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Apologia da vida modesta


Nas cidades, o homem que deixa de trabalhar, encontra-se completamente desamparado e arrisca-se, de facto, a morrer de fome. Enquanto há trabalho, não falta dinheiro para o necessário e até para o supérfluo. A falta de calor humano, de solidariedade natural provocada pela ausência da vida familiar, torna a miséria negra quando o trabalho cessa. Assim, os sete milhões de habitantes de Nova Iorque são, pouco mais, pouco menos, para o desgraçado que tem fome, sete milhões de desconhecidos. Por isso fazemos sempre a apologia da vida modesta, familiar, onde não falte o indispensável, e até o que suaviza a vida, mas sem aspirações excessivas, desumanas.

António de Oliveira Salazar in entrevista a «Diário de Notícias», 1938.

O regresso de Alexandre Herculano à vida fértil


O jovem Rei [D. Pedro V] é bom amigo do escritor romântico e historiador Alexandre Herculano, a mais perfeita e honesta figura do liberalismo português. Tal como Alexandre Herculano, D. Pedro V é um intelectual que entende a história através da dialéctica da profecia demo-liberal; para ele, a história reduz-se ao conflito entre "o povo", ávido da liberdade apregoada por Victor Hugo, e "a tirania" dos reaccionários (jesuítas, reis, nobres). Herculano desempenhou igualmente um importante papel nos acontecimentos em curso, mas a dada altura, inesperadamente, retirou-se da vida política, abandonou por completo as preocupações literárias, interrompeu a redacção da História de Portugal que tinha iniciado, para se esconder numa quinta, solitário, sem nunca mais tocar numa caneta, dedicando-se exclusivamente à agricultura, durante dez anos, até à data da sua morte. É impressionante e sugestivo este regresso total de Herculano à terra. Podia-se nele desvendar, não apenas o desgosto de uma pessoa honesta para com a detestável vida pública, mas também o melancólico despertar do paraíso artificial das suas teorias políticas. Talvez Herculano tenha percebido que a história de Portugal, como qualquer história de uma nação viva e criadora, é bem diferente do conflito entre abstracções, que a vida e a grandeza das nações têm as suas raízes noutro lugar, que não o "Contrato Social" e a moral kantiana. É, em todo o caso, um exemplo rico em significados desconhecidos a clausura desse historiador e político numa quinta onde irá passar o resto da sua vida, dedicando-se às coisas vivas e férteis, esforçando-se por reencontrar-se e reintegrar-se na antiga comunidade portuguesa.

Mircea Eliade in «Salazar e a Revolução em Portugal», 1942.

Da Grei


Mas cada qual sentia que de desordem em desordem tudo se afundava, e via nitidamente isto: a mulher e os filhos, a velha casa, o trabalho diário, o campo, a horta, o pinhal. Estes já foram dos pais, já foram dos avós e mesmo de outros avós pelos séculos dentro. Uns após outros desbravaram as terras, cultivaram a vinha e o milho, criaram os filhos, sofreram. A vida é áspera, há desgostos, angústias, privações, injustiças que parece ninguém pode reparar. Um ambiente de carinho, porém, envolve o lar e uma luz superior ilumina a existência: a velha igreja e o seu adro foram feitos a expensas de todos os vizinhos, com esmolas e trabalho; o cemitério também. Numa parte e noutra há verdadeiramente o suor do rosto, a preocupação do viver, a tradição do sangue, o património moral.
Do fundo das consciências claramente surgem estes imperativos: o trabalho na vida, a propriedade na terra, a virtude na família, a esperança nas almas.
Para além das várzeas e dos montes há outras várzeas e outros montes, onde vivem e trabalham homens da mesma raça, parentes próximos ou remotos, que falam a mesma língua, têm os mesmos sentimentos. Como quem desbrava o campo para cultivar e levanta as paredes de uma casa para nela viver, há muitos séculos grandes chefes traçaram com a espada os limites e disseram: aqui se vai edificar a casa lusitana. Outros a alargaram depois. A este ideal de construir o lar pátrio, sem ingerência ou mando ou exploração de estranhos, sacrificaram-se fazendas e vidas que todavia se não perderam: entraram no património comum e custa a crer que tudo fosse cegueira, loucura ou inutilidade.

António de Oliveira Salazar in discurso «As Grandes Certezas da Revolução Nacional», 26 de Maio de 1936.

O dever moral de regressar ao campo


Há 41 anos Monsenhor Lefebvre deixava-nos um sério aviso. Mas hoje as coisas estão piores:

E desejo que, nestes tempos conturbados, nesta atmosfera deletéria em que vivemos nas cidades, vós retorneis à terra assim que possível. A terra é saudável, a terra ensina a conhecer Deus, a terra reaproxima de Deus, ela equilibra os temperamentos, os caracteres, ela incentiva as crianças ao trabalho.
E se necessário, vós próprios fareis a escola dos vossos filhos. Se as escolas corrompem os vossos filhos, o que vão fazer? Entregá-los aos corruptores? Àqueles que ensinam práticas sexuais abomináveis na escola? Às escolas "católicas" de religiosos e religiosas onde o pecado é ensinado, sem mais nem menos? Na prática, ao ensinar isso às crianças, eles corrompem-nas desde cedo. E vós aceitais isso? É impossível! Melhor será que os vossos filhos sejam pobres, melhor será que os vossos filhos vivam longe de toda esta ciência aparente do mundo, mas que sejam bons filhos, filhos cristãos, filhos católicos, filhos que amem a sua santa religião, que amem rezar e que amem trabalhar, que amem a natureza que o bom Deus fez.

D. Marcel Lefebvre in «Sermão do Jubileu Sacerdotal», 23 de Setembro de 1979.

Do velho lar ancestral


A vida que cercou a minha infância era simples, rude, poderosa, como o grande ar vivificante que me envolvia. Dos homens da minha família, o primeiro plumitivo sou eu. As mulheres eram ingénuas criaturas que… no interior da sua casa eram admiráveis exemplos de dignidade, de trabalho, de ordem, de economia, de bom humor… e eu seria o primeiro dos artistas portugueses se conseguisse um dia condensar num livro toda a soma de método, de ordem, de execução estética, de picante espírito pitoresco, de risonha graça, de que era modelo a incomparável cozinha de minha avó – aberta ao nível do pátio defronte do poço, cheia das alegrias cintilantes do sol e do balsâmico perfume dos limoeiros; enfumada, com os dois escabelos de carvalho de cada lado da borralheira sobre o vasto lar de granito; a enorme capoeira onde se espanejavam os capões; os troféus ornamentais dos instrumentos agrícolas; as prateleiras da louça reluzente; o cortiço da barrela e a masseira do pão a um canto; os bambolins de paios e de presuntos do fumeiro suspensos do tecto; a comprida mesa dos moços da lavoura, tendo em cima a grande selha com a braçada verde dos frescos legumes, picada com as pintas douradas das cenouras entre as aveludadas e gordas eflorescências dos brócolos; e no meio disso, a intervenção periódica do mendigo de estrada, de alforge ao pescoço, que vinha encher a sua escudela de batatas ou de caldo, enquanto os pardais mais atrevidos iam sem pedir esmola debicar a broa do balaio na testada do forno.
Esse conjunto exalava uma penetrante sensação de tépido aconchego, de suave alegria, de inalterável paz; inspirava sentimentos práticos e honestos; era o complemento e o comentário vivo das velhas histórias contadas à lareira; infundia o respeito da tradição; dava o amor da família; explicava o amor à terra da pátria, pela dedicação às quatro braças de solo cobertas por esse velho tecto.
A cozinha de minha avó era, finalmente, uma profunda obra de arte, da qual os mais belos quadros da escola flamenga, tão penetrados como são da poesia doméstica, não puderam dar-me jamais senão uma ideia desbotada e fria. Escuso de acrescentar que toda a obra de quantas literatas tem havido em Portugal, não pode senão fazer-me sorrir comparada à obra modesta de minha avó, que ela tirou num precioso exemplar único para a educação das suas filhas, para a fixação do respeito, da veneração e da saudade eterna dos seus netos.

Ramalho Ortigão in «As Farpas», Janeiro de 1878.

A família e o lar


A família exige por si mesma duas outras instituições: a propriedade privada e a herança. Primeiro a propriedade – a propriedade dos bens que possa gozar e até a propriedade dos bens que possam render. A intimidade da vida familiar reclama aconchego, pede isolamento, numa palavra, exige a casa, a casa independente, a casa própria, a nossa casa. Há impossibilidade, haverá mesmo em muitos casos inconveniente em que o trabalhador possua os meios de produção e em deixar dividir a terra por minúsculas parcelas, dando-se a todos um pedaço para a cultura. Mas é utilíssimo que o instinto de propriedade que acompanha o homem possa exercer-se na posse da parte material do seu lar. É naturalmente mais económica, mais estável, mais bem constituída a família que se abriga sob tecto próprio. Eis porque nos não interessam os grandes falanstérios, as colossais construções para habitação operária, com seus restaurantes anexos e sua mesa comum. Tudo isso serve para os encontros casuais da vida, para as populações já seminómadas da alta civilização actual; para o nosso feitio independente e em benefício da nossa simplicidade morigerada, nós desejamos antes a casa pequena, independente, habitada em plena propriedade pela família.

António de Oliveira Salazar in discurso de 16 de Março de 1933.

O Catolicismo e a vida rural


A vida rural tem muito a ver com a vida religiosa dos lavradores. A Igreja cuidou que as principais festas do ano litúrgico coincidissem sempre que possível com o ciclo das estações e as fainas do campo correspondentes, realizando-se assim uma interessantíssima comunhão entre a vida espiritual e o acontecer cósmico. O sino da paróquia, ou do convento, conferia à existência camponesa um ritmo não só cronológico, mas também sacral. Pouco antes da aurora tocava a laudes e encerrava a jornada na hora das vésperas. Deste modo, a oração matutina e a prece vespertina marcavam o trabalho, conferindo-lhe uma significação transcendente. Os dias de festa eram numerosos, muito mais do que no nosso tempo. Tanto aos domingos como nos dias festivos os camponeses assistiam à Santa Missa e com frequência aos ofícios das Horas canónicas. Participavam também nas procissões, presenciavam nos átrios representações teatrais dos mistérios sagrados, ouviam sermões e homilias, aprendiam o Catecismo. Tudo isso somado às visitas domiciliares dos sacerdotes, constituía uma espécie de cátedra ininterrupta para sua educação nos princípios da fé e da moral. Toda a existência do camponês pulsava ao ritmo estabelecido pela Igreja. Desde o nascimento até à morte, passando pelo matrimónio e as enfermidades, os momentos fundamentais da sua vida eram sublimados pelo alento sobrenatural da liturgia.

Pe. Alfredo Sáenz in «La Cristiandad y su Cosmovisión», 1992.

Do valor da terra


Eu sou um rural e, embora em situação diferente, vivi duas guerras, uma em que interviemos activamente nos quadros de uma aliança, outra em que não batalhámos, mas houvemos de organizar a defesa nos quatro cantos do mundo. Daí bem compreender o campo e conhecer as necessidades vitais que o campo tem de satisfazer. Independentemente do que se possa chamar a poesia campestre, que atrai os sorrisos um tanto desdenhosos da economia industrial, por mim, e se tivesse de haver competição, continuaria a preferir a agricultura à indústria; mas se quereis ser ricos, não chegareis lá pela agricultura, ainda que progressiva e industrializada, neste País de solos pobres e climas vários. A terra é humilde, tanto que se deixa a cada momento pisar; o trabalho da terra é humilde, porque o homem a cultiva, humildemente debruçado sobre as leivas; o fruto do trabalho da terra é pobre, porque está no início do ciclo das operações comerciais ou industriais, destinadas a valorizá-lo ou a enriquecê-lo. Assim, a faina agrícola, sujeita à torreira do sol ou à impertinência das chuvas, é acima de tudo uma vocação de pobreza; mas o seu orgulho vem de que só ela alimenta o homem e lhe permite viver. Quando se governa um País, e se nos deparam os mercados difíceis, os mares impraticáveis, as bocas famintas sem saber de onde há-de vir um bocado de pão, a terra pobre, a terra humilde, sobe então à culminância dos heroísmos desconhecidos e dos valores inestimáveis.

António de Oliveira Salazar in discurso de 18 de Fevereiro de 1965.

Pelo regresso ao campo


Quanto aos homens, um desejo de fugir da grande cidade moderna é certamente um sinal de sanidade. Se eles podem fazê-lo, é outra questão.
Muitos católicos tradicionais estão a começar a ver a artificialidade radical do estilo de vida urbano. Isso é esperançoso.
Em termos gerais, a grande cidade moderna e os subúrbios, são um ambiente anti-católico. Em termos gerais, quanto mais uma família se mantiver afastada da electrónica e regressar à natureza ou ao campo, melhor. No entanto, um regresso ao campo e à vida do campo, que é muito mais saudável para as crianças, precisa ser bem pensada e planeada de antemão, se é para ter sucesso e não falhar no seu propósito.

D. Richard Williamson, entrevista ao blogue «True Restoration», 6 de Fevereiro de 2008.

Atavismo


Nós somos aquilo que a lenta elaboração dos séculos forjou e constituiu – e não o que de nós queiram fazer as lucubrações subjectivas de qualquer filosofia social ou política. A substância do nosso ser colectivo foi a História que a teceu. Trabalhando sobre a raça e sobre os indivíduos, estes reagem pelas suas instituições próprias e com as qualidades morais, espirituais e físicas, herdadas dos seus antepassados, conforme as leis misteriosas do atavismo. Os sulcos profundos desse atavismo encontram-se esculpidos no íntimo da alma portuguesa. Abrindo os regos da terra, com as armas ao lado, prontos para a defesa dos torrões que revolviam, tal é a imagem dos velhos portugueses. Atavismos da independência e atavismos da livrança e dos povoamentos – criadores da Metrópole.

Henrique de Paiva Couceiro in «Profissão de Fé: Lusitânia Transformada».

O regresso de Herculano à terra


O jovem Rei [D. Pedro V] é bom amigo do escritor romântico e historiador Alexandre Herculano, a mais perfeita e honesta figura do liberalismo português. Tal como Alexandre Herculano, D. Pedro V é um intelectual que entende a história através da dialéctica da profecia demo-liberal; para ele, a história reduz-se ao conflito entre "o povo", ávido da liberdade apregoada por Victor Hugo, e "a tirania" dos reaccionários (jesuítas, reis, nobres). Herculano desempenhou igualmente um importante papel nos acontecimentos em curso, mas a dada altura, inesperadamente, retirou-se da vida política, abandonou por completo as preocupações literárias, interrompeu a redacção da História de Portugal que tinha iniciado, para se esconder numa quinta, solitário, sem nunca mais tocar numa caneta, dedicando-se exclusivamente à agricultura, durante dez anos, até à data da sua morte. É impressionante e sugestivo este regresso total de Herculano à terra. Podia-se nele desvendar, não apenas o desgosto de uma pessoa honesta para com a detestável vida pública, mas também o melancólico despertar do paraíso artificial das suas teorias políticas. Talvez Herculano tenha percebido que a história de Portugal, como qualquer história de uma nação viva e criadora, é bem diferente do conflito entre abstracções, que a vida e a grandeza das nações têm as suas raízes noutro lugar, que não o "Contrato Social" e a moral kantiana. É, em todo o caso, um exemplo rico em significados desconhecidos a clausura desse historiador e político numa quinta onde irá passar o resto da sua vida, dedicando-se às coisas vivas e férteis, esforçando-se por reencontrar-se e reintegrar-se na antiga comunidade portuguesa.

Mircea Eliade in «Salazar e a Revolução em Portugal», 1942.