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Um "abrileiro" que não morreu iludido


Coimbra, 20 de Junho de 1975 – Estranha revolução esta, que desilude e humilha quem sempre ardentemente a desejou. A mais imunda vasa humana a vir à tona, as invejas mais sórdidas vingadas, o lugar imerecido e cobiçado tomado de assalto, a retórica balofa a fazer de inteligência. Mas teimo em crer que, apesar de tudo, valeu a pena assistir ao descalabro. Pelo menos não morro iludido, como os que partiram nas vésperas do terramoto.

Miguel Torga in «Diário», Volume XII, 1977.

Flores de Tília


Coimbra, 29 de Novembro de 1947
– Voltamos então à velha mezinha!? – protestou a ortodoxia científica e política, que agora dão as mãos, num fanatismo comovedor.
– Sim, se quiser... – respondi, com a calma que pude. – A natureza não se pode negar em si mesma, e é circular. Começa sempre onde acaba.
Por lhe ter receitado inalações de flor de tília, o homem cuidou que eu atraiçoava o progresso. E conversámos largamente. Mas quanto mais ele complicava os seus raciocínios, mais eu simplificava os meus.
– E as sulfamidas, a penicilina, a estreptomicina? As aquisições técnicas, numa palavra? Antigamente andava-se de burro; hoje anda-se de avião… Estou a ver que o senhor é um grande idealista!
– Talvez – respondi a rematar a conversa. – Mas já reparou que é tal a necessidade que o homem tem de não perder o pé nos próprios delírios, que mede a força dos motores em cavalos? As sulfamidas, claro. A estreptomicina, claríssimo. Mas, para si, agora, nada disso interessa. O aconselhável, cientificamente, são flores de tília...

Miguel Torga in «Diário», 1999 (póstumo).

Nunca a humanidade viveu tão às cegas


Coimbra, 26 de Fevereiro de 1948 – Tanto jornal, tanta rádio, tanta agência de informações, e nunca a humanidade viveu tão às cegas. Cada hora que passa é um enigma camuflado por mil explicações. A 'verdade', agora, é uma espécie de sombra da mentira. E como qualquer de nós procura quase sempre apenas o concreto, cada coisa que toca deixa-lhe nas mãos o simples negativo da sua realidade.

Miguel Torga in «Diário», 1999 (póstumo).

Nunca a humanidade viveu tão às cegas


Coimbra, 26 de Fevereiro de 1948 – Tanto jornal, tanta rádio, tanta agência de informações, e nunca a humanidade viveu tão às cegas. Cada hora que passa é um enigma camuflado por mil explicações. A 'verdade', agora, é uma espécie de sombra da mentira. E como qualquer de nós procura quase sempre apenas o concreto, cada coisa que toca deixa-lhe nas mãos o simples negativo da sua realidade.

Miguel Torga in «Diário», 1999 (póstumo).