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A Soberania do Povo


De que na antiguidade sagrada, ou profana, por mais que se busque, não aparecem vestígios, antes pelo contrário, quanto mais perto da origem da sociedade chegam os trabalhos e exames históricos, vai-se parar constantemente em algum Rei ou Juiz ou Magistrado Supremo... o que é tão certo, que o ditado vulgar – Haja um que nos governe... já o era mil anos antes que Jesus Cristo viesse ao mundo...
Foi a Soberania do povo quem levou ao Cadafalso o Rei Carlos I de Inglaterra e em nossos dias o malfadado Luís XVI, e acabaria infalivelmente por fazer a todos a mesma gracinha, se lhe não forem a mão, e cortarem os herpes mui radicalmente de maneira, que nunca mais pegue tal doutrina, quer seja de sementeira, quer de enxertia, quer de estaca... Assentemos por uma vez que nunca o povo se diz soberano para outro fim mais do que para cair toda a Soberania nas mãos de um punhado de aventureiros, que desta arte lhe fazem a boca doce, enquanto mui a salvo, e a despeito da moral cristã, e dos princípios mais vulgares de decência, vão enchendo a bolsa, e por certo que não há coisa melhor nesta vida...
Se pegou a lábia ficaremos verdadeiramente Soberanos, e o povo terá de obedecer a muitos que só curam de esmagá-lo e saqueá-lo, em lugar de um só que nenhum interesse tinha de o vexar e de o oprimir. Se o tiro falhou e não acerta no alvo, não falharão as louras que vão na algibeira e que darão para comer e viver folgadamente em qualquer parte do mundo. São pois os heróis deste jaez inimigos do povo a quem esbulham de todo fruto dos seus suores e fadigas; são inimigos dos Reis cuja autoridade aviltam a ponto de fazerem sensível pela experiência de alguns anos, que um Rei é traste supérfluo, e que se todas as suas funções se devem reduzir a assinar de cruz em todos os papéis que lhe arrumarem, será melhor que o não haja... pois um Rei assim que custa um conto de reis por dia, sai mui caro à Nação (1). Ora tem saído a lume refutações sem conto desses Puritanos, liberais, Pedreiros, carbonários, etc., etc., etc. mas quem deu chiste foi o autor de Hudibras.
Ainda que o restabelecimento de Carlos II no trono do Inglaterra sufocou os partidos, e restituiu a paz e a tranquilidade ao próprio Reino, que nessa parte mais feliz do que acaba de ser o nosso, não fora roubado sob a Protecção de Cromwell e que à primeira voz que soltou o General Monck (mais feliz do que o nosso ínclito Silveira) gritou em altas vozes pela Monarquia; nem por isso deixou de haver uma chusma de descontentes, que sem embargo de que todas as classes tinham aceitado cordialmente a mudança de governo, mordiam-se de raiva, e não perdiam de todo a esperança de tornarem a subir...
Apareceu o Hudibras, ficaram todos metidos num chinelo, e nunca mais ninguém piou, e o que não chegaria a fazer toda a severidade de um rei, que desagravava o trono de seu desgraçado Pai, conseguiu-o a pena de um escritor, que sem nomear pessoas, ainda que designando-as mui claramente pelas suas artes, prendas e manhas, triunfou daquela emperrada teima de reformar a torto e a direito, e por certo mais esforçado que Alcides livrou a sua ditosa pátria destes verdadeiros leões de Nemeia... Apareça entre nós um Hudibras – e sem pão nem pedra daremos cabo dos Pedreirinhos, que conseguirem escapar ao desterro e à morte, e a qualquer outra pena que lhes infligir a justa severidade das Leis.

(1) Expressão de um ilustre deputado às Cortes Ordinárias, que decerto não podiam ser mais ordinárias.

D. Fr. Fortunato de S. Boaventura in «O Punhal dos Corcundas», Nº1, 1823.

Democratizar e Democrático


Democratizar – Largo tempo se tem passado sem se poder compreender que coisa significasse positivamente esta palavra republicana no idioma novo. Julgou-se, ao princípio, que teria alguma relação com o que antigamente se chamava formar um governo popular. Porém, que loucura! A experiência mostrou imediatamente quão errada era esta ideia, e o engano nascia principalmente da mudança de significado na palavra Povo. Quando vimos democratizar aos Estados mais democráticos da Europa, compreendemos que democratizar um Estado, no moderno idioma, não quer dizer outra coisa que denegrir e abater o Governo que existia, seja ele qual for; esbulhar dele os homens de bem, que mandavam; pôr em seu lugar, ou tolos, ou ímpios e bandidos; formar destes o Povo, e ao verdadeiro Povo escravizá-lo; roubar quanto haja de precioso; e aniquilar a Religião, especialmente a Católica; sem se esquecer um só instante de despojar e oprimir seus Ministros, etc. etc. É por este modo, que hão sido constante e invariavelmente democratizadas a Flandres, a Holanda, Milão, Bolonha, Modena, Ferrara, etc. etc. Desta explicação se deduz naturalmente a inteligência de muitos Vocábulos derivativos, como
Democrático – Que pela activa significa ateu, ladrão, assassino, colocado no mando e governo; e pela passiva, a parte honrada e religiosa de uma Nação ultrajada e oprimida, tiranizada e roubada por bandidos, ateus e assassinos.

D. Frei Fortunato de São Boaventura in «Novo Vocabulário Filosófico-Democrático, indispensável para todos os que desejem entender a nova língua revolucionária», Nº 2, 1831.

Reis absolutos: todos os nossos


Rei absoluto quer dizer: um Rei como sempre foram os nossos, que fundaram, restauraram e ampliaram a monarquia... Foi Rei absoluto o Senhor D. Afonso Henriques... Foi Rei absoluto o Senhor D. João I, foi Rei absoluto o Senhor D. Manuel, e foi Rei absoluto o Senhor D. João III. Rei absoluto é um Rei que governa o seu Reino sem conhecer por seu superior senão o mesmo Deus... O poder dos Reis é absoluto, porque não é responsável a nenhuma jurisdição humana, do que fizer ou determinar, porque se houvesse jurisdição de inquirir do seu procedimento, seguia-se que este se devia chamar propriamente Soberano, e o Soberano seria ao mesmo tempo inferior e dependente, o que repugna segundo a hipótese!

D. Frei Fortunato de São Boaventura in «O Mastigóforo: Prospecto de um Dicionário das Palavras e Frases Maçónicas», Nº 1, 1824.

Saber perdoar e saber castigar


Um Rei deve ser clemente, e já dizia um Filósofo antigo (Séneca), que era tão indecoroso a um Rei o perdoar a todos como o castigar a todos; há porém muitos lances em que uma desmesurada clemência é um crime de que o Rei dos Reis lhe tomará uma estreitíssima conta.
Confundir os bons com os maus, é animar a impunidade, e com ela todos os crimes, poupar cegamente os criminosos é sacrificar os bons, é perturbá-los na fruição dos seus direitos, é pô-los em uma perpétua desconfiança de serem outra vez enxovalhados e perseguidos: o que é tão certo que nestes casos importa mais ao cidadão probo e leal, esconder-se, ou antes mudar de pátria, do que viver no meio de tigres que por ventura açaimados um só instante pelo irresistível poderio da opinião pública, já estudam e se afanam por desfazer com seus próprios dentes a mordaça que os refreia, e que apenas conseguirem tirá-la encherão tudo de estragos, de mortes, e de sangue...

D. Frei Fortunato de São Boaventura in «O Punhal dos Corcundas», Nº 1, 1823.

Constituição


Constituição – Este vocábulo assim como outro igualmente desventurado, a saber – Filosofia –, muito queixosos devem estar destes últimos tempos, que fizeram aborrecível, o que de sua natureza se devia respeitar e acatar. Por ventura os Soldados de Afonso Henriques, esses varões de mão cheia, que assistiram às Cortes de Lamego, esses Ricos Homens, que tanto luziram nas Cortes seguintes, eram por aí alguns miseráveis anarquistas? Esses Reis Legisladores Afonsos, Dinizes e Joões, eram por aí alguns mantenedores da escravidão dos povos? Por ventura esse Portugal velho, que estendeu o seu nome e as suas conquistas até ao berço da aurora, que descobriu novos mundos, que sobressaiu nas armas e nas letras quando muitos povos Europeus, ou jaziam na infância social, ou na barbaridade, fez todos estes prodígios sem ter uma Constituição? Se isto fora possível, teríamos neste prodígio o maior de todos. Logo para que berravam os Pedreiros que não tínhamos Constituição? Sim, faltava o que eles entendem por Constituição e vem a ser o predomínio, ou entronização da seita, que nasceu (ou foi vomitada dos quintos dos infernos) para atropelar usos, costumes, leis, e direitos, ou sociais, ou da própria natureza! Quem não jurasse a Constituição era desnaturalizado, exterminado, e acabava de ser Cidadão Português, e quem insistia pela observância da Constituição era suspeito, era um Realista, um corcunda! Não sei como se podia ser juiz com tais mordomos; só o poderia ser quem estivesse inteirado de que a Constituição se fizera só para enganar o povo, e assegurar a esta boa sombra todos os negócios que se tratavam nas sombras da noite. Cumpre assinarmos a diferença de sentido em que os Pedreiros tomam esta palavra. Os Peninsulares, ainda um pouco temerosos de avançarem longe… fazem semblante de quererem – Monarquia Hereditária – como fundamento principal de suas Constituições, já se sabe com a própria malícia da Constituição Francesa de 1791, que declarou o Rei inviolável, e que daí a bem poucos anos lhe separou a cabeça do corpo: os Alemães, como ainda farei ver miudamente na minha “Introdução à História do Maçonismo Português”, são nesta parte melhores arquitectos – nada de Rei senão electivo, já se sabe, para que esta altíssima dignidade venha a recair em algum Pedreirão, e tudo lhe fique em casa… Ai, e mil vezes ai, dos Soberanos que se fiarem nestas Constituições modernas, talhadas pelo espírito maçónico e andejas com as Luzes do século! Tudo velho é um princípio decisivo e certíssimo em Moral, e também o é em política. As novas teorias aviltam os Reis, empobrecem as Nações, e cedo ou tarde roubam ao homem o melhor presente da Divindade à Religião! E ainda querem fazer mais ensaios, mais tentativas! Triste da geração, que é obrigada a sofrer os Optimistas. Vamos indo com os nossos usos góticos e rançosos, e deixemos gritar a Maçonaria. Nada de Câmaras à Francesa, ou à Inglesa, nada de macaquices. Tudo à Portuguesa. Quem se não pode amoldar às nossas instituições velhas e carcomidas, vá por esse mundo fora atrás das novas e fique certo de que não deixa saudades.

D. Frei Fortunato de São Boaventura in «O Mastigóforo: Prospecto de um Dicionário das Palavras e Frases Maçónicas», Nº 1, 1824.

Humanidade


Humanidade – É o Deputado Substituto pela Maçonaria, para destruir o antigo nome de Caridade, que fora consagrado pela Religião de JESUS CRISTO! Humanidade pareceu-lhes uma expressão mais nobre e mais pomposa, o que não admira, pois é natural que cheirem à terra, todos os desejos, esperanças, sentimentos e palavras dos que não conhecem outra vida melhor que a presente! Ainda fica mais airosa a palavra, quando lhe põe um vestido Grego Filantropia, e assim mesmo ninguém a busque nos sentimentos, ou corações enregelados desses homens, que de contínuo repetiam essa palavra, enquanto inundavam toda a França de sangue inocente. Ainda hoje estremeço da humanidade de um adepto, que tendo escrito contra a pena de morte, assim mesmo teve a humanidade de condenar a ela o seu Rei Luís XVI. O certo é que todos esses gritos de humanidade, filantropia e moderação, tem sido em pró desses infames trolhas, que escudados pelas doutrinas humanas tem feito quanto querem, e zombado de todo o poder das Leis civis, que são bem fraca obra, quando cessa a pena última!

D. Frei Fortunato de São Boaventura in «O Mastigóforo: Prospecto de um Dicionário das Palavras e Frases Maçónicas», Nº 2, 1824.

Propriedade e Bens Nacionais


Propriedade – Vocábulo ad libitum. Entre os Republicanos (enquanto estão roubando), não tem nem uso, nem significação. Mas quando têm já guardados os roubos, oh! então já é outra coisa: Propriedade é um nome sagrado. O melhor que tem é que, como os roubados e os ladrões se sucedem uns aos outros continuamente, e muitas vezes sem interrupção, se transformam os segundos nos primeiros, não pode deixar de ser que este Vocábulo esteja num pleito eterno entre os Cidadãos felizes das Repúblicas Democráticas.
(...)
Bens Nacionais – Termo inventado em Língua Democrática para fazer contraste ao vocábulo Propriedade. A violação das propriedades era outrora na Sociedade o emprego dos homens mais viciosos e corrompidos, que nela viviam. Os bens adquiridos por este modo se chamavam bens roubados; e o que os adquiria se chamava ladrão. As Leis deviam não levar muito a bem semelhantes aquisições e deviam o quer que seja a respeito da forca e galés. Mas nos tempos presentes, onde governam os Republicanos, passou isto a ser negócio de Nação, e portanto mudou-se-lhe justamente o nome; e os bens roubados, em termos mais polidos, se chamam bens nacionais. O mais curioso é que se lhes dá este nome, ainda antes de se roubarem aos Proprietários.

D. Frei Fortunato de São Boaventura in «Novo Vocabulário Filosófico-Democrático, indispensável para todos os que desejem entender a nova língua revolucionária», Nº 5, 1832.

Eleições Populares


Eleições Populares – Termo ilusório. O Povo tem direito de eleger seus Representantes. O Povo não pode errar nesta eleição, etc. Pois veja Vm. aqui que o Povo de Bolonha, Modena e Ferrara, elegeu os seus, porém não elegeu ateus, malvados, nem franchinotes: ei-lo aqui subitamente declarado incapaz de eleger. Anulam-se as eleições feitas [*], e pelo bem do mesmo Povo, que não sabe o que se faz, tem a tirania maçónica que tomar o improbo trabalho de fazer umas novas e verdadeiras eleições à democrática. – Porém, como é isso! O Povo é que tem o direito de eleger. – Optimamente: porém os tiranos têm o de cassar, e anular as eleições, que o Povo faz. – Senhor, que não concorda a dança com o pandeiro. – Valha-te o diabo por agoureiro! Se não concorda, a Filosofia democrática sabe o segredo de fazer concordar. – Portanto, em resumo de contas, a Soberania do Povo consiste em eleger seus Deputados, e vê-los logo depois anulados, desterrados, e metidos em cárceres? Pois então claro fica e demonstrado que a Soberania do Povo democrático é uma coisa bastante irrisória e fantástica.

D. Frei Fortunato de São Boaventura in «Novo Vocabulário Filosófico-Democrático, indispensável para todos os que desejem entender a nova língua revolucionária», Nº 2, 1831.


[*] Ainda hoje, na democrática "União Europeia", se anulam eleições. Parece que o Povo na Roménia votou mal.

Abusos


Abusos – A própria noção etimológica da palavra assaz os condena, porém no Dicionário Maçónico tem uma significação amplíssima, e nós podemos estar lembrados de que o melhor da nossa legislação parecia abuso e musgo aos nossos Pseudo-reformadores. É certo que na prática dos deveres Cristãos, se podem introduzir facilmente abusos, que é necessário corrigir; porém os abusos por este lado estendem-se no Dicionário dos Pedreiros até às coisas mais santas e obrigatórias, que segundo eles devem entrar neste número, e por isso eles tratam de abuso, por exemplo, a obrigação de nos confessarmos ao menos uma vez cada ano, e para eles um homem desabusado, é um homem que despreza todas as leis da Igreja, e vive isento de prejuízos e fanatismo, que hão-de explicar-se nos respectivos lugares.

D. Frei Fortunato de São Boaventura in «O Mastigóforo: Prospecto de um Dicionário das Palavras e Frases Maçónicas», Nº 1, 1824.

Bens Nacionais


Bens Nacionais – São em frase Pedreiral todos os que pertencem ao Rei, e à Rainha, aos Infantes, aos Fidalgos, e ao Clero, e depois que todos estes ficassem sumidos pelas mãos dos seus fiéis administradores, seguia-se declarar nacionais todos os bens dos Negociantes e Proprietários, e davam-se cartas patentes aos Sans-culottes Lusitanos, para darem um saque geral, como se praticou no Filosófico e ilustrado reino da França. Quem folgar de ver decifrada esta maranha Pedreiral, consulte os Números 14 e 17 do Punhal dos Corcundas, onde poderá saciar a sua curiosidade.

D. Frei Fortunato de São Boaventura in «O Mastigóforo: Prospecto de um Dicionário das Palavras e Frases Maçónicas», Nº 1, 1824.

Antiguidade


Antiguidade – Equivale em Língua Democrática a tolice, inépcia, preocupação e estupidez. Tudo que é antigo, só pela razão de sê-lo, merece o desprezo Filosófico-Democrático, e com razão, pois, ou sou Alcaide, ou trago a Vara debalde. Quer dizer: que, ou eles estão, ou não, empenhados em regenerar o Mundo. E sendo uma verdade que o estão, é coisa corrente que tudo que é antigo deve ir (como dizia um louco que eu conheci) abaixo. Não obstante, como não há regra sem excepção, estão os Revolucionários convencidos, de que do antigo não fique mais que os Ladrões, os Roubos, os Punhais, as Rebeliões, as Devastações, Impiedades, e Blasfémias, as quais coisas todas, apesar de velhas e antigas, eles as veneram tanto, que só a ouvi-las se alienam de gozo e alegria, e não se fartão de celebrar os Silas, Dioclecianos, e Brutos, nem de erigir-lhes Estátuas. E na verdade, que estou maravilhado, como não hajam pensado em levantar Estátuas Democráticas a Heróstrato, que tem para com eles o mérito singular de ter incendiado um dos mais famosos Templos, deixando-lhes com isto um exemplo ilustre para os modernos devastadores dos Santuários.
Pelo que respeita a tudo mais, basta nomear diante dos Revolucionários as palavras antiguidade e antigo, para soltarem uma gargalhada de riso e começarem a franzir a testa e a fazer gestos de desprezo. Sem embargo, o ser uma coisa antiga, ou moderna, não depende senão do tempo: e, ou queira, ou não queira a Democracia, ela, e todas as suas belas feituras algum dia hão-de ser antigas. E se os Séculos passados são o objecto dos sarcasmos, e molejo do nosso, querer-se-me-á dizer que este o não será em os futuros?! Se a Religião, a razão, a experiência, o bom juízo, a gravidade, o valor, e a virtude dos Séculos passados estão fazendo entre nós uma tão ridícula e desprezível figura, só porque tem a nota de antiguidade; que papel lhes parece a VV. Mercês farão nos vindouros as impiedades, os horrores, e os disparates do nosso?! Atrever-se-á alguém a duvidar se quer, que a iniquidade e o estonteamento são as belas qualidades que formam o seu carácter?! Se tocasse somente aos Democráticos fazer na posteridade uma tão brilhante e airosa figura, ainda menos mau; pois havendo eles renunciado ao pudor e bom nome da idade presente e da futura, não anelam outra coisa, que a fama dos Heróstratos, Catilinas, Neros, e Calígulas! Mas que juízo se fará ainda de nós mesmos, quando a posteridade ler que quase toda a Europa emudeceu na presença d'alguns vis sans-culottes, vadios, ímpios, ladrões, e facinorosos?! Que dirá, quando ler, que nós imitámos o exemplo daqueles Povos bárbaros que louvam os demónios e lhes tributam sacrifícios, para os ter propícios e favoráveis, a fim de não lhes fazerem muito mal?! Que dirá, ao ver que com os sacrifícios mais humilhantes temos comprado aos Ladrões as tréguas mais vis?! Que dirá, ao considerar que nossa degradação e abatimento chegou ao ponto de pagar com os mais lisonjeiros encómios as invectivas e insultos, que nos fazia um povoléu infame e atrevido?! Que dirá, ao reflexionar que os Povos compravam a preço de todos os seus bens sua própria escravidão?! Que dirá, finalmente, ao ver-nos tão estúpidos, que julgávamos aplacar um orgulho sem limites com baixezas e sofrimentos?! Dirá, que não arriscámos a resistência, por não perecermos, e que perecemos por estarmos quietos; que quisemos antes perecer por vileza, que por coragem, generosidade, e valor; que não houve sacrifício, que não fizéssemos para obter um ano de existência precária, e que por não perecer neste ano, nos privámos de bom grado de todos os meios, que podiam manter a nossa segurança; que corríamos às carreiras e a quem podia chegar primeiro, para fazer Pactos, Tratados, Convenções, e Pazes com traidores, ladrões e assassinos, que à face do Universo professavam não ter fé, e que seu despotismo foi tal, que não só dispuseram a seu arbítrio dos bens, vidas, e Religião, mas até dos pensamentos, e consciências, considerando todos os homens como uma manada de vis e estúpidos escravos. Estas antiguidades, sim, serão as dignas de riso e de dor.
E sem a invicta coragem e heróica firmeza de Francisco II, sem a generosa assistência, nobre ânimo, e firme, e eficaz resolução de Paulo I, e sem a constante e incansável conduta da Nação Britânica (*), que horrível e asquerosa mancha não ficaria impressa em a nossa memória?! É por eles que a Itália respira e se prepara já a dar mostras de seu valor, de sua religiosidade e de suas máximas; e fazer que se lhe devolvam a consideração, e respeito, que de justiça sempre lhe foram devidos. E poderá tardar o resto da Europa em lavar-se da mancha, que ameaça denegrir, e obscurecer sua ilustre, e bem fundada reputação?!
O mesmo dizemos nós agora. Tardará por ventura a Europa em se declarar contra a Revolução de Julho, e em cortar pela raiz o gérmen da discórdia, que existe ocupando hoje o Trono dos Bourbons?! Poderão demorar-se os Soberanos em lavar a mancha, que caiu sobre a Legitimidade?! Onde estão os Tratados de 1815?! Poderão ficar mudos tantos Oráculos da Santa Aliança?! Se esta Liga de Soberanos não serve para levantar um de seus Irmãos, quando cai vítima de seus inimigos domésticos, então para que servirá?! Pois servirão estes Tratados para restabelecer o Rei de Nápoles contra a Facção, que lhe usurpara o Trono; servirão para mandar um Exército à Espanha para colocar no uso de seus Direitos Fernando VII, e então não servirão estes Tratados para colocar no Trono Carlos X, a quem uma Revolução violenta esbulhou dos seus Direitos?! Não servirão para restituir ao Rei da Holanda aqueles Domínios, que os mesmos Tratados lhe asseguraram?! Ah! talvez os Liberais, esperançados nos seus Protocolos de Londres, se persuadam que o estado actual da Europa há-de durar muito; mas como se enganam! 640 mil homens, que se armaram nas três grandes Potências do Norte, além de suas torças ordinárias, não podem, nem desarmar-se sem pelejarem, nem pelejar sem vencer! A França acha-se em perfeita divisão e completa anarquia! O Ministério de Luís Filipe está colocado entre dois inimigos, qual deles mais poderoso: de um lado tem os Republicanos, que não deixam jamais de conspirar contra todo e qualquer Governo, que não seja o seu; de outro lado tem os Carlistas, que por ora estão quietos, mas que apenas haja quem lhe dê a mão, logo aparecem em campo; e como poderá sustentar-se um Governo desta natureza, quando vir marchar contra si os Russos, Prussos, e Austríacos?! Talvez então peça auxílio à sua recém-amiga a Inglaterra, mas ela com a sua costumada Política talvez lhe diga: «Enquanto estavas forte, e me podias fazer frente, fui tua amiga por necessidade, e por não arriscar contigo uma luta, de que não tinha certeza de sair bem; mas agora que já estás fraca, e quase perdida; agora que a Europa se acha toda conspirada contra ti; agora ajudarei a precipitar-te no abismo que preparaste; cá tenho o teu Rei, a quem hei-de proteger; cá tenho um Duque de Wellington, um Peel, e um Aberdeen para pôr no Ministério, e está tudo feito». Não será necessário viver muito para ver resolvido este grande Problema Europeu; mas fiquem todos sabendo, que não é com os Protocolos, que ele se há-de resolver; já lá vão 55 a respeito da Bélgica, e por ora está a coisa no mesmo estado! A Espada do Vencedor d'Erevan e do Príncipe de Varsóvia é que há-de cortar este nó górdio.

(*) Julgamos da justiça deste Escritor, que se assim como formou sua Obra no ano de 1799, a escrevesse em o de 1813, não passaria em silêncio o heróico Povo Espanhol, nem tão pouco os nobres e valorosos Portugueses.

D. Frei Fortunato de São Boaventura in «Novo Vocabulário Filosófico-Democrático, indispensável para todos os que desejem entender a nova língua revolucionária», Nº 10, 1832.

Contar


Contar – Não lhe valeu à Aritmética ser uma Ciência infalível em si mesma, mas antes ao contrário também foi regenerada, revolucionada e até Democratizada. É tão conhecida já, como a virtude, a política, a humanidade, a boa-fé, e todas as demais lindezas Democráticas. Ainda não podemos penetrar quais sejam as suas regras; porque umas vezes 150, por exemplo, são 15.000; e outras, num volver de olhos, os 15.000 passam a 150. A experiência, contudo, tem mostrado que não deixa de ter algumas regras fixas. Porque quando se trata de perdas republicanas, decresce sempre a sua Aritmética, e sempre alguns zeros. Mas, oh legalidade republicana! Tu não ficas com coisa alguma alheia, e tu fazes aparecer estes mesmos zeros (que haviam escapado das unhas) quando contas tuas vitórias, ou nos impões contribuições. Então é quando nos restituis com usura os zeros que nos havias roubado.

D. Frei Fortunato de São Boaventura in «Novo Vocabulário Filosófico-Democrático, indispensável para todos os que desejem entender a nova língua revolucionária», Nº 6, 1832.

Frugalidade


Frugalidade – O que seja, e que signifique em linguagem Republicana, pode coligir-se deste acontecimento verídico.
Estando almoçando um verdadeiro Patriota fez o seguinte Discurso:
"A frugalidade é uma das principais virtudes de um Povo Republicano... Venha de lá uma botelha de vinho de Champanhe..." Sem a frugalidade é impossível que o Povo seja guerreiro, nem amante da liberdade... Oh futr... Que diabo de cosido é este? Sempre borrego, sempre vitela! Não há perdizes, galinhas, nem capões?..." Os Espartanos não podiam estar à mesa senão um quarto de hora... Haverá besta como este cozinheiro? Que porcaria de pastel! Maldito gosto que tem! Nem ao menos está bem passado!..." Um quarto de hora ainda poderia demorar-se; porque o Povo perde tanto mais de trabalho, quanto mais consome à mesa... Vamos a isto, venha mais meia canada de vinho de Borgonha... Com que não há! Assim se trata a um Republicano? A nós dá-se uma semelhante consoada? Doze pratos, e nada mais, e mal temperados, sem salsa, nem vinho de Borgonha, etc.? A ver, chame cá o patrão, que lhe vou quebrar os braços, tanto a ele como ao cozinheiro, e os vou mandar cavar com uma enxada... Que tal está a patifaria da penitência Franciscana?!" Um dos principais cuidados do nosso Governo deve ser o de reduzir o Povo à máxima frugalidade. Isto só basta para estabelecer a igualdade e a felicidade Republicanas... E então! Ainda não vem o café, o ponche, e o marrasquino?...

D. Frei Fortunato de São Boaventura in «Novo Vocabulário Filosófico-Democrático, indispensável para todos os que desejem entender a nova língua revolucionária», Nº 4, 1831.

Convite


Convite – Quanto mais cruel foi a Democracia em obras, outro tanto cuidou em ser cortês e suave em palavras. Ela é a verdadeira Esfinge, que tendo bela cara e belos lábios, as unhas são de tigre. Para tudo convida, até para ser roubado e morto. Convida de palavra e manda na realidade. Sendo propriedade sua não dizer nunca o que faz, nem fazer nunca o que diz, teve justamente a desgraça de se lhe transtornarem todos os seus convites. Porém, ela acudiu logo com o remédio das baionetas e dos arcabuzes, para que lhos aceitassem.
Tanto há convidado a Democracia, que assim se acha com um contra-convite, que a convida a acabar com todos eles.

D. Frei Fortunato de São Boaventura in «Novo Vocabulário Filosófico-Democrático, indispensável para todos os que desejem entender a nova língua revolucionária», Nº 12, 1832.

Celibato


Celibato – Vocábulo coberto dos maiores impropérios pela moderna Filosofia. Segundo os Filósofos, é contrário às Leis da Natureza, ao bem da Sociedade, e aos deveres de Cidadão, não obstante que o Republicanismo Filosófico eleve não pequenas obrigações aos não casados. Entre os Pais de Família não podia ele achar, e efectivamente não achou muitos Propagandistas, nem sequazes: porque não é mui fácil, que um Pai sacrifique seus filhos à louca e momentânea satisfação de fazer figura numa Cadeira Legislativa, Directorial e Presidencial; nem esquecer-se de todo das propriedades que possui, por mais que veja, que não pôde já com segurança social transmiti-las em herança: o amor de Pai o força a amar a justiça, a ordem, a segurança social, a Religião, e os costumes, e por conseguinte detesta uma Democracia, que aniquila tudo quanto é bom e calca aos pés ainda o mais Santo e Justo. É verdade que uma Filosofia ímpia, e brutal, que apaga todos os sentimentos mais doces da Natureza, que exalça, e talvez celebra os mesmos parricídios, é capaz de exterminar dos mesmos corações ainda o amor paterno: porém também é certo, que não triunfa facilmente de um coração, em que a Religião, a razão, e o dever se acham unidos a uma inclinação fortíssima da Natureza. Pelo contrário, o Mancebo celibatário, que nem se ocupa, nem pensa mais que em si mesmo, vê com a maior indiferença perecer todo o Mundo, com tanto que sacie sua ambição, suas paixões, e sua luxúria. Poder-se-á negar que os mais fanáticos, e perversos Republicanos são aqueles Celibatões, que nem tem mulher legítima, nem filhos legítimos?! Os Pais de Família, que com sentimentos não fingidos se hão reunido à banda Democrática, são pela maior parte, ou beberrões, e loucos desesperados, que não podem piorar de sorte, ou algum tal e qual delirante por irreligião e cobiça. Porém os maiores luminares Filosóficos não são aqueles, que ao mesmo passo que vomitam fel e veneno contra o Celibato, passam toda a sua vida sem se casar legitimamente?
Para explicar este mistério Filosófico, convém distinguir duas espécies de Celibato. Um bom, religioso e racional; e outro libertino. O primeiro é pintado pelos Filósofos com as negras cores de anti-natural, anti-social, e danosíssimo por extremo. O segundo é mui digno de todo o Filosofo, e sobretudo conforme ao Direito Filosófico de liberdade.
Quando se trata do Celibato Eclesiástico, que é o justo e honesto, e que se professa como máxima de perfeição Religiosa, para servir melhor à Sociedade, e para vantagem das próprias famílias, pois com a maior herança, que se deixa aos irmãos, e dote às irmãs, se promovem mais os Matrimónios, então, segundo eles, o Celibato é a ruina da Sobriedade; a causa total e parcial da despovoação; e os defeitos, e faltas de alguns poucos Eclesiásticos se ponderam, e aumentam de tal modo, que não parece, senão que o dito Celibato é o princípio e a origem de toda a relaxação e de todos os escândalos, que há e há-de haver no Mundo.
Valha-me Deus! Pois o Celibato é tão mau como tudo isso?! Eu não sei que época é esta em que vivemos, que não tem dúvida de chamar negro ao que é branco, e branco ao que é negro! Digo isto: porque ou o Celibato consiste em não se casar e não ter filhos, ou em abster-se de uma e outra cousa, para se dedicar mais livremente a Deus. Se no primeiro, como tem cara os Filósofos, para lançar era rosto aos Sacerdotes o não se casarem, quando quase todos eles vivem à vaga Vénus sem nem se quer pensar em cousa, que cheire a casamento? Se, enquanto há na Republica mil Religiosos que não se casam, há cem mil Seculares que vivem solteirões e que podiam, e deviam, por justos motivos, casar-se; para que tanto estrepito e alvoroto sobre o Celibato dos mil Eclesiásticos, e tanto silêncio sobre o dos cem mil Seculares? E se consiste no segundo, porque não é isto, e não o Celibato in genere, que se condena nos Sacerdotes? Sejamos sinceros, e justos; casem-se primeiro todos os Seculares, que se acham em estado de poder faze-lo, e depois falaremos sobre o casamento dos Sacerdotes. Esta lide não se compõe com declamações, chufas e descaramentos, mas sim metendo mãos à obra. Com que, Senhores Filósofos anti-Celibatários, vamos apertando a mão nos casamentos, e tenham isto conhecido, quando queiram começar a reforma.
Outra coisa noto eu em Vossas mercês, e é: que devem ver como os Gigantes, pois, a não ser assim, não podiam deixar de conhecer o Celibato de tantos Seculares, que em poucos dias de casados abandonam a infeliz mulher, para se entregarem à mais infame, torpe, e infrutuosa leviandade. Contra estes, Senhores embusteiros, contra estes é que Vossas mercês deviam aguçar o seu zelo. Destruam-se tais Celibatos Matrimoniais; persigam-se seus Professores a fogo e a sangue; casem-se todos os Seculares, que podem, e devem casar-se; e certamente se verá a República muito mais embaraçada em prover de subsistências à Povoação, do que em aumentá-la. Verão que então se julgará uma felicidade, o não se casarem os Sacerdotes.
Os Filósofos Deístas, ou Ateus, não perdem a ocasião, quando se trata de População, de empregar toda a sua eloquência contra o Celibato Eclesiástico. Já se vê que uma das principais obrigações de todo o verdadeiro filosofante é, o denegrir por quantos modos possa a Religião, e representá-la como contraria ao bem da Sociedade. Porém tão cuidadosos e diligentes se mostram nisto, quanto preguiçosos e torpes em descobrir-nos com franqueza as verdadeiras, e legítimas causas, por que em tantas partes escasseia a População. Mas já que eles constantes em sua boa-fé se fazem desentendidos, e como esquecidos, nós lhas recordaremos.
A guerra actual, que só a ímpia Filosofia, e seu digno filho o Republicanismo tem atiçado, não é uma das verdadeiras causas da depopulação? Quantos milhões de homens, todos na flor da idade, e quase todos daquela População útil à Sociedade, como são os Artistas e Lavradores, não tem ela a esta hora sacrificado ao seu furor? Quantos milhões de milhões, que deles espera vão a existência nos Séculos futuros, não ficaram em o nada? São acaso, Senhores Antropógrafos, esses clamores, por que os Sacerdotes se casem, para ver se com o sangue de seus filhos podeis apagar a raivosa sede de sangue, que com a de tantos milhões de Seculares ainda não pudestes mitigar? Que dor, que desgraça tão grande para esses corações filantrópicos, não é o terem-se sacrificado numa batalha dous mil homens, quando podiam ter sido vinte e cinco mil! Deveis sem embargo consolar-vos, pois se até agora não há filhos de Sacerdotes, e Religiosos, que levar ao matadouro, tendes Religiosos, e Sacerdotes, a quem não vos descuidais de levar.
E o luxo, que tantos defensores tem entre os Filósofos, não é um dos maiores impedimentos para a População? É necessário ser pouco menos que um Creso, para poder nestes tempos pensar em mulher. Uma soma, que bastaria para comprar hum terreno capaz de manter uma família, não chega para os enfeites, vestidos, jóias, relógios, etc., etc., que o império da moda, e o uso tem estabelecido para lançar às costas de uma mulher! E se isto é verdade, que razão há, ou que justiça, para pretender que mancebos honrados, e circunspectos devam arruinar-se com o Matrimónio? E em tais circunstâncias não é a libertinagem uma consequência pouco menos que necessária? Vamos a outra coisa.
A falta de Religião, que tão estendida se acha em nossos dias, (graças aos Missionários e Propagandistas Filosóficos) não é outro dos principais motivos da depopulação? Por que causa se não casa aquele peralvilho libertino, senão porque passa uma vida estragada e licenciosa, ocupada toda em armar laços e entregas às mulheres dos outros, senão porque não tem Religião? Porque teme o mancebo honesto e religioso até de pensar em casar-se no meio de uma corrupção tão universal, senão porque não há tálamo seguro, a que não manche a irreligiosa libertinagem?
O remédio pois para o aumento da População não deve buscar-se na abolição do Celibato Eclesiástico, o qual indirectamente a promove de muitos modos; mas sim em atalhar o luxo, a irreligião, e a libertinagem. E já que tanto furor e raiva os devora pelo Celibato, porque não o empregam contra o Celibato Filosófico e desonesto, que é quem oferece um vastíssimo campo? Senhores Libertinos, se Vossas Mercês não tem alentos para deslisar-se do impuro comércio com certa gentinha, e viverem castos, deixem ao menos que outros o façam; e não sejam como o diabo, que estabelece a sua felicidade em arrastar consigo à perdição toda a linhagem humana. Deixem que um Religioso com sua honestidade e desinteresse, e à custa de sua própria mortificação, renunciando a porção de herança que lhe poderia pertencer, deixe suas irmãs em estado de acharem maridos, e a seus irmãos em circunstâncias de poderem buscar mulheres. Deixem que entre tantos que nem pensam, nem podem pensar noutros filhos que nos seus, hajam Bispos, Párocos, Frades, e Sacerdotes, que pensem nos alheios, e empreguem seus ternos e amorosos cuidados nos desgraçados filhos da Sociedade. Deixem que enquanto esse espantoso número de malvados (entre os quais se acham os inimigos do Celibato) vivem sepultados no charco hediondo e abominável da leviandade e da impureza, hajam ao menos Religiosos, que com suas mortificações e penitências, aplaquem a justa indignação do Céu, e no meio da solidão levantem suas inocentes mãos, e seus lábios puríssimos, para que não venham sobre eles o fogo e o enxofre, que já outrora caíram sobre os impuros habitantes de Sodoma e Gomorra.
Desde muitos tempos, que os Políticos Liberais se tem proposto como um objecto de grandeza, e esplendor nacional a grande População; e nenhuma Nação tem querido com mais afinco seguir estes princípios como a Inglaterra, e por isso para eles o Celibato é um objecto de ódio; (prescindindo de outras muitas razões) mas julgámos ter chegado à época de conhecerem todos estes Senhores quanto é errada esta Política. Quando a Inglaterra Católica respeitava o Celibato, aconteceu por ventura que o Governo se visse na dura necessidade de sustentar tantos milhares de pobres?! Viu-se por ventura nesses tempos uma multiplicidade tão horrorosa de incendiários, que tem sacrificado ao seu furor, e condenado às chamas Edifícios, e Estabelecimentos, que custarão milhões de libras esterlinas?! E em que País do Mundo acontece que morra gente, e muita gente de fome, e de frio corno acontece naquele País? Eis-aqui pois o resultado da grande População. E se um dia acontecer (o que não só é possível, mas até já vai em caminho) que a Inglaterra perde a sua influência na Europa, e que esta lhe fecha as portas, não querendo as suas manufacturas, o que há-de acontecer a esta Nação tão populosa? Onde buscarão o alimento tantos milhares de Artistas, que tecem panos, e pescam bacalhau para vender aos Portugueses?! Há-de lhes acontecer, o que anunciou Napoleão, hão-de morrer de fome deitados sobre os fardos das fazendas? Talvez já a esta hora o maior embaraço daquele Governo será o grande excesso de População, a que mui de propósito se tem elevado aquele Povo! Se um dia chega a quebrar-se aquele freio, que contém os Ingleses, será a sua Revolução mais espantosa de quantas tem aparecido no Mundo! E se acontecer que a Península pouco satisfeita da má-fé, que a seu respeito se tem usado, der de mão a certos Tratados feitos no meio de uma perturbação invasora, que já durão há mais de vinte anos, e de que não há exemplo de igual conveniência exclusiva para a Grã-Bretanha, e aceder incertas Propostas mais vantajosas ao nosso Comércio, que outras Nações oferecem, ficará, segundo a sua própria confissão, um milhão de homens, que à custa da nossa indolência se sustentam, morrendo de fome! Este será então um castigo pela injusta perseguição feita aos Celibatários Eclesiásticos.
Muitas ideias acessórias, ao que deixámos escrito, se nos despertavam, mas... deixemos que rompa melhor a Aurora, que já começa de apontar no Horizonte Europeu; e então terão lugar em algum outro Artigo deste Vocabulário.

D. Frei Fortunato de São Boaventura in «Novo Vocabulário Filosófico-Democrático, indispensável para todos os que desejem entender a nova língua revolucionária», Nº 7, 1832.

Perseguição


Perseguição – É coisa indubitável que se os lobos pudessem e devessem falar, haviam de falar sem dúvida democrático, e sobretudo adoptariam este Vocábulo. Então sim se ouviriam as histórias mais lamentáveis, e os queixumes mais dolorosos sobre as injustas perseguições, que os pobres lobos tem sofrido dos cães e dos pastores, contra o imprescritível direito que a Natureza lhes deu, de procurar com que manter a vida. Pouco temos aqui que trabalhar, pois feita a aplicação está acabado o negócio. Porque, quando os Republicanos são os que fazem a perseguição, chama-se esta em idioma Democrático justiça. E pelo contrário, tudo que for atalhar, ou castigar suas iniquidades, chama-se perseguição.
Isto mesmo está acontecendo a nosso respeito: oito a dez milhões extorquidos à baioneta na Ilha de S. Miguel é um acto de justiça; mas um empréstimo de três milhões feito em Portugal pelo Senhor D. Miguel é uma perseguição; assim deve ser na sua língua; mas nós, que lha entendemos, mudamos-lhes as guardas, e fica tudo em seu lugar.

D. Frei Fortunato de São Boaventura in «Novo Vocabulário Filosófico-Democrático, indispensável para todos os que desejem entender a nova língua revolucionária», Nº 6, 1832.

Direitos


Direitos – Nos papéis são infinitos os do homem, segundo a linguagem republicana. Os Filósofos dizem (suponho que o terão estudado bem) que o ente quimérico – natureza – deve ter dado infinitos direitos ao homem, qual deles mais real e imprescritível. Verdade será, quando tão presenteiros no-los asseguram. Porém que adiantamos nós com uns direitos, que ficam só em papéis? Digo isto, porque a grande mestra experiência constantemente nos está metendo pelos olhos, que todos os direitos do homem na república democrática se reduzem simplesmente a dois. O facínora e o ímpio têm o direito de mandar e roubar: o virtuoso e honrado de serem roubados e oprimidos. Com toda a segurança concedo, que se empenhe algum republicano em convencer-me de embusteiro.

D. Frei Fortunato de São Boaventura in «Novo Vocabulário Filosófico-Democrático, indispensável para todos os que desejem entender a nova língua revolucionária», Nº 4, 1831.

Semi-Democrático


Semi-Democrático – São de duas qualidades: uns que em parte estão pela democracia moderna, porém unida à Religião e à moral, e com gente honrada no Governo: outros, pelo contrário, não querem Religião, nem costumes, porém que sejam homens de bem os que governam. Na linguagem antiga não se pode dar a estes outro nome que o de orates [loucos], e aos segundos ainda melhor que aos primeiros; pois supõe que podem haver ateus e libertinos, que sejam homens de bem.

D. Frei Fortunato de São Boaventura in «Novo Vocabulário Filosófico-Democrático, indispensável para todos os que desejem entender a nova língua revolucionária», Nº 2, 1831.

Impostura


Impostura – Significa justamente toda a virtude Democrática. Começa já este Vocábulo a ser antiquado; do que inferimos que os Republicanos vão já tendo mais força que precisão, e que não necessitam desta máscara, pois podem cometer as suas iniquidades à cara descoberta.

D. Frei Fortunato de São Boaventura in «Novo Vocabulário Filosófico-Democrático, indispensável para todos os que desejem entender a nova língua revolucionária», Nº 6, 1832.

Cidadão


Cidadão – No idioma antigo, habitante de Cidade. No moderno, todos (à excepção dos Frades) habitam na Cidade, ainda que nunca a hajam visto. Para entender pois este Vocábulo com a devida precisão, é necessário distinguir e separar o Cidadão cidadão, do Cidadão vilão, e do Cidadão aldeão, etc.
Nas Repúblicas modernas todos os Cidadãos são iguais, ao menos de palavra; porque todos são Cidadãos. Porém pelo que toca à realidade, há duas classes de Cidadãos, tão distintas uma da outra como o Oriente do Poente; a saber: Cidadãos opressores e Cidadãos oprimidos: Cidadãos ladrões e Cidadãos roubados: Cidadãos verdugos e Cidadãos assassinados. Quanto se comprazem os primeiros com um tal nome e com os privilégios a ele anexos, outro tanto se horrorizam os segundos somente em ouvi-lo. Todo o homem de bem, pacífico e religioso, especialmente se tem dinheiro, trema desde os pés até à cabeça só em ouvir o nome Cidadão.
Ainda não temos podido penetrar, porque a democracia moderna tenha escolhido este igualitário Vocábulo com preferência a outros. Dizemos isto, porque para igualar qualquer palavra devia ser indiferente; e tão honorífico seria chamar aos habitantes de um país com o nome de cidadãos, como com o de brejeiros ou bandidos, contanto que fosse comum a todos. Por ventura preferir-se-ia aquele por ser mais decente. Porém bem considerada a coisa, é preciso confessar que o nome Cidadão parece assaz vil para manifestar toda a dignidade e grandeza de um Povo essencialmente Soberano. Porque, vamos com clareza, não lhe cairia melhor o de Majestade? Pelo menos assim lhe era devido na qualidade de Soberano verdadeiro. E então que entusiasmo tão exaltado não causaria em um malsim, um lacaio, ou um sans-culotte, o ver-se saudado com a expressão de sirva-se Vossa Majestade?! Pelo menos deste modo se união perfeitamente o decoro e a igualdade.

D. Frei Fortunato de São Boaventura in «Novo Vocabulário Filosófico-Democrático, indispensável para todos os que desejem entender a nova língua revolucionária», Nº 2, 1831.