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Corpus Christi


Corpus Christi ou Corpo de Deus é a festa que se celebra na quinta-feira seguinte ao Domingo da Santíssima Trindade. A Igreja instituiu esta festa para louvar com uma procissão solene a Santíssima Eucaristia. É certo que a Eucaristia foi instituída por Jesus Cristo na Quinta-Feira Santa; mas, como nesse dia não pode haver uma comemoração festiva, por causa das cerimónias que recordam a Paixão de Jesus, a Igreja escolheu outro dia – a quinta-feira seguinte ao Domingo da SS. Trindade – para festejar aquela sublime instituição. É dia santo de guarda. Nos povos onde se faz a procissão, costumam os fiéis embandeirar as janelas e juncar de flores as ruas por onde passa em procissão Jesus Sacramentado.

Pe. José Lourenço in «Dicionário da Doutrina Católica», 1945.

O Santo Milagre de Santarém


Em Santarém viviam uns casados pelos anos de 1266, e pela má vida que o marido dava à mulher, se queixou esta a uma sua amiga de Nação Hebreia, a qual lhe aconselhou que, quando comungasse, lhe levasse a Partícula Consagrada, porque com ela lhe faria um especial remédio [um bruxedo], com o qual obrigaria o marido a querer-lhe bem: assim o fez a pobre mulher, escondendo a Sagrada Partícula numa toalha na ocasião em que fingiu que comungava; mas milagrosamente, quando caminhava pela rua, lhe viram correr sangue do seio, onde levava o Sacrossanto Depósito; e assustada com a novidade, em que todos reparavam, voltou para casa, e meteu o Corpo de Cristo numa arca.
Na noite seguinte viu-se a casa toda iluminada, respirando suaves aromas e soando Angélicos Cânticos. Divulgou-se o caso, e então a Santa Partícula foi levada para a Paróquia de Santo Estêvão, onde depois se achou metida numa Âmbula de cristal por mão Superior.
Até hoje se conserva incorrupta, obrando prodígios tão frequentes e públicos, que a devoção dos fiéis lhe chama por toda a parte o Santo Milagre.

D. Frei Fortunato de São Boaventura in «Breve notícia dos desacatos mais notáveis acontecidos em Portugal, desde a sua fundação até agora, e o sermão de desagravo pelos últimos cometidos neste mesmo ano», 1825.

Festa de Corpo de Deus


Esta espécie de pretendidos filósofos, guiados somente pelos sentidos e pela sua razão, e querendo sujeitar a ela todas as demonstrações, nos desafiam muitas vezes para esta sorte de combates; e tratam de convencer-nos de loucos, ou de fanáticos, quando acreditamos verdades, que, ou a razão não compreende, ou os sentidos contradizem. É para eles uma destas verdades, aquela que fielmente acreditamos: a existência Real de Jesus Cristo no Augusto Sacramento dos nossos Altares.
Vem cá, ímpio, se é que me escutas, eu te ofereço combate, diz-me qual é o carácter de que te revestes? És Judeu? Certamente; ainda que oculto e disfarçado. Pois se como Judeu me perguntas: como pode Jesus Cristo dar-nos a Sua Carne para comer e o Seu Sangue para beber? Quommodo potest hic dare carnem suam ad manducandum? Pode; porque quem pode criar o Céu e a Terra com uma única palavra, o homem de um pouco de barro, e obrar tantas e tão extraordinárias maravilhas, seladas com a autoridade Divina nos Livros da Antiga Aliança, também podia converter o Pão e o Vinho na substância do Seu Corpo e do Seu Sangue!
És herege? Certamente, porque abraças os erros de todos os Hereges, em todos os séculos e em todas as idades; e se como Herege abraças o Evangelho, vê, contempla, medita nas terminantes e claríssimas expressões do Divino Salvador, na Instituição do Adorável Sacramento. Toma o pão, abençoa-o, e diz: Este é o meu Corpo. Hoc est Corpus meum; e da mesma sorte o vinho: Este é o meu Sangue. Hic est Sanguis meus. Não disse, como querem os Luteranos e Calvinistas: Este Pão é a imagem e a figura do meu Corpo e do meu Sangue; mas disse e declarou aquilo que não tinha feito na instituição dos outros Sacramentos; esta comida é a verdadeira e real substância do meu Corpo e esta bebida o meu verdadeiro Sangue: Caro mea vere est cibus et sanguis vere est potus, e para nos tirar toda a dúvida, ainda acrescenta: e este mesmo Corpo, que aqui fica debaixo das espécies de Pão, é aquele mesmo que há-de ser entregue aos Meus inimigos para vos salvar. Hoc Corpus, quod pro vobis tradetur.
És Filósofo ímpio? Então contigo não quero argumentar; eu te voto ao desprezo do género humano; porque o teu sistema é uma mescla de todas as Seitas, um agregado de todas as impiedades, um ódio desenfreado sobre tudo que é sagrado. Eu, assim como todos os verdadeiros crentes, adoramos, protestamos adorar a Real Presença de Jesus Cristo no Augusto Sacramento dos nossos Altares; é verdade que a minha razão fraca e limitada não pode compreender a grandeza deste Mistério, nem os meus sentidos ali encontram senão as espécies de pão; mas a minha Fé me ordena que adore, que acredite a Real Presença de Jesus Cristo no Augusto Sacramento dos nossos Altares; ainda que a minha razão o não compreenda e os meus olhos o não vejam; quod non capis, quod non vides animosa firmat Fides.

D. Frei Fortunato de São Boaventura in «Breve notícia dos desacatos mais notáveis acontecidos em Portugal, desde a sua fundação até agora, e o sermão de desagravo pelos últimos cometidos neste mesmo ano», 1825.

A Santa Comunhão


O que é a Comunhão?
É a recepção do Corpo e do Sangue de Jesus Cristo sob as espécies sacramentais do pão e do vinho. A palavra comunhão quer dizer união com, união de Jesus Cristo e da alma que a recebe. E, com efeito, não há união mais íntima, já que comemos a Carne e bebemos o Sangue de Jesus. Nosso Senhor instituiu a Comunhão quando instituiu o sacrifício da Missa, dizendo: «Tomai, isto é o Meu Corpo; bebei, este é o Meu Sangue».

Três espécies de Comunhão: a sacrílega, a tíbia, e a fervorosa
1. A comunhão sacrílega. A própria palavra faz horror. Comungar em estado de pecado mortal, receber o Deus de toda a santidade e pureza numa alma cheia de lama do pecado, encerrar num mesmo coração a Deus e a Satanás, enfim, como diz São Paulo, calcar aos pés o Corpo e Sangue de Jesus. Que profanação! Que crime! Mas também que castigos! Muitas vezes doenças terríveis, morte desgraçada, condenação eterna. «Quem comunga indignamente, come e bebe a sua própria condenação», diz o mesmo Apóstolo. Se outrora tivéssemos tido a infelicidade de fazer comunhões sacrílegas, não obstante a enormidade do pecado, deveríamos ter a confiança na misericórdia de Jesus. Após uma sincera confissão, procuremos reparar com comunhões fervorosas as comunhões indignas do passado.
2. A comunhão tíbia. É a comunhão feita por rotina, sem fruto, sem preparação nem acção de graças que valham. Há pessoas que comungam quase todos os dias e não se emendam dos seus defeitos, nem fazem progresso na virtude. De manhã, na mesa da comunhão; à noite, no espectáculo, no baile; de manhã, recolhidas; todo o resto do dia dissipadas; de manhã, derretidas em devoção; de tarde, de mau humor; de manhã, na igreja em oração; o dia inteiro, em maledicência, disputas, leituras frívolas, exibição de vaidade. Cuidado! São Paulo compara estas almas com a terra que frequentemente recebe a chuva do céu e nada produz, senão espinhos e abrolhos. Neste caso será melhor afastar-se da mesa da comunhão? Não! Seria imitar o homem que está fraco e não se alimenta. O que se deve fazer é, por meio da mortificação e da oração, sacudir fora essa frieza e continuar a comungar.
3. A comunhão fervorosa. É a comunhão feita com boa vontade, com proveito, precedida de uma séria preparação e seguida de uma fervorosa acção de graças.

Pe. Guilherme Vaessen in «O Pequeno Missionário», 1953.

Festa de Corpo de Deus


A minha carne é verdadeiramente alimento e o meu sangue é verdadeiramente bebida. Quem come a minha carne e bebe o meu sangue fica em Mim e Eu nele. (João 6: 56-57)

Todas as vezes que comerdes este pão e beberdes este cálix, anunciareis a morte do Senhor até que Ele venha. Por isso todo aquele que comer deste pão e beber do cálix do Senhor indignamente, será réu do corpo e do sangue do Senhor. (I Coríntios 11: 26-27)

A procissão do Corpo de Deus em Lisboa

Procissão do Corpo de Deus na Lisboa quatrocentista.

A procissão do Corpo de Deus faz-se há anos com uma pompa e solenidade, que excede tudo o que se pratica nos outros lugares da Cristandade.
As ruas, por onde passa, estão juncadas de verdura e de flores, e guarnecidas de tropa. As casas estão cobertas de parte a parte na altura dos telhados de damasco e carmesim, forrado por cima de toldos de linho. De distância a distância vêem-se grandes lustres e magníficos altares de descanso.
Há neste dia no Terreiro do Paço e no Rossio uma colunata de madeira em arcada muito larga e muito elevada, em forma de algo de triunfo todo pintado, e ornado de belos painéis, por baixo do qual passa a procissão, como em todo o resto do trânsito, a coberto das injúrias do tempo. As casas estão armadas de seda; às janelas vêem-se as damas riquíssimamente enfeitadas e é defeso aos homens aparecer às janelas.
El-Rei assiste à cerimónia acompanhado de todos os grandes da Corte, e precedido de todas as confrarias, dos cavaleiros de Cristo, de Avis e de São Tiago, de todas as ordens eclesiásticas, e do Patriarca com seu clero, a que dão grande realce os principais mitrados.
A Rainha nesta ocasião vai para casa do Ministro, a qual está situada de maneira que Sua Majestade fica no centro da procissão; porque a descobre ao longe vindo da esquerda, donde se estende depois pela grande rua dos ourives do ouro, que está em frente das janelas que ela ocupa; e depois vê-se dar volta pela rua dos mercadores, que lhe fica à direita. Esta procissão mete tanto povo que há já uma boa parte de volta antes da outra ter acabado de desfilar neste sítio; de maneira que a Rainha, descobrindo a procissão toda de ponta a ponta a igual distância das janelas, que ocupa, vê-a assim em forma de cruz, formando um soberbo espectáculo.

Pierre Prault in «Description de la ville de Lisbonne», 1730.