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Invenção do corpo de D. Lourenço, Arcebispo de Braga


Corria o ano de 1663, quando D. João de Áustria, filho bastardo de D. Filipe IV, Rei de Espanha, entrando em Portugal pela Província de Alentejo, conquistou a Cidade de Évora, Capital da mesma Província, e pôs em grande consternação a todo o Reino; então foi quando, sobre duzentos sessenta e seis anos de sepultura, se achou neste dia [4 de Junho], do ano sobredito, o corpo do Arcebispo de Braga Dom Lourenço, único do nome naquela Primacial, tão incorrupto e fresco, e com tanta perfeição e inteireza de todas as suas feições e partes, como se naquela hora acabara de morrer. Foi o Arcebispo Dom Lourenço grande Português, e um dos que mais trabalharam pela conservação e liberdade do Reino, quando os Castelhanos, em tempo do Mestre de Avis, depois Rei, com poderosas forças o pretenderam conquistar e oprimir; e como agora se achavam Castelhanos e Portugueses no empenho da mesma conquista e defesa, reputaram geralmente os Portugueses por singular demonstração do Céu a seu favor, o expor-lhe aos olhos, em uma tal ocorrência, o corpo incorrupto daquele herói, cuja vista os podia justamente animar à defesa da liberdade; e assim sucedeu com efeito: Porque não passaram cinco dias, que não fosse roto e inteiramente desbaratado, o Exército de Dom João de Áustria, e dentro em vinte, recuperada a Cidade de Évora, como diremos em outros dias.

Pe. Francisco de Santa Maria in «Ano Histórico, Diário Português: Notícia Abreviada de pessoas grandes e coisas notáveis de Portugal», 1744.

António Carvalho de Parada


António Carvalho de Parada, natural da Vila do Sardoal, Doutor em Teologia, Arcipreste da Sé de Lisboa, Prior da Igreja de Bucelas, Guarda-mor da Torre do Tombo, foi muito erudito e estimado por suas grandes letras e virtudes, e pelos excelentes livros que imprimiu, quais foram: Arte de Reinar, geralmente louvada e estimadíssima. Justificação dos Portugueses em libertarem este Reino do domínio de Castela. Imprimiu mais: Diálogos sobre a vida e morte do Venerável Bartolomeu da Costa, Tesoureiro-mor da Catedral de Lisboa. Mais: um excelente discurso sobre os inconvenientes que resultam do modo com que alguns Prégadores repreendem os Príncipes e Ministros. Também deixou M. S. um discurso sobre ser reformado, ou extinto, o ofício de Provedor das Comarcas. Morreu em Bucelas neste dia [12 de Dezembro], ano de 1655. Jaz na mesma Igreja.

Pe. Francisco de Santa Maria in «Ano Histórico, Diário Português: Notícia Abreviada de pessoas grandes e coisas notáveis de Portugal», 1744.

D. João IV é recebido em Lisboa por toda a Corte


Sendo chegados a Vila Viçosa Pedro de Mendonça e Jorge de Melo com a notícia da felicidade com que se conseguira, como já dissemos, a gloriosa empresa da aclamação do Senhor Rei Dom João IV, vendo quanto convinha o partir logo para Lisboa, se meteu em um coche, acompanhado nele do Marquês de Ferreira e do Conde de Vimioso (que também chegaram, depois de haverem solenemente aclamado a El-Rei em Évora) e de Pedro de Mendonça e Jorge de Melo; e a cavalo, de alguns criados da sua Casa. Sem mais tropas que o seguissem, partiu o novo Rei para Lisboa a tomar posse de um Reino, que os Reis de Castela, formidáveis a todo o mundo, dominaram sessenta anos, e haviam pretender restaurar, como a pedra mais preciosa da sua Coroa. Chegando a Aldeia Galega [hoje Montijo] achou muitos Fidalgos e outras pessoas Eclesiásticas e seculares, que o esperavam; a todos recebeu benignamente, e na manhã deste dia [6 de Dezembro], em quinta-feira, se embarcou, e pelas nove horas chegou à Ponte da Casa da Índia, sendo salvado com três descargas de artilharia do Castelo e Fortalezas da Cidade, que fizeram pública a nova da sua chegada. Correu logo ao Paço toda a Nobreza a beijar-lhe a mão, e ao Terreiro tanta multidão de povo com tão grande alvoroço e tão repetidas vozes alegres, que por instantes era necessário chegar El-Rei às janelas para satisfazer as demonstrações d tão leais Vassalos. Na tarde do mesmo dia beijaram a mão a El-Rei todos os Tribunais. De noite esteve toda a Cidade iluminada e festiva com repiques dos sinos, salvas de artilharia, aclamações e vivas do povo; O que tudo sendo observado por um Fidalgo Castelhano, que se achava em Lisboa, disse: Es posible que se quita un Reino a El-Rey Don Felipe com solas luminarias y vivas, sin más Exercito, ni poder? Gran señal y efeto sin duda del brazo omnipotente de Dios. El-Rei Dom Filipe, quando lhe chegou a notícia desta gloriosa aclamação, disse: Perdí el brazo derecho de mi Imperio. Não quis Deus que fosse braço de alheio corpo o Reino que criara para cabeça de outros Reinos, conforme o que disse ao nosso primeiro Rei, falando-lhe da Cruz no Campo de Ourique: que queria nele e em sua descendência estabelecer para Si um Império. Volo in te et in semine tuo Imperium mihi stabilire.

A matutina luz, serena e fria
As Estrelas do Pólo já apartava,
Quando na Cruz o Filho de Maria
Mostrando-se a Afonso o animava.
Camões, Canto 3, Oitava 45.

Pe. Francisco de Santa Maria in «Ano Histórico, Diário Português: Notícia Abreviada de pessoas grandes e coisas notáveis de Portugal», 1744.

Batalha do Montijo de 1644


No mesmo dia [26 de Maio], ano de 1644, se deu entre Portugueses e Castelhanos, junto ao lugar do Montijo, a batalha que dele tomou o nome. As tropas de Castela (que mandava o Barão de Molinguen) constavam de seis mil Infantes e dois mil e quinhentos Cavalos: As de Portugal (que mandava Matias de Albuquerque) constavam de seis mil Infantes e pouco mais de mil Cavalos. Atacou-se a batalha neste dia (em que então caiu a solenidade do Corpo de Deus) e revolvendo-se a nossa Cavalaria, se retirou com demasiada velocidade e pouca reputação; desconcerto a que deram princípio cento e cinquenta Holandeses, que entravam no corpo da Cavalaria Portuguesa, a qual, como bisonha, seguiu o mau exemplo dos Estrangeiros: Carregaram os Castelhanos a nossa Infantaria e a romperam facilmente; e quando já tinham conseguido a vitória, a perderam, pela sempre fatal desordem de se ocuparem em despir os mortos e roubar as bagagens: Porque Matias de Albuquerque e Dom João da Costa, com outros Cabos principais, advertindo naquela divisão, se uniram em um corpo, e ajuntando boa parte dos Terços e quarenta cavalos, investiram com a espada na mão dos inimigos, e restaurada a artilharia (que se havia perdido) e voltando contra eles com maravilhoso efeito, os puseram em tamanha confusão, que dentro em breve espaço, lhe fizeram voltar as costas desbaratados, obrigando ao Barão a passar precipitadamente o Guadiana, deixando três mil Soldados mortos, em que entraram três Mestres de Campo, nove Capitães de Cavalos e quarenta e cinco de Infantaria: Dos nossos, faltaram novecentos, entre mortos e prisioneiros. Nem Portugueses souberam começar esta batalha, nem os Castelhanos a souberam acabar, como confessou o Marquês de Torrecuça, Governador que então era das Armas Castelhanas, quando teve em Badajoz a notícia do sucesso.

Pe. Francisco de Santa Maria in «Ano Histórico, Diário Português: Notícia Abreviada de pessoas grandes e coisas notáveis de Portugal», 1744.

Novo milagre de Nossa Senhora da Piedade


No mesmo dia [27 de Maio], ano de 1663, estando na Ermida de N. Senhora da Piedade de Santarém as mesmas pessoas que no dia precedente ali se acharam, e outras muitas que concorreram de novo, rogando todas a Deus, por intercessão de sua Santíssima Mãe, para que se apiedasse deste Reino e lhe desse vitória de seus inimigos, tendo todas os olhos nas Soberanas Imagens da mesma Senhora e de seu Filho morto, se viu patentemente que a deste Senhor levantava o rosto para cima, e juntamente o corpo, em forma que ficou muito mais levantado do que estava nos braços da Senhora, ficando os rostos de ambos tão chegados um ao outro, que dificultosamente havia lugar de caber pelo meio deles um dedo, sendo que dantes estavam desviados em forma que cabia bem uma mão-travessa. E outrossim se viu o sangue da mesma Sacrossanta Imagem de cor muito viva e fresca, estando dantes denegrido e encoberto.

Pe. Francisco de Santa Maria in «Ano Histórico, Diário Português: Notícia Abreviada de pessoas grandes e coisas notáveis de Portugal», 1744.

Milagre de Nossa Senhora da Piedade de Santarém


Venerava-se de tempos antigos em uma pobre Ermida na Vila de Santarém, uma Imagem da Senhora da Piedade, com o Senhor morto nos braços, caído, ou inclinado o rosto do mesmo Senhor, em forma que ficava mais de uma mão-travessa apartado do rosto da Senhora. É uma e outra Imagem de barro, e ambas muito devotas. Achava-se no ano de 1663 este Reino em grande aperto pela invasão dos Castelhanos, os quais com poderoso Exército, haviam conquistado a Cidade de Évora, e prometiam, não sem grandes fundamentos, muito maiores operações. Concorriam àquela Ermida algumas pessoas devotas a invocar a protecção da Mãe de Deus sobre as calamidades e perigos em que o Reino se achava, e à vista daquele Sagrado Corpo defunto e cinco chagas, que nele se representavam, eram, sem dúvida, um poderoso motivo para se pedir e esperar, com grande fervor e confiança, a liberdade de um Reino que tem as mesmas chagas por brasão. Eis que neste dia [26 de Maio], em Sábado, das seis para as sete horas da tarde, do ano referido, estando presentes muitas pessoas, foi visto o rosto da Senhora muito mais encarnado e resplandecente, e o do Senhor muito mais enfiado e pálido, e ambos muito diferentes do que dantes eram. Admirados os presentes, e atónitos à vista daquela maravilha, não se atreveram a publicá-la, persistindo perplexos e duvidosos na averiguação do mesmo que estavam vendo, por se julgarem indignos de tão soberano favor. Maior prodígio se viu no dia seguinte, como nele diremos.

Pe. Francisco de Santa Maria in «Ano Histórico, Diário Português: Notícia Abreviada de pessoas grandes e coisas notáveis de Portugal», 1744.

André de Albuquerque


Foi André de Albuquerque um dos Varões mais excelentes deste apelido, e um dos Capitães mais valerosos de seu tempo. Desde a primeira idade militou na América, depois na Europa, e dos postos inferiores subiu aos mais altos, pelos degraus do valor, não da valia. O largo exercício da guerra o fez insigne na disciplina militar, sabia melhor que todos mandar com acerto, e obedecer com prontidão. Alternava extremos de afável e severo, de modesto e altivo, regulando os afectos à proporção dos casos e das pessoas. Amava com extremo aos soldados valerosos, não sofria aos fracos. Em todas as facções em que se achou, deu singulares provas de valor. Na batalha referida das Linhas de Elvas, se excedeu a si mesmo. No maior fervor dela, vendo que um dos nossos esquadrões, que havia atacado um forte, começava a vacilar, se lançou diante, e tocando com a bengala nas estacas, advertiu aos soldados o modo de arrancá-las; Então lhe acertou uma bala pelos peitos, de que caiu morto, mas será imortal nos Anais Portugueses a glória do seu nome.

Pe. Francisco de Santa Maria in «Ano Histórico, Diário Português: Notícia Abreviada de pessoas grandes e coisas notáveis de Portugal», 1744.

Pedro Jacques de Magalhães


Pedro Jaques de Magalhães, primeiro Senhor e Visconde de Fonte Arcada, do Conselho de Guerra dos Reis Dom Afonso VI e Dom Pedro II. Varão a toda a luz insigne em valor e disciplina militar. Desde os primeiros anos seguiu a guerra na nova Lusitânia [Brasil]: Em Cartagena deu as singularíssimas provas de valor, constância e fidelidade, que dissemos em outro lugar. Ocupou os primeiros postos de Guerra nas que houve depois da Aclamação entre Portugal e Castela. Na Província da Beira, onde era Governador das Armas, fatigava com repetidas invasões o país inimigo. Rendeu e saqueou as Vilas de Guinaldo, Sobradilho, Serralvo, e outras; em uma entrada fez queimar mais doze Vilas e lugares, exercitando generosa clemência com os rendidos. Foi grande parte o seu valor nas vitórias de Elvas, do Canal, de Montes Claros, e a famosa de Castelo Rodrigo se lhe deveu inteiramente, como deixamos dito em outra parte. Passou depois a General da Armada de Portugal, e foi não menos valeroso e temido no mar, do que na terra. Em Pernambuco pôs o feliz fim à expulsão das armas Holandesas, que por espaço de trinta anos tinham resistido no Brasil a todo o poder de Espanha. Por entre os Mouros, que sitiavam a Cidade de Orão, e tinham posto os Espanhóis no estado da última ruína, meteu socorro naquela Praça, e foi causa de que triunfassem de todo o poder dos Mouros. Cheio de acções heróicas, e não menos de virtudes morais e Cristãs, morreu com grandes sinais de predestinado, em Lisboa, neste dia [8 de Dezembro], ano de 1688. Jaz na Igreja de Jesus dos Religiosos Terceiros de São Francisco. O Conde da Ericeira Dom Francisco Xavier de Menezes epilogou as acções deste famoso herói neste Soneto.

Fiel sofre um tormento áspero e duro;
Livra o Brasil da escravidão estranha;
De Badajoz, triunfa na Campanha;
De Elvas, foi o seu peito um firme muro.

No Canal o troféu deixou seguro;
Em Castelo Rodrigo vence a Espanha;
E fez de Montes Claros na façanha,
Seu nome claro, até no tempo escuro.

Sempre adquiriu na Beira imortal glória;
No mar lhe foge o Mouro temeroso;
Orão deve a seu eco uma vitória;

Itália o viu prudente e generoso;
E o que mais é morreu santo; Esta é a história
De Pedro Jacques, Luso Herói famoso.

Pe. Francisco de Santa Maria in «Ano Histórico, Diário Português: Notícia Abreviada de pessoas grandes e coisas notáveis de Portugal», 1744.

Gloriosa Restauração de 1 de Dezembro de 1640


Sobre sessenta anos de dura escravidão se achava no de 1640 o nobilíssimo Reino de Portugal, reduzido aos últimos extremos da calamidade e da miséria: Exausto de gente e de dinheiro, de armas e de armadas, que são os quatro elementos de que compõem o corpo de uma República [Estado] florente: Condenado sem ser ouvido a perder os foros e privilégios da Regalia, contra o que lhe haviam assegurado com repetidos juramentos os Reis Filipes: Infestadas e perdidas em grande parte as suas Conquistas, e impedido por consequência, ou quase de todo extinto, o comércio: Vexados tiranamente os povos com infinitas traças e extravagâncias de tributos e imposições insuportáveis: Levados por força à Côrte de Madrid os Prelados e Títulos de maior graduação, sem lhe valer nem o decoro da dignidade, nem o peso dos anos; e conduzido às guerras de França, Holanda, Catalunha, tudo o que podia servir para defesa do Reino: Consternados os ânimos e abatidos os brios Portugueses, feitos já quase insensíveis pelo costume aos golpes da tirania e aos desprezos da jactância dos Castelhanos. Este era o estado deplorável de Portugal, e a sua mesma debilidade e fraqueza era o maior impedimento de poder algum dia respirar e tornar ao que dantes fora; Mas como seja génio desta heróica Nação sair os maiores apertos com as mais briosas resoluções, começaram alguns Fidalgos a entrar na consideração do remédio de tantos males e logo se lhe iam os olhos e os pensamentos a Vila Viçosa, onde reconheciam a verdadeira sucessão de seus antigos Reis e única esperança que mais lhe convinha atender à conservação da sua casa e pessoa, do que a outras ideias mal seguras e cheias de infinitas dificuldades; Resolutos, porém, os Fidalgos, e já muito crescidos em número, fizeram a saber ao Duque a resolução em que estavam de o aclamarem Rei; O qual, vendo-se reduzido à rigorosa alternativa de entregar-se, ou nas mãos dos que lhe ofereciam o Ceptro, ou ao arbítrio dos que lhe maquinavam a ruína, persuadido pela Duquesa sua mulher, Senhora de elevadíssimo espírito, que lhe disse, tinha por mais acertado, ainda que a morte fosse consequência da Coroa, morrer reinando que acabar servindo, aceitou a oferta; e dispostos os meios quanto sofria o estado das coisas, se destinou este dia [1 de Dezembro], no ano referido, para a execução de tão portentosa e memorável empresa. Assentaram os Fidalgos que todos se achassem de manhã no Terreiro do Paço com armas secretas, e que ao ponto em que desse oito horas o relógio da Capela, saíssem a executar o que estava determinado. Davam as oito, e em um instante, se viu repartido a diferentes empregos aquele nobilíssimo esquadrão de famosíssimos heróis; Uns subiram à fala dos Tudescos, onde estavam os soldados da mesma Nação: Outros deram sobre a guarda dos Castelhanos, e uns e outros fizeram render as armas pasmados e medrosos: Outros entraram no Forte e arrombando as portas interiores das casas onde Miguel de Vasconcelos vivia (Ministro fatal daqueles tempos) e passado de uma bala, o lançaram de uma janela fora ao Terreiro do Paço, onde foi aquele dia e parte do seguinte, o seu infeliz corpo objecto dos opróbrios e desprezos da mais ínfima plebe; Tais são os vaivéns da fortuna, que de uma hora para outra foi visto em estado tão abatido e miserável aquele mesmo homem que era árbitro da Monarquia e monstro da soberba: Outros subiram ao quarto onde assistia a Princesa Margarida, que então fazia a figura de Governadora do Reino; E posto que intentou moderar o ímpeto dos Fidalgos, o não pode conseguir: Porque todos em sua presença aclamaram ao novo Rei; E intentando chegar-se a uma janela a implorar o favor do povo, lhe disse Dom Carlos de Noronha: Que não quisesse dar ocasião a que se lhe perdesse o respeito: A mim? (lhe replicou a Princesa) e como? Como, Senhora? (lhe tornou Dom Carlos) obrigando a V. A. a que senão quiser entrar por aquela porta, saia por esta janela: Calou a Princesa e recolheu-se: Outros foram à casa do Senado da Cidade, de que era Presidente Dom Pedro de Menezes, Conde de Cantanhede, ao qual não haviam revelado o segredo daquela acção seus próprios filhos, Dom António e Dom Rodrigo de Menezes, mas agora incitado por eles mesmos, e facilmente persuadido ao bem comum da Pátria, seguiu sem contradição a mesma voz e assim todos os Ministros daquele Tribunal: Outros foram ao da Relação, onde também acharam sem repugnância a mesma vontade e ânimo Português. Por todas estas partes discorreram os Fidalgos, seguidos já de inumerável povo com as espadas nuas nas mãos, dizendo a vozes: Viva El-Rei Dom João IV. Era muito para ver entre todos Dom Miguel de Almeida, um dos primeiros motores desta empresa, Varão de suma autoridade, por sua grande nobreza e veneráveis canas, o qual, revestido de brios de mancebo, deu feliz princípio aos vivas do novo Rei; Dom Álvaro de Abranches discorreu pelas principais ruas da Cidade com a bandeira da mesma repetindo os mesmos vivas, a que respondia com outros infinitos o povo todo, sem diferença de sexo, nem de idade. A Condessa de Atouguia, Don Filipa de Vilhena, ajudou a armar seus dois filhos, Dom Jerónimo de Ataíde e Dom Francisco Coutinho, ambos de mui tenra idade: O mesmo fez a seus dois filhos, Fernão Telles e António Telles, sua mãe Dona Mariana de Alencastre. Até nas mulheres do povo se achou o mesmo zelo e amor da Pátria, e saíram muitas com espadas na mão, dizendo: Que ninguém se atrevesse a contradizer aqueles vivas, porque na sua defesa perderia a vida. A uma, por nome Caetana, disse um seu irmão zombando, ou deveras: Viva Filipe: mas ela com grande furor lhe deu uma cutilada, antepondo o amor da Pátria ao do sangue. Tanto que o primeiro rumor chegou à Sé, logo o Arcebispo Dom Rodrigo da Cunha, Varão excelente em letras e virtudes, desceu à Capela-mor e com os seus Cónegos começaram a rezar as Ladainhas, e saindo da Sé com a Cruz Arquiepiscopal diante, quando chegava de fronte da Igreja de Santo António se viu despregada a mão direita da Imagem de Cristo que ia na mesma Cruz, atribuindo-se a singular prodígio aquele, que podia ser acaso; Mas estilo é da Providência Divina aprovar com semelhantes maravilhas os efeitos a que encaminha as suas direcções; E quem poderá negar que intervieram nesta bizarra e luzidíssima acção muitas circunstâncias maravilhosas? Maravilha foi em uma Cidade cheia de homens por nascimento Castelhanos e de outros muitos que também o eram por génio e dependência; com um Castelo presidiado de soldados da mesma Nação, não se fazer a menor resistência a tamanha novidade. Maravilha foi concorrer o povo de Lisboa, não menos ardente que numeroso, seguindo a voz de poucos Fidalgos e ignorando os meios de se levar ao fim tão arriscada empresa. Maravilha foi que seguissem prontamente a mesma voz muitos Fidalgos que a ouviram naquela hora sem notícia alguma antecedente, podendo com razão ressentir-se de se não haver fiado deles tão relevante negócio. Maravilha foi ver-se logo ao meio-dia tão sossegada e pacifica a Cidade, como se a El-Rei D. João III houvera sucedido D. João IV. Maravilha foi que em tanta comoção de povo tão ardente, não se cometesse o menor insulto e estivessem as tendas e lojas abertas como em qualquer outro dia, em que nelas senão trata mais que de compras e vendas. Maravilha foi que dentro em poucos dias seguisse todo o Reino em peso a voz de Lisboa, sem que em tantas Cidades, Vilas e Fortalezas (nem ainda nas da Raia de Castela) houvesse resistência, antes em quase todas se antecipou a aclamação do novo Rei ao aviso dos Governadores; Maravilha foi executar-se tudo o que estava disposto sem errar a mínima circunstância. Maravilha foi, sobretudo, tirar-se dentro em poucas horas um Rei Poderosíssimo e formidável, e entronizar outro, desarmado e indefeso, sem mais ferro que o das espadas levantadas no ar, e sem mais fogo que o das salvas e luminárias com que nas noites seguintes celebrou todo o Reino a sua liberdade. E quem negará que se pode dizer com muito própria acomodação por esta portentosa mudança, o que de outra disse antigamente David: Haec mutatio dexterae excelsi? Quem negará que uma acção tão circunstanciada de maravilhas colocou aos Autores dela no mais alto sólio do templo da fama imortal. Não damos aqui os seus nomes por não sairmos da nossa brevidade e estarem já impressos em muitos livros, sendo dignos por certo de serem estampados com letras de ouro em lâminas de prata.

Pe. Francisco de Santa Maria in «Ano Histórico, Diário Português: Notícia Abreviada de pessoas grandes e coisas notáveis de Portugal», 1744.

19 de Março: Nascimento de D. João IV


No mesmo dia, ano de 1604, nasceu em Vila Viçosa o Sereníssimo Duque Dom João, depois Rei de Portugal, IV de nome. Filho dos Sereníssimos Duques Dom Teodósio e Dona Ana de Velasco. Foi aquele ano memorável e célebre, pelo que agora direi, e é bem que chegue a todos. No ano de 1580 (fatal a este Reino, porque nele passou ao domínio de Castela) apareceu um Cometa e desapareceu com pouca interpolação de tempo; Fizeram-se vários juízos sobre ele e um Astrólogo, não de grande fama, chamado Meslino, saiu a luz com um tratado breve, mas admirável, pela promessa que nele fez, dizendo: Que aquele Cometa apontava para o ano de 1604 e que neste havia de aparecer no Céu uma nova estrela, no mesmo lugar, em que o Cometa havia desaparecido. Foi recebida esta predição com riso de todos os outros Matemáticos, como coisa que por nenhum modo se podia saber naturalmente, nem ainda conjecturar. Eis que, passados vinte e quatro anos, no de 1604, aparece no mesmo lugar onde estivera o Cometa, uma estrela novamente nascida e nunca vista no Céu. Triunfou Meslino (que ainda vivia) da irrisão dos seus émulos, e estes, convencidos e atónitos, não puderam negar o mesmo que estavam vendo; E concordaram uniformemente os mais sábios, em que aquela nova estrela predizia um novo Rei; Mas todos ignoravam qual, e onde, e quando; Até que, correndo os tempos, mostrou o efeito (se é que havemos de dar crédito a uma tão maravilhosa consonância e proporção de coisas) que o Cometa desaparecido no ano de 1580 foi o Cardeal Rei Dom Henrique, que no mesmo ano morreu; E que a nova estrela, índice do novo Rei, nascida no ano de 1604, significava o Duque Dom João, nascido no mesmo ano; e depois seguindo-se a Dom Henrique na série dos Reis Portugueses, sendo aclamado novo Rei de Portugal, no ano de 1640. Estes dois anos, da Aclamação e Natalício, pela transposição mútua das últimas letras do algarismo, são correlativos um do outro; e o efeito mostrou que o Natalício de 1604 foi profecia do de 1640 da Aclamação. O lugar onde desapareceu o Cometa e apareceu a nova estrela, confirmou por modo admirável que ambas aquelas línguas do Céu falavam com este Reino: Porque ambas apareceram no Signo Sagitário, que domina sobre Espanha, e no Serpentário, demonstrando nomeadamente a Portugal, que tem por timbre a Serpente. Assim predizia o Céu, por alta providência, com raios de luz os sucessos deste Reino, destinado para Império de Cristo.

Pe. Francisco de Santa Maria in «Ano Histórico, Diário Português: Notícia Abreviada de pessoas grandes e coisas notáveis de Portugal», 1744.

§

Relembro que a Restauração de 1640 foi igualmente profetizada pela Venerável Leonor Rodrigues.

A terceira aclamação de D. João IV


Três vezes foi aclamado El-Rei Dom João IV. A primeira, no primeiro de Dezembro de 1640 pelos quarenta Fidalgos a que chamamos (como por antonomásia) os da Aclamação. A segunda, aos quinze do mesmo mês e ano, por todos os Prelados, Títulos, Fidalgos e Ministros, que então se achavam em Lisboa. A terceira, neste dia [28 de Janeiro] ano de 1641, por todo o corpo da Nação, congregado em Côrtes, as quais se compõem dos três Estados: Eclesiástico, Nobreza e Povo. Juntos, pois, na grande Sala do Palácio, todos os que naquela função tinham lugar, saiu El-Rei a um Trono, que estava prevenido e ornado com muita grandeza. Vinha vestido de pardo, bordado de ouro, com botões de rubis e riquíssimo colar de pedraria, de que trazia pendente o Hábito de Cristo, com Opa roçagante de borcado, forrada de tela branca com flores de ouro e prata, e na mão direita o Ceptro de ouro, que na Batalha de Aljubarrota foi tomado a El-Rei Dom João I de Castela. Vinha à mão direita d'El-Rei o Príncipe Dom Teodósio, seu filho, que então era de sete anos, vestido de tela branca com capa de gorgorão negro, forrada da mesma tela, e guarnecida de passamanes de ouro. Trazia ao pescoço um rico colar e no chapéu um riquíssimo cintilho de diamantes com plumas de martinetes. Fazia o ofício de Condestável o Marquês de Ferreira, Dom Francisco de Melo, e assistiam nos seus lugares e ministérios, os oficiais da casa, cada um com a insígnia do seu cargo. Assentados, sua Majestade e Alteza, e logo todo o mais congresso, feita a prática pelo Bispo de Elvas, D. Manuel da Cunha, fizeram todos juramento, preito e menagem a Sua Majestade, como a seu verdadeiro Rei e natural Senhor, e a Sua Alteza, como a Príncipe herdeiro e sucessor destes Reinos.

Pe. Francisco de Santa Maria in «Ano Histórico, Diário Português: Notícia Abreviada de pessoas grandes e coisas notáveis de Portugal», 1744.

A el-Rei D. João IV


Que logras Portugal? Um rei perfeito.
Quem o constituiu? Sacra piedade.
Que alcançaste com ele? A liberdade.
Que liberdade tens? Ser-lhe sujeito.

Que tens na sujeição? Honra e proveito.
Que é o novo rei? Quase deidade.
Que ostenta nas acções? Felicidade.
E que tem de feliz? Ser por Deus feito.

Que eras antes dele? Um labirinto.
Que te julgas agora? Um firmamento.
Temes alguém? Não temo a mesma Parca.

Sentes alguma pena? Uma só sinto.
Qual é? Não ser um mundo, ou não ser cento.
Para ser mais capaz de tal Monarca.

Sóror Violante do Céu (1602-1693)

Viva a Restauração de 1640!



Na Era de 1639, um ano antes da Aclamação deste Reino, teve esta visão a Venerável Serva de Deus Leonor Rodrigues, na qual viu o Duque de Bragança sentado num Trono Real, e a Santa Teresa [de Ávila] que com a mão esquerda lhe metia um ceptro na mão; e deu-se a entender a esta Serva de Deus, que dali a um ano teriam os Portugueses Rei natural, por intercessão da Santa, e por estar a sua mão esquerda em Portugal; por isso com esta mão lhe punha o ceptro, e não com a direita. Assim se cumpriu no ano seguinte de 1640.

Viva o 1º de Dezembro! Viva Portugal!


Episódios:
A – A morte do traidor Miguel de Vasconcelos.
B – A Restauração é proclamada entre a população de Lisboa.
C – D. João IV é jurado Rei de Portugal.
D – D. João IV é coroado Rei de Portugal.

1º de Dezembro: Dia da Restauração


A guerra de Portugal com Castela é tão antiga, que começou juntamente com o mesmo Reino e seus primeiros Príncipes, e há mais de 500 anos que dura. Pelo que nem esta guerra se deve de ter por coisa nova, nem se deve de fazer da nossa parte por modo novo; mas termos por certo, que seguindo-se os meios por onde se conservaram os nossos Reis, teremos na ocasião presente a mesma segurança e bons sucessos contra Castela, que por tantos séculos tivemos.

Pe. Manuel Severim de Faria in «Notícias de Portugal», 1655.

§

As palavras citadas são de um chantre e cónego da Sé de Évora, contemporâneo da Guerra da Restauração, na qual Portugal se defendeu da usurpação espanhola. E são também palavras que refutam a absurda e revolucionária tese da Aliança Peninsular... Em relação a Espanha, os nossos antepassados sempre mantiveram uma atitude de um prudencial afastamento, daí o famoso adágio popular: De Espanha, nem bom vento, nem bom casamento. Mas foi preciso que viessem uns certos intelectuais no século XIX e XX, para nos ensinar o contrário daquilo que sempre fizemos... E se é por razão de ignorância que hoje também alguns caem nesse mesmo erro, pois que façam como indica o Padre Severim de Faria: "...seguindo-se os meios por onde se conservaram os nossos Reis, teremos na ocasião presente a mesma segurança e bons sucessos... que por tantos séculos tivemos". Que nos reportemos, pois, à nossa Tradição Portuguesa e às suas fontes originárias, e não a modernos autores com as suas subjectivas interpretações, por mais bem-intencionados que alguns possam ter sido.

Sobre Espanha e a Restauração de 1640

1128 e 1640

Pela morte formosíssima de D. Sebastião, em Alcácer Quibir, em 1578, o trono de Portugal ficou virtualmente vago, pois o Cardeal D. Henrique, pelo seu estado e pela sua idade, não podia assegurar a continuidade da dinastia. E pelo seu falecimento em 1580, a Corôa portuguesa, ocupada desde o seu início, em 1128, pelo Rei de Portugal, estava à mercê do mais forte: o mais forte era, nesse tempo, D. Filipe II de Castela. E o Estado português teve que suportar a afronta de passar a ser dirigido e governado pelo Rei castelhano.
Durou a afronta, que ainda hoje nos vexa e revolta, sessenta anos...
Em 1640, Portugueses leais, na Nobreza, no Clero e no Povo, agrupado à volta do Duque de Bragança, D. João, português de melhor têmpera, e diplomata da melhor escola, repetiram a façanha dos seus Antepassados de 1128.
Se estes repeliram e expulsaram da terra portuguesa, os galegos e leoneses seus inimigos, os portugueses de 1640 repeliram e expulsaram os castelhanos, tão seus inimigos, ou mais do que os outros.
«Que es esto, portugueses, onde está vuestra fidelidad?» – perguntava, pasmada, a Duquesa de Mântua, vice-Rainha de Portugal, em 1 de Dezembro de 1640, aos Nobres que lhe tinham invadido o Palácio.
E os Nobres, muito serenos, pela boca de D. Carlos de Noronha, responderam-lhe que estivesse quietinha, para não terem de lhe faltar ao respeito.
«A mi? Como?!» – retorquiu, irada, a Duquesa. E, sereno, D. Carlos de Noronha, a tranquilizá-la, e em linguagem de hoje: «Como? Baldeando V. A. por uma dessas janelas fora...»
É das páginas mais bonitas da nossa história, essa que se escreveu em 1 de Dezembro de 1640, – com valentia, com elegância, com habilidade, com um desprezo soberano pela morte.
À frente de todos, e a destacar-se pela acção prudente e firme, a figura varonil, bem desenhada, bem personalizada, do Duque de Bragança que uma História ignóbil, apostada a desvirilizar Portugal, a envergonhar Portugal de si mesmo, a desacreditar Portugal, nos ensinou a ter como figurino de poltrões.
Que fez o Duque de Bragança?
Responda, por mim, um homem insuspeito – insuspeito porque despido de toda a espécie de ambições; insuspeito, porque superiormente culto; insuspeito, porque de feitio avesso a lisonjas, antes acusado de excessivamente azedo nos seus juízos – Joaquim de Vasconcelos, erudito notável:
«Restaurar o reino em todo o sentido, reorganizar a administração, restabelecer as finanças, criar os complicados elementos de defesa, reconquistar quase todas as possessões de África e todo o Brasil, criar a Junta Geral do Comércio, negociar alianças valiosas, tudo isto em dezasseis anos... parece-nos uma obra digna de admiração e do nosso respeito, ainda que não fossem conhecidas as circunstâncias dificílimas em que estes trabalhos foram executados».
É este o D. João IV que os factos, as realidades, autorizam e levam a criar, e não o que formam as calúnias e misérias que aquela História anti-portuguesa tem forjado a seu respeito.
Foi D. João IV vítima dessa História infame. E com ele, a nobre Dinastia de Bragança, que, a despeito do desventurado D. Afonso VI, personagem ainda insuficientemente definida e, portanto, deformadamente julgada, se mostrou digna continuadora da acção admirável das dinastias suas predecessoras.
A Restauração começou em 1 de Dezembro de 1640. Mas foi uma rude e longa campanha que durou vinte e sete anos – desde aquela data até 13 de Fevereiro de 1668, e ocupou três reinados, os de D. João IV, D. Afonso VI e os três primeiros tempos de D. Pedro II.
Portugal aureolou-se de glória militar, – pelas notáveis vitórias alcançadas nos campos de batalha; de glória cívica, – pela tenacidade que revelou, pelo espírito de sacrifício de que deu exemplo constante; e de glória diplomática – pela posição que conquistou nas chancelarias europeias.
Como em 1128, como em 1383, como em 1580 – o inimigo está na fronteira de leste. Use ele as máscaras que usar; seja ele o arauto de que ideologias quiser; revista ele a forma política que revestir, o vizinho de leste é sempre o inimigo.
D. Afonso I sujeitou-o à sua espada, obrigando-o a reconhecer o nosso direito e a respeitar-nos; D. João I e o Condestável obrigaram-no a beijar o pó de Aljubarrota e a fugir desvairado para além das fronteiras; os generais da Restauração – naqueles campos famosos das linhas de Elvas, do Canal, de Montes Claros, derrotaram-no em sucessivos combates. Inimigo vencido – mas não convencido.
Pode, às vezes, dar-nos a impressão de adormecido ou desinteressado, com as unhas encolhidas, quase inofensivo. Não nos iludamos! O inimigo está vencido, mas não está convencido. E a toda a hora, seja qual fôr a sua posição no quadro dos acontecimentos do mundo, – ele vive da saudade indominada de 1580 a 1640, e da esperança de recomeçar 1580.
Desgraçadamente, cá dentro, há quem lhe alimente essa saudade, e lhe fortaleça essa esperança, sob o disfarce traiçoeiro da Aliança Peninsular ou da Hispanidade.
Devemos aos Humanistas – espíritos internacionalizados, isto é, desnacionalizados, cidadãos do mundo e não das suas pátrias, devemos, aos Humanistas do século XVI, esse conceito perigoso e falso do Hispanismo. Até o nosso Camões se deixou seduzir pelo canto da sereia maldita.
Perdão! Portugal nunca foi Espanha; foi sempre Portugal!
Quando D. Afonso VII se proclamou Imperador, em Toledo, em Junho de 1135, passou a designar-se nos diplomas da sua Chancelaria, «totius Hispanie Imperator», ou «Imperator hispaniorum», ou «hispaniarum Imperator»; e este título que Afonso VIII transformou em «Ispanorum rex», mostra claramente que Portugal não fazia parte das Espanhas, nem da Espanha, e os portugueses não pertenciam à grei dos espanhóis.
De resto, o termo Hispania, tão simples, à primeira vista, é muito mais complicado do que se supõe. Em muitos documentos dessa época, denomina-se Hispania tudo o que na Península está ainda em poder dos mouros. São vulgares as expressões de Hispania ou venire de Hispania ou ire de Hispania, como referindo-se a terras da Península ainda não conquistadas por cristãos. E Petter Rassow que isto nos revela, acrescenta que «Valencia, Murcia, Cordoba, y Malaga son las partes o terras de Hispania».
Seja como fôr, o que é indiscutível é que Portugal era Portugal, e nunca, ninguém, na Idade Média, concebeu a Espanha como abrangendo também Portugal, nem os Reis desse tempo, dizendo-se «de Hespanha», se supunham de Portugal.
Foi preciso que viessem os Humanistas do século XVI, com as suas invencionices, para que se criasse um conceito colectivo de Hispanidade, que prendesse no mesmo elo, ou fundisse no mesmo sangue, a Espanha e Portugal, como se entre uma e outro não houvesse um abismo que ninguém pode transpôr.
Esse conceito colectivo despertou ultimamente, na pena de António Sardinha, e na acção proselítica do desventurado Ramiro de Maeztu, assassinado canibalescamente pelas hordas vermelhas de Madrid, mas é preciso fazer-lhe frente, e negar-lhe passaporte de trânsito em terras de Portugal.
Compreendo que ele seduza o inimigo tradicional de Portugal; espíritos portugueses não pode seduzi-los, uma vez que não estejam doentes.
Não! A leste o inimigo – contra quem devemos ter sempre preparadas as nossas forças, as nossas energias, as nossas vontades, e as nossas vidas. Isto não significa que lhe queremos mal: quer dizer, sim, que nos queremos bem a nós próprios...
E o que acabo de dizer não se opõe a que possamos observar certos momentos de entendimento ou colaboração, como durante a última guerra de Espanha, ou como na hora que passa. Esses momentos são filhos de tendências pessoais deste ou daquele governante: não reflectem sentimentos colectivos. Tivemos desses momentos, depois de 1128 – o que não impediu 1385; voltamos a tê-los posteriormente, e nem por isso escapamos a 1580. É que acima das atitudes pessoais deste ou daquele homem de Estado – estão as condições psicológicas e as tradições históricas dos Povos, que nos impõem a verificação permanente das realidades, e nos defendem dos perigos das ilusões ocasionais.

Alfredo Pimenta in «A Fundação e a Restauração de Portugal», 1940.

Restauração: visão da Venerável Leonor Rodrigues


Gravura do século XVII ou XVIII representando Santa Teresa de Ávila (espanhola) e Dom João IV, onde se lê a seguinte descrição a respeito de uma visão da Venerável Leonor Rodrigues:

Na Era de 1639, um ano antes da Aclamação deste Reino, teve esta visão a Venerável Serva de Deus Leonor Rodrigues, na qual viu o Duque de Bragança sentado num Trono Real, e a Santa Teresa que com a mão esquerda lhe metia um ceptro na mão; e deu-se a entender a esta Serva de Deus, que dali a um ano teriam os Portugueses Rei natural, por intercessão da Santa, e por estar a sua mão esquerda [relíquia] em Portugal; por isso com esta mão lhe punha o ceptro, e não com a direita. Assim se cumpriu no ano seguinte de 1640.

Sobre a Venerável Leonor Rodrigues, pode ler-se no «Ano Histórico»:

A Venerável Leonor Rodrigues foi natural da Vila de Mourão da Província de Alentejo. Na Cidade de Évora tomou o hábito de Terceira Carmelita Descalça, e por grandes mestres espirituais desta Religião [ordem religiosa] foi dirigida por espaço de cinquenta anos contínuos. Era dotada de muitas virtudes. Teve espírito penitente, extático, milagroso, e profético. Depois da preciosa morte que teve neste dia [11 de Abril], ano de 1639, ficou como se estivera viva, tratável e flexível [corpo incorrupto]. Toda a Cidade a venerou sempre, e acompanhou o seu enterro até à sepultura, que se lhe deu na Igreja do Convento dos Remédios de Carmelitas Descalços.

Sobre o 1º de Dezembro de 1640


Quem negará ser o melhor dia de Portugal o primeiro de Dezembro, em que se viu sujeito a Vossa Majestade, e livre do governo d'el-Rei D. Filipe IV de Castela? Não digo que se viu livre Portugal então de um mau Príncipe, porque o decoro que se deve às Majestades, o não permite, nem as excelências pessoais d'el-Rei católico poderão nunca ser menoscabadas. De um mau governo digo, que se livrou justamente, e nesta parte não fica ofendida a católica Majestade, a quem sempre veneraremos, pelo que foi enquanto tolerado Rei deste Reino... Nunca da nação Portuguesa, observantíssima veneradora dos Príncipes que teve, emanarão indecências descorteses, contra a imunidade de Príncipe tão grande. (...)
Nas Crónicas de São Francisco se conta que estando o Seráfico Patriarca em Portugal, vaticinara que nunca este Reino havia de ser unido a Castela. Muitos, que, sem considerar as coisas as desestimam, negavam esta predicação vendo que entrou Filipe II na herança do Reino: mas ainda assim sustentava o doutíssimo Padre Frei Lucas Wandingo, cronista da mesma Ordem, ser verdadeira a profecia do Santo, porque ainda que unidos os Reinos de Portugal e Castela num herdeiro, entre si eram distintos, tanto que os naturais de um Reino se reputavam por estrangeiros no outro; a moeda era diferente e as provisões se passavam em diferentes línguas, em forma que se não podiam chamar Reinos unidos. Intentou nos dois anos passados a soberba Castelhana apertar mais o ponto, e fazer que esta união de Reinos, que havia na pessoa do injusto possuidor, estivesse também entre os mesmos Reinos. Aqui acudiu São Francisco, e mostrou com efeito o entendimento de sua profecia, que era não ser Portugal nunca unido a Castela, e assim quando naquele Reino pretendiam a união de ambos, executámos nós a total separação...

Frei Francisco Brandão in «Discurso gratulatório sobre o dia da feliz restituição e aclamação da Majestade d'el-Rei D. João IV N. S.», 1642.

A el-Rei D. João IV


Que logras Portugal? Um rei perfeito.
Quem o constituiu? Sacra piedade.
Que alcançaste com ele? A liberdade.
Que liberdade tens? Ser-lhe sujeito.

Que tens na sujeição? Honra e proveito.
Que é o novo rei? Quase deidade.
Que ostenta nas acções? Felicidade.
E que tem de feliz? Ser por Deus feito.

Que eras antes dele? Um labirinto.
Que te julgas agora? Um firmamento.
Temes alguém? Não temo a mesma Parca.

Sentes alguma pena? Uma só sinto.
Qual é? Não ser um mundo, ou não ser cento.
Para ser mais capaz de tal Monarca.

Sóror Violante do Céu (1602-1693)

Restauração


Portugueses, celebremos
O dia da Redenção.
Em que valentes Guerreiros
Nos deram, livre, a Nação.
A Fé dos Campos d'Ourique,
Coragem deu, e Valor,
aos Famosos de Quarenta,
que lutaram com Ardor.
P'rá frente! P'rá frente!
Repetir saberemos
As proezas portuguesas.
Avante! Avante!
É a voz que soará triunfal.
Vá avante, Mocidade de Portugal!

Hino da Restauração (Versão Resumida)