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Aniversário da descoberta oficial do Brasil


Excerto final da carta de Pêro Vaz de Caminha a El-Rei Dom Manuel:

Esta terra, Senhor, me parece que da ponta mais contra o sul vimos, até outra ponta que contra o norte vem, de que nós deste porto houvemos vista, será tamanha que haverá nela bem vinte ou vinte e cinco léguas por costa. Tem, ao longo do mar, nalgumas partes, grandes barreiras, delas vermelhas, delas brancas; e a terra por cima toda chã e muito cheia de grandes arvoredos. De ponta a ponta, é tudo praia-palma, muito chã e muito formosa.
Pelo sertão nos pareceu, vista do mar, muito grande, porque, a estender olhos, não podíamos ver senão terra com arvoredos, que nos parecia muito longa.
Nela, até agora, não pudemos saber que haja ouro, nem prata, nem coisa alguma de metal ou ferro; nem lho vimos. Porém a terra em si é de muito bons ares, assim frios e temperados, como os de Entre Douro e Minho, porque neste tempo de agora os achávamos como os de lá.
Águas são muitas; infindas. E em tal maneira é graciosa que, querendo-a aproveitar, dar-se-á nela tudo, por bem das águas que tem.
Porém, o melhor fruto que dela se pode tirar me parece que será salvar esta gente. E esta deve ser a principal semente que Vossa Alteza em ela deve lançar.
E que aí não houvesse mais que ter aqui esta pousada para esta navegação de Calecute, isso bastaria. Quanto mais disposição para se nela cumprir e fazer o que Vossa Alteza tanto deseja, a saber, acrescentamento da nossa santa fé.
E nesta maneira, Senhor, dou aqui a Vossa Alteza conta do que nesta terra vi. E se algum pouco me alonguei, Ela me perdoe, pois o desejo que tinha de tudo vos dizer, mo fez pôr assim pelo miúdo.
E pois que, Senhor, é certo que, assim neste cargo que levo, como em outra qualquer coisa que de vosso serviço for, Vossa Alteza há-de ser de mim muito bem servida, a Ela peço que, por me fazer graça especial, mande vir da ilha de São Tomé a Jorge Osório, meu genro – o que d'Ela receberei em muita mercê.

Beijo as mãos de Vossa Alteza.
Deste porto seguro, da vossa ilha da Vera Cruz, hoje, sexta-feira, primeiro dia de Maio de 1500.
Pêro Vaz de Caminha

Parte para a Índia o famoso Pedro Álvares Cabral


No mesmo dia [8 de Março], em Domingo, ano de 1500, partiu para a Índia o famoso Pedro Álvares Cabral, filho de Fernão Cabral; Adiantado da Província da Beira, senhor de Zurara, e Alcaide-mor de Belmonte; Levava uma Armada de treze velas, e foi a segunda, e Pedro Álvares o segundo Capitão-mor, que fez aquela nova e perigosa jornada; El-Rei Dom Manuel, em demonstração do seu alvoroço e empenho, por causa dos novos descobrimentos, foi no mesmo dia, com toda a Corte, a ouvir Missa na Ermida (que então era) de Belém; Houve Sermão, que pregou Dom Diogo Ortiz, Bispo de Ceuta, conforme e ajustado às circunstâncias ocorrentes; Todo este tempo teve El-Rei consigo dentro da cortina ao Cabral, por honra do grande cargo, que fiava dele. No fim da Missa se tirou do Altar uma bandeira da Cruz da Ordem de Cristo, e foi entregue ao mesmo Capitão-mor, que dali se foi embarcar, a tempo que cruzavam pelo Rio infinitas embarcações, e as praias se viam cobertas de gente, e esta rompia em diferentes afectos, já de tristeza, já de alegria, já de esperança, já de temor. Partiu, enfim, a Armada, cujo sucesso, em parte foi infeliz, em parte felicíssimo: Infeliz porque os mares lhe comeram quatro Naus da sua conserva, com tudo o que ia nelas: Felicíssimo, porque os mesmos mares a levaram ao descobrimento da nova Lusitânia; Como diremos nos dias a que uma e outra coisa pertence.

Pe. Francisco de Santa Maria in «Ano Histórico, Diário Português: Notícia Abreviada de pessoas grandes e coisas notáveis de Portugal», 1744.

Erecção do Bispado do Grão-Pará


Neste dia [4 de Março], ano de 1720, em uma segunda-feira, em Consistório, o Papa Clemente XI, à instância d'el-Rei Dom João V de Portugal, separou e desmembrou da Diocese de São Luís do Maranhão, na América Portuguesa, a terra de Santa Maria de Belém do Grão-Pará com as dilatadas terras da dita Capitania e Ilhas adjacentes, criando-a Cidade, e erigindo nela em Catedral a Igreja de Nossa Senhora da Graça, com todas as honras, insígnias e privilégios que gozam as mais Igrejas Catedrais da Coroa de Portugal, com a renda de dois mil e quinhentos cruzados, e criou Bispo para ela o Padre Fr. Bartolomeu do Pilar, Religioso da Ordem de Nossa Senhora do Monte do Carmo.

Pe. Francisco de Santa Maria in «Ano Histórico, Diário Português: Notícia Abreviada de pessoas grandes e coisas notáveis de Portugal», 1744.

O desmembramento da Monarquia (II)



Nos últimos meses do ano 1820, quando não saiam das nossas prensas senão elogios aos rebeldes e imprecações ao Governo legítimo; quando se não tratava senão de caluniar e fazer odioso esse mesmo Governo, imputando-lhe tudo o que era mau, e até aquelas mesmas infelicidades que ele com forças mais que ordinárias trabalhava por desviar da nação, mas que eram inevitáveis, como arrojadas sobre nós pelo turbilhão dos acontecimentos públicos; eu escrevi em sentido bem diverso a minha Memória sobre os meios de melhorar a indústria, de que distribui gratuitamente mais de metade da edição. Procurei reconduzir os efeitos às suas causas, os factos à sua verdadeira origem, as coisas ao seu lugar, e expus com franqueza os meus pensamentos sobre os meios de melhorar a sorte da nação, que consiste em edificar e reparar, e não em destruir e desbaratar. Porém Obras desta natureza não eram do gosto daquele tempo; e serviam somente de excitar o ódio contra os seus autores.
Vendo que o grande número, deslumbrado com promessas lisonjeiras, corria cego após de vãs quimeras, sem advertir nos perigos que estavam eminentes, procurei excitar a atenção das classes industriosas sobre os seus verdadeiros interesses. Não era possível deixar de prever a separação do Brasil e de procurar evitar as suas consequências. Tratando pois do comércio, eu dediquei a este ponto algumas páginas daquele opúsculo. «O primeiro objecto que se me apresenta (disse eu na pág. 87) é o comércio do Brasil. Com a abertura dos portos deste imenso país às nações estrangeiras perdemos o direito exclusivo de prover os seus habitantes das mercancias da Europa, e deixando Portugal de ser o entreposto dos géneros coloniais, que daqui se distribuíam para os lugares do seu consumo, só esta causa era bastante, independentemente das mais que com ela concorreram, para produzir uma revolução completa no nosso comércio e o transtorno geral das nossas antigas relações. Daqui vem os principais clamores dos nossos negociantes, porque é donde procedem as maiores perdas que sofremos em quase todas as praças com que comerciamos. Nesta nova ordem de coisas compete ao Soberano (nunca lhe neguei este nome, ainda que debaixo do jugo da facção) procurar novos laços para unir Portugal e o Brasil; porém os nossos comerciantes desenganando-se de que o sistema colonial não pode mais voltar, devem também ir alongando as vistas pela extensão do globo, para abrirem novos canais às suas especulações: Jam tempus agit res. E devem ambos os países respeitar mutuamente os vínculos do sangue, de interesse, e de reconhecimento que os ligam para permanecerem firmes na sua união.
Tem o Brasil todas proporções para vir a ser com o andar dos tempos um grande império; mas por ora é um país novo, sem fábricas, e com uma agricultura limitada, precisa dos socorros da Mãe Pátria tanto na paz como na guerra, sob pena de ficar em uma eterna infância, ou ser esmagado pelo primeiro ocupante. Olhe para os vastos territórios da América Espanhola que o rodeiam e veja neles o seu retrato. Deve além disso lembrar-se de que a Mãe Pátria lhe deu a existência.
Por outra parte é necessário que Portugal conheça as vantagens que ainda tira do Brasil»… Aqui me voltei para os nossos comerciantes, agricultores e artistas, e por meio de várias reflexões e cálculos estatísticos procurei convencê-los do muito que ainda interessava a Portugal a conservação do Brasil, insistindo principalmente nos seguintes pontos: Os produtos de um capital de 44 milhões de cruzados, que se empregavam no comércio entre os dois países; as negociações da Ásia, que quase todas se faziam pelo intermédio do Brasil; o comércio de reexportação dos géneros coloniais para países estrangeiros; o consumo que se fazia no Brasil das manufacturas das nossas fábricas, que importava em alguns milhões de cruzados por ano e de alguns dos produtos da agricultura de Portugal, e principalmente dos nossos vinhos, que excedia a 20.000 pipas por ano nos tempos imediatos à revolução de 1820, em que este consumo se tinha aumentado como se mostra dos registros públicos, apesar das sinistras vozes que corriam em contrário; porque para se fazer odiosa a administração pública em todos os seus ramos, tudo se procurava exagerar e desacreditar.
Demonstradas assim as grandes vantagens reciprocas que resulta vão aos dons países da ma união, e que agora se conhecerão melhor pela sua falta, eu continuei (pág. 91): «O Brasil, comerciando livre, crescerá sem dúvida em prosperidade, e quanto mais crescer, mais vinho e manufacturas consumirá, e maiores vantagens oferecerá a Portugal; com tanto que os dois países permaneçam ligados entre si por meio de laços recíprocos de um Governo comum, justo e sábio, que atenda com igualdade as suas vistas protectoras sobre todas as partes do império. É assim que o Reino unido poderá ainda operar os grandes desenvolvimentos, para que a natureza o convida, e o pavilhão nacional, discorrendo com dignidade por todos os mares, reconquistar a parte que nos pertence no comércio do mundo. Se pelo contrario viesse a faltar-lhe o centro de união, desorganizado o corpo da Monarquia, cada um dos seus membros perderia todo o vigor, recebendo como massa inerte as impressões que quisessem dar-lhe, até chegar o momento em que desbaratada a herança de nossos avós, o nome Português desapareceria como o fumo, confundido com o de alguma nação mais poderosa».
Estas últimas palavras não foram escritas ao acaso. Incerta ainda a facção do resultado que teriam as suas maquinações no Brasil, agitavam-se várias opiniões em seus clubs sobre a direcção que se daria aos negócios de Portugal, e segundo o que transpirava no público, prevalecia muito naquele tempo a de se unir este reino á Espanha, provavelmente debaixo de uma forma republicana, que é o ponto a que se dirigem as revoluções populares. Seguem-se no meu opúsculo alguns §§ em que expus os meus pensamentos sobre os novos laços de união reciproca entre Portugal e o Brasil: tudo inútil no estado actual. Os meus vaticínios ou não foram lidos, ou tiveram a sorte dos vaticínios da infeliz Cassandra, a quem, segundo a fábula, os Deuses concederão o conhecimento do futuro, porém determinaram que não fosse acreditada.

José Acúrsio das Neves in «Cartas de um Português aos seus Concidadãos sobre diferentes objectos de utilidade geral e individual», Carta XII, 1823.

Venerável Padre José de Anchieta


O Venerável Padre José de Anchieta da Companhia de Jesus, novo Xavier da América Portuguesa. Naquele novo Mundo, se aplicou com desvelo incansável à conversão dos Gentios, acompanhando esta grande obra com raras e estupendas maravilhas. Obedeciam ao império da sua voz as feras, as aves, os peixes, as nuvens, os elementos. Ao toque da sua mão, ou da sua roupeta, fugiam as enfermidades, como as sombras da luz. Por vezes foi visto ao mesmo tempo em diversos lugares. Outras se fazia invisível, penetrava os segredos dos corações, sabia os sucessos a muitas léguas de distância do mesmo modo com que acabavam de suceder, e predizia com certeza infalível os futuros. Chorou amargamente na América a perda d'el-Rei Dom Sebastião, no mesmo dia que esta sucedeu na África [4 de Agosto de 1578]. Multiplicava as coisas que servem ao sustento, ou as convertia em outras de espécie diferente, em benefício dos pobres e dos enfermos. Merecia estes favores do Céu com uma vida inocentíssima, esmaltada de todas as virtudes em grau heróico. Ardia em vivas chamas de amor de Deus, e em desejos inflamadíssimos da salvação das almas, singularmente dos seus Gentios do Brasil: Por eles (como o Sol) andava em contínuo movimento, discorrendo sempre a várias partes daquele vastíssimo Sertão, cujos fins se ignoram até agora, vencendo invencíveis dificuldades, sofrendo imensos trabalhos, convertia e baptizava almas sem número, sendo uma nova maravilha, que pudesse aturar tanto, um corpo fraco de compleição, e atenuado com penitências: Mas o ardor da Caridade animava o débil da natureza. Assim perseverou quarenta e quatro anos, e aos sessenta e quatro de sua idade, neste dia [9 de Junho], ano de 1597, cheio de heróicas virtudes e altos merecimentos, acabou felicissimamente a carreira mortal. Jaz sepultado no Colégio da Baía. Compôs nos Idiomas Latino, Português, Castelhano, e Brasílico, muitos versos a vários assumptos de piedade e devoção. Entre todos, é muito célebre a vida de Nossa Senhora em Poema elegíaco, por estilo não menos suave que elegante.

Pe. Francisco de Santa Maria in «Ano Histórico, Diário Português: Notícia Abreviada de pessoas grandes e coisas notáveis de Portugal», 1744.

O valeroso Sebastião de Souto


No mesmo dia [19 de Maio], ano de 1638, morreu na Baía o valeroso Sebastião de Souto, cujo nome era terror aos Holandeses; morreu de um mosquetaço pelos peitos, que recebeu no conflito do dia (ou noite) antecedente. Era natural de Quintiães, termo da Vila de Barcelos; deixou geral sentimento a perda de um tal homem, em quem até então contenderam sem vantagem o valor e a fortuna. Era incansável nas operações bélicas, repetia prontíssimo as entradas contra os inimigos, sempre com sucessos felizes. Com poder limitado e volante, os trazia, sem cessar, inquietos e temorosos. Foi excessivo o número dos que, a mãos do seu valor e indústria, perderam, ou a vida, ou a liberdade.

Pe. Francisco de Santa Maria in «Ano Histórico, Diário Português: Notícia Abreviada de pessoas grandes e coisas notáveis de Portugal», 1744.

A emigração portuguesa em 1898


Damos começo a esta crónica relatando o que está sucedendo a muitos irmãos nossos, que tendo-se deixado levar de promessas falazes emigraram para o Brasil nos meses passados. E fazemo-lo propositadamente para que os nossos leitores vejam o que lá se passa, e não venham a ser também do número dos iludidos.
Muitos portugueses do Continente e Açores, que esperavam enriquecer nas províncias brasileiras, não têm trabalho, nem encontram colocação, e por isso ocupam-se a cavar o cacau e o café, debaixo d'um sol ardentíssimo, e isto pelo módico salário de 400 reis diários.
Outros exercem os mais vis misteres, e são tratados como a gente mais desprezível.
Um grande número anda mendigando os meios de regressar à pátria.
Por outra parte os factos comprovam que a emigração para as nossas possessões africanas é a felicidade de um sem número de famílias.

Fonte: «Voz de S. António: Revista Mensal Ilustrada», 4º Ano, Nº 14, Fevereiro de 1898.

Vitória contra os Franceses no Rio de Janeiro


Unidos outra vez os Franceses, escapados da rota, que pelos anos de 1556 receberam de Mem de Sá (como em outro dia referimos) e engrossados com um grande socorro, que lhe viera de França, e muito mais com uma infinita multidão de Tamoios, que puseram em gravíssima consternação aos poucos moradores que havia por aquele tempo na Província do Rio de Janeiro: Faziam-se os Tamoios formidáveis por mar e terra; Por terra, inundavam os campos; Por mar, armaram duzentas Canoas: que era um poder excessivo, porque cada uma destas embarcações se forma de um só pau, de tão portentosa grossura, que cavado de uma só parte, abre um bojo capaz de cento e cinquenta homens, com mais de trinta remeiros por banda, os quais remam e pelejam ao mesmo tempo: Contra tamanho poder veio Estácio de Sá, sobrinho do Governador Mem de Sá, e depois de vários encontros, em que os Portugueses sempre levaram a melhor, atacaram estes a principal força dos inimigos, em um sítio, chamado Vrassuruiri; Pendia daquele sucesso o domínio da Província, e cada uma das partes se empenhou, em comprar a preço da vida, ou a defesa, ou a expugnação: Travou-se um formidável conflito, variando de semblante a fortuna por várias vezes; Já se melhoravam uns, já outros, já nestes crescia o temor, naqueles a esperança, e pelo contrário; Até que se terminaram as dúvidas, declarando-se a vitória pelos Portugueses, com insigne destroço dos inimigos; Foi porém grande a nossa perda, pela morte do Capitão-mor, Estácio de Sá, Cavaleiro desconhecido valor: Com esta vitória, saíram daquela Província os Franceses que ficaram vivos, e os Tamoios se reduziram à sujeição antiga.

Pe. Francisco de Santa Maria in «Ano Histórico, Diário Português: Notícia Abreviada de pessoas grandes e coisas notáveis de Portugal», 1744.

Estupendo milagre de Santo António


A Ambição Luterana, com desejo de saquear a grande e muito opulenta Cidade da Baía, na América Portuguesa, saiu no ano de 1595 do porto da Rochela de França, com uma esquadra de doze naus bem guarnecidas de soldados hereges, mandadas pelo seu grande herege e Capitão General Pandemilho. Na costa de África roubaram de caminho uma povoação Portuguesa, que por ser pequena e desarmada, se lhe entregou a partido das vidas, o qual sendo-lhe prometido, lhe não foi guardado; porque degolaram a todos por serem poucos. Não satisfeitos com esta tirania e com a falta desta fé, passaram a ultrajar a do sagrado, profanando o Templo da mesma povoação. Dele levaram uma Imagem de Santo António, que conduziram à nau do General, para que na viagem, de espaço, e muito à sua vontade, a desprezassem e tiranizassem, como pessoa viva, como com efeito fizeram, lançando-lhe um cão ensinado a morder as Santas Imagens, dando-lhe cutiladas pela cabeça e mãos, pregando-lhe grossos pregos nas costas, pelas quais ataram a mesma Imagem com uma corda e a içavam ao alto, deixando-a cair na coberta, dizendo em grandes alaridos: Guia, guia, António para a Baía. Ouviu o Santo a súplica e guiou do modo seguinte. Em um instante, estalaram todos os arcos das pipas e se perdeu o vinho e água; corrompeu-se todo o biscoito e mais sustento que levavam. Caíram mortos, repentinamente, os soldados que o acutilaram, subverteu o mar onze naus com toda a sua gente, ficando só a de Pandemilho, em que ia a Imagem de Santo António e um pataxó, que levou a nova à Rochela, onde também foi morto o seu Capitão. O General, vendo-se sem sustento e com desejo de salvar a vida, chegou à Baía e se entregou ao Governador Dom Francisco de Sousa, lançando primeiro ao mar a dita Imagem, para que não constassem aos Portugueses as injúrias com que a tinham tratado. Não bastou porém esta cautela; porque a imagem, como se fora vidente, chegou sobre as águas à praia, e levantando-se em pé, esperou aos Luteranos, que por junto dela passaram presos com o seu General Pandemilho, o qual pondo os olhos no Santo, proferiu as palavras seguintes: Em efeito, António, hás tomado vingança de nós, trazendo-nos à Baía como te pedíamos? Pelo Santo respondeu a justiça mandando enforcar ao General e a todos os seus, e a Imagem foi levada com soleníssimo aparato à Igreja de São Francisco da mesma Cidade da Baía, onde foi colocada e é venerada com grande devoção e respeito.

Pe. Francisco de Santa Maria in «Ano Histórico, Diário Português: Notícia Abreviada de pessoas grandes e coisas notáveis de Portugal», 1744.

Descoberta da província de São Francisco no Brasil


Este mesmo dia [4 de Outubro] deu o nome à Província, que entre as da nova Lusitânia [Brasil], se chama de São Francisco: O Rio, que beija os pés da povoação principal, é dos mais notáveis da América: Dizem que nasce das vertentes daquelas imensas serranias, donde também nascem o das Amazonas e o da Prata, e depois de larga carreira, encontra um sumidouro, que o recebe todo, e correndo doze léguas por baixo da terra, esta o vomita outra vez, tão caudaloso como de antes, e finalmente por duas bocas se precipita no mar, com porto capaz de navios pequenos, quase dez graus e meio para o Sul. As árvores das suas ribeiras vão-se às nuvens, e em tanto número, que tudo parece um bosque, em muitas partes tão fechado, que impede o céu e a luz: A Província não é menos fértil que as outras do Brasil, porém é menos habitada: O primeiro que a descobriu e cultivou foi Gabriel Soares de Sousa, o qual escreveu um curiosíssimo livro das coisas do Brasil.

Pe. Francisco de Santa Maria in «Ano Histórico, Diário Português: Notícia Abreviada de pessoas grandes e coisas notáveis de Portugal», 1744.

O desmembramento da Monarquia (I)


Si regnum in se dividatur, non potest regnum illud stare.
S. Marcos

Um triste acontecimento que deve trazer consequências, as mais funestas para a Nação, se a Sabedoria de S. Majestade, e de seus Ministros, as não poder prevenir, vem interromper o fio das reflexões que comecei na carta precedente e continuarei nas seguintes; porém a matéria é análoga. À perda da Baía de Todos-os-Santos e do Maranhão, seguiu-se rapidamente a do Grão-Pará. De todas aquelas vastas regiões, que se estendem desde o Equador até à embocadura do Rio da Prata, as quais os nossos antepassados descobriram, povoaram e cultivaram, e de cuja união à Mãe Pátria resultava o esplendor do Trono, a riqueza e a grandeza da Nação, já não possuímos nem um palmo de terra. Novo mimo da nossa regeneração política!
O que sabemos das nossas possessões da Ásia e da África oriental, é que ficavam convulsas. Terão elas seguido a sorte do Brasil? Que mágoa, que dor penetrante para o Digno Herdeiro do Trono do Venturoso, Manuel, e daquela abençoada série de Reis, que levaram o nome e as armas Portuguesas mais longe que os Assírios, que os Persas, que Alexandre, que os Romanos e que os Árabes as suas! Que mágoa, que dor penetrante para os descendentes dos ilustres guerreiros, que à custa do seu sangue fundaram e defenderam este império gigantesco, que agora vemos despedaçado!
Tal é o efeito do veneno, que os nossos chamados Regeneradores introduziram nas entranhas da Pátria, para fazerem cair em dissolução todos os seus membros. Adeus, senhor Brasil, dizia um deles com insultante e bárbara enfâse, quando viu que o Brasil nos ia escapando: fazia um objecto dos seus gracejos a perda da mais vasta e rica porção do Reino unido. Outros pretendiam consolar-nos deste desastre com a ilusão das futuras vantagens, que poderíamos tirar dos nossos actualmente miseráveis estabelecimentos da África ocidental. Não nos enganemos com quimeras. Os dias da nossa glória são passados, desapareceram as nossas riquezas, acabou a nossa grandeza, a não vir algum novo Gama, que nos conduza ao Oriente por novos caminhos desconhecidos; algum novo Cabral, que nos descubra outro Brasil.
Este golpe devia prever-se, porque outras não podiam ser as consequências do nosso S. Bartolomeu de 1820, na verdade menos sanguinoso que o de França, em 1571; porém mais transcendente nos seus resultados. A Monarquia Francesa, depois das mortandades e das guerras civis que acompanharam e seguiram aquela catástrofe, ressurgiu nos brilhantes dias de Henrique IV, mais robusta e florescente do que antes fora: o Império Português está destruído e desmembrado talvez para sempre. E poderão os povos ver com bons olhos os autores de tantos males, os seus cooperadores e adeptos, ou coisa que a eles se assemelhe? Poderão os povos pôr neles alguma confiança, esperar que lhes venha por eles algum bem, ou deixar de odiar qualquer obra, que haja de sair das suas mãos?
Revolucionou-se a França e perdeu todas as suas colónias: revolucionou-se a Espanha e perdeu também as suas. E porque seria Portugal isento desta lei, que é a lei das revoluções filiais, que se dirigem pelo espírito da Revolução Francesa, mãe e mestra de todas as que depois vieram? Nápoles e Sardenha não perderam colónias, porque as não tinham: haviam de perdê-las se as tivessem, e se mãos poderosas não acudissem a apagar o incêndio logo no seu princípio. É o carácter de todas as revoluções de cunho moderno.
Apenas rompeu a revolução em França, partiram emissários, que levaram o espírito de desorganização a todas as colónias Francesas. Apenas rompeu em Portugal, todas as possessões Portuguesas foram convidadas à revolta; e não foi necessário que partissem emissários, porque os apóstolos da revolução já por lá andavam em numerosa quantidade, e mesmo tinham já feito alguns ensaios. Filhos Primogénitos, diziam os povos do ultramar pela boca de um dos chamados representantes da Nação (ou antes os insinuava este para que eles o dissessem) em um discurso de estilo teatral proferido na sessão das Cortes de 30 de Janeiro de 1821: Filhos primogénitos da grande família, a que temos a honra de pertencer; por espaço de mais de trezentos anos, só nos vieram da Europa as rajadas do despotismo; porque nos quereis privar agora da viração prestadia da liberdade constitucional? Mas este convite foi muito tardio: em consequência dos que o tinham precedido, já nesse tempo lavrava o fogo por todos nossos estabelecimentos, e não ficou um só que se não revolucionasse.
Tornando às colónias Francesas, nada é tão espantoso como a revolução da de S. Domingos: drama trágico em dois actos, que custou 80 000 vidas dentro de uma ilha. No primeiro acto figuravam brancos e negros da América contra brancos da Europa; no segundo somente negros contra brancos, e os negros ficaram de cima, compreendendo nesta denominação os mulatos. Enchei-vos de horror à vista dos seguintes extractos de uma proclamação, com que o chefe negro Dessalines excitou os seus à matança dos brancos: «Meu braço suspendido sobre as suas cabeças tem demorado por muito tempo descarregar o golpe... sede cruéis e sem misericórdia, semelhantes a uma torrente furiosa que tem rompido os seus diques, e que arrasta tudo o que tenta opor-se às suas ondas. Vossa fúria vingadora destruiu, e levou tudo no seu curso impetuoso... Onde está o vil habitante do Haiti, tão indigno da regeneração, que não julgue ter cumprido os Decretos do Eterno exterminando estes tigres sequiosos de sangue? Se há algum, fuja: A nação indignada o expulsa do seu seio; vá ocultar a sua vergonha longe de nós. O ar puro, que nós respiramos, não é feito para os seus órgãos grosseiros; é o ar puro da liberdade augusta e triunfante... Eu tenho salvado a minha pátria; eu tenho vingado a América. Esta confissão, que eu faço à face da terra e do Céu, faz o meu orgulho e a minha glória. Guerra de morte aos tiranos! eis a minha divisa. Liberdade e Independência! eis o grito da nossa reunião.»
E não achais vós que as rajadas do despotismo e a viração prestadia da liberdade, do nosso Deputado em Cortes, tem uma tendência particular para influir na América Portuguesa alguma coisa semelhante às atrocidades do negro Dessalines! A revolução do Brasil tem sido semelhante ao primeiro acto da de S. Domingos. A Divina Providencia salve o Brasil dos horrores do segundo acto daquele tremendo drama.


José Acúrsio das Neves in «Cartas de um Português aos seus Concidadãos sobre diferentes objectos de utilidade geral e individual», Carta XII, 1823.

Descoberta de São Vicente no Brasil


No mesmo dia [22 de Janeiro], descobriu Martim Afonso de Sousa aquela parte da nova Lusitânia, chamada de São Vicente, por causa do Santo, que no mesmo dia se festeja. El-Rei Dom João III a deu ao mesmo Martim Afonso, e hoje anda na casa dos Marqueses de Cascais. Está situada quase debaixo do Trópico Austral, com porto acomodado para navios grandes, e quatro importantes povoações, São Paulo, Nossa Senhora da Conceição, Santos, e São Vicente, da qual toma o nome toda a Província. Só esta, entre as mais, goza do mesmo clima de Espanha [Península Ibérica], sem outra diferença mais, que mudar-se o Verão para o tempo do Inverno. É abundante de searas de trigo, vinhas, pomares e flores, além dos outros frutos do Brasil, que produz com a mesma perfeição que as outras, e delas se pode chamar com muita propriedade, o celeiro e despensa universal. Aqui se achou o modo de fazer o açúcar, e aqui se acharam primeiro as canas, planta que inundou utilissimamente por todo o Brasil; Aqui finalmente se descobriram as minas de ouro, que também inunda em uma e outra Lusitânia.

Pe. Francisco de Santa Maria in «Ano Histórico, Diário Português: Notícia Abreviada de pessoas grandes e coisas notáveis de Portugal», 1744.

António Filipe Camarão


Dom António Filipe Camarão, de Nação Índio, e entre os Índios, nobre por nascimento e nobilíssimo por acções; agregando a si muitos de seus naturais, veio socorrer e servir aos Portugueses nas guerras de Pernambuco, onde militou dezanove anos, sempre com grande nome e merecida fama de prudente e valeroso Capitão. Era universalmente estimado, e se fazia estimar pela gravidade, juízo e valor, com que se sabia haver em todas as ocasiões militares e civis: Pelejou vezes sem número com os Holandeses, e outras tantas os venceu. Foi Mestre de Campo de um Terço de Índios, e os trazia tao obedientes e bem disciplinados, que podiam ser exemplo aos das Nações mais cultas e mais destras. El-Rei D. Filipe IV (em cujo tempo já servia com grande reputação) lhe deu o hábito de Cristo, e licença para usar de Dom, e o posto de Capitão General dos Índios do Brasil. Foi não menos religioso que Soldado: Nunca entrou em batalha, sem primeiro se prevenir com os Sacramentos: ouvia todos os dias Missa, e todos os dias rezava o Ofício de N. Senhora; faleceu neste dia [9 de Maio] com grandes mostras de piedade, ano de 1648.

Pe. Francisco de Santa Maria in «Ano Histórico, Diário Português: Notícia Abreviada de pessoas grandes e coisas notáveis de Portugal», 1744.

Vitória contra os Franceses no Rio de Janeiro


Pelos anos de 1556, em que se começava a habitar na Nova Lusitânia [Brasil] a Província do Rio de Janeiro, entrou nela um corpo de três mil Franceses à ordem de Nicolau Villegagnon, Cavaleiro nobre do Hábito de São João; Logo se lhe uniram os Tamoios, Índios naturais da terra, gente bárbara e feroz, os quais, de boa vontade, admitiram os novos hóspedes, esperando vingar, à sombra das suas armas, os estragos que, por vezes, haviam recebido das nossas: Era, por aquele tempo, Governador do Brasil, Mem de Sá, ilustre e valeroso Cavaleiro, e logo com uma Armada de três galeões, oito navios e dois mil homens de guerra, veio atacar os Franceses, os quais se recolheram com grande número de Tamoios, a uma das Ilhas que há naquela grande enseada, onde se fortificaram de modo que se consideravam seguros de toda a invasão, porque a bárbara penedia, de que estavam cercados, lhes servia de muros, e o mar de fosso; Reconheceu Mem de Sá a dificuldade da empresa, mas ajudando com a indústria o valor, mostrou neste dia [20 de Janeiro] do ano referido, que se retirava, e na noite do mesmo dia, voltando nos batéis, subiram os Portugueses pela parte menos fragosa, e deram sobre os inimigos com tanto ardor, que dentro em breve tempo muitos perderam a vida, e outros, ou a nado, ou em embarcações ligeiras, passaram à terra firme, e se entranharam tanto pelo Sertão, que se deu a Província por segura das vexações, que por eles padecia.

Pe. Francisco de Santa Maria in «Ano Histórico, Diário Português: Notícia Abreviada de pessoas grandes e coisas notáveis de Portugal», 1744.

De como eram ilegais os maus-tratos a escravos


Por morte do Bispo Dom Pedro Leitão, veio o Bispo Dom António Barreiros, que havia sido Dom Prior de Avis, a governar este Bispado do Brasil; era homem benigno, esmoler, e dotado de muitas virtudes; mas não era chegado de muitos dias, quando se ofereceu uma ocasião de diferenças, e desgostos, entre ele e o governador Luís de Brito; a ocasião foi esta:
Havia nesta terra um homem, aliás honrado e rico, chamado Sebastião da Ponte, mas cruel em alguns castigos, que dava a seus servos, fossem brancos ou negros; entre outros chegou a ferrar um homem branco em uma espádua com o ferro das vacas, depois de bem açoitado; sentido o homem disto, se embarcou e foi para Lisboa, onde esperando uma manhã a El-Rei, quando ia para a capela, deixou cair a capa, que só levava sobre os ombros, e lhe mostrou o ferrete, pedindo-lhe justiça com muitas lágrimas.
Informado El-Rei do caso, escreveu ao Governador que mandasse preso, e a bom recado ao Reino, o dito Sebastião da Ponte.
Teve ele notícia disto, e acolheu-se a uma ermida de Nossa Senhora da Escada, que está junto a Pirajá, onde o réu então morava: demais disto chamou-se às ordens, dizendo que tinha as menores, e andava com hábito e tonsura, porque não era casado, pelas quais razões deprecou o Bispo ao Governador não o prendesse, mas não lhe valeu, começou logo a proceder a censuras, e finalmente chegou o negócio a tanto, que houveram de vir às armas, correndo com elas o povo néscio e inconstante, já ao Bispo com o temor das censuras, já ao Governador com o temor da pena capital, que ao som da caixa se publicava, e o que mais era, que ainda depois de todos acostados ao Governador, seus próprios filhos, que estudavam para se ordenarem, com pedras nas mãos contra seus pais, se acostavam ao Bispo e a seus clérigos e familiares.
Porém, enfim, Jussio Regis urgebat, e se mandou o preso ao Reino, como El-Rei o mandava, onde foi metido na prisão do Limoeiro, e nela acabou como suas culpas mereciam.

Frei Vicente do Salvador in «História do Brasil», 1627.


Henrique Dias


Henrique Dias, Negro por nascimento, claríssimo por acções, começou a servir nas guerras de Pernambuco, com um Terço dos da sua Nação, desde o tempo em que Matias de Albuquerque governava aquela Província, e desde então começou a ser flagelo de Holandeses; Vez houve em que lhe viram matar cinco por sua mão; De tal sorte o temiam, e aos seus Negros, que já para os fins da guerra os reputavam invencíveis. Em certa ocasião lhe passaram com uma bala a mão esquerda, e logo a mandou cortar, por fazer a cura mais breve, dizendo: Que fica mui contente com a direita, que lhe bastava para matar Holandeses em serviço do seu Rei; Assaltou e rendeu muitas Praças e Fortalezas de grande consideração, e costumava chegar-se aos muros e lançar o seu bastão dentro neles, e dizia aos seus Negros, que ou todos haviam de morrer com ele, ou haviam de resgatar aquela insígnia do seu Cargo; Defendeu outras Praças contra toda a esperança, até que desesperavam os invasores; Militou desde os princípios desta guerra e chegou aos fins, logrando a glória de lhe deverem em grande parte aqueles povos a sua liberdade. El-Rei Dom João IV, que então Reinava, lhe fez mercê do hábito de Cristo, que ele prometeu não pôr nos peitos, senão depois de expulsado o Holandês, e assim o cumpriu pontualmente. Faleceu neste dia [31 de Agosto], ano de 1661, deixando, apesar da côr, esclarecida fama.

Pe. Francisco de Santa Maria in «Ano Histórico, Diário Português: Notícia Abreviada de pessoas grandes e coisas notáveis de Portugal», 1744.

Escravatura: contra a mistificação liberal-maçónica


§. VII. Mas como depois de feita a minha Análise se me quis fazer um novo ataque, trazendo-me em oposição as Leis, que permitem o comércio do resgate dos escravos da Costa d'África, os Alvarás do 1º de Abril de 1680 e o de 6 de Junho de 1775, que declaram livres todos os Índios do Brasil, proibindo a escravidão a respeito deles; assim como também as Bulas que os confirmaram; para que não se diga, que as ditas Leis são entre si antinómicas, ou contraditórias, nem também que a minha opinião, enquanto defende a justiça de umas, é contrária à justiça das outras; eu passo a dar uma breve notícia das diversas circunstâncias, em que se achavam os Índios do Brasil e os Pretos d'África, no tempo das descobertas dos Portugueses, em uma e outra parte do Mundo; circunstâncias, que deram ocasião às diversas disposições das ditas nossas Leis e Bulas.

§. VIII. Os Portugueses, que primeiro descobriram a Costa da Guiné, já acharam muitas Nações com algum género de Governo, obediência e subordinação, comércio e agricultura; entre as quais já também se achava introduzida a escravidão, ou dos vencidos na guerra, ou dos réus de certos crimes capitais; de tal sorte, que querendo eles comprar aos Portugueses alguns géneros de que eles necessitavam, ofereceram em troca e permutação, alguns dos seus escravos, que vindo para Portugal, foram comprados por aqueles, que de seus serviços precisavam; e ao Senhor Infante D. Henrique, como encarregado e Governador daquelas descobertas, e bons serviços que ele tinha feito a Portugal, lhe deu o Senhor Rei D. Afonso V, a dízima dos interesses do comércio dos escravos, como se vê na sua Carta de 15 de Setembro de 1448, confirmada pelo Senhor Rei D. Manuel por carta de 22 de Fevereiro de 1502. Este comércio foi aprovado por Bulas do Papa Nicolau V, de 6 de Janeiro de 1454, de Calisto III, de 3 de Março de 1455, de Xisto IV, de 21 de Junho de 1481, e de Leão X, de 3 de Novembro de 1514, por se achar ser este comércio o meio de se introduzir a nossa Santa Religião entre aquelas Nações bárbaras, ou ao menos salvar muitas almas, que aliás seriam perdidas no centro do Gentilismo.

§. IX. Os Portugueses, que primeiro descobriram as terras do Brasil, não acharam Nações propriamente, acharam sim alguns bandos de homens selvagens, sem algum género de governo, nem de subordinação; eram algumas famílias errantes e dispersas, que viviam em pobres choupanas, muito ainda no primeiro estado da Natureza, talvez desgarradas dos primeiros Habitantes do México ou do Peru: em toda a grande extensão do Brasil até hoje, não se tem descoberto algum vestígio de grande população, nem um só edifício ou Obra de Arte, que denotasse algum princípio de Civilização. Os montes, as serras, os campos, os bosques totalmente incultos, pareciam estar ainda com a mesma face, com que tinham saído das mãos da Natureza, e que ainda não eram habitados por Entes Racionais. Aqueles bandos de Selvagens errantes, apenas usavam da caça e da pesca, e de alguns frutos silvestres: eles se faziam a guerra como as feras para, ou afugentarem os seus inimigos, ou os devorarem: eles ainda não conheciam a Escravidão, nem a subordinação, este primeiro passo para a Civilização das Nações.

(...)

§. XI. Sendo pois o Índio pouco hábil para a agricultura, que era o fim da escravidão, e indomável pelo meio da força; pois que enquanto ali houvesse uma serra, uma brenha e um asilo para um selvagem, seria mais fácil destruí-los, do que sujeitá-los de repente a um trabalho para eles novo; e conhecendo-se também, que era mais fácil chamá-los para a comunicação dos Portugueses pelos meios doces e pacíficos da Religião, foi necessário proibir a escravidão daqueles Índios, e declará-los livres, para que uma vez entrados na Sociedade, se fossem com o tempo e com o exemplo, acostumando ao trabalho e a um novo género de vida.

(...)

§. XIII. O Preto d'África apresentou os atributos da força e das qualidades necessárias para cultivador das terras da Zona tórrida; conheceu-se que as Nações de África estavam já acostumadas aos trabalhos da Agricultura debaixo de um Sol ardente, e que já de tempos antiquíssimos estavam no costume da escravidão, e de venderem os braços que lhes eram pesados, inúteis, ou prejudiciais; costume que, ou a necessidade do seu maior bem, ou do seu menor mal, lhes tinha ensinado; ou que lhes tinha sido transmitido, o que era transcendente a todos os outros Povos do antigo Mundo sem exceptuar a Europa; se lançou mão deste meio sem alterar o estado em que se achavam aquelas Nações, melhorando-se a condição daqueles desgraçados, que pelas Leis da sua Nação eram já condenados a serem escravos, mortos, ou vendidos para fora do seu País, levando-os para a comunicação dos Povos civilizados e para a obediência das Leis protectoras, e defensoras da vida e da existência de tais escravos, Leis desconhecidas no seu País.

(...)

§. XVII. Quanto à Escravidão d'África; sabe-se que não há, nem pode haver, comércio senão daquilo que sobeja do necessário de cada um; porque ninguém vende o pão de que precisa para a boca: isto que procede a respeito de cada um, em particular, procede a respeito do todo de uma Nação de uma parte do Mundo, etc. Logo, não pode haver comércio sem haver supérfluo. Sabe-se mais que os objectos e a base do Comércio são os trabalhos da agricultura e da indústria dos homens, aquela que sobeja das necessidades de cada um.

(...)

§. XXII. Em uma palavra, a Escravidão na África já estava estabelecida, os Portugueses não fizeram mais do que aproveitarem os desperdícios daquelas Nações; e por isso, as nossas Leis e os nossos Soberanos, como bons políticos, e encarregados de fazer o maior bem dos seus Vassalos, o permitiram em favor da cultura das suas terras que, aliás, eram perdidas. A escravidão dos Índios do Brasil ainda não estava estabelecida, e se achou mesmo inútil estabelecê-la, e até contrária ao fim a que se tinha proposto; ela só servia de aumentar dificuldades aos meios doces, suaves e pacíficos, que se tinham adoptado para a civilização daqueles bárbaros e para a propagação do Evangelho no meio da Gentilidade que, por isso, que não tinham alguma Religião, era fácil de abraçar a primeira que se lhes ensinava; e como em tal caso, a Escravidão daqueles Índios já não era um bem, mas sim um mal para a Religião e para o Estado, foi necessário proibi-la.

§. XXIII. Sendo pois diversas as circunstâncias em que se achavam, e ainda se acham os Pretos d'África e os Índios do Brasil no tempo das descobertas dos Portugueses, em uma e outra parte do Mundo, foram também diversas as disposições das ditas Leis; e como a justiça das Leis humanas não é absoluta, mas sim relativa às circunstâncias, ficou cada uma das ditas Leis sendo justa relativamente ao objecto de que tratava; assim como também a minha opinião, a qual enquanto defende a justiça da Lei que permite a escravidão e o resgate dos Escravos da Costa d'África, não ofende a justiça da Lei que proíbe a escravidão dos Índios do Brasil.

(...)

§. XXV. Olhando para este negócio pela parte da Religião, eu não vejo coisa alguma contra ela. Os Apóstolos, tratando da escravidão, nunca disseram que ela era contra a Religião: S. Pedro na sua Epístola I. recomenda aos escravos que obedeçam aos seus Senhores, ainda que sejam maus ou rigorosos: S. Paulo, na sua Epístola aos Colossenses, recomenda aos Senhores que prestem aos seus escravos, o que a Justiça e a equidade pedem deles, e que se lembrem que eles têm um Senhor no Céu, que os há-de tratar como eles tratarem aos seus Escravos. A Epístola de S. Paulo a Filémon, em que lhe pede que perdoe ao seu escravo Onésimo o furto e a fugida que ele lhe tinha feito, é um chefe de obra de eloquência neste género: nada é mais terno, mais tocante, mais persuasivo, mais animado. S. Paulo, na sua Epístola, mistura as preces com a autoridade, os louvores com as recomendações, os motivos da Religião com os da civilidade e do reconhecimento: ele, enfim, tudo mete em obra para reconciliar o Senhor com o escravo, mas nunca disse que era injusto, nem contra a Religião, que Onésimo fosse seu escravo.

§. XXVI. Dirá por ventura um Cristão que a Moral de tais Filósofos é mais perfeita e mais sublime do que a Moral que nos ensinaram os Apóstolos, ou do que a Moral que os Apóstolos não reprovaram? A Moral de tais Filósofos, cujos princípios tem mostrado a experiência que, ou são falsos, ou revolucionários, havemos nós de adoptar? As obras dos homens não chegam, nem jamais chegarão, à suma perfeição, que é só reservada a Deus: o maior bem dos Homens no estado da Sociedade é o meio entre os extremos; querer sair deste meio é precipitar-se no abismo, é cair no furor, ou do fanatismo, ou da superstição.

§. XXVII. Eu me persuado que não ofendo quando defendo a justiça das Leis do meu Soberano; quando trabalho por sufocar a opinião que se opõe à Lei do Estado; quando só tenho em vista o sossego externo e interno dos meus Concidadãos; quando sirvo à minha Pátria; quando mesmo do mal, que fazem os Bárbaros entre si, eu para todos tiro um bem; e quando, enfim, a soma dos bens é tão grande, que ainda um mal à vista deles é nada.


§

Nota: D. José de Azeredo Coutinho foi Bispo de Olinda, Bispo de Elvas e Inquisidor-Geral do Reino de Portugal. Nasceu em Campos dos Goytacazes, a fidelíssima diocese de D. António de Castro Mayer.

520º aniversário da descoberta oficial do Brasil


Esta terra, Senhor, me parece que da ponta mais contra o sul vimos, até outra ponta que contra o norte vem, de que nós deste porto houvemos vista, será tamanha que haverá nela bem vinte ou vinte e cinco léguas por costa. Tem, ao longo do mar, nalgumas partes, grandes barreiras, delas vermelhas, delas brancas; e a terra por cima toda chã e muito cheia de grandes arvoredos. De ponta a ponta, é tudo praia-palma, muito chã e muito formosa.
Pelo sertão nos pareceu, vista do mar, muito grande, porque, a estender olhos, não podíamos ver senão terra com arvoredos, que nos parecia muito longa.
Nela, até agora, não pudemos saber que haja ouro, nem prata, nem coisa alguma de metal ou ferro; nem lho vimos. Porém a terra em si é de muito bons ares, assim frios e temperados, como os de Entre Douro e Minho, porque neste tempo de agora os achávamos como os de lá.
Águas são muitas; infindas. E em tal maneira é graciosa que, querendo-a aproveitar, dar-se-á nela tudo, por bem das águas que tem.
Porém, o melhor fruto que dela se pode tirar me parece que será salvar esta gente. E esta deve ser a principal semente que Vossa Alteza em ela deve lançar.
E que aí não houvesse mais que ter aqui esta pousada para esta navegação de Calecute, isso bastaria. Quanto mais disposição para se nela cumprir e fazer o que Vossa Alteza tanto deseja, a saber, acrescentamento da nossa santa fé.
E nesta maneira, Senhor, dou aqui a Vossa Alteza conta do que nesta terra vi. E se algum pouco me alonguei, Ela me perdoe, pois o desejo que tinha de tudo vos dizer, mo fez pôr assim pelo miúdo.
E pois que, Senhor, é certo que, assim neste cargo que levo, como em outra qualquer coisa que de vosso serviço for, Vossa Alteza há-de ser de mim muito bem servida, a Ela peço que, por me fazer graça especial, mande vir da ilha de São Tomé a Jorge Osório, meu genro – o que d'Ela receberei em muita mercê.

Beijo as mãos de Vossa Alteza.
Deste porto seguro, da vossa ilha da Vera Cruz, hoje, sexta-feira, primeiro dia de Maio de 1500.
Pêro Vaz de Caminha

D. Pedro "IV"


O Rei D. João VI vê-se obrigado a regressar à Pátria em 1821, após 14 anos de ausência. No Brasil, deixa como regente o seu filho mais velho, D. Pedro, um jovem que se tinha formado nas fontes da ideologia revolucionária, que sonhava desempenhar o papel de um Bolívar e de impor à força, aos seus súbditos, as ideias liberais. Pouco tempo depois da partida do Rei D. João para a Pátria, o regente D. Pedro declara a independência do Brasil, sendo aclamado Imperador (12 de Outubro de 1822). A primeira ordem assinada pelo Imperador do Brasil é a reabertura da Loja do Grande Oriente. «D. Pedro não podia esquecer-se de que, segundo a expressão do Marechal, o acto de 12 de Outubro foi entièrement leur ouvrage» (Oliveira Lima). Com a perda do Brasil, o império português sofrerá o golpe mais duro da sua história. É pelo menos estranho que esse golpe tenha sido realizado pelo príncipe herdeiro...

Mircea Eliade in «Salazar e a Revolução em Portugal», 1942.

As Amazonas


Segundo a mitologia grega, as Amazonas eram uma tribo de mulheres guerreiras que viviam nas margens do Mar Negro, governadas por uma rainha. Montavam a cavalo e combatiam com arco e flecha. Só permitiam que os homens se aproximassem delas uma vez por ano, para fins reprodutivos. Matavam os seus filhos varões à nascença e queimavam o seio direito das filhas, para que estas tivessem mais agilidade e força no tiro ao arco.
No Brasil, a existência de Amazonas foi registada pelos primeiros cronistas. Frei Gaspar de Carvajal declara tê-las encontrado, a 24 de Junho de 1541, na foz do rio Jamundá. Francisco de Orellana terá abatido sete ou oito dessas mulheres, que viviam sem maridos, na selva amazónica, e que se dedicavam à guerra, atacando as tribos vizinhas, matando os homens e as crianças do sexo masculino.