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A mortificação cristã


«Deus criou o homem bem ordenado», diz a Escritura. O pecado, porém, introduziu a desordem no mundo, e despojou o homem da natural rectidão e justiça original. Desordem na inteligência, que ficou obscurecida e perturbada na sua inclinação à verdade; desordem na vontade, que facilmente deixa fascinar-se do que é mau, e se sente entorpecida para o que é bom; desordem nos sentidos, que amiúde se rebelam contra a sã razão; desordem, finalmente, em todo o nosso ser e durante toda a nossa vida, a qual, no dizer do Santo Job, é uma contínua luta.
Daqui resulta a necessidade da mortificação: o homem tem de reagir contra os desmandos dos sentidos, contra a rebeldia da vontade, contra o entorpecimento da inteligência, contra tudo que possa estorvá-lo de seguir pelo recto caminho. Tem, numa palavra, de fazer violência a si mesmo, que só assim poderá alcançar o Reino do Céu, que é a só coisa necessária a que deve aspirar.
A prática de todos os cristãos, em todos os séculos, o exemplo de todos os Santos e do mais Santo de todos os homens – do Filho de Deus – a isso nos persuadem também. Não haja, pois, quem seja remisso em associar-se ao espírito da Santa Igreja, nossa mãe, que, se em todos os tempos nos exorta à penitência e mortificação, neste Santo tempo da Quaresma no-la impõe como uma obrigação grave, a que não poderemos esquivar-nos.

Fonte: «Voz de S. António: Revista Mensal Ilustrada», 6º Ano, Nº 15, Março de 1900.

Dos Exercícios Espirituais de Santo Inácio


Aprovamos, louvamos e corroboramos, com o patrocínio do presente escrito, os Documentos e Exercícios mencionados, e todas e cada uma das coisas neles contidas, com a Nossa Autoridade, a teor das presentes Letras, e com Nossa Ciência certa; exortamos muito em Nosso Senhor a todos e cada um dos Fiéis em Cristo, de ambos os sexos, em qualquer lugar do mundo onde se encontrem, a que usem tão piedosos Documentos e Exercícios, e queiram devotamente com eles instruir-se.

Papa Paulo III in breve «Pastoralis Officii», 31 de Julho de 1548.

Imitação de Cristo (Livro I, Capítulo III)


Capítulo III – Da Doutrina da Verdade

Bem-aventurado aquele a quem a verdade ensina, não por figuras e vozes que passam, mas por si mesma e como em si é. A nossa opinião e os nossos sentidos muitas vezes nos enganam, e é pouco o que por eles se conhece. De que aproveita a subtil especulação de coisas ocultas e escuras, de cuja ignorância não seremos repreendidos no dia do Juízo? Grande loucura é, que deixando as coisas úteis e necessárias, nos apliquemos com gosto às curiosas e nocivas. Ah! temos olhos e não vemos.

Que cuidado nos merecem os Géneros e as Espécies sobre que disputam os Filósofos? Quem ouve a Palavra Eterna não trata de questões inúteis. Esta Palavra Divina fez tudo, e tudo confessa ser feito por Ela, e Ela é aquele soberano princípio que fala aos nossos corações. Sem Ela ninguém entende, nem julga rectamente. Aquele que acha tudo na Unidade Soberana, que refere tudo a esta Unidade, e que vê tudo nesta Unidade, pode ter o coração firme, e permanecer em paz no seio do seu Deus. Ó Deus da verdade, fazei-me uma mesma coisa convosco em caridade perpétua! Já me enfastio de ler e ouvir tantas coisas! Em Vós acho quanto desejo e quanto quero! Calem-se todos os Doutores e emudeçam todas as criaturas na Vossa presença: falai-me Vós só!

Quanto cada um for mais recolhido e sincero, tanto mais entende sem trabalho as coisas mais sublimes e elevadas; porque do alto recebe o dom da inteligência. O espírito puro, simples e constante, não se dissipa pela multiplicidade de acções, porque todas faz para honra de Deus, e em nenhuma procura a si próprio. Quem mais te impede e perturba, que a afeição de teu coração não mortificada? Quem é bom e fiel a Deus, regula no seu interior o que deve fazer no exterior. Assim não se deixa em suas acções arrastar de alguma inclinação viciosa; mas ele as produz pelo influxo da recta razão.

Quem tem maior combate, que aquele que trabalha por se vencer a si mesmo? Todo o nosso empenho devia ser vencer-se cada um a si mesmo, fazendo-se cada dia mais forte e mais aproveitado na virtude.

Toda a perfeição nesta vida é misturada de imperfeição, como todas as nossas luzes são mescladas de sombras. O humilde conhecimento de ti mesmo é caminho mais seguro para ir a Deus, que o esquadrinhar a profundidade da ciência. Nem a ciência, nem a simples notícia das coisas são repreensíveis. Elas consideradas em si mesmas são boas e ordenadas por Deus; mas é necessário preferir-lhes sempre a pureza da consciência e o regulamento da vida. Porque muitos, mais estudam para ser sábios que para ser virtuosos; por isso erram a cada passo, e pouco ou nenhum fruto colhem dos seus estudos.

Ó se eles pusessem tanto cuidado em arrancar os vícios e plantar as virtudes, quanto põem em formar questões, não se veriam tantos males no povo, nem tantas relaxações nos Mosteiros. No dia do Juízo não se nos perguntará pelo que lemos, mas sim pelo que obrámos; não se nos perguntará se os nossos discursos foram eloquentes, mas se a nossa vida foi religiosa. Diz-me, onde estão tantos Doutores e Sábios Eclesiásticos, que conheceste, quando viviam e floresciam nos estudos? Já outros ocupam os seus cargos, e não sei se há quem deles se lembre. Em sua vida pareciam alguma coisa, e hoje não há deles memória.

Ó que apressadamente passa a glória do mundo! Provera a Deus, que a sua vida concordara com a sua ciência! Então teriam lido bem e estudado bem. Quantos por sua vã ciência se perdem no mundo, tratando pouco do serviço de Deus? Porque escolhem antes ser grandes que humildes, se desvanecem nos seus pensamentos. O verdadeiro Grande é aquele que possui um grande amor de Deus. O verdadeiro Grande é aquele que olhando para si, considera por um nada a maior glória. O verdadeiro Sábio é aquele que, para lucrar a Jesus Cristo, tem por imundícia todas as coisas da Terra. O verdadeiro Sábio é aquele que faz a vontade de Deus e não a sua.

Frei Tomás de Kempis in «Imitação de Cristo», Livro I, 1427 (reedição de 1819).


Buscai primeiro o Reino de Deus...


Não faltará, quiçá, quem pergunte: mas por que nos deixa Deus por vezes expostos à privação das coisas necessárias à vida?
Deus faz isto por uma das seguintes razões:

– 1ª) Para nos castigar por nossas faltas;
– 2ª) Para nos fazer expiar o abuso dos bens temporais;
– 3ª) Para castigar o nosso amor ao supérfluo;
– 4ª) Para reprimir a nossa avareza ou cobiça;
– 5ª) Para corrigir a nossa ingratidão;
– 6ª) Para que pratiquemos a paciência;
– 7ª) Para nos fazer entender que os bens temporais não são nossos e não nos são devidos.

A conclusão que Nosso Senhor tira de todo o Seu discurso é admirável e resume-lo perfeitamente: Buscai, pois, primeiro o Reino de Deus e a Sua justiça, e tudo o mais vos será dado por acréscimo.
São João Crisóstomo comenta deste modo: Buscai os bens vindouros, e recebereis os perecíveis; não cobiceis os temporais, e os possuireis.

Pe. Juan Carlos Ceriani in «Sermão do 14º Domingo depois de Pentecostes», 11 de Setembro de 2022.

Ódio


Ódio é a aversão ou repugnância que sentimos em presença do mal, real ou suposto. O ódio nem sempre é uma paixão má; se o seu objecto é o mal, o ódio é uma paixão boa; odiar o pecado é ter um amor entranhado à virtude. Mas o ódio chega a causar grandes perturbações na vida moral; por isso é preciso obstar a que tal paixão se radique em nós, visto que tanto pode ter por objecto o mal, como o bem que apreende como sendo um mal. O melhor meio de conseguir dominar a paixão do ódio é praticar com perseverança todas as virtudes.

Pe. José Lourenço in «Dicionário da Doutrina Católica», 1945.

No Santíssimo Dia de Páscoa


Eis aqui somos presentes na claríssima festa da Páscoa da Ressurreição do Senhor, a qual com muita razão nos deve alvoroçar e alegrar sobre todas as outras festas do Senhor: porque nela, assim da parte do Senhor como da nossa, concorrem mais razões de alegria e consolação. Porque, ainda que muito nos alegremos no dia de Seu nascimento, todavia aquela não pode deixar de ser misturada com alguma compaixão e dor, considerando as necessidades e pobrezas em que nasceu, o frio que padeceu, e outras misérias humanas a que, nascendo, se submeteu; e, finalmente, considerando a Morte e Paixão para que nasceu, e como do Presépio havia de passar à Cruz. Também, quanto ao que toca a nós, em Seu nascimento ainda não vemos as perfeições de nosso corpo, as quais d'Ele esperamos e grandemente desejamos, porque nasce em carne mortal e passível, semelhante à nossa, suspirando nós, do íntimo do coração, por ter carne imortal e impassível.

Mas nesta esclarecida festa, que hoje celebramos, tudo quanto nela vemos nos consola sem mistura de tristeza ou compaixão, assim pelo que a Ele toca, como a nós. Hoje, com olhos de fé O vemos levantar-se do sepulcro, ressurgindo em carne imortal e impassível, seguro de nunca mais morrer ou padecer, triunfando da morte e do inferno.

E, também, quanto ao que a nós toca, tudo o que n'Ele vemos confirma nossas esperanças, e dilata nossos corações com alegria e prazer: porque n'Ele vemos hoje a glória que hão-de alcançar os filhos de Deus, e o bem-aventurado estado da vida que esperamos no dia da ressurreição geral. Ele Se propõe hoje diante de nossos olhos, e nos mostra Sua carne gloriosa e imortal, e nos diz: – Eis aqui o treslado e a amostra da glória que há-de ter vossa carne, se fordes Meus verdadeiros discípulos. Assim como esta carne, em que hoje ressurgi, é imortal, assim o será a vossa. Assim como é impassível e incapaz de toda a corrupção, pena, e de toda outra miséria que se puder imaginar, assim o fará a vossa. Assim como é subtil e ligeira, não perdendo de ser verdadeira carne e ter verdadeiros ossos, e assim como é clara e resplandecente e extremadamente formosa: assim o fará a vossa, se, de coração, Me servirdes e andardes unidos e pegados Comigo por fé, esperança e caridade.

Ó irmãos, há aqui algum que não deseje que sua carne alcance estas glórias, estes dotes e perfeições? Manifesto é que todos, com entranháveis gemidos dizendo com Paulo: – Nolumus expoliari, sed supervestiri, que quer dizer: Não desejamos de deixar este corpo e que as nossas almas estejam apartadas dos corpos, mas desejamos de vestir corpos reformados, corpos que nunca moiram, que nunca adoeçam, que não possam ter pena nem desgosto nem outro qualquer achaque.

Este desejo experimentava em si mesmo David quando dizia: – Senhor, não somente minha alma há sede de vós, mas também a carne por mil maneiras suspira a vós, desejando e esperando a gloriosa reformação que lhe tendes prometida. Está minha carne neste mundo rodeada de mil misérias e faltas, e, por isso, continuamente geme pelo dia de sua restauração e glorificação.

Mas porque tem Deus ordenado que ninguém alcance, assim a bem-aventurança da alma como da carne, sem trabalhos e merecimentos, por tanto neste dia em que nos é proposta a imagem e amostra de nossa gloriosa ressurreição, nos traz a santa Madre Igreja, na Missa, uma breve receita daquele grande médico e mestre, S. Paulo, que, em poucas palavras, nos diz o que nos convém fazer para chegarmos à glória da ressurreição, dizendo desta maneira:

– Irmãos, se quereis gloriosamente ressurgir no número dos santos, convém-vos que, neste mundo, lanceis de vossa alma todo fermento velho, alimpando-a de toda a malícia, ódio, e rancor, inveja, indignação, e de toda a mais corrupção e podridão espiritual, para que fiqueis como uma massa ázima fresca e limpa. Porque haveis de saber que o nosso Cordeiro Pascoal não é outro senão Jesus Cristo, Nosso Senhor, que por nós foi sacrificado no altar da Cruz: o qual, como seja fonte de toda a limpeza e santidade, não mora senão em almas limpas. E, por isso, convém que pascoemos e festejemos Sua ressurreição, não com pão fermentado, mas com pão ázimo, scilicet, não com coração malicioso e maligno, mas verdadeiro, sincero e limpo.

Também para isto mesmo no Evangelho que ouvistes à Missa, nos é posta diante dos olhos a devoção daquelas três santas mulheres Marias que hoje, antemanhã, partiram de suas casas com unguentos preciosos para que ungissem o Corpo do Senhor, que estava sepultado. Mas, quando chegaram ao sepulcro, acharam que era ressurgido, porque, chegando ao moimento, viram um Anjo em figura de mancebo, vestido de uma roupa branca e resplandecente, o qual estava sentado à mão direita do moimento, e, vendo-o elas, ficaram pasmadas e disse-lhes o Anjo: – Não tenhais pavor; bem sei que buscais Jesus de Nazaré, que foi crucificado. Já ressurgiu, não está aqui. Eis aqui o lugar onde O puseram. Mas ide e levai estas novas a Seus discípulos e a Pedro, que em Galileia O verão, como Ele havia dito.

Por esta sagrada história nos quis o Senhor ensinar que, se queremos chegar a ver e gozar a glória da ressurreição, que esperamos no fim do mundo, convém que, enquanto vivemos, nos apercebamos de unguentos aromáticos e cheirosos, não corporais, senão espirituais, com os quais unjamos o Senhor, coisa que Ele de nós principalmente requere.

Estes unguentos são três, como diz o glorioso S. Bernardo, scilicet, contrição, devoção e misericórdia.

O primeiro unguento com que Deus quer ser ungido espiritualmente do pecador, é verdadeira contrição dos pecados feitos. E ainda que pecados sejam umas ervas e matérias muito fedorentas, todavia, cozidos na panela de nosso coração com o fogo de dor e amor de Deus, fazem um unguento preciosíssimo, que recende até diante dos Anjos. Em cuja figura se diz que o cheiro do unguento, com que a Madalena ungiu o Senhor, encheu toda a casa. O qual bem-aventurado unguento de contrição e arrependimento perpetuamente há-de perseverar na botica de nosso coração, nem o havemos de lançar fora ainda que venha a Páscoa, porque, como os Santos dizem, ainda que o jejum e abstinência de carne tenha tempo taxado, para contrição não há tempo taxado, mas o seu tempo é toda a vida; porque, como diz S. Agostinho, faltando a contrição, falta o perdão. Porquanto do pecado uma vez cometido, sempre convém ter desprazer e pesar quando quer que vem à memória; ao menos nunca é lícito comprazer e aprovar o mal uma vez feito.

Depois dos pecados e chagas da alma curadas com o unguento da contrição, convém com toda a diligência procurarmos fazer suavíssimo unguento da devoção, a qual não é outra coisa senão uma prontidão e fervente inclinação da alma para as coisas divinas. E, como S. Bernardo diz, este unguento é mais excelente e precioso que o primeiro, assim como os materiais, de que se faz, são mais nobres, os quais são todos os benefícios que Deus fez ao género humano. Porque da meditação e consideração deles se gera em nosso peito aquela nobilíssima afeição que chamamos devoção.

E não basta qualquer frio pensamento deles para espertar em nós, mas é necessário que os trilhemos e os esmiucemos com frequente meditação, e assim também os cozamos com o fogo do santo desejo, porque assim se compõem esta divina confeição, que chamamos devoção.

Não se escuse algum, dizendo que não é letreado, e que, por isso, não pode colher as ervas necessárias (que são principalmente os mistérios de Cristo considerados) para fazer estes unguentos. Esta escusa não vale nada, porque para isto, não são necessárias letras, senão humildade, simplicidade, e boa vontade. Quanto uma pessoa é mais humilde e fora de malícia e dobreza, tanto está mais desposta e capaz para alcançar dom de devoção. E, por isso, S. Gregório e a Santa Madre Igreja dizem que o género das mulheres é devoto, porque, regularmente, não sabendo letras, têm o coração desinchado e humilde e, portanto, capaz de Deus lhe comunicar graça de devoção.

De maneira que este divino unguento não é coisa somente de letrados, mas de todos os cristãos, porque todos somos obrigados cuidar nos benefícios e grandezas de nosso Deus e, especialmente, nos mistérios que obrou nascendo em carne por nossa salvação, e, por eles, louvá-Lo e dar-Lhe muitas graças continuamente.

E ainda que todos os cristãos não cheguem a ter igual devoção, igual fervor e prontidão nas coisas do Senhor, baste que cada um trabalhe de fazer este unguento o mais perfeito e fino que puder, não confiando em suas forças e diligência, mas na graça e ajuda do Senhor, pelo qual há-de chamar instante e continuamente, dizendo: – Senhor, dai-me fervor, prontidão e vontade para as coisas de Vosso serviço; dai-me lume para conhecer Vossos mistérios; dai-me dom de douta e quieta oração.

O terceiro unguento é misericórdia e piedade, com a qual, ungida, a alma piedosa e misericordiosa unge e remedeia, quanto em si é, as necessidades de seus próximos, assim espirituais como corporais, sempre de si destilando e lançando as catorze obras de misericórdia, ora as espirituais, ora as corporais.

Com este unguento estava o coração de Job todo tenro e brando, pois que de si deu testemunho, dizendo: – A porta de minha casa sempre esteve aberta aos peregrinos e caminhantes: eu era pai dos pobres, olho dos cegos, e pé dos mancos. Não neguei aos pobres o que me pediam, nem permitia que as viúvas estivessem esperando pelo remédio de suas necessidades, nem comia meu bocado só sem dele partir com o órfão.

Quão excelente seja este unguento, manifestou o Senhor naquelas palavras que disse aos Judeus: – Mais quero misericórdia que sacrifício. E nas outras que disse: – Bem-aventurados os misericordiosos porque eles alcançarão misericórdia.

Portanto, irmãos, se queremos chegar à glória da bem-aventurada ressurreição, que hoje nos é mostrada e prometida, convém com as santas Marias provermo-nos destes celestiais unguentos, por que estes são com os quais o Senhor quer de nós ser ungido.

D. Frei Bartolomeu dos Mártires in «Catecismo ou Doutrina Cristã e Práticas Espirituais», 1962 (póstumo).

Opulência e Pobreza


Nesta sentença Evangélica fundou o glorioso S. Bernardino uma graciosa parábola. Diz que era um Rei que tinha duas filhas: uma delas de singular formosura, galhardo talhe, mui cortesã e alegre; a outra muito feia e pouco asseada, seu semblante pálido, seu trato retirado. Esta vendo-se tão inferior à outra, ia chorar ao pai, carpindo-se que ninguém a quereria por esposa. Disse-lhe o pai: – Aquieta-te filha, que eu tenho determinado que quem escolher a tua irmã não leve mais dote que a sua formosura e boa conversação; e quem te escolher a ti, levará por dote o meu Reino. Oh que boa doutrina! Este Rei é Deus: as duas irmãs são a opulência e a pobreza: e são filhas do mesmo pai; porque Deus fez o pobre e o rico: Dives et pauper obviaverunt sibi: et utriusque operator est Dominus (Prov. 22. 2). A opulência é formosa aos olhos do mundo, luz muito, traja bem, vive contente, onde quer acha entrada e aplauso. Pelo contrário a pobreza é feia e triste, mete ascos e anda encantoada. Porém quem se casa com a opulência, não leva mais dote que essa mesma glória e luzimento do mundo, que logo passa. E quem recebe a pobreza e vive em paz com ela, promete-lhe Deus o Reino do Céu: Beati pauperes spiritu, quoniam ipsorum est regnum Caelorum (Mat. 5. 3).

Pe. Manuel Bernardes in «Sermões e Práticas», 1711 (póstumo).

Santidade


Um santo pode ser qualquer tipo de homem, com uma qualidade adicional que é ao mesmo tempo única e universal. Podemos até dizer que a única coisa que separa um santo dos homens ordinários é a sua disposição para ser um com os homens ordinários. Neste sentido, a palavra ordinário deve ser entendida no seu significado nobre e nativo; que está ligado com a palavra Ordem. Um santo está muito além de qualquer desejo por distinção; ele é o único tipo de homem superior que nunca foi uma pessoa superior.

G. K. Chesterton in «São Tomás de Aquino», 1933.

Os maus que se atraem mutuamente


Direi apenas uma coisa sobre os maus rapazes, que pode parecer pouco provável, mas que acontece exactamente da maneira que vou descrever.
Digamos que entre os 500 alunos de uma escola, haja um que leva uma vida depravada. Um dia chega um novo aluno que também está viciado. Ambos provêm de diferentes regiões e províncias, e até têm diferente nacionalidade. Eles estão em diferentes classes e em diferentes lugares; eles nunca se viram e nem se conhecem.
Bem, independentemente de tudo o que disse, no segundo dia, ou talvez algumas horas após a sua chegada, vê-los-emos juntos durante o recreio. Parece que um espírito maligno permite descobrir o outro afectado pelo mesmo vício, como se um íman diabólico os tivesse atraído para estabelecer uma amizade íntima. O ditado «aves da mesma plumagem voam juntas» é uma maneira fácil de detectar ovelhas ronhosas antes que elas se convertam em lobos rapaces.

São João Bosco in «Biografia y Escritos de San Juan Bosco», 1955.

Da Imitação de Cristo


Capítulo II – Dos humildes juízos que cada um deve ter de si mesmo

Todos os homens desejam naturalmente saber. Mas de que aproveita o conhecimento sem o temor de Deus? Por certo, melhor é um humilde rústico que serve a Deus, do que um soberbo Filósofo que, deixando de se conhecer a si mesmo, observa os movimentos dos astros. Aquele que perfeitamente se conhece, tem-se por vil, e não se deleita nos louvores humanos. Se eu soubesse tudo o que há no mundo, e não estivesse em graça, de que me aproveitaria este conhecimento diante de Deus, que me há-de julgar pelas minhas obras?

Não tenhas demasiado desejo de saber, porque se acha nele grande distracção e engano. Os Letrados gostam de ser tidos e aplaudidos como tais. Muitas coisas há, que sabe-las, pouco ou nada aproveita à alma: e muito louco é quem atende a outras coisas mais, que às que tocam à sua salvação. As muitas palavras não enchem a alma, mas a boa vida a refrigera, e a pura consciência lhe dá grande confiança em Deus.

Quanto mais e melhor souberes, tanto mais gravemente serás julgado, se não viveres muito santamente. Não te desvaneças pois em alguma arte ou ciência, antes teme o teu saber. Se te parece que sabes muito, tem por certo que é muito mais é o que ignoras. Não presumas de alta sabedoria, mas confessa a tua ignorância. Para que te queres ter em mais que os outros, havendo muitos que te são superiores na ciência da Lei? Se queres saber e aprender alguma coisa com utilidade, deseja ser desconhecido e reputado por nada.

O verdadeiro conhecimento, e desprezo de si mesmo, é a mais útil e a mais sublime lição. Grande sabedoria e perfeição é sentir cada um sempre bem e grandemente dos outros, e de si não presumir nada. Se vires que alguém peca publicamente, ou comete culpas graves, não te deves julgar por melhor; pois não sabes quanto poderás perseverar no bem. Todos somos fracos, mas a ninguém tenhas por mais fraco que tu.

Frei Tomás de Kempis in «Imitação de Cristo», Livro I, 1441.


Sejamos como o bom ladrão


Quanto pior um homem se vai tornando, menos irá compreendendo a sua maldade, exactamente como sucede a um doente, cuja febre vai subindo até o fazer delirar, e que menos e menos compreende que está doente, quanto mais febre tem e mais delira, – a ponto de poder julgar-se tão perfeitamente são, que quer erguer-se do leito para ir trabalhar. Todas as pessoas banalmente más se julgam boas. Só quando acordamos é que sabemos que estivemos a dormir, tal qual só reconhecemos que éramos pecadores, quando libertos do pecado e restituídos à graça de Deus.
Só quando estamos doentes é que pedimos um médico, e só quando nos confessamos pecadores é que imploramos o perdão do Redentor. Assim o disse Nosso Senhor: «Os que têm saúde não precisam de médico, mas sim os que estão doentes» (S. Mateus, IX, 12).
Quando, pois, chegarmos ao ponto de começarmos a sentir-nos e a dizer-nos maus, – então, e só então, estaremos no caminho que levou para o Paraíso o bom ladrão. O reconhecimento da culpa é a condição da conversão, assim como o reconhecimento da doença é a condição do seu tratamento. Enquanto nos julgarmos bons, nunca encontraremos Deus.
Se na nossa petulante vaidade julgamos que sabemos tudo, como poderemos admitir, ou conceber sequer, que Deus nos pode ensinar seja o que for que não saibamos já?
Condescendemos às vezes em reconhecer que temos mau génio, ou que somos um tanto imoderados nos prazeres, sejam da mesa, sejam outros, – mas haverá alguém que leve a condescendência até ao ponto de reconhecer que é vaidoso ou sequer apenas pretensioso? Se não há ninguém que não censure os outros por serem vaidosos, como haverá quem reconheça em si próprio esse pecado? Quanto mais pretensioso cada um for, mais abominará a pretensão dos outros. Quanto mais cada um disser: «Vaidoso é que eu não sou!», mais demonstrará que o é, – como aquele seminarista ingenuamente vaidoso, que depois de ouvir na aula de moral uma lição sobre os males da vaidade e as virtudes da humildade, exclamou entusiasmado para o padre professor: «Eu, senhor padre, a respeito de humildade cristã, estou primeiro que ninguém!»
A vaidade e o orgulho faz com que vejamos toda a restante humanidade lá muito em baixo, – de maneira que nunca poderemos erguer os olhos para ver Deus lá muito em cima. E realmente, se o nosso orgulho não nos deixa reconhecer e admitir outra lei e outra autoridade que não sejam a nossa própria, está claro que é um orgulho essencialmente contrário à lei e à autoridade de Deus.
Todos os mais pecados que possamos cometer, tais como avareza, luxúria, cólera, gula, todos podem provir de nós apenas, – mas o pecado do orgulho, esse provém directamente de Satanás.
Foi esse o pecado que o precipitou, e aos anjos seus sequazes, do alto dos Céus no abismo do Inferno, e é um pecado que elimina até mesmo a possibilidade da conversão.
Se, portanto, formos capazes de nos humilharmos, como se humilhou o ladrão crucificado à direita de Nosso Senhor; se chegarmos como ele a confessar que pecamos, então o nosso brado de arrependimento erguer-se-á até Deus, a implorar-Lhe que Se lembre de nós na desventura em que caímos! No mesmo instante em que deixarmos de nos envaidecer e em que começarmos a ver-nos como realmente somos, então na nossa humildade e penitência seremos erguidos pela graça de Deus até ao Seu perdão.
Façamos, portanto, o nosso exame de consciência: perguntemos a nós próprios, com total e inteira franqueza, não se sabemos muitas coisas, mas sim quais as muitíssimas coisas que não sabemos; não se somos muito bons e virtuosos, mas se somos muito maus e muito pecadores. Julguemo-nos a nós mesmos, não à luz do nosso amor-próprio, mas à luz da nossa recta consciência; não à vista da nossa cultura, mas à vista dos nossos actos; não perante a nossa educação, mas perante o nosso coração. Não tardaremos, se bem verdadeira, leal e profundamente nos examinarmos, em sentir nas nossas almas um grande vácuo, em reconhecer que só estavam cheias da negação que se chama pecado, em experimentar a sede da água límpida da Divina Graça, em bradar como o bom ladrão – e como depois dele, todos os tementes a Deus, quando se vão ajoelhar no Tribunal da Penitência: «Padre, absolva-me, porque pequei e sou agora um pecador arrependido!». É assim que principia para cada um de nós a salvação.
O bom ladrão, com ser bom, foi ladrão até na morte, porque conseguiu com ela ser ladrão do Paraíso, que em vida não merecera e só à hora da morte conquistou.
Pois também cada um de nós, se conquistar o Paraíso, será ladrão como ele foi, porque teremos conquistado o que também em vida não merecemos: o eterno descanso na perpétua luz e na suprema paz do Reino de Deus!

Mons. Fulton Sheen in «As Sete Palavras da Cruz», 1953.

Meditação para Sexta-Feira Santa


Nesta sui generis Páscoa de 2020 – única na História! – proponho uma particular meditação da oitava estação da Via Sacra:

E seguia-O uma grande multidão de povo e de mulheres, as quais batiam no peito, e O lamentavam. Porém Jesus, voltando-se para elas, disse: Filhas de Jerusalém, não choreis sobre Mim, mas chorai sobre vós mesmas e sobre vossos filhos. Porque eis que virá tempo em que se dirá: «Ditosas as estéreis, ditosos os ventres que não geraram e os peitos que não amamentaram». Então começarão a dizer aos montes: «Caí sobre nós»; e aos outeiros: «Cobri-nos». Porque, se isto se faz ao lenho verde, que se fará ao seco?
Evangelho segundo S. Lucas, XXIII, 27-31.

De Deus não se zomba


Não vos enganeis; de Deus não se zomba. Porque aquilo que o homem semear, isso também colherá. Aquele que semeia na sua carne, da carne colherá corrupção; mas o que semeia no Espírito, colherá do Espírito a vida eterna. Não nos cansemos, pois, de fazer o bem, porque a seu tempo colheremos, não desfalecendo. Logo, enquanto temos tempo, façamos bem a todos, mas principalmente aos irmãos da fé.

Epístola de S. Paulo aos Gálatas, VI, 7-10.

O homem estético


Quem é o homem estético, é o libertino ou farrista, de que fala Aristóteles? Esse claro que sim; mas acima dele há outros em escala ascendente: são todos os que centram a sua vida sobre algo exterior, que são eles mesmos livremente abraçados com a sua personalidade essencial. São todos os que dizem «há que gozar a vida» ou «eu quero viver a minha vida». Centrar a vida na boa saúde, um; centrar a vida no poder ou nas honras, dois; centrar a vida na arte ou na poesia, três; centrar a vida no talento, quatro; tudo coisas externas. Mas há outro estético pior: aquele que se desencantou com todas as coisas terrenas e não foi para as eternas.

Pe. Leonardo Castellani in «De Kierkegaard a Tomás de Aquino», 1973.

A Cristo Crucificado


Divinas mãos e pés, peito rasgado,
Chagas em brandas carnes imprimidas...
Meu Deus! que por salvar almas perdidas,
Por elas quereis ser crucificado.

Outra fé, outro amor, outro cuidado,
Outras dores às Vossas são devidas;
Outros corações limpos, outras vidas,
Outro querer, no Vosso transformado.

Em Vós se encerrou toda a piedade,
Ficou no mundo só toda a crueza;
Por isso cada um deu do que tinha...

Claros sinais de amor, ah saudade!
Minha consolação, minha firmeza,
Chagas do meu Senhor, redenção minha!

Frei Agostinho da Cruz (1540-1619)

Alumiar os que erram


Ao arcebispo de Granada, disse um criado seu, palavras pesadas, descomedindo-se com ele com maior liberdade do que se podia esperar da dignidade de um e ofício de outro. O bom prelado esteve muito em si, sem responder-lhe; e quando o viu partir, colérico, de sua presença, pegou do castiçal e o foi alumiando pela escada abaixo.
Que faz Vossa Senhoria? Aonde vai? – disse o criado, assustando-se com aquela acção de humildade.
Respondeu o prelado:
A fazer o meu ofício, que é alumiar os que erram.
Ficou o criado confundido; e prostrando-se a seus pés, lhe pediu perdão.

Pe. Manuel Bernardes in «Nova Floresta», 1706.

O saco de penas


Era uma vez um homem que, por inveja, caluniou gravemente um amigo seu, levando-o à ruína.
Anos depois, arrependido do mal que as suas calúnias fizeram ao seu amigo, procurou um velho sábio, perguntando-lhe: "Que posso eu fazer para corrigir todo o mal que fiz ao meu amigo?" O velho respondeu: "Pega num saco cheio de penas de ave e solta-as ao vento".
No dia seguinte, o homem voltou ao velho sábio: "Já fiz como me mandaste". Ao que o velho lhe respondeu: "Essa foi a parte mais fácil, agora volta a encher o saco com as mesmas penas que soltaste ao vento". Mas o homem entristeceu-se, pois sabia que a tarefa era impossível.
E o velho sábio acrescentou: "Assim como não consegues juntar todas as penas que espalhaste ao vento, também não consegues reparar todo o mal que se espalhou de boca em boca. Vai, sê humilde e caridoso, pedindo perdão ao teu amigo e falando bem dele".

Catecismo Maior de São Pio X:
Quem pecou contra o Oitavo Mandamento [não levantar falsos testemunhos], não basta que se confesse disso, mas é também obrigado a retractar tudo o que disse caluniando o próximo, e a reparar, do melhor modo que possa, os danos que lhe causou.

Meditação sobre o Inferno


Todo o Inferno está nestas palavras de Jesus Cristo: «Afastai-vos de Mim, malditos, para o fogo eterno».

1º O Inferno é a separação, a perda de Deus. «Afasta-te de Mim, pecador». É assim que Deus repele para longe de Si a alma pecadora. É a perda de Deus, a perda da suma beleza, da suma bondade, do sumo bem. Enquanto a nossa alma estiver presa no cárcere da carne, não poderá nunca compreender a imensidade desta desgraça que, na frase dos santos, constitui o inferno dos infernos.

2º O Inferno é a maldição de Deus. «Afasta-te, pecador maldito». A maldição eficaz de um Deus todo-poderoso. Se é terrível a maldição de um pai, de uma mãe, que será a maldição de Deus? Pecador maldito, maldito no corpo, maldito na alma. Olhos, língua, mãos, pés, inteligência, coração, vontade, tudo é maldito, porque tudo serviu de instrumento ao pecado.

3º O Inferno é o fogo. «Afasta-te de Mim, pecador maldito, para o fogo». Quando os profetas falam do Inferno, logo se lhes apresenta à imaginação o mar, o mar sem limites e sem fundo, e os condenados, nadando e mergulhando neste abismo de fogo. O fogo os envolve, penetra-os, circula em suas veias, insinua-se até à medula dos ossos.

4º O Inferno é a eternidade. «Afasta-te, pecador maldito, para o fogo eterno». A eternidade... quem pode compreendê-la! É um tempo que não acaba. Mil anos, milhões de anos, mil milhões de anos. Contai as gotas de água do oceano, os grãos de areia das praias, as folhas das árvores... a eternidade tem mais anos, mais séculos. Sempre! Nunca! Sempre queimar, sempre sofrer! Nunca o menor alívio, a menor esperança!

Se os condenados que estão no Inferno pudessem voltar à Terra, que fariam? Procurariam outra vez a ocasião do pecado, as danças, os espectáculos, as tabernas, as casas de perdição? Não! Correriam para a igreja, ao pé do altar do Santíssimo Sacramento, de Nossa Senhora, ao pé do confessor principalmente, para alcançar o perdão dos seus pecados. O que os condenados não podem mais, vós o podeis. Não estais no Inferno, mas talvez estejais no caminho do Inferno. Quanto antes, voltai para trás; talvez amanhã seja tarde.

Pe. Guilherme Vaessen in «O Pequeno Missionário», 1953.

Sermão da Sexagésima


As palavras que tomei por tema o dizem: Semen est Verbum Dei. Sabeis (cristãos) a causa por que se faz, hoje, tão pouco fruto com tantas pregações? É porque as palavras dos pregadores são palavras, mas não são palavras de Deus. Falo do que ordinariamente se ouve. A palavra de Deus (como dizia) é tão poderosa e tão eficaz, que não só na boa terra faz fruto, mas até nas pedras e nos espinhos nasce. Mas se as palavras dos pregadores não são palavras de Deus, que muito admira que não tenham a eficácia e os efeitos da palavra de Deus? Ventum seminabant, et turbinem colligent, diz o Espírito Santo: «Quem semeia ventos, colhe tempestades». Se os pregadores semeiam vento, se o que se prega é vaidade, se não se prega a palavra de Deus, como não há a Igreja de Deus de correr tormenta em vez de colher fruto?

Mas dir-me-eis: Padre, os pregadores de hoje não pregam do Evangelho, não pregam das Sagradas Escrituras? Pois como não pregam a palavra de Deus? Esse é o mal. Pregam palavras de Deus, mas não pregam a palavra de Deus: Qui habet sermonem meum, loquatur sermonem meum vere, disse Deus por Jeremias. As palavras de Deus, pregadas no sentido em que Deus as disse, são a palavra de Deus; mas pregadas no sentido que nós queremos, não são palavra de Deus, antes podem ser palavra do Demónio. Tentou o Demónio a Cristo a que fizesse das pedras pão. Respondeu-lhe o Senhor: Non in solo pane vivit homo, sed in omni verbo, quod procedit de ore Dei. Esta sentença era tirada do capítulo oitavo do Deuteronómio. Vendo o Demónio que o Senhor se defendia da tentação com a Escritura, leva-O ao Templo, e alegando o lugar do Salmo noventa, diz-lhe desta maneira: Mitte te deorsum; scriptum est enim, quia angelis suis Deus mandavit de te, ut custodiant te in omnibus viis tuis: «Deita-te daí abaixo, porque prometido está nas Sagradas Escrituras que os anjos te tomarão nos braços, para que te não faças mal». De sorte que Cristo defendeu-Se do Diabo com a Escritura, e o Diabo tentou a Cristo com a Escritura. Todas as Escrituras são palavra de Deus; pois se Cristo toma a Escritura para se defender do Diabo, como toma o Diabo a Escritura para tentar a Cristo? A razão é porque Cristo tomava as palavras da Escritura em seu verdadeiro sentido, e o Diabo tomava as palavras da Escritura em sentido alheio e torcido; e as mesmas palavras, que, tomadas em verdadeiro sentido são palavras de Deus, tomadas em sentido alheio, são armas do Diabo. As mesmas palavras que, tomadas no sentido em que Deus as disse, são defesa, tomadas no sentido em que Deus as não disse, são tentação. Eis aqui a tentação com que então quis o Diabo derrubar a Cristo, e com que hoje lhe faz a mesma guerra do pináculo do Templo. O pináculo do Templo é o púlpito, porque é o lugar mais alto dele. O Diabo tentou a Cristo no deserto, tentou-O no monte, tentou-O no Templo: no deserto, tentou-O com a gula; no monte, tentou-O com a ambição; no Templo, tentou-O com as Escrituras mal interpretadas, e essa é a tentação de que mais padece hoje a Igreja, e que em muitas partes tem derrubado dela, senão a Cristo, a sua Fé.

Dizei-me, pregadores (aqueles com quem eu falo, indignos verdadeiramente de tão sagrado nome), dizei-me: esses assuntos inúteis que tantas vezes levantais, essas empresas ao vosso parecer agudas, que prosseguis, achaste-las alguma vez nos Profetas do Testamento Velho, ou nos Apóstolos e Evangelistas do Testamento Novo, ou no autor de ambos os Testamentos, Cristo? É certo que não, porque desde a primeira palavra do Génesis até à última do Apocalipse, não há tal coisa em todas as Escrituras. Pois, se nas Escrituras não há o que dizeis e o que pregais, como cuidais que pregais a palavra de Deus? Mais: nesses lugares, nesses textos que alegais para prova do que dizeis, é esse o sentido em que Deus os disse? É esse o sentido em que os entendem os Padres da Igreja? É esse o sentido da mesma gramática das palavras? Não, por certo; porque muitas vezes as tomais pelo que toam, e não pelo que significam, e talvez nem pelo que toam. Pois se não é esse o sentido das palavras de Deus, segue-se que não são palavras de Deus. E se não são palavras de Deus, que nos queixamos de que não façam fruto as pregações? Basta que havemos de trazer as palavras de Deus a que digam o que nós queremos, e não havemos de querer dizer o que elas dizem?! E então ver cabecear o auditório a estas coisas, quando devíamos de dar com a cabeça pelas paredes de as ouvir! Verdadeiramente não sei de que mais me espante: se dos nossos conceitos, se dos vossos aplausos! Oh, que bem levantou o pregador! Assim é; mas que levantou? Um falso testemunho ao texto, outro falso testemunho ao santo, outro ao entendimento e ao sentido de ambos. Então que se converta o mundo com falsos testemunhos da palavra de Deus? Se a alguém parecer demasiada a censura, oiça-me.

Estava Cristo acusado diante de Caifás, e diz o Evangelista S. Mateus que por fim vieram duas testemunhas falsas: Novissime venerunt duo falsi testes. Estas testemunhas referiram que ouviram dizer a Cristo que, se os Judeus destruíssem o Templo, Ele o tornaria a reedificar em três dias. Se lermos o Evangelista S. João, acharemos que Cristo verdadeiramente tinha dito as palavras referidas. Pois, se Cristo tinha dito que havia de reedificar o templo dentro em três dias, e isto mesmo é o que referiram as testemunhas, como lhes chama o Evangelista testemunhas falsas: Duo falsi testes? O mesmo S. João deu a razão: Loquebatur de templo corporis sui. Quando Cristo disse que em três dias reedificaria o Templo, falava o Senhor do templo místico de Seu Corpo, o qual os Judeus destruíram pela morte e o Senhor o reedificou pela ressurreição; e como Cristo falava do templo místico, e as testemunhas o referiram ao templo material de Jerusalém, ainda que as palavras eram verdadeiras, as testemunhas eram falsas. Eram falsas, porque Cristo as dissera em um sentido, e eles as referiram em outro; e referir as palavras de Deus em diferente sentido do que foram ditas, é levantar falso testemunho a Deus, é levantar falso testemunho às Escrituras. Ah! Senhor, quantos falsos testemunhos Vos levantam! Quantas vezes oiço dizer que dizeis o que nunca dissestes! Quantas vezes oiço dizer que são palavras Vossas, o que são imaginações minhas, que me não quero excluir deste número! Que muito admira logo que as nossas imaginações, e as nossas vaidades, e as nossas fábulas, não tenham a eficácia de palavra de Deus!

Miseráveis de nós, e miseráveis dos nossos tempos, pois neles se veio a cumprir a profecia de S. Paulo: Erit tempus, cum sanam doctrinam non sustinebunt: «Virá tempo», diz S. Paulo, «em que os homens não sofrerão a doutrina sã». Sed ad sua desideria coacervabunt sibi magistros prurientes auribus: «Mas para seu apetite terão grande número de pregadores feitos a montão, e sem escolha, os quais não façam mais que adular-lhes as orelhas». A veritate quidem auditum avertent, ad fabulas autem convertentur: «Fecharão os ouvidos à verdade, e abri-los-ão às fábulas».

Fábula tem duas significações: quer dizer fingimento, e quer dizer comédia; e tudo são muitas pregações deste tempo. São fingimento, porque são subtilezas e pensamentos aéreos, sem fundamento de verdade; são comédia, porque os ouvintes vêm à pregação como à comédia; e há pregadores que vêm ao púlpito como comediantes. Uma das felicidades que se contava entre as do tempo presente, era acabarem-se as comédias em Portugal; mas não foi assim. Não se acabaram, mudaram-se; passaram-se do teatro ao púlpito. Não cuideis que encareço em chamar comédias a muitas pregações das que hoje se usam. Tomara ter aqui as comédias de Plauto, de Terêncio, de Séneca, e veríeis se não acháveis nelas muitos desenganos da vida e vaidade do mundo, muitos pontos de doutrina moral, muito mais verdadeiros e muito mais sólidos, do que hoje se ouvem nos púlpitos. Grande miséria por certo, que se achem maiores documentos para a vida nos versos de um poeta profano e gentio, que nas pregações de um orador cristão, e muitas vezes, sobre cristão, religioso!

Pouco disse S. Paulo em lhes chamar comédia, porque muitos sermões há, que não são comédia, são farsa. Sobe talvez ao púlpito um pregador dos que professam ser mortos ao mundo, vestido ou amortalhado em um hábito de penitência (que todos, mais ou menos ásperos, são de penitência; e todos, desde o dia que os professámos, mortalhas), a vista é de horror, o nome de reverência, a matéria de compunção, a dignidade de oráculo, o lugar e a expectação de silêncio; e quando este se rompeu, que é o que se ouve?

Se neste auditório estivesse um estrangeiro que nos não conhecesse, e visse entrar este homem a falar em público naqueles trajos, e em tal lugar, cuidaria que havia de ouvir uma trombeta do Céu; que cada palavra sua havia de ser um raio para os corações, que havia de pregar com o zelo e com o fervor de um Elias, que com a voz, com o gesto, e com as acções, havia de fazer em pó e em cinza, os vícios.

Isto havia de cuidar o estrangeiro. E nós, que é o que vemos? Vemos sair da boca daquele homem, assim naqueles trajos, uma voz muito afectada e muito polida, e logo começar com muito desgarro, a quê? A motivar desvelos, a acreditar empenhos, a requintar finezas, a lisonjear precipícios, a brilhar auroras, a derreter cristais, a desmaiar jasmins, a toucar primaveras, e outras mil indignidades destas.

Não é isto farsa a mais digna de riso, se não fora tanto para chorar? Na comédia, o rei veste como rei e fala como rei; o lacaio veste como lacaio e fala como lacaio; o rústico veste como rústico e fala como rústico; mas um pregador vestir como religioso e falar como... Não o quero dizer, por reverência do lugar.

Já que o púlpito é teatro, e o sermão comédia, sequer não faremos bem a figura? Não dirão as palavras com o vestido e com o ofício? Assim pregava S. Paulo, assim pregavam aqueles patriarcas que se vestiram e nos vestiram destes hábitos? Não louvamos e não admiramos o seu pregar? Não nos prezamos de sermos seus filhos? Pois por que não os imitamos? Porque não pregamos como eles pregavam? Neste mesmo púlpito pregou S. Francisco Xavier, neste mesmo púlpito pregou S. Francisco de Borja; e eu, que tenho o mesmo hábito, porque não pregarei a sua doutrina, já que me falta o seu espírito?

Pe. António Vieira in «Sermão da Sexagésima», 1655.

Do fim para que somos criados


O homem é criado para louvar, prestar reverência e servir a Deus nosso Senhor e, mediante isso, salvar a sua alma; e as outras coisas sobre a face da Terra são criadas para o homem, para que o ajudem na prossecução do fim para que é criado. Donde se segue que o homem tanto há-de usar delas quanto o ajudem para o seu fim, e tanto deve afastar-se delas quanto para isso o impedem. Pelo que é necessário fazer-nos indiferentes a todas as coisas criadas, em tudo o que é concedido à liberdade do nosso livre-arbítrio, e não lhe está proibido; de tal maneira que não queiramos da nossa parte mais saúde que doença, riqueza que pobreza, honra que desonra, vida longa que vida curta, e consequentemente em tudo o mais; mas somente desejando e elegendo o que mais nos conduz ao fim para que somos criados.

Santo Inácio de Loyola in «Exercícios Espirituais», 1548.