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São Raimundo de Medelim


São Raimundo, natural de Medelim (Colónia da Antiga Lusitânia) foi Pastor, e nesta humilde ocupação, soube merecer e conseguir as virtudes de Santo, os realces de milagroso: Passou neste dia [5 de Abril] da vida temporal à que não tem fim, pelos anos de 900.

Pe. Francisco de Santa Maria in «Ano Histórico, Diário Português: Notícia Abreviada de pessoas grandes e coisas notáveis de Portugal», 1744.

São Mamede


São Mamede floresceu em tempo dos Godos, fazendo vida eremítica junto da Cidade de Tui, que naquele tempo pertencia à nossa Lusitânia: Aquela Cidade lhe tem muito singular devoção, e na Diocese se acham dez Igrejas dedicadas ao seu nome.

Pe. Francisco de Santa Maria in «Ano Histórico, Diário Português: Notícia Abreviada de pessoas grandes e coisas notáveis de Portugal», 1744.

Mártir São Lupo


São Lupo, a quem fez escravo a fortuna, mas a graça lhe participou tão generosos brios, que com santa liberdade defendeu as verdades da Fé, e por ela conseguiu o martírio neste dia [23 de Agosto], em Pontevedra, povoação, que então pertencia à nossa Lusitânia.

Pe. Francisco de Santa Maria in «Ano Histórico, Diário Português: Notícia Abreviada de pessoas grandes e coisas notáveis de Portugal», 1744.

São Focato de Lugo, na Lusitânia


Em Lugo, Cidade da antiga Lusitânia, passou neste dia [14 de Julho] a gozar o prémio de suas virtudes e a coroa de seus merecimentos, o glorioso São Focato, Bispo da mesma Cidade e santíssimo Confessor [da Fé].

Pe. Francisco de Santa Maria in «Ano Histórico, Diário Português: Notícia Abreviada de pessoas grandes e coisas notáveis de Portugal», 1744.

Estrabão sobre a Lusitânia (2ª Parte)



Os últimos são os Ártabros [tribo do norte galego] e habitam junto do cabo ao qual chamam Nério [actual Cabo Touriñán], que constitui o extremo dos flancos ocidental e setentrional da Ibéria (nos seus arredores habitam Célticos, aparentados com os das margens do Anas [Rio Guadiana]. Conta-se que quando estes e os Túrdulos conduziram até ali uma expedição militar, se revoltaram depois da travessia do Rio Lima, e que após a revolta, como acontecera a perda do seu chefe, se fixaram dispersos nessa região; e que também por isso o Rio Lima se denominaria Letes). Os Ártabros têm numerosas cidades concentradas no golfo que os navegantes que frequentam estes lugares designam como Porto dos Ártabros. Os contemporâneos chamam Arotrebas aos Ártabros.

Deste modo, pois, cerca de umas trinta tribos ocupam o território entre o Tejo e os Ártabros. Apesar de a região ser próspera em frutos, gado e abundância de ouro, prata e metais semelhantes, a maior parte deles, contudo, abandonou a exploração da terra: passavam o tempo em piratarias e em guerras contínuas, quer entre si, quer (atravessando o Tejo), contra os seus vizinhos, até que os Romanos os impediram, humilhando-os e reduzindo a maior parte das suas cidades e aldeias, e associando também colonos a algumas delas, para melhor resultado. Deram início a esta anarquia os habitantes das montanhas, como é natural, pois como ocupavam uma terra pobre e possuíam territórios reduzidos, cobiçavam o alheio. E os outros, ao defenderem-se deles, tornaram-se necessariamente impotentes em relação às actividades próprias, de modo que também eles guerreavam em vez de cultivarem as terras. E sobreveio que o território, descuidado, como estava estéril dos seus recursos naturais, era habitado por bandidos.

Diz-se que os Lusitanos são dados a emboscadas, à espionagem, que são vivos, ligeiros, bons em manobras. Têm um escudo pequeno de dois pés de diâmetro, côncavo na frente, preso ao corpo por correias, pois não tem manilhas nem outro tipo de pegas. Têm também um punhal ou um cutelo. A maior parte usa couraças de linho; alguns, porém, usam-nas de malha e elmos de três penachos, mas os restantes, elmos feitos de tendões. E os de infantaria têm também cnémides e vários dardos cada um; uns quantos usam ainda uma lança (as pontas são de bronze). Diz-se que alguns dos que habitam junto ao Rio Douro vivem à maneira lacónica [espartana], utilizando lugares específicos para se ungirem duas vezes por dia, tomando banhos de vapor produzido por pedras aquecidas, banhando-se em água fria e fazendo uma única refeição diária, com limpeza e simplicidade. Os Lusitanos são dados a sacrifícios e examinam as entranhas das vítimas sem as extrair; inspeccionam também as veias do flanco e é pelo tacto que se pronunciam. E fazem ainda predições através de entranhas de homens, prisioneiros de guerra, que cobrem com saios; em seguida, quando a vítima é golpeada pelo arúspice nas entranhas, adivinham em primeiro lugar a partir do seu modo de cair (depois, cortando as mãos dos prisioneiros, consagram as direitas como oferenda aos deuses).

Todos os habitantes das montanhas são frugais, bebem água, dormem no chão, deixam o cabelo cair pelas costas abaixo, à maneira das mulheres, mas combatem cingindo as frontes com uma fita. Comem sobretudo carne de bode e é um bode que sacrificam a Ares, e também cativos de guerra e cavalos; e fazem ainda hecatombes de cada espécie, à maneira grega (como diz Píndaro: «de tudo se sacrifica à centena»). Realizam igualmente competições gímnicas, quer para hoplitas, quer para cavaleiros (com pugilato, corrida, escaramuça e combate por grupos). Os habitantes das montanhas, durante duas partes do ano, utilizam bolotas, depois de as terem secado e triturado; logo as moem e as transformam em pão, de modo que se conservem por algum tempo. E utilizam também cerveja, mas têm falta de vinho: o que arranjam, todavia, depressa o consomem, banqueteando-se com os parentes. Em vez de azeite, usam manteiga. Tomam a refeição sentados, em bancos construídos em torno das paredes, e acomodam-se de acordo com a idade e a honra (a refeição circula) e, enquanto bebem, dançam em círculo ao som da flauta e da trombeta, mas também saltam e põem-se de cócoras. Na Bastetânia [Andaluzia oriental], dançam inclusive as mulheres em conjunto com os homens, de mão dada. Todos eles vestem de negro, a maior parte com saios, e é com eles que se deitam sobre camas de folhagem. Usam pêlo de cabra, como os Celtas. As mulheres, por seu turno, apresentam-se com capas e vestidos floridos. Em vez de moeda, os que estão bem no interior utilizam a troca de produtos ou, cortando uma lasca de prata, dão-na como pagamento. Aos condenados à morte, precipitam-nos de um penhasco, e aos parricidas, lapidam-nos fora dos limites das montanhas ou dos rios. Casam-se do mesmo modo que os Gregos. Aos enfermos, tal como faziam os Egípcios no passado, expõem-nos nos caminhos, para que quem tem experiência da doença dê conselhos. Até ao tempo de Bruto [Cônsul Romano], usavam embarcações de couro para atravessar as enchentes da maré e as zonas pantanosas, mas agora, mesmo as canoas feitas de um só tronco são raras. O sal é púrpura, mas branco depois de moído.

Estrabão in «Geografia», Livro III, século I d.C.

Estrabão sobre a Lusitânia (1ª Parte)


Se se retomar desde o princípio, a partir do Promontório Sagrado [Sagres], para o outro lado da costa, em direcção ao Tejo, há um golfo, depois um cabo, o Barbário [Cabo Espichel], e perto deste, as embocaduras do Tejo; até elas, em navegação em linha recta, estádios [...] são dez. Existem também ali estuários, dos quais um avança mais de quatrocentos estádios a partir da mencionada torre, ao longo do qual se erguem povoações [...].

O Tejo tem de embocadura uma extensão de vinte estádios e uma grande profundidade, de modo que pode ser subido por cargueiros com capacidade para dez mil ânforas. Quando as marés têm lugar, forma dois estuários nas planícies que se situam para o interior, de modo que se estende como um mar por cento e cinquenta estádios e torna a planície navegável; no estuário superior circunda uma pequena ilha de cerca de trinta estádios de comprimento, e de largura um pouco aquém do comprimento, fecunda e com belas vinhas. A ilha fica diante de Móron [Santarém], cidade bem situada numa elevação perto do rio, a uns quinhentos estádios do mar, e também com uma terra fértil em redor e com as navegações fáceis até uma distância considerável, inclusive para grandes embarcações, embora o resto do percurso, apenas para barcos de rio (e acima de Móron, o Tejo é navegável por uma distância ainda maior). A esta cidade, Bruto [Cônsul Romano], denominado o Galaico, usou-a como base de operações quando lutou contra os Lusitanos e os submeteu. [...] poderia ter as navegações desimpedidas e o abastecimento dos víveres, de modo que, de entre as cidades em redor do Tejo, são estas as mais poderosas. O rio, por outro lado, é abundante em peixes e está repleto de bivalves. E tendo a sua nascente entre os Celtiberos, corre através de Vetónios, Carpetanos e Lusitanos em direcção ao ocidente equinocial, sendo paralelo até certo ponto ao Anas [Rio Guadiana] e ao Bétis [Rio Guadalquivir], mas afastando-se deles depois, quando se desviam para a costa sul.

Os povos estabelecidos para o interior das regiões mencionadas são os Oretanos, que ficam mais a sul e se estendem até à costa da parte de cá das Colunas [Estreito de Gilbratar]. Os Carpetanos, por seu turno, vêm a seguir a estes, para norte, depois Vetónios e Vaceios – por cujo território corre o Douro, que tem travessia em Acúcia, uma cidade dos Vaceios. E os últimos são os Galaicos, que ocupam uma grande parte da zona montanhosa (por isso, ao serem também os mais difíceis de combater, eles próprios deram o sobrenome ao que submeteu os Lusitanos e fizeram com que à maior parte dos Lusitanos se chame ainda hoje Galaicos). Da Oretânia, sem dúvida, as cidades mais poderosas são Castulo e Oria.

A norte do Tejo, a Lusitânia é o maior agregado populacional dos Iberos e o combatido durante mais tempo pelos Romanos. Delimitam esta região, do lado sul, o Tejo; a oeste e a norte, o Oceano, e a este, os Carpetanos, os Vetónios, Vaceios e Galaicos (povos estes conhecidos; os outros, nem vale a pena nomeá-los, devido à sua pequena dimensão e falta de renome); ao contrário dos contemporâneos, porém, alguns chamam-lhes também Lusitanos. Os Galaicos são, pela parte oriental, vizinhos do povo das Astúrias e dos Celtiberos; os restantes, por seu turno, apenas dos Celtiberos. Assim, o comprimento da Lusitânia é de três mil estádios, mas muito menor é a largura entre o extremo oriental e a costa. O lado oriental é alto e escarpado; todavia, a região situada a seus pés é toda plana mesmo até ao mar, à excepção de algumas elevações que não são grandes. E por isso, decerto, Posidónio afirma que Aristóteles não atribui correctamente a causa das marés altas e baixas à costa (ao longo da Ibéria e da Maurúsia), pois terá dito que o mar se agita em fluxos e refluxos por causa de os promontórios serem altos e escarpados, os quais não só recebem a onda com resistência, como também a devolvem [...]. Mas pelo contrário, para ser exacto: a maior parte deles é arenosa e baixa.

Ora a região de que estamos a falar é fértil e atravessada por rios grandes e pequenos, todos eles fluindo desde as partes orientais, paralelos ao Tejo; e a maior parte deles tem navegações rio acima e uma grande quantidade de pepitas de ouro. Destes rios, os mais conhecidos, a seguir ao Tejo, são o Mondego, que permite uma pequena navegação rio acima, bem como o Vouga. Depois destes o Douro, que vem de longe e corre por Numância e por muitas outras povoações de Celtiberos e Vaceios, e que é navegável para grandes embarcações por cerca de oitocentos estádios. Em seguida outros rios, e após estes o Letes, a que alguns chamam Lima e outros Belião; também este flui desde território dos Celtiberos e Vaceios. Depois deste, o Báinis (outros, no entanto, dizem Minho), de longe o maior dos rios na Lusitânia e igualmente navegável por oitocentos estádios (Posidónio afirma que este corre desde território dos Cântabros). Diante da sua embocadura situam-se uma ilha e dois quebra-mares com ancoradouros. É justo louvar a natureza, porque estes rios têm as margens altas e capazes de receber o mar nos seus canais quando a maré sobe, de modo que não transbordam nem inundam as planícies. Foi precisamente este o limite da campanha de Bruto; mas mais adiante existem muitos outros rios, paralelos aos mencionados.


Estrabão in «Geografia», Livro III, século I d.C.

Os Lusitanos


Cumpre ter sempre presente que a Lusitânia é habitada pela mais poderosa das nações da Hispânia; e que, achando-se já subjugadas as outras, é esta a que se atreve ainda a deter as armas romanas.
Não provém a sua força do número dos seus habitantes, mas da sua resistência devida a um temperamento tenaz e incansável, a uma dignidade individual que antes prefere a morte a qualquer aparência de escravidão.

Caio Lélio, Cônsul Romano, 190 a.C.

Roma não paga a traidores

Viriato

Em 155 a.C., o Império Romano dominava já todo o território leste e sul da Península Ibérica. Nesse mesmo ano começa a chamada Guerra Lusitana.
Entre 155 e 150 a.C. os combates sucedem-se, quase sempre favoráveis aos lusitanos. Até que, neste último ano, os lusitanos sofrem um grande revés. Tal deve-se à promessa do governador romano, Galba, de oferecer terras aos lusitanos. Mas a promessa era uma cilada. Com os lusitanos concentrados em poucos lugares perto dos romanos, Galba promoveu uma chacina.
Após a matança de Galba, segue-se um período de relativa acalmia. Até que no ano 147 a.C., os lusitanos irrompem num novo ataque aos romanos. Nesta altura, o governador romano Vetílio propõe um novo acordo de paz. Mas contra esse acordo levanta-se Viriato, um sobrevivente da chacina de Galba, que, lembrando aos lusitanos a perfídia dos romanos, apela à resistência.
Viriato, aclamado como "Rei" (Dux Lusitanorum), venceu o governador Vetílio. Os romanos reagiram, mas foram quase sempre vencidos em batalha.
Para Roma, a guerra estava a revelar-se um verdadeiro fracasso. Após vários desaires e uma pesada derrota em 140 a.C., os romanos propõem novamente a paz. Viriato firma o tratado e recebe o título de "amigo do povo romano" (amicus populi romani) pela humanidade com que tratou os inimigos vencidos na batalha de Arsa. No Senado Romano, porém, este tratado é visto como uma humilhação, e no ano seguinte, Roma rompe as tréguas e envia um novo governador para terminar a guerra.
O novo governador romano, Cipião, desencadeou uma ofensiva fulgurante, mas Viriato mantém a superioridade militar e força-o a pedir a paz. Envia dois emissários para negociar com Cipião, mas este suborna-os, prometendo-lhes grandes recompensas caso matassem Viriato. E assim aconteceu. Enquanto dormia, Viriato foi assassinado à punhalada.
Os lusitanos, enfraquecidos, acabaram por ser derrotados pelos romanos. A morte de Viriato marcou o início da ocupação romana no ocidente da Península Ibérica.
Quanto aos traidores, estes refugiaram-se em Roma, reclamando o prémio prometido. No entanto, as autoridades romanas ordenaram a sua execução em praça pública, onde ficaram expostos os seus corpos com a inscrição: "Roma não paga a traidores".

A morte de Viriato

O substractum de Portugal


Confirmando a intuição de Menéndez y Pelayo, temos que reconhecer, realmente, a existência no Ocidente da Península de uma família étnica, um pouco, senão bastante, diversificada da que residia no Centro e no Levante. Não nos demoraremos a deslindar complicados novelos genealógicos. Basta consignar que já Apiano Alexandrino, historiador das Guerras Ibéricas, se faz eco das divergências existentes entre Lusitanos e Celtiberos que, estando todos em luta contra Roma, não foi nunca possível obter a sua união. Dispondo duma alta erudição clássica, dificilmente haverá quem se socorra com tanta segurança das fontes histórico-geográficas do conhecimento da Península na Antiguidade como o ilustre professor da universidade de Erlangen, Dr. Adolfo Schulten, sábio explorador das ruínas de Numância. Pois no seu recente estudo sobre Viriato, o Dr. Adolfo Schulten aí alude, como factor de significação na vida social e militar da Península, ao que ele chama a "obstinação ibérica". A "obstinação ibérica", traduzindo de Lusitanos para Celtiberos, apesar do seu próximo parentesco, uma diferença que os séculos perpetuaram, decerto se radicava em causas mais fundas de que uma simples rivalidade de vizinhança, então bem fácil de explicar pelo apertado cantonalismo em que se confinavam, em relação umas às outras, as diversas tribos peninsulares.
Na verdade, se considerarmos que a Península foi passeada por inumeráveis invasões, para o Ocidente, – extremo inóspito e desamparado, seriam empurradas aquelas gentes mais antigas, quase autóctones, que não puderam resistir à conquista e não quiseram fundir-se com os novos senhores. Ou sejam Lígures, Celtas ou Iberos – para o caso a designação pouco importa – eis o tronco donde os Lusitanos derivaram. Representando assim na Península, como um substractum menos assimilável, uma etnia mais agarrada à terra, compreende-se desde já a arreigada índole agrária dessa grei, que, vivendo agremiada em estreitas mancomunidades agrícolas, bem cedo assentou os alicerces do futuro Portugal.

António Sardinha in «A Aliança Peninsular», 1924.

O carácter português


A questão da raça lusitana apresenta-se-nos, pois, nestes termos: há uma originalidade colectiva no povo português, em frente dos demais povos da Península? Cremos que a há, circunscrita porém a traços secundários. Cremos que as diversas populações da Espanha, individualizadas sim, formam, contudo, no seu conjunto, um corpo etnológico dotado de caracteres gerais comuns a todas. A unidade da história peninsular, apesar do dualismo político dos tempos modernos, é a prova mais patente desta opinião. Esse dualismo, porém, leva-nos também a crer que, entre as diversas tribos ibéricas a lusitana era, se não a mais, uma das mais individualmente caracterizadas. Não esquecemos decerto a influência posterior dos sucessos da história particular portuguesa; mas eles, por si só, não bastam para explicar o feitio diverso com que coisas idênticas se representam ao nosso espírito nacional. Há no génio português o que quer que é de vago e fugitivo, que contrasta com a terminante afirmativa do castelhano; há no heroísmo lusitano uma nobreza que difere da fúria dos nossos vizinhos; há nas nossas letras e no nosso pensamento uma nota profunda ou sentimental, irónica ou meiga, que em vão se buscaria na história da civilização castelhana, violenta sem profundidade, apaixonada mas sem entranhas, capaz de invectivas mas alheia a toda a ironia, amante sem meiguice, magnânima sem caridade, mais que humana muitas vezes, outras abaixo da craveira do homem, a entestar com as feras. Trágica e ardente sempre, a história espanhola difere da portuguesa, que é mais propriamente épica: e as diferenças da história traduzem as dissemelhanças do carácter.

Oliveira Martins in «História de Portugal».