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Fátima e a perseguição republicana (hoje)


O Santuário de Fátima está a ser fortemente vigiado por milhares de militares da GNR, que garantem que nenhum peregrino possa entrar no recinto de oração. A notícia é avançada pela edição em papel do CM deste Sábado, que dá conta que a operação de segurança, montada pela GNR, tem como objectivo o não acesso àquele local sem uma justificação plausível por parte de quem entra e com a devida autorização por parte dos responsáveis da Igreja.
A operação vai decorrer em duas fases, até terça-feira. Os militares vão impedir o acesso ao Santuário, parques de estacionamento, entre outras áreas envolventes. Já na estrada, a operação começa nas entradas da Cova da Iria, onde vai decorrer uma operação de sensibilização aos peregrinos e o aconselhamento a voltarem para casa.
Nesta operação está envolvida toda a logística da GNR, que tem no terreno 3500 militares. Os dias mais complicados vão ser a 12 e 13 de Maio, onde a GNR terá no terreno uma força visível para que possa proibir qualquer acesso ao recinto de orações, entre militares apeados, a cavalo, com cães e elementos da unidade de intervenção. Fátima vai ser um autêntico forte a proteger, não de vândalos, mas sim de peregrinos que ficam privados às celebrações de Fátima.
Na prática todos os caminhos de acesso ao Santuário vão estar vedados, mas outros locais também estão na mira das autoridades, como a aldeia de Aljustrel, onde nasceram os três pastorinhos (Lúcia, Francisco e Jacinta), os Valinhos, local da Aparição de Agosto, e a própria Via-Sacra.

Fonte: «Diário do Distrito», 9 de Maio de 2020.

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Antes, a perseguição das forças maçónico-republicanas era aberta e declarada, feita em nome do ateísmo e contra a vontade das autoridades eclesiásticas. Agora, a perseguição das forças maçónico-republicanas é velada e ardilosa, feita em nome da "saúde pública" e com a cumplicidade das autoridades eclesiásticas.
Como bem ensinou Santo Agostinho: Tal como aos nossos pais era necessária a paciência no combate contra o leão, assim também nós precisamos de vigilância contra o dragão. No entanto, a perseguição, seja do leão, seja do dragão, nunca cessa para a Igreja; e é mais temível quando engana, do que quando se enfurece. Naquele tempo queria forçar os cristãos a negarem a Cristo; agora ensina os cristãos a negarem a Cristo. Então coagia, agora ensina. Então era violenta, agora é insidiosa. Então era furiosa, agora é cativante e sem aparência de erro.

Fátima e a perseguição republicana (ontem)

Capelinha das Aparições: ataque bombista de 6 de Março de 1922

Parte do relatório do Administrador do Concelho de Ourém, o maçon republicano Artur de Oliveira Santos, ao Governador Civil do Distrito de Santarém:
Fátima é hoje, no País, uma etapa da Reacção, que procura ponto de apoio para base da sua resistência. O facto de se não ter impedido eficazmente a peregrinação deveu-se simplesmente a terem as forças armadas chegado tarde. É certo que foram postas à minha disposição forças das unidades mais próximas porque aquelas que chegaram no dia 12, à tarde, eram insuficientíssimas, mas, requisitando mais, tinha dois caminhos que trariam para o Regime inconvenientes novos.
As forças que eu requisitasse das unidades mais próximas, só aqui chegariam no dia 13. Ora no dia 12, já estavam em Fátima, seguramente, 25 000 pessoas. Com o auxílio de novas forças poderia eu ter ido a Fátima dispersar 50 000 a 60 000 pessoas? O sangue que fatalmente correria não seria uma arma terrível contra o Governo e contra o Regime? Por outro lado, não me utilizando a força, cairia, pelo menos, no ridículo, e não querendo, por princípio algum, desobedecer a V. Ex.ª, preferi não requisitar mais a tropa e mandar a pequena força para onde fora requisitada, fora do local da Cova de Iria, tanto mais que a mesma força seria suficiente para impedir a saída da procissão de Fátima, caso teimassem em realizá-la, o que, todavia, não era preciso, pois que eu já tinha conseguido impedir a sua realização por outros meios mais suasórios, embora não deixassem de causar receio ao pároco da freguesia e a outras pessoas.
Às 22 horas da noite de 12, veio o Dr. Andrade e Silva (a pedido da Sr.ª D.ª Madalena Serrão Machado, que tem feito a perigosa propaganda da cura do cancro pelas águas pluviais da Cova de Iria) pedir a realização da procissão. Neguei-lhe terminantemente permissão para esta e fiz-lhe saber que no dia 13, prenderia o pároco da freguesia. Pediu-me então aquele cidadão que tal não fizesse, tão convencido estava o Dr. Andrade e Silva de que eu tinha esse intuito.
Na comunicação enviada a V. Ex.ª, julgo que em 10 do corrente mês, frisava eu que havia duas maneiras de intervir: 1ª) O Governo mobilizaria os meios de transporte em diversos distritos; 2ª) ou, então, a Guarda Republicana impediria que se realizassem actos de culto externo. Embora, como V. Ex.ª sabe, me prejudique materialmente continuar por muito tempo neste lugar, que V. Ex.ª se dignou confiar-me, eu não terei essa dúvida, se assim for preciso, de nele me conservar, porque nunca hesitei no cumprimento dos deveres de republicano, que me prezo de ser, desde há longos anos.
A Reacção vai triunfando, hipocritamente, e a Liberdade perde terreno, fazendo-lhe concessões. Aquela está fora da lei, e é necessário metê-la na ordem. Julgo que há maneira de jugular a Reacção da Cova de Iria. Quando o Governo não possa, ou, para melhor dizer, não queira mobilizar os meios de transporte em diversos distritos, tomar-se-iam, a pouca distância da Cova de Iria, as embocaduras das estradas que conduzem a Fátima, anunciando-se devidamente o caso com certa antecedência. Fazendo isto, durante meses consecutivos estou certo que a Reacção sofreria um grande golpe, deixando a pretensão de ter um Estado dentro do Estado.
Junto vários documentos.
Saúde e fraternidade!
Vila Nova de Ourém, 31 de Outubro de 1924.
O Delegado do Governo encarregado do inquérito,
Artur de Oliveira Santos

Centenário da morte da Pastorinha Jacinta


A Jacinta tomou tanto a peito os sacrifícios pela conversão dos pecadores, que não deixava escapar ocasião alguma. Havia umas crianças, filhos de duas famílias da Moita [Redonda], que andavam pelas portas a pedir. Encontrámo-las, um dia, quando íamos com o nosso rebanho. A Jacinta, ao vê-los, disse-nos:
– Damos a nossa merenda àqueles pobrezinhos, pela conversão dos pecadores?
E correu a levar-lha. Pela tarde, disse-me que tinha fome. Havia ali algumas azinheiras e carvalhos. A bolota estava ainda bastante verde, no entanto disse-lhe que podíamos comer dela. O Francisco subiu a uma azinheira para encher os bolsos, mas a Jacinta lembrou-se que podíamos comer da dos carvalhos, para fazer o sacrifício de comer a amarga. E lá saboreámos, aquela tarde, aquele delicioso manjar! A Jacinta tomou este por um dos seus sacrifícios habituais. Colhia as bolotas dos carvalhos ou a azeitona das oliveiras.
Disse-lhe um dia:
– Jacinta, não comas isso, que amarga muito.
– Pois é por amargar que o como, para converter os pecadores.
Não foram só estes os nossos jejuns. Combinámos, sempre que encontrássemos os tais pobrezinhos, dar-lhes a nossa merenda; e as pobres crianças, contentes com a nossa esmola, procuravam encontrar-nos e esperavam-nos pelo caminho. Logo que os víamos, a Jacinta corria e levar-lhes todo o nosso sustento desse dia, com tanta satisfação, como se não lhe fizesse falta. Era, então, o nosso sustento, nesses dias: pinhões, raízes de campainhas (é uma florzinha amarela que tem na raiz uma bolinha do tamanho de uma azeitona), amoras, cogumelos e umas coisas que colhíamos na raiz dos pinheiros, que não me lembro agora como se chamam; ou fruta, se a havia perto, em alguma propriedade pertencente a nossos pais.
A Jacinta parecia insaciável na prática do sacrifício. Um dia, um vizinho ofereceu a minha mãe uma boa pastagem para o nosso rebanho; mas era bastante longe e estávamos no pino do Verão. Minha mãe aceitou o oferecimento feito com tanta generosidade e mandou-me para lá. Como havia perto uma lagoa, onde o rebanho podia ir beber, disse-me que era melhor passarmos lá a sesta, à sombra das árvores. Pelo caminho, encontrámos os nossos queridos pobrezinhos e a Jacinta correu a levar-lhes a esmola. O dia estava lindo, mas o sol era ardente; e naquela pregueira árida e seca, parecia querer abrasar tudo. A sede fazia-se sentir e não havia pinga d'água para beber! A princípio, oferecíamos o sacrifício com generosidade, pela conversão dos pecadores; mas, passada a hora do meio-dia, não se resistia.
Propus, então, aos meus companheiros, ir a um lugar, que ficava cerca, pedir uma pouca de água. Aceitaram a proposta e lá fui bater à porta de uma velhinha que, ao dar-me uma infusa com água, me deu também um bocadinho de pão que aceitei com reconhecimento e corri a distribuir com os meus companheiros. Em seguida, dei a infusa ao Francisco e disse-lhe que bebesse.
– Não quero beber – respondeu.
– Por quê?
– Quero sofrer pela conversão dos pecadores.
– Bebe tu, Jacinta!
– Também quero oferecer o sacrifício pelos pecadores!
Deitei, então, a água numa cova de uma pedra, para que a bebessem as ovelhas e fui levar a infusa à sua dona. O calor tornava-se cada vez mais intenso. As cigarras e os grilos juntavam o seu cantar ao das rãs da lagoa vizinha e faziam uma grita insuportável.
A Jacinta, debilitada pela fraqueza e pela sede, disse-me, com aquela simplicidade que lhe era habitual:
– Diz aos grilos e às rãs que se calem! Dói-me tanto a minha cabeça!
Então, o Francisco perguntou-lhe:
– Não queres sofrer isto pelos pecadores?!
A pobre criança, apertando a cabeça entre as mãozinhas, respondeu:
– Sim, quero. Deixa-as cantar.

Irmã Lúcia in «Memórias da Irmã Lúcia», 1976.

13 de Outubro: Milagre do Sol


Vou relatar de uma maneira breve e concisa, sem frases que velem a verdade, o que vi em Fátima no dia 13 de Outubro de 1917.
As horas a que me referirei são as que nessa época marcavam oficialmente o tempo, segundo a determinação do governo que unificara a nossa hora com a dos países beligerantes. Faço isto para maior verdade, pois não me era fácil designar com precisão o momento em que o sol alcançou o zénite.
Cheguei ao meio-dia. A chuva que desde manhã caía miúda e persistente, tocada de um vento agreste, prosseguira irritante, na ameaça de querer tudo liquefazer.
O céu baço e pesado tinha uma cor pardacenta, prenhe de água, prenúncio de chuva abundante e de longa duração.
Quedei-me na estrada, ao abrigo da capota do automóvel e um pouco sobranceiro ao local que diziam ser o da aparição, não ousando meter-me no lamaçal barrento e pegajoso do campo frescamente lavrado. Estaria a pouco mais de cem metros dos elevados postes, que uma tosca cruz encimava, vendo distintamente em redor deles o largo círculo de gente que, com os guarda-chuvas abertos, parecia um vasto sobrado de broquéis.
Pouco depois de uma hora, chegaram a este sítio as crianças a quem a Virgem (garantiam elas) marcara lugar, dia e hora da aparição. Ouviam-se os cânticos entoados pelo povo que as cercava.
Numa determinada altura, esta larga massa, confusa e compacta, fechou os guarda-chuvas e descobriu-se num gesto que devia ser de humildade ou respeito, mas que me deixou surpreso e admirado, porque a chuva, numa continuidade cega, molhava agora cabeças, encharcava e ensopava. Disseram-me depois que esta gente, que acabou por ajoelhar na lama, tinha obedecido à voz de uma criança.
Devia ser uma e meia (treze e meia) quando se ergueu, no local preciso onde estavam as crianças, uma coluna de fumo, delgada, ténue e azulada, que subiu direita até dois metros, talvez, acima das cabeças para nessa altura se esvair. Durou este fenómeno, perfeitamente visível a olho nu, alguns segundos. Não tendo marcado o tempo da duração, não posso afirmar se foi mais ou menos de um minuto. Dissipou-se bruscamente o fumo e passado algum tempo voltou a repetir-se o fenómeno, uma segunda e uma terceira vez. Das três vezes, e sobretudo da última, destacaram-se nitidamente os postes esguios na atmosfera cinzenta.
Dirigi para lá o binóculo. Nada consegui ver além das colunas de fumo, mas convencido fiquei de que eram produzidas por algum turíbulo, não agitado, em que se queimava incenso. Depois, pessoas dignas de fé, afirmaram-me que era uso produzir-se o acontecimento no dia treze dos cinco meses anteriores, e que nesses dias, como neste, nunca ali se queimara nada nem fizera fogo.
Continuando a olhar o lugar da aparição, numa expectativa serena e fria, e com uma curiosidade que ia amortecendo, porque o tempo decorrera longo e vagaroso sem que nada activasse a minha atenção, ouvi o bruaá de milhares de vozes e vi aquela multidão, espraiada pelo largo campo que se estendia a meus pés, ou concentrada em vagas compactas, em redor dos madeiros erguidos, ou sobre os baixos socalcos que retinham as terras, voltar as costas ao ponto que até então convergiam os desejos e ânsias, e olhar o céu do lado oposto.
Eram quase duas horas.
O sol, momentos antes, tinha rompido ovante a densa camada de nuvens que o tivera escondido, para brilhar clara e intensamente.
Voltei-me para este íman que atraía todos os olhares e pude vê-lo semelhante a um disco, de bordo nítido e aresta viva, luminosa e luzente, mas sem magoar.
Não me pareceu bem a comparação, que ainda em Fátima ouvi fazer, de um disco de prata fosca. Era uma cor mais clara, activa e rica, e com cambiantes, tendo como que o oriente de uma pérola. Em nada se assemelhava à lua em noite transparente e pura, porque se via e sentia-se ser um astro vivo.
Não era como a lua, esférica, não tinha a mesma tonalidade nem os claros-escuros. Parecia uma rodela brunida cortada no nácar de uma concha. Isto não é uma comparação banal de poesia barata. Os meus olhos viram assim; também não se confundia com o sol encarado através de nevoeiro (que aliás não havia àquele tempo), porque não era opaco, difuso e velado. Em Fátima tinha luz e calor, e desenhava-se nítido e com toda a borda cortada em aresta, como uma tábula de jogo.
A abóbada celeste estava enevoada de cirros leves, tendo frestas de azul aqui e acolá, mas o sol algumas vezes se destacou em rasgões de céu limpo. As nuvens que corriam ligeiras de poente para oriente, não empanavam a luz (que não feria) do sol, dando a impressão facilmente compreensível e explicável de passar por detrás; mas por vezes esses flocos, que vinham brancos, pareciam tomar, deslizando ante o sol, uma tonalidade rosa ou azul diáfana.
Maravilhoso é que, durante longo tempo, se pudesse fixar o astro, labareda de luz e brasa de calor, sem uma dor nos olhos e sem um deslumbramento na retina, que cegasse.
Este fenómeno, com duas breves interrupções, em que o sol bravio arremessou os seus raios mais coruscantes e refulgentes, e que obrigaram a desviar o olhar, devia ter durado cerca de dez minutos.
Este disco nacarado tinha a vertigem do movimento. Não era a cintilação de um astro em plena vida. Girava sobre si mesmo numa velocidade arrebatada.
De repente, ouve-se um clamor, como que um grito de angústia de todo aquele povo. O sol, conservando a celeridade da sua rotação, destaca-se do firmamento e sanguíneo avança sobre a terra, ameaçando esmagar-nos com o peso da sua ígnea e ingente mó. São segundos de impressão terrífica.
Durante o acidente solar, que detalhadamente tenho vindo a descrever, houve na atmosfera coloridos impressionantes. Não posso precisar bem a ocasião, porque já lá vão dois meses passados e eu não tomei notas. Lembra-me que não foi logo no princípio e antes creio que foi para o fim.
Estando a fixar o sol, notei que tudo escurecia à minha volta.
Olhei o que estava perto e alonguei a vista até ao extremo horizonte, e vi tudo cor de ametista. Os objectos, o céu e a camada atmosférica tinham a mesma cor. Uma carvalheira arroxeada, que se erguia na minha frente, lançava sobre a terra uma sombra carregada.
Receando ter sofrido uma afecção da retina, hipótese pouco provável, porque, dado este caso, não devia ver as coisas de roxo, voltei-me, cerrei as pálpebras e retive-as com as mãos para interceptar toda a luz. Ainda de costas, abri os olhos e reconheci que, como antes, a paisagem e o ar continuavam da mesma cor roxa.
A impressão que se tinha não era de eclipse. Vi um eclipse do sol, que em Viseu, onde eu estava, foi total. À medida que a lua marcha a esconder o sol, a luz vai-se acinzentando até que tudo se torna baço e negro. A vista alcança um pequeno círculo, para lá do qual os objectos se vão tornando cada vez mais confusos, até que se perdem no negrume. Baixa a temperatura consideravelmente e dir-se-á que a vida da terra se extinguiu. Em Fátima, a atmosfera, embora roxa, permaneceu transparente até aos confins do horizonte, que se distingue e vê claramente, e eu não tive a sensação de uma paragem na energia universal.
Continuava a olhar o sol, reparei que o ambiente tinha aclarado. Logo depois ouvi um campónio, que cerca de mim estava, a dizer com voz de pasmo: «Esta senhora está amarela!»
De facto, tudo agora mudara, perto e distante, tomando a cor de velhos damascos amarelos. As pessoas pareciam doentes e com icterícia. Sorri-me de as achar francamente feias e desairosas. Ouviram-se risos. A minha mão tinha o mesmo tom amarelo.
Dias depois, fiz a experiência de fixar o sol uns breves instantes. Retirada a vista, vi após alguns momentos manchas amarelas, irregulares na forma. Não se vê tudo de uma cor uniforme, como se no ar se tivesse volatilizado um topázio, mas umas nódoas ou malhas que com o movimento do olhar se deslocam.
Todos estes fenómenos que citei e descrevi, observei-os eu sossegada e serenamente sem uma emoção ou sobressalto.
A outros cumpre explicá-los ou interpretá-los.
Para terminar, devo fazer a afirmação de que nunca, nem antes, nem depois do dia 13 de Outubro, vi iguais fenómenos solares ou atmosféricos.

José Maria Proença de Almeida Garrett
Professor na Universidade de Coimbra
18 de Dezembro de 1917

Jacinta Marto


Havia no nosso lugar uma mulher que nos insultava sempre que nos encontrava. Encontrámo-la, um dia, quando saía de uma taberna, e a pobre, como não estava em si, não se contentou, dessa vez, só com insultar-nos. Quando terminou o seu trabalho, a Jacinta diz-me:
– Temos que pedir a Nossa Senhora e oferecer-Lhe sacrifícios pela conversão desta mulher. Diz tantos pecados que, se não se confessa, vai para o Inferno.
Passados alguns dias, corríamos em frente da porta da casa desta mulher. De repente, a Jacinta pára no meio da sua carreira, e voltando-se para trás, pergunta:
– Olha, é amanhã que vamos ver aquela Senhora?
– É sim.
– Então não brinquemos mais. Fazemos este sacrifício pela conversão dos pecadores.
E sem pensar que alguém a podia ver, levanta as mãozinhas e os olhos ao Céu e faz o oferecimento. A mulherzinha espreitava por um postigo da casa e depois, dizia ela à minha mãe, que a tinha impressionado tanto aquela acção da Jacinta, que não necessitava doutra prova para crer na realidade dos factos. E daí para o futuro, não só não nos insultava, mas pedia-nos continuamente para pedirmos por ela a Nossa Senhora, que lhe perdoasse os seus pecados.

Irmã Lúcia in «Memórias da Irmã Lúcia», 1976.

Nossa Senhora, Rainha de Portugal

Quis a Providência que a Virgem de Fátima fosse coroada no 300º aniversário da coroação da Imaculada Conceição.

O amor ardente e reconhecido vos trouxe: e vós quisestes dar-lhe uma expressão sensível condensando-o e simbolizando-o naquela coroa preciosa, fruto de tantas generosidades e tantos sacrifícios, com que, por mão do Nosso Cardeal Legado, acabamos de coroar a Imagem taumaturga.
Símbolo expressivo, que, se aos olhos da celeste Rainha atesta o vosso filial amor e gratidão, primeiro vos recorda a vós o amor imenso, expresso em benefícios sem conta, que a Virgem Mãe tem desparzido sobre a sua «Terra de S. Maria». Oito séculos de benefícios! Os cinco primeiros sob a signa de S. Maria de Alcobaça, de S. Maria da Vitória, de S. Maria de Belém, nas lutas épicas contra o Crescente pela constituição da nacionalidade, em todos os heroísmos aventurosos dos descobrimentos de novas ilhas e novos continentes, por onde vossos maiores andaram plantando, com as Quinas, a Cruz de Cristo. Estes três últimos séculos sob a especial protecção da Imaculada, a quem o Monarca restaurador com toda a Nação reunida em Cortes aclamou Padroeira de seus Reinos e Senhorios, consagrando-lhe a coroa, com especial tributo de vassalagem e com juramento de defender, até dar a vida, o privilégio de sua Conceição Imaculada: «esperando com grande confiança na infinita misericórdia de Nosso Senhor, que por meio desta Senhora, Padroeira e Protectora de nossos Reinos e Senhorios, de quem por honra nossa nos confessamos e reconhecemos vassalos e tributários, nos ampare e defenda de nossos inimigos, com grandes acrescentamentos destes Reinos, para a glória de Cristo nosso Deus e exaltação de nossa Santa Fé Católica Romana, conversão dos Gentios e redução dos Hereges» (Auto da aclamação de Nossa Senhora da Conceição como Padroeira de Portugal, 1646).
E a Virgem fidelíssima não confundiu a esperança que n'Ela se depositava. Basta reflectir nestes três últimos decénios, pelas crises atravessadas e pelos benefícios recebidos equivalentes a séculos; basta abrir os olhos e ver esta Cova da Iria transformada em fonte manancial de graças soberanas, de prodígios físicos e muito mais de milagres morais. Que a torrentes daqui se derramam sobre todo Portugal, e de lá, rompendo pelas fronteiras, se vão espraiando por toda a Igreja e por todo o mundo.
Como não agradecer? Ou antes, como agradecer condignamente? Há trezentos anos o Monarca da restauração, em sinal do amor e reconhecimento seu e do seu povo, depôs a coroa real aos pés da Imaculada, proclamada Rainha e Padroeira. Hoje vós todos, todo o povo da Terra de Santa Maria, com os Pastores de suas almas, com o seu Governo, às preces ardentes, aos sacrifícios generosos, às solenidades eucarísticas, às mil homenagens que vos ditou o amor filial e reconhecido, juntastes aquela preciosa coroa e com ela cingistes a fronte de Nossa Senhora da Fátima, aqui neste oásis bendito, impregnado de sobrenatural, onde mais sensível se experimenta o seu prodigioso patrocínio, onde todos sentis mais perto o seu Coração Imaculado a pulsar de imensa ternura e solicitude materna por vós e pelo mundo.
Coroa preciosa, símbolo expressivo de amor e gratidão!
(...)
É que a sua realeza é essencialmente materna, exclusivamente benéfica.
E não é precisamente essa realeza que vós tendes experimentado? Não são os infindos benefícios, os carinhos inumeráveis com que vos tem mimoseado o Coração materno da augusta Rainha, que vós hoje aqui proclamais e agradeceis? A mais tremenda guerra que nunca assolou o mundo, por quatro longos anos andou rondando as vossas fronteiras, mas não as ultrapassou, graças sobretudo a Nossa Senhora, que deste seu trono de misericórdia, como de sublime atalaia, colocada aqui no centro do país, velava por vós e por vossos governantes; nem permitiu que a guerra vos tocasse, senão o bastante para melhor avaliardes as inauditas calamidades de que a sua protecção vos preservava.
Vós coroai-la Rainha da paz e do mundo, para que o ajude a encontrar a paz e a ressurgir das suas ruínas.
E assim aquela coroa, símbolo de amor e gratidão pelo passado, de fé e de vassalagem no presente, torna-se ainda, para o futuro, coroa de lealdade e esperança.
Vós, coroando a imagem de Nossa Senhora, assinastes, com o atestado de fé na sua realeza, o de uma submissão à sua autoridade, de uma correspondência filial e constante ao seu amor. Fizestes mais ainda: alistastes-vos Cruzados para a conquista ou reconquista do seu Reino, que é o Reino de Deus. Quer dizer: obrigastes-vos a trabalhar para que Ela seja amada, venerada, servida à volta de vós, na família, na sociedade, no mundo.

Papa Pio XII in «Anúncio radiofónico aos fiéis portugueses por ocasião da solene celebração da coroação de Nossa Senhora de Fátima», 13 de Maio de 1946.

Nicolau II e as aparições de Fátima

Romanov

O fenómeno das aparições de Fátima na Cova de Iria está estreitamente ligado à Rússia, porque os destinos deste País estiveram no centro de um dos seus "três segredos". Daí também a atenção dedicada no País aos acontecimentos de 13 de Maio de 1917.
Uma das questões que os estudiosos colocam é se chegaram notícias sobre as aparições na Cova da Iria ao último czar russo, Nicolau II, que, em 1917, tinha sido detido na cidade de Tobolsk e, em Julho de 1918, foi fuzilado pelos comunistas com toda a família.
Em 1975, em Nova Iorque, foi publicado o livro de memórias Casa Especial, de Charles Gibbes, preceptor do filho e das quatro filhas de Nicolau II e de Alexandra. Este inglês, que esteve com a família real russa entre Outubro de 1917 e Fevereiro de 1918, conseguiu escapar às mãos dos carrascos comunistas, regressou a Inglaterra, onde se converteu do anglicanismo à ortodoxia, e dirigiu a comunidade ortodoxa de Oxford até 1963, ano em que morreu.
Nessa obra, Charles Gibbes escreveu: "Em meados de Outubro chegaram alguns jornais, publicados nos meses de Junho e Julho. Sua Alteza mostrou-me alguns jornais onde, com títulos diferentes, se fazia a descrição do milagre de Fátima... Todos os jornais descreviam pormenorizadamente as aparições extraordinárias na azinheira na Cova da Iria, assinalando que crianças camponesas analfabetas de uma aldeiazinha remota portuguesa tinham alguma noção sobre a Rússia. Isso era simplesmente incrível!"
"No lugar de Vossa Alteza – assinalei com cuidado –, eu não prestaria especial atenção a essas notícias. Sabe como são os jornalistas e a sua eterna inclinação para os exageros. Nos países católicos, semelhantes casos como o milagre de Fátima não são uma raridade."
No entanto, segundo escreve Gibbes, Nicolau II não concordou com ele: "Nenhum jornalista português teria a ideia de pôr nos lábios dessa menina profecias sobre a Rússia... Em Portugal não só essa menina analfabeta, mas a maioria dos proprietários sabe tanto da Rússia como nós deles, talvez menos. Quem podia colocar nos lábios da menina, talvez santa no futuro, palavras precisamente sobre a Rússia?"
No seu diário, o czar Nicolau II regista a presença de Charles Gibbes em Tobolsk entre Outubro de 1917 e Fevereiro de 1918.
"Dia frio, claro. Soubemos ontem que chegou o Mr. Gibbes, mas ainda não o vimos, talvez porque as coisas e as cartas que trouxe ainda não foram revistadas!", escreve Nicolau no dia 6 de Outubro de 1917.

Fonte: «Diário de Notícias», 10 de Maio de 2008.

Oração a Nossa Senhora de Fátima


Senhora do Rosário de Fátima, que por meio de uns humildes pastorinhos nos viestes recomendar o amor à oração com a reza do Terço e o amor à penitência pelo arrependimento e confissão de nossos pecados, como os meios mais seguros da nossa salvação, fazei que todos os portugueses, dóceis a vossos maternos conselhos, vivamos assim no caminho do Céu e a nossa Pátria volte aos dias da sua antiga prosperidade sob o manto da vossa real protecção. Ámen.

3 Ave Marias (200 dias de indulgências)

+ Teodósio, Cardeal-Arcebispo de Lourenço Marques
8 de Setembro de 1948

O Santo Condestável e Fátima


Do afecto, da exímia piedade, diz o decreto da Confirmação de seu culto, com que amava a Santíssima Virgem, são esplêndidos documentos e provas a imagem da mesma Beatíssima Virgem que auspiciosamente trazia pintada nos estandartes militares; seis templos, dos sete por ele erguidos, consagrados à Mãe de Deus, as missas que perpetuamente se deviam celebrar nos altares-mores desses templos, e os jejuns rigorosos por Nuno fielmente observados nos sábados do ano e nas vigílias das festas de Maria, ainda quando destinados a combate. Tal é, meus amados Diocesanos, o grande herói nacional e o grande santo cujo culto solene vamos inaugurar na nossa querida diocese. Leiria não pode ficar indiferente a este santo movimento, tanto mais que fazem parte da nossa diocese Aljubarrota e Ourém – Aljubarrota, o seu principal feito militar, e Ourém, o seu domínio preferido.

D. José, Bispo de Leiria, in «Pastoral sobre o culto do Beato Nuno de Santa Maria na Diocese de Leiria», 8 de Setembro de 1924.


A razão de Nossa Senhora aparecer em Fátima, foi por ser terra do Santo Condestável.
A minha mãe costumava contar que a caminho da Batalha de Aljubarrota, quando D. Nuno e os seus homens chegaram mais ou menos onde está agora a Cruz Alta do Santuário, os cavalos do exército, como que por milagre, ajoelharam-se por terra e D. Nuno terá dito que, ali, um dia algo de importante irá acontecer. De facto, foi nesse local que Nossa Senhora apareceu. Foi por causa da devoção que D. Nuno teve por Nossa Senhora, que ela apareceu na Cova da Iria.

Irmã Lúcia, 1998.

Um testemunho insuspeito do Milagre do Sol


Quebrando um silêncio de mais de vinte anos, e com a invocação dos longínquos e saudosos tempos em que convivemos numa fraternal camaradagem, iluminada então pela fé comum e fortalecida por idênticos propósitos, escreves-me para que te diga, sincera e minuciosamente, o que vi e ouvi na charneca de Fátima, quando a fama de celestes aparições congregou naquele desolado ermo dezenas de milhares de pessoas, mais sedentas, segundo creio, de sobrenatural, do que impelidas por mera curiosidade ou receosas de um logro... Estão os católicos em desacordo sobre a importância e a significação do que presenciaram.
Uns convenceram-se de que se tinham cumprido prometimentos do Alto; outros acham-se ainda longe de acreditar na incontroversa realidade de um milagre. Foste um crente na tua juventude e deixaste de sê-lo. Pessoas da família arrastaram-te a Fátima, no vagalhão colossal daquele povo que ali se juntou a 13 de Outubro.
O teu racionalismo sofreu um formidável embate e queres estabelecer uma opinião segura socorrendo-te de depoimentos insuspeitos como o meu, pois que estive lá apenas no desempenho de uma missão bem difícil, tal a de relatar imparcialmente para um grande diário, "O Século", os factos que diante de mim se desenrolassem e tudo quanto de curioso e de elucidativo a eles se prendesse. Não ficará por satisfazer o teu desejo, mas decerto que os nossos olhos e os nossos ouvidos, não viram nem ouviram, coisas diversas, e que raros foram os que ficaram insensíveis à grandeza de semelhante espectáculo, único entre nós e de todo o ponto digno de meditação e de estudo...
O que ouvi e me levou a Fátima?
Que a Virgem Maria, depois da festa da Ascensão, aparecera a três crianças que apascentavam gado, duas mocinhas e um zagalete, recomendando-lhes que orassem e prometendo-lhes aparecer ali, sobre uma azinheira, no dia 13 de cada mês, até que em Outubro lhes daria um sinal do poder de Deus e faria revelações. Espalhou-se a nova por muitas léguas em redondeza; voou, de terra em terra, até aos confins de Portugal, e a romagem dos crentes foi aumentando de mês para mês, a ponto de se juntarem na charneca de Fátima, em 13 de Outubro, umas cinquenta mil pessoas, consoante os cálculos de indivíduos desapaixonados.
Nas precedentes reuniões de fiéis não faltou quem tivesse suposto ver singularidades astronómicas e atmosféricas, que se tomaram como indício de imediata intervenção divina.
Houve quem falasse de súbitos abaixamentos de temperatura, de cintilação de estrelas em pleno meio-dia e de nuvens lindas e jamais vistas em torno do Sol. Houve quem repetisse e propalasse comovidamente que a Senhora recomendava penitência, que pretendia a criação de uma capela naquele local, que em 13 de Outubro manifestaria, por intermédio de uma prova sensível a todos, a infinita bondade e a omnipotência de Deus.
Foi assim que, no dia célebre e tão ansiado, afluíram de perto e de longe a Fátima, arrostando com todos os embaraços e todas as durezas das viagens, milhares e milhares de pessoas, umas que palmilharam léguas ao sol e à chuva, outras que se transportaram em variadíssimos veículos, desde os quase pré-históricos até aos mais recentes e maravilhosos modelos de automóveis, e ainda muitíssimas que suportaram os incómodos das terceiras classes dos comboios, dentro dos quais, para percorrer hoje relativamente pequenas distâncias, se perdem longas horas e até dias e noites! Vi ranchos de homens e de mulheres, pacientemente, como enlevados num sonho, dirigirem-se de véspera para o sítio famoso, cantando hinos sacros e caminhando descalços ao ritmo deles e à recitação cadenciada do terço do Rosário, sem que os importunasse, os demovesse ou desesperasse, a mudança quase repentina do tempo, quando as bátegas de água transformaram as estradas poeirentas em fundos lamaçais, e às doçuras do Outono sucederem, por um dia, os aspérrimos rigores do Inverno. Vi a multidão, ora comprimida à volta da pequenina árvore do milagre e desbastando-a dos seus ramos para guardar como relíquias, ora espraiada pela vasta charneca que a estrada de Leiria atravessa e domina, e que a mais pitoresca e heterogénea concordância de carros e pessoas atravancou naquele dia memorável, aguardar na melhor ordem as manifestações sobrenaturais, sem temer que a invernia as prejudicasse, diminuindo-lhes o esplendor e a imponência... Vi que o desalento não invadiu as almas, que a confiança se conservou viva e ardente, a despeito das inesperadas contrariedades, que a compostura da multidão, em que superabundavam os campónios, foi perfeita e que as crianças, no seu entender privilegiadas, tiveram a acolhê-las as demonstrações do mais intenso carinho por parte daquele povo que ajoelhou, se descobriu e rezou a seu mandado, ao aproximar-se a hora do milagre, a hora do sinal sensível, a hora mística e suspirada do contacto entre o Céu e a Terra...
E, quando já não imaginava que via alguma coisa mais impressionante do que essa rumorosa mas pacífica multidão animada pela mesma obsessiva ideia e movida pelo mesmo poderoso anseio, que vi eu ainda de verdadeiramente estranho na charneca de Fátima? A chuva, à hora pré-anunciada, deixar de cair; a densa massa de nuvens romper-se e o astro-rei – disco de prata fosca – em pleno zénite aparecer e começar dançando num bailado violento e convulso, que grande número de pessoas imaginava ser uma dança serpentina, tão belas e rutilantes cores revestiu sucessivamente a superfície solar.
Milagre, como gritava o povo? Fenómeno natural, como dizem os cientistas? Não curo agora de sabê-lo, mas apenas de te afirmar o que vi... O resto é com a Ciência e com a Igreja...

Avelino de Almeida, agnóstico e jornalista de «O Século», Outubro de 1917.

7 de Outubro: Nossa Senhora do Rosário


Neste ano do centenário das Aparições de Fátima, mais do que nunca é dever lembrar a Nossa Senhora do Rosário em Fátima:

"Eu sou a Senhora do Rosário..."

"Rezai o Terço todos os dias..."

O rapto dos Pastorinhos de Fátima


À medida que se aproximava o 13 de Agosto de 1917, a notícia das aparições de Fátima espalhou-se por todo o país. A imprensa liberal-maçónica [republicana] tomou um interesse especial no assunto, não descuidando qualquer oportunidade para o denunciar e espalhar falsidades sobre os três pastorinhos. Quando se tornou evidente que estas tácticas não conseguiam afastar as multidões de peregrinos, cuja fé os levava a viajar de longe para estarem presentes quando Nossa Senhora aparecesse, a imprensa declarou, à maneira anticlerical do costume, que o clero andava a enganar o povo para lhe extrair dinheiro. E apelava com vigor às autoridades para que actuassem.

A autoridade local de Fátima era Artur de Oliveira Santos, Administrador do Concelho de Vila Nova de Ourém e anticlerical fanático. Também conhecido pela alcunha de "Latoeiro", era um maçon a quem o seu cargo dava um poder considerável, e governava o seu Concelho de forma tirânica, impondo restrições às igrejas e às cerimónias religiosas ao seu mínimo capricho. O Latoeiro decidiu pôr um fim à piedade popular resultante das aparições de Fátima, usando os meios que entendesse serem necessários.

A 10 de Agosto, os pais dos três videntes de Fátima, Manuel Marto e António dos Santos, receberam ordem de se apresentarem no dia seguinte, com os seus filhos, em Vila Nova de Ourém. Era um percurso de quinze quilómetros, sem outro meio de transporte que não fosse ir de burro, ou então ir a pé. Manuel Marto recusou-se a obrigar os seus dois filhos pequenos a fazer essa viagem ou a aparecerem em tribunal, e decidiu ir sozinho. Por seu lado, António dos Santos queria que a sua filha Lúcia se explicasse por si própria. O Latoeiro ficou furioso com a ausência do Francisco e da Jacinta.

Sobre a sua experiência com o Latoeiro, Lúcia escreveu:
"Na sede da Administração, fui interrogada pelo Administrador, na presença do meu Pai, do meu Tio e de vários outros senhores que me eram estranhos. O Administrador estava decidido a forçar-me a revelar o Segredo e a prometer-lhe que não tornava a ir à Cova da Iria. Para alcançar este fim, não se poupou a fazer promessas, nem sequer ameaças. Vendo que não conseguia nada, mandou-me embora, mas protestou que havia de conseguir o que queria, mesmo que para isso tivesse de tirar-me a vida."

A 12 de Agosto, começaram a chegar multidões à Cova da Iria, preparando-se para a aparição esperada para o dia seguinte. Na manhã de 13 de Agosto, o Administrador chegou à casa dos Martos para ver as crianças. Convenceu os pais de que desejava "ver o milagre" com eles, e primeiro foram juntos falar com o pároco da freguesia. Depois de responder a umas perguntas, o Administrador fez os pastorinhos entrar para o seu carro. Este começou primeiro a andar em direcção à Cova da Iria, mas de repente deu meia-volta e seguiu para outra direcção. O Administrador tentou serenar os pastorinhos, dizendo-lhes que iam ver o pároco de Ourém. Para que os peregrinos a caminho da Cova da Iria não vissem os pastorinhos, cobriu-os com um cobertor. Finalmente chegou em triunfo a sua casa; acreditava que, se eles fossem impedidos de ir à Cova, não aconteceria nada de sobrenatural e o assunto das aparições chegaria ao fim.

Quando chegaram à casa do Latoeiro, os pastorinhos foram fechados numa sala e disseram-lhes que não sairiam dali até revelarem o Segredo. A bondosa mulher do Latoeiro deu-lhes o almoço, deixou-os brincar com os seus filhos e fez para que não lhes faltasse nada. No dia seguinte tiveram de passar por nove interrogatórios, mas os pastorinhos, fortificados por uma graça especial, não cederam.

O Latoeiro queria saber o Segredo, custasse o que custasse, mas não conseguiu obtê-lo nem confundir os pastorinhos para que se contradissessem uns aos outros. Até chamou um médico, para poder acusá-los de alucinações e histeria. As conclusões do médico nunca foram publicadas; e este facto é de grande importância, porque se o médico concluísse que as crianças estavam alucinadas, o Administrador não hesitaria em publicar-lhe o testemunho sem mais demoras.

Em seguida, o Latoeiro mandou os pastorinhos para a cadeia, que estava cheia de outros presos. Foram então interrogados separadamente, após o que o Latoeiro ameaçou mandá-los ferver em azeite se continuassem a recusar-se a contar-lhe o Segredo de Fátima. Na presença deles, mandou que pusessem a aquecer um caldeirão de azeite, e ameaçou-os que os punha no caldeirão se não colaborassem. Os pastorinhos acreditaram na ameaça do Latoeiro. Um homem que estava na cadeia tentou convencer a Jacinta a ceder, dizendo-lhe que bastava contar o Segredo para escapar a ser morta. A Jacinta respondeu: "Antes morrer!"

O Latoeiro levou primeiro a Jacinta. O Francisco e a Lúcia acreditaram que a levava para a morte. O Latoeiro regressou e disse-lhes que a Jacinta estava morta. Exigiu-lhes de novo que lhe revelassem o Segredo, ou também seriam fritos em azeite. O Francisco foi depois levado, aparentemente para a sua morte. Em seguida, o Latoeiro ameaçou a Lúcia com o mesmo destino se não colaborasse; mas a Lúcia manteve-se fiel, embora acreditasse que os seus primos tinham sido mortos. Porém, tal não sucedera; era só uma ameaça vã. Mas nem com esta derradeira ameaça o Latoeiro conseguiu obter o Segredo. Na manhã seguinte (15 de Agosto), a seguir a um interrogatório final, deixou os pastorinhos regressar a Fátima, sem ter conseguido nada deles.

Fonte: «A Associação de Fátima».

Nossa Senhora de Fátima - 100 anos


A treze de Maio
Na Cova da Iria,
Apareceu brilhando
A Virgem Maria.

Avé, Avé, Avé Maria!
Avé, Avé, Avé Maria!

A Virgem Maria
Cercada de luz,
Nossa Mãe bendita
E Mãe de Jesus.

(Refrão)

Com os males da guerra
O mundo sofria;
Portugal, ferido,
Sangrava e gemia.

(Refrão)

Foi aos Pastorinhos,
Que a Virgem falou,
Desde então nas almas,
Nova luz brilhou.

(Refrão)

Com doces palavras,
Mandou-nos rezar,
A Virgem Maria,
Para nos salvar.

(Refrão)

Achou logo a Pátria
Remédio ao seu mal,
E a Virgem bendita
Salvou Portugal.

(Refrão)

Mas jamais esqueçam,
Nossos corações,
Que nos fez a Virgem,
Determinações.

(Refrão)

Falou contra o luxo,
Contra o impudor,
De imodestas modas,
De uso pecador.

(Refrão)

Disse que a pureza,
Agrada a Jesus,
Disse que a luxúria,
Ao fogo conduz.

(Refrão)

A treze de Outubro,
Foi o seu adeus,
E a Virgem Maria,
Voltou para os Céus.

(Refrão)

À Pátria que é vossa,
Senhora dos Céus,
Dai honra, alegria
E a graça de Deus.

(Refrão)

À Virgem bendita,
Cante seu louvor,
Toda a nossa terra,
Um hino de amor.

(Refrão)

Todo o mundo A louve,
Para se salvar,
Desde o vale ao monte,
Desde o monte ao mar.

(Refrão)

Já por todo o mundo,
Se ama o nome Seu,
Portugal a Cristo,
Tantas almas deu.

(Refrão)

Oh! Demos-Lhe graças,
Por nos dar seu bem,
À Virgem Maria,
Nossa querida Mãe!

(Refrão)

E para pagarmos,
Tal graça e favor,
Tenham nossas almas,
Só bondade e amor.

(Refrão)

Avé, Virgem Santa,
Estrela que nos guia,
Avé, Mãe Pátria.
Oh! Virgem Maria!

(Refrão)

Este é o hino Avé de Fátima, escrito pelo poeta Afonso Lopes de Vieira em 1929, e musicado pelo maestro Ruy Coelho em 1931. Actualmente, algumas destas estrofes são omitidas do cântico.

Os Pastorinhos de Fátima e as canonizações


Por muito que nos custe, a verdade é que as canonizações dos Pastorinhos de Fátima não são autênticas canonizações. Isto porque os critérios actualmente usados para canonizar já não são católicos. O que não significa que não se possa reconhecer a santidade de vida dos Pastorinhos. Mas o mesmo já não se pode dizer de outros neo-canonizados como o Papa João Paulo II ou a Madre Teresa de Calcutá. O problema está pois no critério que hoje estabelece a canonização. Porque aquele que actualmente Roma nos apresenta, não nos dá garantias de estarmos perante uma pessoa que é verdadeiro modelo de santidade.
Canonizar não é fazer santo. Canonizar é reconhecer a santidade já existente em vida, e fazer dela um exemplo ou modelo (cânone) para toda a Igreja.
Em traços gerais, para uma canonização existir, o canonizado tem de cumprir as seguintes condições:

- Ter uma doutrina recta.
- Ter praticado as virtudes de modo heróico.
- Ter feito, pelo menos, três milagres depois da morte.

E tudo isto deve ser averiguado e provado autenticamente, por testemunhas, escritos, documentos, etc.
Ora, analisando as condições necessárias, é fácil concluir que alguns neo-canonizados como João Paulo II ou a Madre Teresa, não são sequer canonizáveis, visto que não cumprem as condições mínimas exigidas para a canonização. E já nem falo do número e da qualidade dos milagres, um requisito que claramente não tem sido cumprido pelas autoridades em Roma... Basta só lembrar que João Paulo II ou a Madre Teresa não tinham doutrina recta (heresias, blasfémias, etc.) nem praticaram as virtudes (teologais, cardeias e evangélicas) de modo heróico. Notem bem: Nem sequer a primeira de todas as virtudes, que é a Fé, eles praticaram de modo heróico. Ensina o Catecismo que a Fé é a virtude sobrenatural pela qual cremos em Deus e em tudo aquilo que Ele revelou à Santa Igreja, e que Ela nos propõe para crer. A Fé é de absoluta necessidade para a salvação. E é sabido que o Papa João Paulo II ou a Madre Teresa tiveram actos públicos contra a Fé (desde homenagear falsos deuses e falsas religiões, rezar com pagãos e em templos pagãos, receber honras de falsas religiões, beijar livros de falsas religiões, etc.). Tudo actos públicos que nunca foram rejeitados nem corrigidos pelos próprios. Até ao fim das suas vidas terrenas, nunca deram nenhum sinal público de arrependimento por actos que vão directamente contra o 1º Mandamento. Em caso de arrependimento, estavam obrigados a publicamente desfazer o que tinham feito. Mas nunca o fizeram... Como se pode então dizer que são modelo de santidade?
Mas mais uma vez digo: Creio que Francisco e Jacinta levaram uma vida santa. Todavia, por coerência, não podemos aceitar a sua "canonização". Porque ao abandonar-se o critério tradicional, não há verdadeira canonização. Há apenas uma aparência formal de canonização. E é precisamente essa aparência que vai ser celebrada no próximo dia 13 de Maio.

Nossa Senhora do Rosário de Fátima, rogai por nós!

Livro de divulgação do Rosário


É com grande apreço e satisfação que recebo o convite do blogue ASCENDENS para colaborar na iniciativa lançada pelo FIDELISSIMUS, à qual também já se juntou o SANTO ZELO. Nada mais oportuno neste ano do centenário das Aparições de Fátima, do que a promoção da oração diária do Terço, assim como das graças por ele alcançadas. Muitas conversões e muitas vitórias se devem ao Rosário. Relembro as palavras de Nossa Senhora de Fátima: "Rezai, rezai muito e fazei sacrifícios pelos pecadores, que vão muitas almas para o Inferno por não haver quem se sacrifique e peça por elas". Lancemos então mãos à obra!

Oração de Fátima: o testemunho da Irmã Lúcia


Na continuação do tema Oração de Fátima, transcrevo um excerto de uma carta da Irmã Lúcia de 31 de Agosto de 1941, e que mais uma vez comprova que a versão original é a que se refere às almas que estão em perigo de condenação e não às almas do Purgatório:

Excelentíssimo e Reverendíssimo Senhor Bispo: disse já a V. Ex.cia Rev.ma, em os apontamentos que enviei depois de ler o livro «Jacinta», que ela se impressionava muito com algumas coisas reveladas no segredo. Realmente, assim era. A vista do Inferno tinha-a horrorizado a tal ponto, que todas as penitências e mortificações lhe pareciam nada, para conseguir livrar de lá algumas almas.
Bem; agora respondo já ao segundo ponto de interrogação que, de várias partes, aqui me tem chegado. Como é que a Jacinta, tão pequenina, se deixou possuir e compreendeu um tal espírito de mortificação e penitência?
Parece-me que foi: primeiro, por uma graça especial que Deus, por meio do Imaculado Coração de Maria, lhe quis conceder; segundo, olhando para o Inferno e desgraça das almas que aí caem.
Algumas pessoas, mesmo piedosas, não querem falar às crianças do Inferno, para não as assustar; mas Deus não hesitou em mostrá-lo a três, e uma de 6 anos apenas, e que Ele sabia se havia de horrorizar a ponto de, quase me atrevia a dizer, de susto se definhar.
Com frequência se sentava no chão ou em alguma pedra e, pensativa, começava a dizer:
O Inferno! o Inferno! que pena eu tenho das almas que vão para o Inferno! E as pessoas lá vivas a arder como a lenha no fogo!
E meio trémula ajoelhava, de mãos postas, a rezar a oração que Nossa Senhora nos tinha ensinado:
Ó meu Jesus, perdoai-nos, livrai-nos do fogo do Inferno, levai as alminhas todas para o Céu, principalmente as que mais precisarem.
Agora, Ex.mo e Rev.mo Senhor Bispo, já V. Ex.cia Rev.ma compreenderá por que a mim me ficou a impressão de que as últimas palavras desta oração se referiam às almas que se encontram em maior perigo ou mais iminente de condenação.

Irmã Lúcia in «Memórias da Irmã Lúcia».

Oração por Portugal


Majestade Divina, Senhor da vida e da morte, dos que Vos amam e dos que Vos perseguem!
Por intercessão da Santíssima Virgem de Fátima, Rainha da paz e nossa Mãe, dos Pastorinhos Lúcia, Francisco e Jacinta e da Beata Alexandrina que tanto amou Portugal, pedimo-Vos que não deixeis que a nossa Pátria, onde Maria ergueu o seu Trono, venha a ser dominada e destruída por obra dos seus inimigos.
Enviai os Vossos Santos Anjos a todos os locais da nossa Terra e permiti que eles possam desenvolver as suas potências em todos os seus recantos para que o inimigo não venha a triunfar nesta Terra de Santa Maria.
Nós queremos formar um exército de almas que rezam para que Vós, Deus Uno e Trino, estendais a Vossa Mão poderosa sobre este povo que é de Maria, nossa Mãe.
Fazei, ó Deus, que as nuvens tempestuosas que pairam sobre a humanidade e tendem a espalhar-se e submergir a nossa Pátria, sejam afastadas.
Só Vós podeis salvar-nos! Vinde depressa socorrer-nos, Senhor!
Pela Vossa graça e especial protecção da nossa Padroeira Maria Imaculada e do Anjo Custódio de Portugal, fazei, ó Deus, que a nossa Terra nunca venha a ser aniquilada pelo inimigo.
Deus Santo, Deus Forte, Deus Todo-Poderoso: em união com todos os Santos Anjos pedimo-Vos auxílio e Bênção para a nossa Pátria. Ámen.

Irmã Lúcia dos Santos.