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O desmembramento da Monarquia (II)



Nos últimos meses do ano 1820, quando não saiam das nossas prensas senão elogios aos rebeldes e imprecações ao Governo legítimo; quando se não tratava senão de caluniar e fazer odioso esse mesmo Governo, imputando-lhe tudo o que era mau, e até aquelas mesmas infelicidades que ele com forças mais que ordinárias trabalhava por desviar da nação, mas que eram inevitáveis, como arrojadas sobre nós pelo turbilhão dos acontecimentos públicos; eu escrevi em sentido bem diverso a minha Memória sobre os meios de melhorar a indústria, de que distribui gratuitamente mais de metade da edição. Procurei reconduzir os efeitos às suas causas, os factos à sua verdadeira origem, as coisas ao seu lugar, e expus com franqueza os meus pensamentos sobre os meios de melhorar a sorte da nação, que consiste em edificar e reparar, e não em destruir e desbaratar. Porém Obras desta natureza não eram do gosto daquele tempo; e serviam somente de excitar o ódio contra os seus autores.
Vendo que o grande número, deslumbrado com promessas lisonjeiras, corria cego após de vãs quimeras, sem advertir nos perigos que estavam eminentes, procurei excitar a atenção das classes industriosas sobre os seus verdadeiros interesses. Não era possível deixar de prever a separação do Brasil e de procurar evitar as suas consequências. Tratando pois do comércio, eu dediquei a este ponto algumas páginas daquele opúsculo. «O primeiro objecto que se me apresenta (disse eu na pág. 87) é o comércio do Brasil. Com a abertura dos portos deste imenso país às nações estrangeiras perdemos o direito exclusivo de prover os seus habitantes das mercancias da Europa, e deixando Portugal de ser o entreposto dos géneros coloniais, que daqui se distribuíam para os lugares do seu consumo, só esta causa era bastante, independentemente das mais que com ela concorreram, para produzir uma revolução completa no nosso comércio e o transtorno geral das nossas antigas relações. Daqui vem os principais clamores dos nossos negociantes, porque é donde procedem as maiores perdas que sofremos em quase todas as praças com que comerciamos. Nesta nova ordem de coisas compete ao Soberano (nunca lhe neguei este nome, ainda que debaixo do jugo da facção) procurar novos laços para unir Portugal e o Brasil; porém os nossos comerciantes desenganando-se de que o sistema colonial não pode mais voltar, devem também ir alongando as vistas pela extensão do globo, para abrirem novos canais às suas especulações: Jam tempus agit res. E devem ambos os países respeitar mutuamente os vínculos do sangue, de interesse, e de reconhecimento que os ligam para permanecerem firmes na sua união.
Tem o Brasil todas proporções para vir a ser com o andar dos tempos um grande império; mas por ora é um país novo, sem fábricas, e com uma agricultura limitada, precisa dos socorros da Mãe Pátria tanto na paz como na guerra, sob pena de ficar em uma eterna infância, ou ser esmagado pelo primeiro ocupante. Olhe para os vastos territórios da América Espanhola que o rodeiam e veja neles o seu retrato. Deve além disso lembrar-se de que a Mãe Pátria lhe deu a existência.
Por outra parte é necessário que Portugal conheça as vantagens que ainda tira do Brasil»… Aqui me voltei para os nossos comerciantes, agricultores e artistas, e por meio de várias reflexões e cálculos estatísticos procurei convencê-los do muito que ainda interessava a Portugal a conservação do Brasil, insistindo principalmente nos seguintes pontos: Os produtos de um capital de 44 milhões de cruzados, que se empregavam no comércio entre os dois países; as negociações da Ásia, que quase todas se faziam pelo intermédio do Brasil; o comércio de reexportação dos géneros coloniais para países estrangeiros; o consumo que se fazia no Brasil das manufacturas das nossas fábricas, que importava em alguns milhões de cruzados por ano e de alguns dos produtos da agricultura de Portugal, e principalmente dos nossos vinhos, que excedia a 20.000 pipas por ano nos tempos imediatos à revolução de 1820, em que este consumo se tinha aumentado como se mostra dos registros públicos, apesar das sinistras vozes que corriam em contrário; porque para se fazer odiosa a administração pública em todos os seus ramos, tudo se procurava exagerar e desacreditar.
Demonstradas assim as grandes vantagens reciprocas que resulta vão aos dons países da ma união, e que agora se conhecerão melhor pela sua falta, eu continuei (pág. 91): «O Brasil, comerciando livre, crescerá sem dúvida em prosperidade, e quanto mais crescer, mais vinho e manufacturas consumirá, e maiores vantagens oferecerá a Portugal; com tanto que os dois países permaneçam ligados entre si por meio de laços recíprocos de um Governo comum, justo e sábio, que atenda com igualdade as suas vistas protectoras sobre todas as partes do império. É assim que o Reino unido poderá ainda operar os grandes desenvolvimentos, para que a natureza o convida, e o pavilhão nacional, discorrendo com dignidade por todos os mares, reconquistar a parte que nos pertence no comércio do mundo. Se pelo contrario viesse a faltar-lhe o centro de união, desorganizado o corpo da Monarquia, cada um dos seus membros perderia todo o vigor, recebendo como massa inerte as impressões que quisessem dar-lhe, até chegar o momento em que desbaratada a herança de nossos avós, o nome Português desapareceria como o fumo, confundido com o de alguma nação mais poderosa».
Estas últimas palavras não foram escritas ao acaso. Incerta ainda a facção do resultado que teriam as suas maquinações no Brasil, agitavam-se várias opiniões em seus clubs sobre a direcção que se daria aos negócios de Portugal, e segundo o que transpirava no público, prevalecia muito naquele tempo a de se unir este reino á Espanha, provavelmente debaixo de uma forma republicana, que é o ponto a que se dirigem as revoluções populares. Seguem-se no meu opúsculo alguns §§ em que expus os meus pensamentos sobre os novos laços de união reciproca entre Portugal e o Brasil: tudo inútil no estado actual. Os meus vaticínios ou não foram lidos, ou tiveram a sorte dos vaticínios da infeliz Cassandra, a quem, segundo a fábula, os Deuses concederão o conhecimento do futuro, porém determinaram que não fosse acreditada.

José Acúrsio das Neves in «Cartas de um Português aos seus Concidadãos sobre diferentes objectos de utilidade geral e individual», Carta XII, 1823.

50 anos de (in)dependência da Guiné


Quando Portugal foi traído e escorraçado do Ultramar por sinistras forças internacionais, a Guiné tinha tudo o que era de materialmente necessário a uma vida digna e civilizada. Deixámos lá escolas, igrejas, hospitais, estradas, pontes, portos, etc. Mas mais do que meros objectos materiais, deixámos a Fé e a Civilização, que Portugal levou àquelas gentes de África, que até então viviam nas trevas da superstição e da ignorância.
Hoje, cinquenta anos depois da "descolonização exemplar", a Guiné é um Estado falhado e falido, mergulhado em intermináveis guerras e golpes de Estado, não tendo sequer luz eléctrica própria, regredindo a tempos pré-coloniais, estando totalmente dependente de um barco privado turco para fornecer electricidade à capital guineense. Eis os frutos das maçónicas revoluções, que quanto mais proclamam a libertação dos Povos, mais os agrilhoam na realidade.


Lembremos para o efeito as já aqui citadas palavras de José Acúrsio das Neves, dirigidas aos revolucionários liberais:
Pintáveis a nação reduzida à última miséria, para melhor a subjugardes com promessas de grandes felicidades. Ora comparai o estado em que ela se achava, quando fazíeis essas declamações, com aquele em que a deixastes, quando vo-la arrancaram das mãos, morrendo de fome, esgotadas todas as fontes de prosperidade, a dívida pública elevada ao duplo ou triplo, sem comércio, sem indústria, dividida em partidos, perdidas quase todas as possessões ultramarinas, oprimida, e praguejando-vos em altos gritos. Eis a vossa regeneração! Eis o fruto das vossas luzes do século: luzes do inferno, em que as fúrias acendem as suas tochas, para abrasarem o mundo!

O desmembramento da Monarquia (I)


Si regnum in se dividatur, non potest regnum illud stare.
S. Marcos

Um triste acontecimento que deve trazer consequências, as mais funestas para a Nação, se a Sabedoria de S. Majestade, e de seus Ministros, as não poder prevenir, vem interromper o fio das reflexões que comecei na carta precedente e continuarei nas seguintes; porém a matéria é análoga. À perda da Baía de Todos-os-Santos e do Maranhão, seguiu-se rapidamente a do Grão-Pará. De todas aquelas vastas regiões, que se estendem desde o Equador até à embocadura do Rio da Prata, as quais os nossos antepassados descobriram, povoaram e cultivaram, e de cuja união à Mãe Pátria resultava o esplendor do Trono, a riqueza e a grandeza da Nação, já não possuímos nem um palmo de terra. Novo mimo da nossa regeneração política!
O que sabemos das nossas possessões da Ásia e da África oriental, é que ficavam convulsas. Terão elas seguido a sorte do Brasil? Que mágoa, que dor penetrante para o Digno Herdeiro do Trono do Venturoso, Manuel, e daquela abençoada série de Reis, que levaram o nome e as armas Portuguesas mais longe que os Assírios, que os Persas, que Alexandre, que os Romanos e que os Árabes as suas! Que mágoa, que dor penetrante para os descendentes dos ilustres guerreiros, que à custa do seu sangue fundaram e defenderam este império gigantesco, que agora vemos despedaçado!
Tal é o efeito do veneno, que os nossos chamados Regeneradores introduziram nas entranhas da Pátria, para fazerem cair em dissolução todos os seus membros. Adeus, senhor Brasil, dizia um deles com insultante e bárbara enfâse, quando viu que o Brasil nos ia escapando: fazia um objecto dos seus gracejos a perda da mais vasta e rica porção do Reino unido. Outros pretendiam consolar-nos deste desastre com a ilusão das futuras vantagens, que poderíamos tirar dos nossos actualmente miseráveis estabelecimentos da África ocidental. Não nos enganemos com quimeras. Os dias da nossa glória são passados, desapareceram as nossas riquezas, acabou a nossa grandeza, a não vir algum novo Gama, que nos conduza ao Oriente por novos caminhos desconhecidos; algum novo Cabral, que nos descubra outro Brasil.
Este golpe devia prever-se, porque outras não podiam ser as consequências do nosso S. Bartolomeu de 1820, na verdade menos sanguinoso que o de França, em 1571; porém mais transcendente nos seus resultados. A Monarquia Francesa, depois das mortandades e das guerras civis que acompanharam e seguiram aquela catástrofe, ressurgiu nos brilhantes dias de Henrique IV, mais robusta e florescente do que antes fora: o Império Português está destruído e desmembrado talvez para sempre. E poderão os povos ver com bons olhos os autores de tantos males, os seus cooperadores e adeptos, ou coisa que a eles se assemelhe? Poderão os povos pôr neles alguma confiança, esperar que lhes venha por eles algum bem, ou deixar de odiar qualquer obra, que haja de sair das suas mãos?
Revolucionou-se a França e perdeu todas as suas colónias: revolucionou-se a Espanha e perdeu também as suas. E porque seria Portugal isento desta lei, que é a lei das revoluções filiais, que se dirigem pelo espírito da Revolução Francesa, mãe e mestra de todas as que depois vieram? Nápoles e Sardenha não perderam colónias, porque as não tinham: haviam de perdê-las se as tivessem, e se mãos poderosas não acudissem a apagar o incêndio logo no seu princípio. É o carácter de todas as revoluções de cunho moderno.
Apenas rompeu a revolução em França, partiram emissários, que levaram o espírito de desorganização a todas as colónias Francesas. Apenas rompeu em Portugal, todas as possessões Portuguesas foram convidadas à revolta; e não foi necessário que partissem emissários, porque os apóstolos da revolução já por lá andavam em numerosa quantidade, e mesmo tinham já feito alguns ensaios. Filhos Primogénitos, diziam os povos do ultramar pela boca de um dos chamados representantes da Nação (ou antes os insinuava este para que eles o dissessem) em um discurso de estilo teatral proferido na sessão das Cortes de 30 de Janeiro de 1821: Filhos primogénitos da grande família, a que temos a honra de pertencer; por espaço de mais de trezentos anos, só nos vieram da Europa as rajadas do despotismo; porque nos quereis privar agora da viração prestadia da liberdade constitucional? Mas este convite foi muito tardio: em consequência dos que o tinham precedido, já nesse tempo lavrava o fogo por todos nossos estabelecimentos, e não ficou um só que se não revolucionasse.
Tornando às colónias Francesas, nada é tão espantoso como a revolução da de S. Domingos: drama trágico em dois actos, que custou 80 000 vidas dentro de uma ilha. No primeiro acto figuravam brancos e negros da América contra brancos da Europa; no segundo somente negros contra brancos, e os negros ficaram de cima, compreendendo nesta denominação os mulatos. Enchei-vos de horror à vista dos seguintes extractos de uma proclamação, com que o chefe negro Dessalines excitou os seus à matança dos brancos: «Meu braço suspendido sobre as suas cabeças tem demorado por muito tempo descarregar o golpe... sede cruéis e sem misericórdia, semelhantes a uma torrente furiosa que tem rompido os seus diques, e que arrasta tudo o que tenta opor-se às suas ondas. Vossa fúria vingadora destruiu, e levou tudo no seu curso impetuoso... Onde está o vil habitante do Haiti, tão indigno da regeneração, que não julgue ter cumprido os Decretos do Eterno exterminando estes tigres sequiosos de sangue? Se há algum, fuja: A nação indignada o expulsa do seu seio; vá ocultar a sua vergonha longe de nós. O ar puro, que nós respiramos, não é feito para os seus órgãos grosseiros; é o ar puro da liberdade augusta e triunfante... Eu tenho salvado a minha pátria; eu tenho vingado a América. Esta confissão, que eu faço à face da terra e do Céu, faz o meu orgulho e a minha glória. Guerra de morte aos tiranos! eis a minha divisa. Liberdade e Independência! eis o grito da nossa reunião.»
E não achais vós que as rajadas do despotismo e a viração prestadia da liberdade, do nosso Deputado em Cortes, tem uma tendência particular para influir na América Portuguesa alguma coisa semelhante às atrocidades do negro Dessalines! A revolução do Brasil tem sido semelhante ao primeiro acto da de S. Domingos. A Divina Providencia salve o Brasil dos horrores do segundo acto daquele tremendo drama.


José Acúrsio das Neves in «Cartas de um Português aos seus Concidadãos sobre diferentes objectos de utilidade geral e individual», Carta XII, 1823.

Da Revolução Haitiana


Tornando às colónias Francesas, nada é tão espantoso como a revolução da de S. Domingos: drama trágico em dois actos, que custou 80.000 vidas dentro de uma ilha. No primeiro acto figuravam brancos e negros da América contra brancos da Europa; no segundo somente negros contra brancos, e os negros ficaram de cima, compreendendo nesta denominação os mulatos. Enchei-vos de horror à vista dos seguintes extractos de uma proclamação, com que o chefe negro Dessalines excitou os seus à matança dos brancos: «Meu braço suspendido sobre as suas cabeças tem demorado por muito tempo descarregar o golpe... sede cruéis e sem misericórdia, semelhantes a uma torrente furiosa que tem rompido os seus diques, e que arrasta tudo o que tenta opor-se às suas ondas. Vossa fúria vingadora destruiu, e levou tudo no seu curso impetuoso... Onde está o vil habitante do Haiti, tão indigno da regeneração, que não julgue ter cumprido os Decretos do Eterno exterminando estes tigres sequiosos de sangue? Se há algum, fuja: A nação indignada o expulsa do seu seio; vá ocultar a sua vergonha longe de nós. O ar puro, que nós respiramos, não é feito para os seus órgãos grosseiros; é o ar puro da liberdade augusta e triunfante... Eu tenho salvado a minha pátria; eu tenho vingado a América. Esta confissão, que eu faço à face da terra e do Céu, faz o meu orgulho e a minha glória. Guerra de morte aos tiranos! eis a minha divisa. Liberdade e Independência! eis o grito da nossa reunião.»

José Acúrsio das Neves in «Cartas de um Português aos seus Concidadãos sobre diferentes objectos de utilidade geral e individual», Carta XII, 1823.

O espírito das revoluções (I Parte)


Lede, vos torno a dizer, a história da Revolução Francesa, deste horrendo quadro que desonra os anais do género humano; subi à sua origem, examinai as suas causas e os seus progressos e vede a sua perfeita analogia com as revoluções que renasceram das suas cinzas. A de Espanha vai correspondendo perfeitamente ao seu modelo; a de Nápoles e a do Piemonte começaram adoptando por base a de Espanha, donde emanaram as inspirações; quanto à nossa de Portugal, os factos não precisam comentário: observai e julgai. Todas são filhas da mesma mãe, beberam o mesmo leite e hão-de derramar sobre os homens iguais favores.
João Wycliff, transferindo de Deus para os homens a origem de todo o poder, armou os povos contra os Governos, desenvolvendo no século XIV as sementes da revolução que rebentou no século XVIII. Se ele não as desenvolvesse, outro as desenvolveria, porque existem no espírito humano impaciente de subordinação e amigo da novidade. Era um simples controversista; e as suas doutrinas tiveram a maior influência nos destinos de uma grande parte do género humano. Questões de escola tem por muitas vezes alagado o mundo em sangue.
Tiraram um lugar da Universidade de Oxford a certos religiosos para o darem a Wycliff; e sobrevindo questões a este respeito, tornaram a tirá-lo a este para o restituírem aos religiosos. Wycliff apelou para o Papa, que decidiu contra ele; e daqui começaram as suas declamações contra a Cúria Romana e contra o clero em geral, que o conduziram a atacar os dízimos e a propriedade nos indivíduos e a pregar a igualdade e a independência entre os homens. O efeito foi pronto e nada menos do que uma sublevação geral dos homens do campo, que, segundo as leis de Inglaterra, eram obrigados a cultivar as terras dos senhores territoriais, e quiseram fazer-se independentes. Mais de duzentos mil pegaram em armas e cometeram os maiores excessos gritando liberdade, liberdade. Vede como vão de acordo as revoluções modernas.
De Inglaterra estas doutrinas passaram para Alemanha; e se consultardes a história de João Hus e de Jerónimo de Praga, vereis como estes famosos entusiastas inflamaram com elas o espírito público. João o Vesgo (Žižka) foi ainda mais longe. Formou exércitos, sublevou os povos, queimou cidades, devastou os países por onde passava e tentou estabelecer o Governo republicano, destruindo o monárquico. Três exércitos mandou contra ele o Imperador Sigismundo e todos destruiu Žižka; e perdendo em uma batalha o olho que lhe restava, assim mesmo continuou as suas devastações à frente das tropas. Conta-se que ordenara em seu testamento, que da sua pele se fizesse um tambor, cujo som reunisse os seus sequazes; e aqui tendes um facto que pinta ao vivo o atroz entusiasmo de semelhantes chefes. O certo é que depois de morrer, o seu espírito foi ainda fatal por muito tempo ao Imperador, que gastou 16 anos para pacificar a Boémia. Vede quanto pode o fanatismo revolucionário.
Este mesmo espírito sopeado, mas não extinto, surgiu mais de um século depois para reproduzir ainda por outro as mesmas perturbações em escala mais extensa. Martinho Lutero foi o novo campeão, que em um canto da Saxónia, levantou o estandarte da revolta, na aparência somente contra a Igreja, mas na realidade contra todos os poderes. Comoveu-se todo o Norte com os seus erros teológicos e com as suas máximas políticas: uma delas era a invasão das propriedades eclesiásticas, e foi um meio de dar ainda maior força ao seu partido. No seu tratado do Fisco comum, deu a ideia de um tesouro público em que se recolhessem as rendas de todos os Bispados, Mosteiros e Abadias, e, em geral, de todas as propriedades da Igreja, que intentava usurpar. Com isto acendeu a cobiça dos Governos avarentos e empobrecidos, fornecendo-lhes meios de suprir à sua vaidade; e com estes novos Baltazares não houve mais segurança para os bens eclesiásticos. Vede também como nisto vão de acordo as revoluções modernas.
Se por este meio conseguiu Lutero chamar ao seu partido Príncipes, Senhores e Magistrados, sublevando-os contra os Papas e contra os Bispos: Müntzer, um dos seus mais célebres sectários, achou o de sublevar os povos contra todos estes, pregando a igualdade. Ele e os seus discípulos armaram novos bandos de furiosos, que cometeram, em nome de Deus, cruezas inauditas, despedaçando tudo quanto encontravam nas suas correrias, principalmente os eclesiásticos e os nobres, que são também o alvo principal a que se encaminha o ódio dos revolucionários modernos. Aqui teve principio a seita dos Anabaptistas, que como feras assolaram ainda por muito tempo a Alemanha depois da morte dos seus chefes.
Por outra parte João Calvino, chefe de uma nova seita conforme à de Lutero em muitos princípios, e diversa em outros, ateava o fogo da discórdia e das guerras civis nos países onde lavrou. O espírito do Calvinismo era republicanizar os povos. Depois que Genebra o admitiu é que foi verdadeiramente República. Executou a mesma empresa na Holanda; e se o não conseguiu em França não foi por falta de diligências. Uma longa série de perturbações e de guerras civis desde Francisco I até Luís XIV foi o fruto das intrigas dos Reformadores: os Reis foram obrigados a conceder-lhes muitas praças de segurança e verificou-se por monumentos autênticos que o seu projecto era fazer de toda a França uma República dividida em departamentos, como depois fizeram os revolucionários de 1792; e escolhendo La Rochelle para sua capital, nesta cidade sustentaram dois cercos, sendo as tropas Reais obrigadas a levantar o primeiro e indo o Cardeal de Richelieu comandar o segundo, que durou mais de um ano, depois do qual foram obrigados a render-se.
Destas doutrinas nasceu em Inglaterra a facção dos Puritanos, que por muito tempo dispôs do trono, e mais de uma vez o ensanguentou. Foram elas as que sublevaram os povos na longa série de revoluções e de guerras civis que devastaram as ilhas Britânicas. Estes mesmos Puritanos chegaram também a formar uma espécie de República na Escócia. Dentre eles se levantou o famoso Prégador João Knox, que com as suas declamações violentas concitou os povos contra a Rainha Maria Stuart e foi o mais ardente promotor das desgraças desta infeliz Princesa, que só terminaram no cadafalso.
Foram estas mesmas doutrinas, estes mesmos Puritanos os que animaram os Comuns de Inglaterra a declararem-se Soberanos; os que levaram Carlos I ao patíbulo, os que formaram a efémera República Inglesa, a qual teve de ceder bem depressa ao génio e às intrigas do hipócrita Cromwell, que no meio de tantas perturbações se apoderou facilmente do poder supremo debaixo do título de Protector. As perturbações que a Inglaterra sofreu nesta época foram o prelúdio e o modelo porque depois se havia de desenvolver a Revolução Francesa: Cromwell o protótipo de Bonaparte. Por morte do Protector, seu filho Ricardo Cromwell, que não tinha o génio do pai, foi expulso, e os Ingleses chamaram ao trono Carlos II; mas a tranquilidade pública continuou a ser perturbada durante o seu reinado; e o de Jacques II pelas mesmas facções, imbuídas nos mesmos princípios. Jacques foi expulso e em lugar dele foi entronizado seu genro Guilherme III, que sabendo reinar com firmeza, soube também conter as facções.
Assim acabaram na Inglaterra as guerras de opinião, depois de terem feito correr ondas de sangue. No Continente as perturbações causadas pela Reforma só acalmaram com a paz de Vestefália, que sancionou muitos daqueles princípios contra os quais se tinham levantado tantos Príncipes e deu à Europa um novo Direito público. Digo que acalmaram e vai muito do acalmar ao extinguir. O espírito da Reforma sobreviveu aos Reformadores do século XVI e não podia saciar-se sem uma revolução geral de princípios que desorganizasse toda a ordem existente, confundindo todos os seus elementos. A matéria é mui vasta, e eu não tenho feito mais do que marcar certos pontos cardeais na história de quatro séculos, para que possais, sem divagar muito, chegar ao conhecimento do mais essencial. Lançai uma vista de olhos sobre eles e sobre todos os grandes acontecimentos públicos que com ele tem relação, vereis como estão ligados entre si, formando uma longa cadeia bem perceptível desde Wycliff e seus sequazes, até Mirabeau e seus confrades, em que aparece sempre o amor da novidade agitando o mundo para destruir tudo o que é antigo, ou seja bom, ou seja mau; e as paixões procurando sacudir o freio que lhes impõe a Religião e os Governos; e uma vez que o tenham conseguido perturbar o mundo com seus excessos.

(Continua...)

José Acúrsio das Neves in «Cartas de um Português aos seus Concidadãos sobre diferentes objectos de utilidade geral e individual», Carta VIII, 1822.

21 de Agosto de 1808: Batalha do Vimeiro


Eu te saúdo memorável dia 21 de Agosto! Tua memória será eterna nos fastos das três nações; da Portuguesa, porque quebraste os seus ferros; da Inglesa, porque cobriste de glória as suas armas; da Francesa, porque suspendeste o vôo arrogante das suas águias, até ali vitoriosas, e agora abatidas e destroçadas! Por mais feliz e mais brilhante que tivesse sido a Batalha da Roliça, não foi senão uma acção parcial, a do Vimeiro foi decisiva, não só para os dois exércitos, mas também para o Reino de Portugal; e ainda fez mais: juntamente com a de Bailén, de que não eclipsarei a memória, quebrou o encanto em que estava a Europa, mostrando-lhe que os exércitos Franceses não eram invencíveis, e que mesmo a superioridade de forças nem sempre lhes dava a vitória.

José Acúrsio das Neves in «História Geral da Invasão dos Franceses em Portugal e da Restauração deste Reino», Tomo V, 1811.

As manhas dos Pedreiros


Proclamadores sempiternos dos direitos do povo e da representação nacional, logo que o povo manifesta os seus desejos por aclamações espontâneas, tratam de o sufocar e sujeitar a seus caprichos. Logo que se cogita de reunir a legítima representação nacional, segundo as leis e usos da Monarquia, não há meio que não empreguem para obstar a esta reunião, como fizeram em 1820. Invocam hoje a Carta como naquele tempo invocaram as Côrtes, e afectaram [= fingiram] chorar a perda de nossas antigas instituições, porque lhes serviria de degrau para proclamarem amanhã a República, como então proclamaram a Soberania do Povo.

José Acúrsio das Neves em discurso proferido na qualidade de procurador letrado pela cidade de Lisboa na Junta dos Três Estados, 24 de Junho de 1828.

Mais livros recomendados


Tenho o prazer de anunciar aos leitores, que acrescentei na coluna da esquerda do blogue mais quatro obras de leitura. São elas:

Cartas de um Português aos seus Concidadãos de José Acúrsio das Neves.
Defesa de Portugal do Padre Alvito Buela Pereira de Miranda.
O Mastigóforo de Frei Fortunato de São Boaventura.
Refutação dos Princípios Metafísicos e Morais dos Pedreiros Livres Iluminados do Padre José Agostinho de Macedo.

Estas obras são de grande valor, indispensáveis a qualquer patriota e tradicionalista autêntico. Os seus autores, não foram meros escritores de realidades passadas, foram sim testemunhos dos avanços liberais contra os quais lutaram e de quem foram vítimas. Eles, melhor do que ninguém, conheceram e combateram a infiltração maçónico-liberal, dando-nos assim todas as munições necessárias contras os erros modernos, incluindo os que hoje se fazem passar por tradicionalistas. Por isso, aproveitem.

As "Luzes" que escureceram


Respeito tanto as luzes do século no que toca aos conhecimentos físicos, quanto as abomino pelo que pertence à Religião e ao Governo. Neste sentido são elas mesmas a própria revolução pura, e sem máscara, que na sua marcha, umas vezes rápida, outras vezes lenta, mas sempre progressiva, vai destruindo tudo o que encontra. O grande número dos chefes é funesto, dizia Ulisses aos Gregos na Ilíada, não tenhamos senão um chefe, senão um Rei, aquele a quem o prudente filho de Saturno confia o ceptro, e as leis para nos governar a todos. Esta máxima, que se lê no mais antigo dos livros profanos bem conhecidos, ao menos cá dos da Europa, é a mesma dos Provérbios de Salomão: Por mim governam os Reis. Vede como já era conhecida naqueles tempos primitivos, e como a respeito dela estavam de acordo os Escritores sagrados e os profanos: hoje é perseguida, porque as luzes do século a condenam; mas onde irão parar os homens com estas luzes do século, que tanto os tem feito retrogradar nas ideias religiosas e políticas.

José Acúrsio das Neves in «Cartas de um Português aos seus Concidadãos», 1822.

Monarquia liberal ou absoluta: O que queria o povo?


Querem um Rei sem alcunha, como tenho ouvido a alguns dos nossos rústicos das províncias, designando por alcunha o título de constitucional. Querem um Rei que tenha uma existência própria, um princípio activo, que sem dependência de outrem anime e vivifique o Estado; que não reparta com outrem os atributos essenciais da Soberania, nem por outrem possa ser embaraçado de fazer todo o bem possível aos seus vassalos; um Rei que seja o órgão da Divindade e não o das facções.

José Acúrsio das Neves in «Cartas de um Português aos seus Concidadãos», 1822.

De revolução em revolução: 1820, 1910, 1974...


Pintáveis a nação reduzida à última miséria, para melhor a subjugardes com promessas de grandes felicidades. Ora comparai o estado em que ela se achava, quando fazíeis essas declamações, com aquele em que a deixastes, quando vo-la arrancaram das mãos, morrendo de fome, esgotadas todas as fontes de prosperidade, a dívida pública elevada ao duplo ou triplo, sem comércio, sem indústria, dividida em partidos, perdidas quase todas as possessões ultramarinas, oprimida, e praguejando-vos em altos gritos. Eis a vossa regeneração! Eis o fruto das vossas luzes do século: luzes do inferno, em que as fúrias acendem as suas tochas, para abrasarem o mundo!

José Acúrsio das Neves in «Cartas de um Português aos seus Concidadãos sobre diferentes objectos de utilidade geral e individual», Carta XI, 1823.

Absolutismo não é Despotismo


Quando os povos proclamaram: Viva o nosso Rei Absoluto, não quiseram dizer outra coisa, senão um Rei como os que sempre tivemos, sem restrições que lhe limitassem o uso das suas Faculdades Reais. Absoluto vem como contraposto de constitucional; porém os revolucionários, que para fazerem os Reis odiosos os confundem sempre com os déspotas, e que na sua terminologia demagógica inventaram também a palavra absolutismo como um sinónimo de despotismo, interpretam Rei absoluto, como se se dissesse Rei despótico.

§

Mas que é o despotismo? Não confundamos ideias, que é necessário distinguir. O despotismo, segundo as noções dos Publicistas, é aquela monstruosa espécie de Governo, onde um só, sem lei e sem regra, move tudo pela sua vontade, e neste sentido as suas raias estão em contacto com as do Governo monárquico absoluto, onde o Príncipe reúne os três poderes: legislativo, executivo e judicial. No sentido vulgar porém o Governo despótico ou tirânico, que se toma pela mesma coisa, é todo aquele que não reconhece outro princípio senão a vontade de quem governa, ou seja um só, ou sejam muitos, porque o distintivo consiste na natureza do mesmo Governo, e não no número das pessoas que o exercitam. A Aristocracia Veneziana não era menos despótica com os seus procedimentos inquisitoriais, do que qualquer das Monarquias absolutas da Europa; e a Democracia Francesa imolou mais vítimas com o aparato legal, e sempre em nome da liberdade e dos direitos do homem, do que todos os Tiranos do Bósforo nos seus frenesins sanguinários.

José Acúrsio das Neves in «Cartas de um Português aos seus Concidadãos», 1822.