele feitio a que na frase de Armaria chamam Potetea. Destas mesmas Armas usou seu filho el-Rei D. Afonso Henriques, até que Cristo Senhor nosso, querendo fundar no Reino de Portugal uma Monarquia singularmente Sua, no ano de mil cento e trinta e nove do Seu Nascimento, estando o dito Príncipe recolhido na sua tenda, na noite antecedente à batalha em que venceu cinco Reis Mouros e lhes tomou cinco bandeiras e cinco escudos, lhe apareceu cercado de resplendores, e depois de lhe prometer grandes vitórias contra os infiéis, lhe deu com o título de Rei suas cinco Chagas por Armas, e os trinta dinheiros porque foi vendido aos Judeus. Seguiu-se ao outro dia a vitória e foi aclamado Rei de Portugal o Príncipe D. Afonso Henriques, não só pelo exército, mas pelos povos nas Cortes que logo celebrou em Lamego; e fazendo solene juramento em Coimbra deste sucesso a vinte e nove de Outubro, ano de mil cento cinquenta e dois, mandou a seus descendentes que trouxessem por Armas cinco escudos postos em Cruz, e em cada um deles os trinta dinheiros; Timbre a Serpente de Moisés, por ser figura de Cristo. Por diferentes modos organizaram este escudo das Armas os Reis antigos de Portugal, até que ultimamente el-Rei D. João II o formou pela ordem com que hoje o vemos, e em campo de prata cinco escudos azuis postos em Cruz; e em cada escudo cinco dinheiros de prata em aspa. Representam os cinco escudos as cinco Chagas, e estes contados segunda vez com os vinte e cinco dinheiros, fazem trinta, porque foi vendido Cristo aos Judeus. El-Rei D. Afonso III lhe acrescentou por orla sete castelos de prata em campo de sangue, que são as Armas do Reino do Algarve.

Pe. D. Rafael Bluteau in «Vocabulário Português e Latino», Tomo VII, 1720.

Das Ordens de Cristo, Avis e Santiago


Em Dezembro de 1551, através da Bula «Praeclara charissimi in Christo», S.S. o Papa Júlio III concedeu in perpetuum o grão-mestrado das Ordens Militares de Cristo, Avis e Santiago aos Reis de Portugal, na pessoa de El-Rei D. João III. Pelo que, nem o Presidente dos republicanos, nem nenhum Monarca estrangeiro, pode reclamar para si tal dignidade e legitimidade, que é própria do Rei de Portugal.

Profecia de S. Tomé sobre as Armas de Portugal


Muitas coisas profetizou S. Tomé na Índia, dos Portugueses, mas esta profecia foi o cumprimento de todas. Que havia de ser conquistada a infidelidade das gentes, em virtude das cinco Chagas de Cristo: que havia de ser conquistada a infidelidade das gentes, não pelas armas dos Portugueses, senão pelas Armas de Portugal. Deu-nos Cristo por Armas e por Brasão as sagradas Quinas, e essas Quinas foram as nossas Armas.

Pe. António Vieira in «Sermões», 1682.

D. José Pereira de Lacerda é criado Cardeal


No mesmo dia [19 de Novembro], ano de 1719, por nomina d'el-Rei D. João V, nosso Senhor, o Sumo Pontífice Clemente XI criou Cardeal Presbítero da Santa Igreja Romana ao ilustríssimo Dom José Pereira de Lacerda, Bispo do Algarve. Já dissemos dele em outro dia.

Pe. Francisco de Santa Maria in «Ano Histórico, Diário Português: Notícia Abreviada de pessoas grandes e coisas notáveis de Portugal», 1744.

Mouros e Mouriscos na Lei portuguesa


Mouriscos de Granada não podem entrar no Reino, liv. 5, tit. 69, § 2 (c).
Mourisco não pode agasalhar escravo, nem comprar-lhe fato, liv. 5, tit. 70.
Mouro que se acolhe à Igreja, não lhe vale a imunidade, se se não converte, liv. 2, tit. 5, § 1 (a).
Mouro cativo, que se pede para resgate de algum Cristão, que está em Terra de Mouros, que o Senhor seja constrangido a vende-lo pela avaliação, que a Justiça fizer com mais a quinta parte, liv.4, tit. 11, § 4 (b).
Mouro nenhum pode ir a Terra de Mouros sem licença d’El-Rei, liv. 5, tit. 108.
Mouro não se pode resgatar com ouro, ou prata, ou dinheiro do Reino, liv. 5, tit. 110.
Mouro que dormir com Cristã, tem pena de morte, liv. 5, tit. 14 (c).
Mouro que deu ajuda para fugir algum escravo, e o encobriu, ou deu azo a isso, fica cativo do Senhor do escravo; e sendo o Mouro cativo, será açoutado, liv. 5, tit. 63.
Mouro branco, ou seja Cristão, ou Infiel, que na Corte for achado com armas de dia, ou de noite, que seja açoutado, liv. 5, tit. 80, § 8.
Mouro que anda sem sinal, paga da cadeia mil reis, liv. 5, tit. 94 (d).
Mouro Cristão que se vai deste Reino para Terra de Mouros, sendo tomado no próprio acto de sua ida, fica cativo, e perde sua fazenda, liv. 5, tit. 111.
Mouro Cristão não pode entrar neste Reino, posto que diga que vem a negociar, ibid. § 2.
Mouro forro não pode entrar no Reino, ibid.
Mouro não pode ser testemunha em feito de Cristão com outro, liv. 3, tit. 56, § 4.
Mouro forro com dinheiro do Reino, que tendo licença para morar nele, se vai a Terra de Mouros; sendo tomado no mar, ou nos Lugares dalém, ou Estremo, para se ir, fica cativo de quem o tomar, liv. 5, tit. 110, § fin.

Fonte: «Repertório das Ordenações e Leis do Reino de Portugal», Tomo II, 1749.

O bioco algarvio


O bioco, este extraordinário bioco, é digno de crónica para esclarecimento e regalo do leitor estranho a esta região.
O bioco desenha-se em dois traços. Um capote, de farto cabeção, pesado e tão abundante de pano, que por completo encobre o corpo amplamente e até aos pés, encimando-se, e esta é a característica proeminente da estranha vestidura, por um chale preto, que, envolvendo e rebuçando rosto e cabeça, se enrola em forma pontiaguda, lembrando o bico enorme de uma ave fantástica e tenebrosa. Este tubo cónico termina por um pequeno orifício, fresta única para a respiração e raios visuais. De resto fica hermeticamente fechado o corpo humano que se encarcera nesta farpela impenetrável a toda as curiosidades, inacessível a todos os contactos, porque o bioco é inviolável, como coisa sagrada reverentemente velada em arca santa.

Júlio Lourenço Pinto in «O Algarve», 1894.

É aclamado Rei o Cardeal Dom Henrique


No mesmo dia [28 de Agosto], no infeliz ano de 1578, foi Coroado em Lisboa o Cardeal Henrique, o primeiro que uniu uma e outra púrpura: Celebrou-se o acto na Igreja do Hospital, sítio próprio para um Rei e Reino, enfermos ambos, e quase moribundos; Todavia, não se faltou ao luzimento e pompa que costuma haver em semelhantes ocasiões: Ornou-se ricamente a Igreja, e foi a ela o novo Rei, em hábito de Cardeal, em uma mula, cuja rédea levava Dom Álvaro da Silva, Conde de Portalegre, Mordomo-mor, precedendo a Nobreza, que então se achava na Corte, todos a pé e descobertos, excepto o Duque de Bragança Dom João, que ia a cavalo com o Estoque desembainhado, como Condestável. Na Igreja se havia prevenido um teatro com uma cadeira, onde El-Rei se sentou, e dado e recebido o juramento, como é costume, lhe foi entregue o Ceptro, e com esta Real insígnia na mão, voltou para o Palácio, na mesma forma, e ordem, com que viera.

Pe. Francisco de Santa Maria in «Ano Histórico, Diário Português: Notícia Abreviada de pessoas grandes e coisas notáveis de Portugal», 1744.

Chega à Cidade do Porto o corpo de São Pantaleão


Neste dia [8 de Agosto], pelos anos de 1453, chegou à Foz do Douro o corpo do glorioso São Pantaleão Mártir; Havia padecido martírio na Cidade de Nicomedia, imperando Diocleciano e Maximiano, e seu corpo foi trazido a Constantinopla, onde esteve muitos anos em suma veneração; Até que tomada aquela Cidade por Maomé, bravo Emperador dos Turcos, alguns Cristãos o meterão em uma embarcação ligeira, e pondo nas mãos do mesmo Santo as vidas e o bom sucesso de tão incerta e perigosa viagem, guiados pelo Ceo vieram discorrendo à vista de grande parte de uma e outra costa da Europa e Africa, e deixando atrás Cidades e povoações florentíssimas e de grande nome, entraram neste dia, pelo Rio Douro, e depositaram as sagradas Relíquias na antiga Igreja de São Pedro de Miragaia, onde estiveram até serem tresladadas para a Igreja maior daquela Cidade, a qual o elegeu Patrono, e experimenta e publica grandes favores e mercês, que recebe do Céu por sua intercessão.

Pe. Francisco de Santa Maria in «Ano Histórico, Diário Português: Notícia Abreviada de pessoas grandes e coisas notáveis de Portugal», 1744.

Batalha de Valdevez


Pelos anos de 1128 veio El-Rei de Leão e Castela Dom Afonso VII, chamado Emperador, contra El-Rei (então Infante) Dom Afonso Henriques. Avistaram-se neste dia [25 de Junho] na Veiga de Valdevez, que está entre a Vila dos Arcos e a freguesia de Santo André de Guilhadeses. Ali se deu batalha, e foi uma das bem disputadas daqueles tempos. Venceram os Portugueses com tanta perda dos inimigos, que por ela se chama ainda hoje àquela Veiga da Matança. Deu o Infante insignes provas de valor, e todos os seus obraram maravilhas. El-Rei de Leão escapou ferido, ficando prisioneiros sete Condes e os principais senhores que o acompanhavam. Colheu-se entre os despojos uma grande relíquia do Santo Lenho, que se depositou na Igreja de Grade, distante quase uma légua do lugar da batalha, e se conserva ainda hoje com memória continuada de muitos milagres; e como abonado testemunho daquela famosa vitória.

Pe. Francisco de Santa Maria in «Ano Histórico, Diário Português: Notícia Abreviada de pessoas grandes e coisas notáveis de Portugal», 1744.

Dos assédios mouros à costa portuguesa: caso de Lagos


Alguns anos depois, sabendo os mouros o desenvolvimento de Lagos, começaram a vir da África, nas suas embarcações, denominadas chabeques, e tentaram a sua invasão, não se contentando só em levar os gados, mas fazendo cativos homens, mulheres e crianças, que vendiam para escravos em África. Os habitantes, para lhes escaparem a toda a sorte de crueldades e cativeiro, viam-se na necessidade de se refugiarem nos matos e cavernas. A esta calamidade acudiram João Lourenço, alcaide do castelo de Lagos, que diziam ser obra dos mouros, e João Parente, alvazil, governador, vereador ou juiz de primeira instância, os quais, expondo o que se passava e mostrando que em breve o lugar se despovoaria se lhe não dessem pronto remédio, conseguiram que D. Afonso IV mandasse cercar a povoação, emprestando o mesmo Rei, para isso, 12$000 reis, que mandou guardados por uma escolta de cavalaria, e, mais tarde, mais 8$000 reis. Um antigo manuscrito diz: Existe uma carta do Sr. D. Afonso IV, escrita ao senado de Lagos para continuar a obra da muralha da vila a dentro, que lhe faltavam 500 varas para se aliviarem os danos que os moradores da Vila padeciam dos mouros, que, continuamente, infestavam a costa e então tinham invadido a mesma Vila com 12 galés, o que tudo refere a dita carta que se conserva no arquivo da Câmara.

Manuel João Paulo Rocha in «Monografia de Lagos», 1909.


O famoso Poeta Manuel de Galhegos


Manuel de Galhegos, insigne Poeta do seu tempo, a quem os Castelhanos chamaram novo Camões e Virgílio Português, e lhe deram outros títulos não menos ilustres, mas bem merecidos de seu singular engenho e admirável génio Poético, florida eloquência e viva discrição. Compôs vários Poemas, mas entre todos, o que intitulou Templo da Memória, lhe fez imortal a sua. Morreu em Lisboa neste dia [9 de Junho], ano de 1665. Jaz na Igreja de São Lourenço.

Pe. Francisco de Santa Maria in «Ano Histórico, Diário Português: Notícia Abreviada de pessoas grandes e coisas notáveis de Portugal», 1744.

Invenção do corpo de D. Lourenço, Arcebispo de Braga


Corria o ano de 1663, quando D. João de Áustria, filho bastardo de D. Filipe IV, Rei de Espanha, entrando em Portugal pela Província de Alentejo, conquistou a Cidade de Évora, Capital da mesma Província, e pôs em grande consternação a todo o Reino; então foi quando, sobre duzentos sessenta e seis anos de sepultura, se achou neste dia [4 de Junho], do ano sobredito, o corpo do Arcebispo de Braga Dom Lourenço, único do nome naquela Primacial, tão incorrupto e fresco, e com tanta perfeição e inteireza de todas as suas feições e partes, como se naquela hora acabara de morrer. Foi o Arcebispo Dom Lourenço grande Português, e um dos que mais trabalharam pela conservação e liberdade do Reino, quando os Castelhanos, em tempo do Mestre de Avis, depois Rei, com poderosas forças o pretenderam conquistar e oprimir; e como agora se achavam Castelhanos e Portugueses no empenho da mesma conquista e defesa, reputaram geralmente os Portugueses por singular demonstração do Céu a seu favor, o expor-lhe aos olhos, em uma tal ocorrência, o corpo incorrupto daquele herói, cuja vista os podia justamente animar à defesa da liberdade; e assim sucedeu com efeito: Porque não passaram cinco dias, que não fosse roto e inteiramente desbaratado, o Exército de Dom João de Áustria, e dentro em vinte, recuperada a Cidade de Évora, como diremos em outros dias.

Pe. Francisco de Santa Maria in «Ano Histórico, Diário Português: Notícia Abreviada de pessoas grandes e coisas notáveis de Portugal», 1744.

Agostinha Barbosa da Silva


No mesmo dia [2 de Junho], pelos anos de 1674, faleceu Agostinha Barbosa da Silva, Portuguesa. Escreveu na língua Latina as vidas dos primeiros cinco Reis de Portugal. Compôs um tratado de Arquitectura e Arimética, que se imprimiu em Castela com o nome de Pedro de Alvernoz.

Pe. Francisco de Santa Maria in «Ano Histórico, Diário Português: Notícia Abreviada de pessoas grandes e coisas notáveis de Portugal», 1744.

Dona Teresa Afonso


Dona Teresa Afonso, filha do Conde Dom Afonso das Astúrias, mulher do ínclito herói Egas Moniz: nos estados de donzela e casada, resplandeceu em virtudes e boas obras, com vantagem conhecida às Senhoras mais ilustres daquele tempo. No de viúva, se excedeu a si mesma: edificou o nobre Mosteiro de Salzedas, da Ordem de Cister, onde jaz, foi sua morte neste dia [27 de Maio], ano de 1171.

Pe. Francisco de Santa Maria in «Ano Histórico, Diário Português: Notícia Abreviada de pessoas grandes e coisas notáveis de Portugal», 1744.

Aniversário da descoberta oficial do Brasil


Excerto final da carta de Pêro Vaz de Caminha a El-Rei Dom Manuel:

Esta terra, Senhor, me parece que da ponta mais contra o sul vimos, até outra ponta que contra o norte vem, de que nós deste porto houvemos vista, será tamanha que haverá nela bem vinte ou vinte e cinco léguas por costa. Tem, ao longo do mar, nalgumas partes, grandes barreiras, delas vermelhas, delas brancas; e a terra por cima toda chã e muito cheia de grandes arvoredos. De ponta a ponta, é tudo praia-palma, muito chã e muito formosa.
Pelo sertão nos pareceu, vista do mar, muito grande, porque, a estender olhos, não podíamos ver senão terra com arvoredos, que nos parecia muito longa.
Nela, até agora, não pudemos saber que haja ouro, nem prata, nem coisa alguma de metal ou ferro; nem lho vimos. Porém a terra em si é de muito bons ares, assim frios e temperados, como os de Entre Douro e Minho, porque neste tempo de agora os achávamos como os de lá.
Águas são muitas; infindas. E em tal maneira é graciosa que, querendo-a aproveitar, dar-se-á nela tudo, por bem das águas que tem.
Porém, o melhor fruto que dela se pode tirar me parece que será salvar esta gente. E esta deve ser a principal semente que Vossa Alteza em ela deve lançar.
E que aí não houvesse mais que ter aqui esta pousada para esta navegação de Calecute, isso bastaria. Quanto mais disposição para se nela cumprir e fazer o que Vossa Alteza tanto deseja, a saber, acrescentamento da nossa santa fé.
E nesta maneira, Senhor, dou aqui a Vossa Alteza conta do que nesta terra vi. E se algum pouco me alonguei, Ela me perdoe, pois o desejo que tinha de tudo vos dizer, mo fez pôr assim pelo miúdo.
E pois que, Senhor, é certo que, assim neste cargo que levo, como em outra qualquer coisa que de vosso serviço for, Vossa Alteza há-de ser de mim muito bem servida, a Ela peço que, por me fazer graça especial, mande vir da ilha de São Tomé a Jorge Osório, meu genro – o que d'Ela receberei em muita mercê.

Beijo as mãos de Vossa Alteza.
Deste porto seguro, da vossa ilha da Vera Cruz, hoje, sexta-feira, primeiro dia de Maio de 1500.
Pêro Vaz de Caminha

Parte para a Índia o famoso Pedro Álvares Cabral


No mesmo dia [8 de Março], em Domingo, ano de 1500, partiu para a Índia o famoso Pedro Álvares Cabral, filho de Fernão Cabral; Adiantado da Província da Beira, senhor de Zurara, e Alcaide-mor de Belmonte; Levava uma Armada de treze velas, e foi a segunda, e Pedro Álvares o segundo Capitão-mor, que fez aquela nova e perigosa jornada; El-Rei Dom Manuel, em demonstração do seu alvoroço e empenho, por causa dos novos descobrimentos, foi no mesmo dia, com toda a Corte, a ouvir Missa na Ermida (que então era) de Belém; Houve Sermão, que pregou Dom Diogo Ortiz, Bispo de Ceuta, conforme e ajustado às circunstâncias ocorrentes; Todo este tempo teve El-Rei consigo dentro da cortina ao Cabral, por honra do grande cargo, que fiava dele. No fim da Missa se tirou do Altar uma bandeira da Cruz da Ordem de Cristo, e foi entregue ao mesmo Capitão-mor, que dali se foi embarcar, a tempo que cruzavam pelo Rio infinitas embarcações, e as praias se viam cobertas de gente, e esta rompia em diferentes afectos, já de tristeza, já de alegria, já de esperança, já de temor. Partiu, enfim, a Armada, cujo sucesso, em parte foi infeliz, em parte felicíssimo: Infeliz porque os mares lhe comeram quatro Naus da sua conserva, com tudo o que ia nelas: Felicíssimo, porque os mesmos mares a levaram ao descobrimento da nova Lusitânia; Como diremos nos dias a que uma e outra coisa pertence.

Pe. Francisco de Santa Maria in «Ano Histórico, Diário Português: Notícia Abreviada de pessoas grandes e coisas notáveis de Portugal», 1744.

Erecção do Bispado do Grão-Pará


Neste dia [4 de Março], ano de 1720, em uma segunda-feira, em Consistório, o Papa Clemente XI, à instância d'el-Rei Dom João V de Portugal, separou e desmembrou da Diocese de São Luís do Maranhão, na América Portuguesa, a terra de Santa Maria de Belém do Grão-Pará com as dilatadas terras da dita Capitania e Ilhas adjacentes, criando-a Cidade, e erigindo nela em Catedral a Igreja de Nossa Senhora da Graça, com todas as honras, insígnias e privilégios que gozam as mais Igrejas Catedrais da Coroa de Portugal, com a renda de dois mil e quinhentos cruzados, e criou Bispo para ela o Padre Fr. Bartolomeu do Pilar, Religioso da Ordem de Nossa Senhora do Monte do Carmo.

Pe. Francisco de Santa Maria in «Ano Histórico, Diário Português: Notícia Abreviada de pessoas grandes e coisas notáveis de Portugal», 1744.

Venerável Madre Leocádia da Conceição


A Venerável Madre Leocádia da Conceição, Religiosa insigne em virtudes, benemérita filha do Seráfico Patriarca São Francisco, cuja santa Regra professou no Convento de Monchique da Cidade do Porto: A sua vida foi um perfeitíssimo holocausto aos olhos de Deus, uma perene admiração aos dos homens, e uma singular ideia da perfeição Evangélica e Seráfica das suas Religiosas: Correspondeu-lhe o Céu com favores e prerrogativas singulares: Logrou o Dom da Profecia, e o conhecimento das coisas ocultas, e dos segredos do coração; No mesmo dia em que se conseguiu a vitória de Viena de Áustria, a publicou no seu Convento: O mesmo lhe havia sucedido, quando os Portugueses restauraram a Cidade de Évora: Dava milagrosa saúde aos enfermos, e até os irracionais lhe rendiam obediências; Foi, enfim, na aceitação universal de todos os que a trataram, um raro prodígio da Divina Graça. Morreu santissimamente neste dia [1 de Dezembro], ano de 1686, com cento e quatro de idade, e noventa de Religião.

Pe. Francisco de Santa Maria in «Ano Histórico, Diário Português: Notícia Abreviada de pessoas grandes e coisas notáveis de Portugal», 1744.