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Do património pessoal de Salazar


Pensei de interesse procurar saber quais os haveres de Salazar à data da sua morte. Julgo que possuía na altura apenas uma conta bancária: na Caixa Geral de Depósitos, Crédito e Previdência – Caixa Económica Portuguesa. Fora o depositante n.º 84 840. Extraviara a sua caderneta. Fora-lhe atribuído em 1965 um novo número: 95 450. Em 31 de Dezembro de 1969, a sua conta apresentava um saldo positivo de 274 892$00. Creio que durante a doença, e além do vencimento que lhe era directamente pago pelo Ministério das Finanças, alguns levantamentos terão sido feitos, por cheques que o doente ainda assinara, nos primeiros meses de 1970. Quando Salazar morre, o saldo na Caixa, numa ordem de grandeza aproximada, não deveria exceder os 50 000$00. Quanto às suas «propriedades» em Santa Comba e no Vimieiro: em 19 de Outubro de 1970, foi feita uma escritura de habilitação de herdeiros no notário Fernando dos Santos Manata, tendo outorgado João Manuel Alves (ulteriormente presidente da Câmara de Santa Comba), José Pinto de Matos e José Maurício de Gouveia; o «falecido não fez qualquer disposição de última vontade»; e deixou como únicas herdeiras suas irmãs Marta, Maria Leopoldina e Laura (esta última viúva de Pais de Sousa). À herança foi atribuído um «valor provável» de 50 000$00. Este quantitativo deve ter sido calculado por baixo. Pode presumir-se que os terrenos e a casa de Salazar deveriam valer em 1970 cerca de cem contos. Nestes termos, o património pessoal de Salazar, no total e à sua morte, deveria oscilar entre cento e cinquenta a duzentos contos.

Franco Nogueira in «Salazar – Volume VI – O último combate (1964-1970)», 1985.

Centenário do 28 de Maio de 1926


Passam hoje 100 anos sobre o glorioso golpe contra-revolucionário que pôs fim à República e instaurou a Ditadura Nacional, posteriormente Estado Novo. Sobre isso, vale a pena lembrar as palavras de Salazar:

Faz hoje dez anos, neste mesmo local, às ordens de Gomes da Costa, cujo optimismo e valentia quase não eram virtudes – brotavam-lhe espontaneamente da alma como exigência da própria natureza –, o Exército português desencadeara o movimento, triunfante sem luta, glorioso sem sangue, porque na verdade a voz de comando foi apenas a expressão militar de uma ordem irresistível da Nação. E começou a nova era.
Eis agora o que se passou.
Às almas dilaceradas pela dúvida e o negativismo do século procurámos restituir o conforto das grandes certezas. Não discutimos Deus e a virtude; não discutimos a Pátria e a sua História; não discutimos a autoridade e o seu prestígio; não discutimos a família e a sua moral; não discutimos a glória do trabalho e o seu dever.
(...)
Assim se assentaram os grandes pilares do edifício e se construiu a paz, a ordem, a união dos portugueses, o Estado forte, a autoridade prestigiada, a administração honesta, o revigoramento da economia, o sentimento patriótico, a organização corporativa e o Império Colonial.

António de Oliveira Salazar in discurso «As Grandes Certezas da Revolução Nacional», 28 de Maio de 1936.

Salazar e o possível rompimento com os EUA


Em 1966, o Governo português planeava enviar a fragata Almirante Pereira da Silva a Luanda, para saudar a vinda de uma esquadra brasileira. A fragata, que era nova, tinha sido construída com colaboração financeira dos Estados Unidos. Porém, o Governo de Washington, sabendo da intenção portuguesa, opõe-se imediatamente à ida da fragata a Angola e ameaça rasgar o acordo naval com Portugal. O Ministro da Marinha, Quintanilha Dias, sem o conhecimento de Salazar, cede à pressão americana. A missão é cancelada, e, Salazar, ao saber de mais este incidente com os EUA, terá confessado a Franco Nogueira o seguinte:

«Recebemos uma bofetada, uma humilhação estúpida. Os Estados Unidos acabam de nos tratar sem consideração nenhuma, pior do que aos novos Estados negros, e isso não o podemos consentir. Não somos um protectorado americano, nem de ninguém. Está a chegar o momento em que temos de romper com os Estados Unidos, espero que seja ainda na minha vida».

Fonte: «Salazar – Volume VI – O último combate (1964-1970)», 1985.

É essencial ter os conceitos certos e bem definidos


Se atrasados ou adiantados em relação aos conceitos actuais, o tempo o dirá. O que ambicionamos é ser autênticos na nossa modéstia: nada se há-de prometer que não se cumpra; nada se há-de afirmar que não corresponda ao conceito exacto que formamos dos problemas. A nossa época está cheia de palavras sem sentido e infelizmente é com essas palavras que se pretende conduzir do nosso lado os negócios do mundo. Por isso somos batidos, tendo razão, e nos arriscamos a perder, estando a justiça por nós.

António de Oliveira Salazar em entrevista ao jornal «Corriere della Sera», 30 de Março de 1960.

Salazar e o soneto de Plantin


António Ferro, no seu admirável livro de conversas com Salazar, confessa-nos que um dos poucos quadros que decoram as frias paredes do gabinete de trabalho do ditador, contém o texto do célebre e esquecido soneto de Plantin, Le bonheur de ce monde. Salazar preza tanto esse soneto, que o transpôs com a sua própria mão para o oferecer a António Ferro.

Avoir une maison commode, propre et belle,
Un jardin tapissé d'espaliers odorans,
Des fruits, d'excellent vin, peu de train, peu d'enfans,
Posseder seul sans bruit une femme fidèle,

N'avoir dettes, amour, ni procès, ni querelle,
Ni de partage à faire avecque ses parens,
Se contenter de peu, n'espérer rien des Grands,
Régler tous ses desseins sur un juste modèle,

Vivre avecque franchise et sans ambition,
S'adonner sans scrupule à la dévotion,
Dompter ses passions, les rendre obéissantes,

Conserver l'esprit libre, et le jugement fort,
Dire son chapelet en cultivant ses entes,
C'est attendre chez soi bien doucement la mort.

Trata-se de uma imagem auto-reveladora comovente, este soneto em que são louvadas tantas felicidades simples, sonhadas, sem dúvida, por Salazar, mas proibidas para si próprio pela sua vontade indomável, monástica, de cumprir até ao fim o seu sacrifício.

Mircea Eliade in «Salazar e a Revolução em Portugal», 1942.

A propriedade e a herança


A família exige por si mesma duas outras instituições: a propriedade privada e a herança. Primeiro a propriedade – a propriedade de bens que possa gozar e até a propriedade de bens que possam render. A intimidade da vida familiar reclama aconchego, pede isolamento, numa palavra: exige a casa, a casa independente, a casa própria, a nossa casa. Há impossibilidade, haverá mesmo em muitos casos inconveniente em que o trabalhador possua os meios de produção e em deixar dividir a terra por minúsculas parcelas, dando-se a todos um pedaço para a cultura. Mas é utilíssimo que o instinto de propriedade que acompanha o homem possa exercer-se na posse da parte material do seu lar. É naturalmente mais económica, mais estável, mais bem constituída a família que se abriga sob tecto próprio. Eis porque nos não interessam os grandes falanstérios, as colossais construções para habitação operária, com seus restaurantes anexos e sua mesa comum. Tudo isso serve para os encontros casuais da vida, para as populações já seminómadas da alta civilização actual; para o nosso feitio independente e em benefício da nossa simplicidade morigerada, nós desejamos antes a casa pequena, independente, habitada em plena propriedade pela família.
A herança é o reflexo na propriedade do instinto de perpetuidade da raça; transmite-se com o sangue o fruto do trabalho, da economia, quantas vezes de grandes privações. Não há qualquer utilidade social em que não se transmitam os bens, normalmente dentro da família, e em que a herança seja só de bens de gozo ou de consumo e não de bens produtivos. A formação natural das economias é estimulada pela possibilidade do seu rendimento e da sua livre disposição, e altamente benéfica para a solidez e estabilidade da família, por constituírem o indispensável elemento de equilíbrio nos altos e baixos da vida. Há muita coisa contra que a melhor e mais completa instituição de previdência nunca poderá lutar.

António de Oliveira Salazar in discurso «Conceitos Económicos da Nova Constituição», 16 de Março de 1933.

Da fantasia do "Povo Soberano"


Nós apreendemos pelo raciocínio e vimos pela experiência, que não é possível erguer sobre este conceito – a liberdade – um sistema político que efectivamente garanta as legítimas liberdades individuais e colectivas, antes em seu nome se puderam defender – e com alguma lógica, Senhores! – todas as opressões e todos os despotismos. Nós temos visto que a adulação das massas pela criação do «povo soberano», não deu ao povo, como agregado nacional, nem influência na marcha dos negócios públicos, nem aquilo de que o povo mais precisa – soberano ou não –, que é ser bem governado. Nós temos visto que tanto se apregoaram as belezas da igualdade e as vantagens da democracia, e tanto se desceu, exaltando-as, que se ia operando o nivelamento em baixo, contra o facto das desigualdades naturais, contra a legítima e necessária hierarquia dos valores numa sociedade bem ordenada.

António de Oliveira Salazar in discurso «Princípios Fundamentais da Revolução Política», 30 de Julho de 1930.

Jovem Salazar sobre a imprensa republicana


Desses sentimentos foi reflexo o artigo de 11 de Abril de 1909, na coluna galeria dos novos, que Salazar escreveu para A Folha sob o título Guerra à má imprensa. Atacava a imprensa que não edifica mas destrói, que não educa mas perverte, e que tudo amesquinha, bestializa, nega, aniquila e subjuga. Era portanto indispensável uma guerra sem quartel a essa imprensa; e a imprensa republicana era o «maior inimigo, porque é o inimigo da Pátria, é o inimigo da Religião, é o inimigo de tudo o que há de bom, de tudo o que há mais santo e mais sagrado». Era assim um texto de linguagem dura, de combate; e, se não se confessava monárquico, não ocultava Salazar pelo menos o seu anti-republicanismo. Dentro de dias completava vinte anos.

Franco Nogueira in «Salazar – Volume I – A mocidade e os princípios (1889-1928)», 1977.

Tudo pela Nação, nada contra a Nação


Possivelmente para alguns, associação transitória ou permanente de interesses materiais, a Nação é para nós sobretudo uma entidade moral, que se formou através de séculos pelo trabalho e solidariedade de sucessivas gerações, ligadas por afinidades de sangue e de espírito, e a que nada repugna crer esteja atribuída no plano providencial uma missão específica no conjunto humano. Só esse peso dos sacrifícios sem conta, da cooperação de esforços, da identidade de origem, só esse património colectivo, só essa comunhão espiritual podem moralmente alicerçar o dever de servi-la e dar a vida por ela. Tudo pela Nação, nada contra a Nação – só é uma divisa política na medida em que não for aceite por todos. E de facto não é.

António de Oliveira Salazar in discurso «O Meu Depoimento», 7 de Janeiro de 1949.

Democracia e a corrupção plutocrática


Como manter o Estado ao abrigo da corrupção plutocrática e as forças do trabalho ao abrigo das suas prepotências? É evidente e ensinado pela experiência que é fácil a corrupção onde a responsabilidade de poucos é substituída pela irresponsabilidade de muitos: os regimes democráticos prestam-se mais que nenhuns outros a compromissos, entendimentos, cumplicidades abertas, ou inconscientes, com a plutocracia. A fiscalização da administração pública por parte dos particulares e a existência de imprensa aberta à colaboração dos homens independentes, contribuirão para descobrir e tornar estéreis as manobras dos interessados. Mas a forma mais fácil de manter o Estado ao abrigo da corrupção plutocrática é – não ter de ser corrompido.

António de Oliveira Salazar in discurso «Problemas da Organização Corporativa», 13 de Janeiro de 1934.

O Tarrafal e a propaganda comunista


Há bastantes anos [1936] o Governo estabeleceu numa das ilhas de Cabo Verde um estabelecimento prisional para delinquentes políticos e sociais, entenda-se comunistas. Por dificuldades de ordem local que se repercutiam no seu bom funcionamento, o estabelecimento foi extinto e abandonado há bastantes anos [1954]. Ora eu continuo a receber dos partidos comunistas e organismos afins instalados nos mais diversos países, numerosos telegramas de protesto contra o «campo do Tarrafal». Isto quer dizer que as organizações comunistas receberam em devido tempo ordem das «centrais de comando» para manterem vivo o seu protesto contra a existência de um estabelecimento penal de repressão do partido. E quer dizer ainda que não se importaram de actualizar as ordens, visto que a grande imprensa ocidental continua a segui-las sem se importar de verificar a sua exactidão. Teremos assim que os partidos comunistas manterão «vivo» o Tarrafal, enquanto, na guerra que nos movem, o protesto der algum rendimento, ou contribuir para o descrédito de um Governo que lhes é hostil. Para estes não importa a verdade, mas só aquilo em que se crê.

António de Oliveira Salazar in revista «International Affairs», Abril de 1963.

Aniversário da instauração da Ditadura Nacional


Era, pois, necessário permitir a acção de um qualquer governo, de uma solução política, mesmo que provisória. Esta solução conduziu à Ditadura Nacional, estabelecida sem luta pelo Exército em 28 de Maio de 1926, precedendo assim – o que era de toda a lógica política – a obra de reorganização a empreender nos diferentes domínios, a começar pelas finanças. Nisto consistiu a Ditadura: encerramento e dissolução das Câmaras, dissolução dos partidos, instituição de um governo forte e independente, algumas outras restrições necessárias no tocante à liberdade de imprensa e de reunião. A experiência passada mostrava que dar liberdade de acção aos antigos partidos era permitir-lhes corromper a opinião pública e entravar toda a acção eficaz, através dos seus partidários e dos funcionários da sua devoção.

António de Oliveira Salazar in «Como se levanta um Estado», 1937.

A agricultura é vital no sustento da Nação


Nós fomos de facto um País essencialmente agrícola, mas enquanto não pudemos ser outra coisa. Durante séculos e ao lado de um artesanato modesto, a agricultura foi a grande criadora de riqueza e esse facto dominou todos os espíritos neste País. Hoje podemos dizer que só potencialmente somos ricos dos produtos da terra, mas que viremos a sê-lo de facto pelos dois caminhos que nos estão abertos: a libertação de grande parte do trabalho rural, em favor das indústrias e do Ultramar; maior produção de produtos agrícolas industrializáveis ou comerciáveis com nações estrangeiras. Continuo a pensar que a agricultura nacional deve acima de tudo ser orientada no sentido de assegurar o sustento da Nação, mas para isso não precisa de absorver toda a sua força de trabalho. E quando pela mecanização e pelo regadio conseguirmos aqueles fins, deixa de ter razão de ser a lamentação de Severim de Faria quando atribui às «conquistas», digamos, na linguagem de hoje, ao Ultramar, a primeira causa da falta de gente que se padecia, e assim, por não existir, empobrecia o Reino.

António de Oliveira Salazar in discurso «No 40º Aniversário do 28 de Maio», 28 de Maio de 1966.

Salazar sobre a subversão americana no Ultramar


Ora, talvez por força do seu idealismo, talvez também por influência do seu passado histórico, que aliás não pode ser invocado por analogia, os Estados Unidos vêm fazendo em África, embora com intenções diversas, uma política paralela à da Rússia [União Soviética]. Mas esta política, que no fundo enfraquece as resistências da Europa e lhe retira os pontos de apoio humanos, estratégicos ou económicos para sua defesa e defesa da própria África, revela-se inconciliável com a que se pretende fazer através do Tratado do Atlântico Norte. Esta contradição essencial da política americana já tem sido notada por alguns estudiosos, mesmo nos Estados Unidos, e é grave, porque as contradições no pensamento são possíveis, mas são impossíveis na acção.
Quando se hostiliza e enfraquece a França ou a Bélgica ou Portugal, por força da política africana, ao mesmo tempo que se atinge a confiança reciproca dos aliados na Europa, diminui-se-lhes também a capacidade. As tropas retiradas para a Argélia não combaterão no Oder ou no Reno; mesmo as modestas forças que nós fazemos seguir para o Ultramar, deixarão um vazio, pequeno que seja, no sector ou nas acções que nos fossem destinados. E a América, presa de esquematismos ideológicos, penso virá também a ser vítima – a última – desta contradição, se nela persistir.

António de Oliveira Salazar in discurso «O Ultramar Português e a ONU», 30 de Junho de 1961.

Salazar sobre o plutocrata


O plutocrata não é, pois, nem o grande industrial nem o financeiro: é uma espécie hibrida, intermediária entre a economia e a finança; é a «flor do mal» do pior capitalismo. Na produção não lhe interessa a produção, mas a operação financeira a que pode dar lugar; na finança não lhe interessa a regular administração dos seus capitais, mas a sua multiplicação por jogos ousados contra os interesses alheios. O seu campo de acção está fora da produção organizada de qualquer riqueza e fora do giro normal dos capitais em moeda; não conhece os direitos do trabalho, as exigências da moral, as leis da humanidade. Se funda sociedades, é para lucrar apports e passá-las a outros; se obtêm uma concessão gratuita, é para a transferir já como um valor; se se apodera de uma empresa, é para que esta lhe tome os prejuízos que sofreu noutras. Para tanto o plutocrata age no meio económico e no meio político sempre pelo mesmo processo – corrompendo. Porque estes indivíduos, a quem alguns também chamam grandes homens de negócios, vivem precisamente de três condições dos nossos dias: a instabilidade das condições económicas; a falta de organização da economia nacional; a corrupção política. – Quem tenha os olhos abertos para o que se passou aqui e para o que se passa lá fora, não pode duvidar do que afirmei.

António de Oliveira Salazar in discurso «Problemas da Organização Corporativa», 13 de Janeiro de 1934.

Há males maiores que a guerra


Cremos que a guerra é um mal, mesmo quando é uma necessidade, mas sabemos que há para os povos outros males maiores, porque os há que excedem a morte e a miséria – são a sua desonra e aniquilamento.

António de Oliveira Salazar in discurso «Dever Militar», 28 de Maio de 1940.

Quando a ONU apoiou o terrorismo contra Portugal


A insistência em menosprezar o princípio fundamental da não-intervenção nos assuntos internos dos Estados membros, mereceu tais reparos e causa tais apreensões aos que ainda depositam alguma confiança no futuro da Organização, que é de prever esta venha a alterar a sua conduta, no caso de desejar sobreviver.

O convite às autoridades portuguesas para cessarem imediatamente as medidas de repressão [ao terrorismo] é uma atitude, digamos, teatral do Conselho de Segurança [da ONU] e que ele não tem a menor esperança de ver atendida, tão gravemente ofende os deveres de um Estado soberano. Desde os meados de Março não acharam, nem o Conselho, nem a Assembleia, oportunidade para ordenar aos terroristas que cessassem os seus morticínios e depredações, e tantos dos seus membros o podiam ter feito com autoridade e eficácia. Mas quando intervém a autoridade cuja obrigação é garantir a vida, o trabalho e os bens de toda a população, essa obrigação, ou primeiro dever do Estado, não haverá de ser cumprido, porque é necessário que os terroristas continuem impunemente a sua missão de extermínio e de regresso à vida selvagem.

À consideração de que a situação em Angola é susceptível de se tornar uma ameaça para a paz e para a segurança internacionais, essa, sim, pode ter algum fundamento, mas só na medida em que alguns dos votantes [da ONU] se decidam a passar do auxílio político e financeiro que estão dando, para o auxílio directo com as suas próprias forças contra Portugal em Angola. Tudo começa a estar tão do avesso no mundo que os que agridem são beneméritos, os que se defendem são criminosos, e os Estados, cônscios dos seus deveres, que se limitam a assegurar a ordem nos seus territórios, são incriminados pelos mesmos que estão na base da desordem que aí lavra. Não. Não levemos ao trágico estes excessos: a Assembleia das Nações Unidas funciona como multidão que é, e portanto dentro daquelas leis psicológicas e daquele ambiente emocional a que estão sujeitas todas as multidões. Nestes termos é-me difícil prever se o seu comportamento se modificará para bem ou não agravará ainda para pior. Se porém virmos este sinal no céu de Nova lorque, é meu convencimento que estão para breve catástrofes e o total descalabro da Instituição.

António de Oliveira Salazar in discurso «O Ultramar Português e a ONU», 30 de Junho de 1961.

Apologia da vida modesta


Nas cidades, o homem que deixa de trabalhar, encontra-se completamente desamparado e arrisca-se, de facto, a morrer de fome. Enquanto há trabalho, não falta dinheiro para o necessário e até para o supérfluo. A falta de calor humano, de solidariedade natural provocada pela ausência da vida familiar, torna a miséria negra quando o trabalho cessa. Assim, os sete milhões de habitantes de Nova Iorque são, pouco mais, pouco menos, para o desgraçado que tem fome, sete milhões de desconhecidos. Por isso fazemos sempre a apologia da vida modesta, familiar, onde não falte o indispensável, e até o que suaviza a vida, mas sem aspirações excessivas, desumanas.

António de Oliveira Salazar in entrevista a «Diário de Notícias», 1938.

Salazar: deputado por um dia apenas


As eleições do final de Agosto de 1921 levam para o Parlamento três deputados do Centro Católico. A sessão solene de abertura tem lugar a 2 de Setembro de 1921. Faz-se a chamada dos presentes. E quando chega a vez do terceiro deputado católico, ouve-se: António de Oliveira Salazar. Um homem de cerca de trinta anos, vestido a rigor, levanta-se e diz: «Presente!». Tem uma figura calma, olhos serenos e movimentos lentos, ponderados. Ouve com muita atenção os debates desta primeira sessão parlamentar em que participa. Mas, desde então, nunca mais foi visto na Assembleia de Deputados. A reunião de 2 de Setembro de 1921 foi a primeira e a última à qual assistiu Oliveira Salazar. Foi o suficiente para se convencer, ali, da trágica inutilidade do Parlamento. Da Assembleia de Deputados dirige-se directamente para a estação e toma o comboio para Coimbra.

Mircea Eliade in «Salazar e a Revolução em Portugal», 1942.

§

Salazar era professor na Universidade de Coimbra quando foi eleito deputado pelo Centro Católico. Mas quaisquer que ainda fossem as suas ilusões a respeito do sistema democrático-republicano, estas desvaneceram-se numa única sessão parlamentar. Foi o suficiente para Salazar entender que o problema estava no sistema político, independentemente das qualidades das pessoas. Compreendeu que continuar a alimentar esse mesmo sistema iníquo era, não apenas imoral, como uma enorme perda de tempo. Por isso voltou logo para Coimbra, onde podia ser realmente útil à Pátria.

Da Grei


Mas cada qual sentia que de desordem em desordem tudo se afundava, e via nitidamente isto: a mulher e os filhos, a velha casa, o trabalho diário, o campo, a horta, o pinhal. Estes já foram dos pais, já foram dos avós e mesmo de outros avós pelos séculos dentro. Uns após outros desbravaram as terras, cultivaram a vinha e o milho, criaram os filhos, sofreram. A vida é áspera, há desgostos, angústias, privações, injustiças que parece ninguém pode reparar. Um ambiente de carinho, porém, envolve o lar e uma luz superior ilumina a existência: a velha igreja e o seu adro foram feitos a expensas de todos os vizinhos, com esmolas e trabalho; o cemitério também. Numa parte e noutra há verdadeiramente o suor do rosto, a preocupação do viver, a tradição do sangue, o património moral.
Do fundo das consciências claramente surgem estes imperativos: o trabalho na vida, a propriedade na terra, a virtude na família, a esperança nas almas.
Para além das várzeas e dos montes há outras várzeas e outros montes, onde vivem e trabalham homens da mesma raça, parentes próximos ou remotos, que falam a mesma língua, têm os mesmos sentimentos. Como quem desbrava o campo para cultivar e levanta as paredes de uma casa para nela viver, há muitos séculos grandes chefes traçaram com a espada os limites e disseram: aqui se vai edificar a casa lusitana. Outros a alargaram depois. A este ideal de construir o lar pátrio, sem ingerência ou mando ou exploração de estranhos, sacrificaram-se fazendas e vidas que todavia se não perderam: entraram no património comum e custa a crer que tudo fosse cegueira, loucura ou inutilidade.

António de Oliveira Salazar in discurso «As Grandes Certezas da Revolução Nacional», 26 de Maio de 1936.