Mostrar mensagens com a etiqueta D. João IV. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta D. João IV. Mostrar todas as mensagens

D. João IV é recebido em Lisboa por toda a Corte


Sendo chegados a Vila Viçosa Pedro de Mendonça e Jorge de Melo com a notícia da felicidade com que se conseguira, como já dissemos, a gloriosa empresa da aclamação do Senhor Rei Dom João IV, vendo quanto convinha o partir logo para Lisboa, se meteu em um coche, acompanhado nele do Marquês de Ferreira e do Conde de Vimioso (que também chegaram, depois de haverem solenemente aclamado a El-Rei em Évora) e de Pedro de Mendonça e Jorge de Melo; e a cavalo, de alguns criados da sua Casa. Sem mais tropas que o seguissem, partiu o novo Rei para Lisboa a tomar posse de um Reino, que os Reis de Castela, formidáveis a todo o mundo, dominaram sessenta anos, e haviam pretender restaurar, como a pedra mais preciosa da sua Coroa. Chegando a Aldeia Galega [hoje Montijo] achou muitos Fidalgos e outras pessoas Eclesiásticas e seculares, que o esperavam; a todos recebeu benignamente, e na manhã deste dia [6 de Dezembro], em quinta-feira, se embarcou, e pelas nove horas chegou à Ponte da Casa da Índia, sendo salvado com três descargas de artilharia do Castelo e Fortalezas da Cidade, que fizeram pública a nova da sua chegada. Correu logo ao Paço toda a Nobreza a beijar-lhe a mão, e ao Terreiro tanta multidão de povo com tão grande alvoroço e tão repetidas vozes alegres, que por instantes era necessário chegar El-Rei às janelas para satisfazer as demonstrações d tão leais Vassalos. Na tarde do mesmo dia beijaram a mão a El-Rei todos os Tribunais. De noite esteve toda a Cidade iluminada e festiva com repiques dos sinos, salvas de artilharia, aclamações e vivas do povo; O que tudo sendo observado por um Fidalgo Castelhano, que se achava em Lisboa, disse: Es posible que se quita un Reino a El-Rey Don Felipe com solas luminarias y vivas, sin más Exercito, ni poder? Gran señal y efeto sin duda del brazo omnipotente de Dios. El-Rei Dom Filipe, quando lhe chegou a notícia desta gloriosa aclamação, disse: Perdí el brazo derecho de mi Imperio. Não quis Deus que fosse braço de alheio corpo o Reino que criara para cabeça de outros Reinos, conforme o que disse ao nosso primeiro Rei, falando-lhe da Cruz no Campo de Ourique: que queria nele e em sua descendência estabelecer para Si um Império. Volo in te et in semine tuo Imperium mihi stabilire.

A matutina luz, serena e fria
As Estrelas do Pólo já apartava,
Quando na Cruz o Filho de Maria
Mostrando-se a Afonso o animava.
Camões, Canto 3, Oitava 45.

Pe. Francisco de Santa Maria in «Ano Histórico, Diário Português: Notícia Abreviada de pessoas grandes e coisas notáveis de Portugal», 1744.

Prisão de traidores conjurados contra D. João IV


Corria o primeiro ano da Aclamação d'El-Rei Dom João IV, de gloriosa memória, quando alguns Fidalgos Portugueses, impacientes na obediência do mesmo Rei, estimulados da ambição e da inveja, começaram a intentar e maquinar novidades. Foi o principal motor delas Dom Sebastião de Matos e Noronha, Arcebispo de Braga, por nascimento Português, mas Castelhano no génio. Havia recebido grandes mercês daquela Côrte, e aspirando a outras maiores, não duvidava sacrificar a liberdade da Pátria em serviço das suas pretensões. Buscou a Dom Luís de Meneses, Marquês de Vila Real, Cavaleiro de nobilíssimo sangue, mas de talento muito inferior. Facilmente se despenha da eminência o penhasco já abalado. Andava o Marquês descontente do estado das coisas, e sem réplica, se rendeu às razões do Arcebispo, bem pintadas da sua eloquência, de que era grande artífice. Logo o Marquês reduziu ao mesmo sentimento seu filho Dom Miguel de Noronha, Duque de Caminha; posto que mais o persuadiu, ou arrastou a este, o respeito de seu pai do que outra alguma razão, antes, se afirma, que propusera muitas em contrário. Pelo mesmo modo levou o Arcebispo após si a seu sobrinho Rui de Matos de Noronha, mancebo tão falto de experiências, como cheio agora, ou assoprado, de altas esperanças. Acresceu Dom Agostinho Manuel, Fidalgo ilustre e não menos erudito, que discreto, mas pobre, a quem a falta de bens atraiu, ou constrangeu a buscar melhor fortuna por caminhos extraordinários. A outros Fidalgos se diz que passaram as persuasões do Arcebispo, e com elas a notícia da conjuração, culpa de que depois os absolveu a piedade, ou lhe dissimulou a justiça. A todos (com outros muitos de esfera inferior) mandou El-Rei prender neste dia [28 de Julho], ano de 1641, dispondo as prisões com tanto acerto, que todos quase na mesma hora foram levados a diversos lugares. Pasmou o Reino de que caísse nódoa tão feia em sujeitos tão Ilustres; E não menos admirou toda a Europa o valor e resolução de um Rei, que nos princípios do seu Reinado ainda vacilante, não duvidou proceder contra homens tão grandes, que por seu sangue e dependência, envolviam a maior parte da nobreza de Portugal.

Pe. Francisco de Santa Maria in «Ano Histórico, Diário Português: Notícia Abreviada de pessoas grandes e coisas notáveis de Portugal», 1744.

D. João IV e a Imaculada Conceição


Dos sentimentos religiosos de D. João IV, ninguém duvida igualmente. Há, pelo País fora, inscrições votivas proclamadoras da Imaculada Conceição de Maria, e aqui, em Guimarães, ainda resta dessas lápides, no cunhal norte da esquerda da frontaria do edifício onde está instalado o Arquivo Municipal.
O Rei não só colocava o Reino sob a protecção da Virgem Nossa Senhora, mas afirmava também a sua crença naquilo que havia, três séculos depois, de ser definido como dogma, pelo Pontífice, nessa matéria, infalível.

Alfredo Pimenta in «A Fundação e a Restauração de Portugal», 1940.

Gloriosa Restauração de 1 de Dezembro de 1640


Sobre sessenta anos de dura escravidão se achava no de 1640 o nobilíssimo Reino de Portugal, reduzido aos últimos extremos da calamidade e da miséria: Exausto de gente e de dinheiro, de armas e de armadas, que são os quatro elementos de que compõem o corpo de uma República [Estado] florente: Condenado sem ser ouvido a perder os foros e privilégios da Regalia, contra o que lhe haviam assegurado com repetidos juramentos os Reis Filipes: Infestadas e perdidas em grande parte as suas Conquistas, e impedido por consequência, ou quase de todo extinto, o comércio: Vexados tiranamente os povos com infinitas traças e extravagâncias de tributos e imposições insuportáveis: Levados por força à Côrte de Madrid os Prelados e Títulos de maior graduação, sem lhe valer nem o decoro da dignidade, nem o peso dos anos; e conduzido às guerras de França, Holanda, Catalunha, tudo o que podia servir para defesa do Reino: Consternados os ânimos e abatidos os brios Portugueses, feitos já quase insensíveis pelo costume aos golpes da tirania e aos desprezos da jactância dos Castelhanos. Este era o estado deplorável de Portugal, e a sua mesma debilidade e fraqueza era o maior impedimento de poder algum dia respirar e tornar ao que dantes fora; Mas como seja génio desta heróica Nação sair os maiores apertos com as mais briosas resoluções, começaram alguns Fidalgos a entrar na consideração do remédio de tantos males e logo se lhe iam os olhos e os pensamentos a Vila Viçosa, onde reconheciam a verdadeira sucessão de seus antigos Reis e única esperança que mais lhe convinha atender à conservação da sua casa e pessoa, do que a outras ideias mal seguras e cheias de infinitas dificuldades; Resolutos, porém, os Fidalgos, e já muito crescidos em número, fizeram a saber ao Duque a resolução em que estavam de o aclamarem Rei; O qual, vendo-se reduzido à rigorosa alternativa de entregar-se, ou nas mãos dos que lhe ofereciam o Ceptro, ou ao arbítrio dos que lhe maquinavam a ruína, persuadido pela Duquesa sua mulher, Senhora de elevadíssimo espírito, que lhe disse, tinha por mais acertado, ainda que a morte fosse consequência da Coroa, morrer reinando que acabar servindo, aceitou a oferta; e dispostos os meios quanto sofria o estado das coisas, se destinou este dia [1 de Dezembro], no ano referido, para a execução de tão portentosa e memorável empresa. Assentaram os Fidalgos que todos se achassem de manhã no Terreiro do Paço com armas secretas, e que ao ponto em que desse oito horas o relógio da Capela, saíssem a executar o que estava determinado. Davam as oito, e em um instante, se viu repartido a diferentes empregos aquele nobilíssimo esquadrão de famosíssimos heróis; Uns subiram à fala dos Tudescos, onde estavam os soldados da mesma Nação: Outros deram sobre a guarda dos Castelhanos, e uns e outros fizeram render as armas pasmados e medrosos: Outros entraram no Forte e arrombando as portas interiores das casas onde Miguel de Vasconcelos vivia (Ministro fatal daqueles tempos) e passado de uma bala, o lançaram de uma janela fora ao Terreiro do Paço, onde foi aquele dia e parte do seguinte, o seu infeliz corpo objecto dos opróbrios e desprezos da mais ínfima plebe; Tais são os vaivéns da fortuna, que de uma hora para outra foi visto em estado tão abatido e miserável aquele mesmo homem que era árbitro da Monarquia e monstro da soberba: Outros subiram ao quarto onde assistia a Princesa Margarida, que então fazia a figura de Governadora do Reino; E posto que intentou moderar o ímpeto dos Fidalgos, o não pode conseguir: Porque todos em sua presença aclamaram ao novo Rei; E intentando chegar-se a uma janela a implorar o favor do povo, lhe disse Dom Carlos de Noronha: Que não quisesse dar ocasião a que se lhe perdesse o respeito: A mim? (lhe replicou a Princesa) e como? Como, Senhora? (lhe tornou Dom Carlos) obrigando a V. A. a que senão quiser entrar por aquela porta, saia por esta janela: Calou a Princesa e recolheu-se: Outros foram à casa do Senado da Cidade, de que era Presidente Dom Pedro de Menezes, Conde de Cantanhede, ao qual não haviam revelado o segredo daquela acção seus próprios filhos, Dom António e Dom Rodrigo de Menezes, mas agora incitado por eles mesmos, e facilmente persuadido ao bem comum da Pátria, seguiu sem contradição a mesma voz e assim todos os Ministros daquele Tribunal: Outros foram ao da Relação, onde também acharam sem repugnância a mesma vontade e ânimo Português. Por todas estas partes discorreram os Fidalgos, seguidos já de inumerável povo com as espadas nuas nas mãos, dizendo a vozes: Viva El-Rei Dom João IV. Era muito para ver entre todos Dom Miguel de Almeida, um dos primeiros motores desta empresa, Varão de suma autoridade, por sua grande nobreza e veneráveis canas, o qual, revestido de brios de mancebo, deu feliz princípio aos vivas do novo Rei; Dom Álvaro de Abranches discorreu pelas principais ruas da Cidade com a bandeira da mesma repetindo os mesmos vivas, a que respondia com outros infinitos o povo todo, sem diferença de sexo, nem de idade. A Condessa de Atouguia, Don Filipa de Vilhena, ajudou a armar seus dois filhos, Dom Jerónimo de Ataíde e Dom Francisco Coutinho, ambos de mui tenra idade: O mesmo fez a seus dois filhos, Fernão Telles e António Telles, sua mãe Dona Mariana de Alencastre. Até nas mulheres do povo se achou o mesmo zelo e amor da Pátria, e saíram muitas com espadas na mão, dizendo: Que ninguém se atrevesse a contradizer aqueles vivas, porque na sua defesa perderia a vida. A uma, por nome Caetana, disse um seu irmão zombando, ou deveras: Viva Filipe: mas ela com grande furor lhe deu uma cutilada, antepondo o amor da Pátria ao do sangue. Tanto que o primeiro rumor chegou à Sé, logo o Arcebispo Dom Rodrigo da Cunha, Varão excelente em letras e virtudes, desceu à Capela-mor e com os seus Cónegos começaram a rezar as Ladainhas, e saindo da Sé com a Cruz Arquiepiscopal diante, quando chegava de fronte da Igreja de Santo António se viu despregada a mão direita da Imagem de Cristo que ia na mesma Cruz, atribuindo-se a singular prodígio aquele, que podia ser acaso; Mas estilo é da Providência Divina aprovar com semelhantes maravilhas os efeitos a que encaminha as suas direcções; E quem poderá negar que intervieram nesta bizarra e luzidíssima acção muitas circunstâncias maravilhosas? Maravilha foi em uma Cidade cheia de homens por nascimento Castelhanos e de outros muitos que também o eram por génio e dependência; com um Castelo presidiado de soldados da mesma Nação, não se fazer a menor resistência a tamanha novidade. Maravilha foi concorrer o povo de Lisboa, não menos ardente que numeroso, seguindo a voz de poucos Fidalgos e ignorando os meios de se levar ao fim tão arriscada empresa. Maravilha foi que seguissem prontamente a mesma voz muitos Fidalgos que a ouviram naquela hora sem notícia alguma antecedente, podendo com razão ressentir-se de se não haver fiado deles tão relevante negócio. Maravilha foi ver-se logo ao meio-dia tão sossegada e pacifica a Cidade, como se a El-Rei D. João III houvera sucedido D. João IV. Maravilha foi que em tanta comoção de povo tão ardente, não se cometesse o menor insulto e estivessem as tendas e lojas abertas como em qualquer outro dia, em que nelas senão trata mais que de compras e vendas. Maravilha foi que dentro em poucos dias seguisse todo o Reino em peso a voz de Lisboa, sem que em tantas Cidades, Vilas e Fortalezas (nem ainda nas da Raia de Castela) houvesse resistência, antes em quase todas se antecipou a aclamação do novo Rei ao aviso dos Governadores; Maravilha foi executar-se tudo o que estava disposto sem errar a mínima circunstância. Maravilha foi, sobretudo, tirar-se dentro em poucas horas um Rei Poderosíssimo e formidável, e entronizar outro, desarmado e indefeso, sem mais ferro que o das espadas levantadas no ar, e sem mais fogo que o das salvas e luminárias com que nas noites seguintes celebrou todo o Reino a sua liberdade. E quem negará que se pode dizer com muito própria acomodação por esta portentosa mudança, o que de outra disse antigamente David: Haec mutatio dexterae excelsi? Quem negará que uma acção tão circunstanciada de maravilhas colocou aos Autores dela no mais alto sólio do templo da fama imortal. Não damos aqui os seus nomes por não sairmos da nossa brevidade e estarem já impressos em muitos livros, sendo dignos por certo de serem estampados com letras de ouro em lâminas de prata.

Pe. Francisco de Santa Maria in «Ano Histórico, Diário Português: Notícia Abreviada de pessoas grandes e coisas notáveis de Portugal», 1744.

19 de Março: Nascimento de D. João IV


No mesmo dia, ano de 1604, nasceu em Vila Viçosa o Sereníssimo Duque Dom João, depois Rei de Portugal, IV de nome. Filho dos Sereníssimos Duques Dom Teodósio e Dona Ana de Velasco. Foi aquele ano memorável e célebre, pelo que agora direi, e é bem que chegue a todos. No ano de 1580 (fatal a este Reino, porque nele passou ao domínio de Castela) apareceu um Cometa e desapareceu com pouca interpolação de tempo; Fizeram-se vários juízos sobre ele e um Astrólogo, não de grande fama, chamado Meslino, saiu a luz com um tratado breve, mas admirável, pela promessa que nele fez, dizendo: Que aquele Cometa apontava para o ano de 1604 e que neste havia de aparecer no Céu uma nova estrela, no mesmo lugar, em que o Cometa havia desaparecido. Foi recebida esta predição com riso de todos os outros Matemáticos, como coisa que por nenhum modo se podia saber naturalmente, nem ainda conjecturar. Eis que, passados vinte e quatro anos, no de 1604, aparece no mesmo lugar onde estivera o Cometa, uma estrela novamente nascida e nunca vista no Céu. Triunfou Meslino (que ainda vivia) da irrisão dos seus émulos, e estes, convencidos e atónitos, não puderam negar o mesmo que estavam vendo; E concordaram uniformemente os mais sábios, em que aquela nova estrela predizia um novo Rei; Mas todos ignoravam qual, e onde, e quando; Até que, correndo os tempos, mostrou o efeito (se é que havemos de dar crédito a uma tão maravilhosa consonância e proporção de coisas) que o Cometa desaparecido no ano de 1580 foi o Cardeal Rei Dom Henrique, que no mesmo ano morreu; E que a nova estrela, índice do novo Rei, nascida no ano de 1604, significava o Duque Dom João, nascido no mesmo ano; e depois seguindo-se a Dom Henrique na série dos Reis Portugueses, sendo aclamado novo Rei de Portugal, no ano de 1640. Estes dois anos, da Aclamação e Natalício, pela transposição mútua das últimas letras do algarismo, são correlativos um do outro; e o efeito mostrou que o Natalício de 1604 foi profecia do de 1640 da Aclamação. O lugar onde desapareceu o Cometa e apareceu a nova estrela, confirmou por modo admirável que ambas aquelas línguas do Céu falavam com este Reino: Porque ambas apareceram no Signo Sagitário, que domina sobre Espanha, e no Serpentário, demonstrando nomeadamente a Portugal, que tem por timbre a Serpente. Assim predizia o Céu, por alta providência, com raios de luz os sucessos deste Reino, destinado para Império de Cristo.

Pe. Francisco de Santa Maria in «Ano Histórico, Diário Português: Notícia Abreviada de pessoas grandes e coisas notáveis de Portugal», 1744.

§

Relembro que a Restauração de 1640 foi igualmente profetizada pela Venerável Leonor Rodrigues.

A terceira aclamação de D. João IV


Três vezes foi aclamado El-Rei Dom João IV. A primeira, no primeiro de Dezembro de 1640 pelos quarenta Fidalgos a que chamamos (como por antonomásia) os da Aclamação. A segunda, aos quinze do mesmo mês e ano, por todos os Prelados, Títulos, Fidalgos e Ministros, que então se achavam em Lisboa. A terceira, neste dia [28 de Janeiro] ano de 1641, por todo o corpo da Nação, congregado em Côrtes, as quais se compõem dos três Estados: Eclesiástico, Nobreza e Povo. Juntos, pois, na grande Sala do Palácio, todos os que naquela função tinham lugar, saiu El-Rei a um Trono, que estava prevenido e ornado com muita grandeza. Vinha vestido de pardo, bordado de ouro, com botões de rubis e riquíssimo colar de pedraria, de que trazia pendente o Hábito de Cristo, com Opa roçagante de borcado, forrada de tela branca com flores de ouro e prata, e na mão direita o Ceptro de ouro, que na Batalha de Aljubarrota foi tomado a El-Rei Dom João I de Castela. Vinha à mão direita d'El-Rei o Príncipe Dom Teodósio, seu filho, que então era de sete anos, vestido de tela branca com capa de gorgorão negro, forrada da mesma tela, e guarnecida de passamanes de ouro. Trazia ao pescoço um rico colar e no chapéu um riquíssimo cintilho de diamantes com plumas de martinetes. Fazia o ofício de Condestável o Marquês de Ferreira, Dom Francisco de Melo, e assistiam nos seus lugares e ministérios, os oficiais da casa, cada um com a insígnia do seu cargo. Assentados, sua Majestade e Alteza, e logo todo o mais congresso, feita a prática pelo Bispo de Elvas, D. Manuel da Cunha, fizeram todos juramento, preito e menagem a Sua Majestade, como a seu verdadeiro Rei e natural Senhor, e a Sua Alteza, como a Príncipe herdeiro e sucessor destes Reinos.

Pe. Francisco de Santa Maria in «Ano Histórico, Diário Português: Notícia Abreviada de pessoas grandes e coisas notáveis de Portugal», 1744.

Nossa Senhora da Conceição, Rainha de Portugal


Dom João, por graça de Deus, Rei de Portugal e dos Algarves, de aquém e de além-mar em África, Senhor de Guiné e da Conquista, Navegação e Comércio da Etiópia, Arábia, Pérsia, e da Índia, etc. faço saber aos que esta minha provisão virem, que sendo ora restituído por mercê muito particular de Deus nosso Senhor à Coroa destes meus Reinos e senhorios de Portugal.
Considerando que o Senhor Rei Dom Afonso Henriques meu progenitor e primeiro Rei deste Reino, sendo aclamado e levantado por Rei, em reconhecimento de tão grande mercê, de consentimento de seus vassalos, tomou por especial advogada sua a Virgem Mãe de Deus Senhora nossa, e debaixo de sua sagrada protecção e amparo Lhe ofereceu todos seus sucessores, Reino e vassalos com particular tributo em sinal de feudo e vassalagem.
Desejando eu imitar seu santo zelo, e a singular piedade dos Senhores Reis meus predecessores, reconhecendo ainda em mim avantajadas e contínuas mercês e benefícios da liberal e poderosa Mãe de Deus nosso Senhor, e por intercessão da Virgem Nossa Senhora da Conceição.
Estando ora juntos em Côrtes com os três Estados do Reino, lhes fiz propor a obrigação que tínhamos de renovar e continuar esta promessa, e venerar com muito particular afecto e solenidade a festa de sua Imaculada Conceição. E nelas, com parecer de todos, assentamos de tomar por Padroeira de nossos Reinos e Senhorios a Santíssima Virgem Nossa Senhora da Conceição, na forma dos Breves do Santo Padre Urbano VIII, obrigando-me a haver confirmação da Santa Sé Apostólica, e Lhe ofereço à sua Santa Casa da Conceição, sita em Vila Viçosa, por ser a primeira que houve em Espanha desta invocação, cinquenta cruzados de ouro em cada ano, em sinal de tributo e vassalagem.
E da mesma maneira prometemos e juramos com o Príncipe e Estados, de confessar e defender sempre (até dar a vida sendo necessário) que a Virgem Maria Mãe de Deus foi concebida sem pecado original, esperando com grande confiança que por meio desta Senhora (Deus) nos ampare e defenda de nossos inimigos para glória de Cristo nosso Deus, exaltação da nossa Santa Fé Católica Romana, conversão das gentes e redução dos hereges.
E se alguma pessoa intentar coisa alguma contra esta nossa promessa, queremos que seja logo lançado fora do Reino; e se for Rei (o que Deus não permita) haja a sua e nossa maldição, e não se conte entre nossos descendentes, e esta minha provisão se guarde no Cartório da Casa de Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa e na nossa Torre do Tombo.

Dada nesta nossa cidade de Lisboa, a 25 de Março de 1646
El-Rei Dom João IV

A el-Rei D. João IV


Que logras Portugal? Um rei perfeito.
Quem o constituiu? Sacra piedade.
Que alcançaste com ele? A liberdade.
Que liberdade tens? Ser-lhe sujeito.

Que tens na sujeição? Honra e proveito.
Que é o novo rei? Quase deidade.
Que ostenta nas acções? Felicidade.
E que tem de feliz? Ser por Deus feito.

Que eras antes dele? Um labirinto.
Que te julgas agora? Um firmamento.
Temes alguém? Não temo a mesma Parca.

Sentes alguma pena? Uma só sinto.
Qual é? Não ser um mundo, ou não ser cento.
Para ser mais capaz de tal Monarca.

Sóror Violante do Céu (1602-1693)

Henrique Dias


Henrique Dias, Negro por nascimento, claríssimo por acções, começou a servir nas guerras de Pernambuco, com um Terço dos da sua Nação, desde o tempo em que Matias de Albuquerque governava aquela Província, e desde então começou a ser flagelo de Holandeses; Vez houve em que lhe viram matar cinco por sua mão; De tal sorte o temiam, e aos seus Negros, que já para os fins da guerra os reputavam invencíveis. Em certa ocasião lhe passaram com uma bala a mão esquerda, e logo a mandou cortar, por fazer a cura mais breve, dizendo: Que fica mui contente com a direita, que lhe bastava para matar Holandeses em serviço do seu Rei; Assaltou e rendeu muitas Praças e Fortalezas de grande consideração, e costumava chegar-se aos muros e lançar o seu bastão dentro neles, e dizia aos seus Negros, que ou todos haviam de morrer com ele, ou haviam de resgatar aquela insígnia do seu Cargo; Defendeu outras Praças contra toda a esperança, até que desesperavam os invasores; Militou desde os princípios desta guerra e chegou aos fins, logrando a glória de lhe deverem em grande parte aqueles povos a sua liberdade. El-Rei Dom João IV, que então Reinava, lhe fez mercê do hábito de Cristo, que ele prometeu não pôr nos peitos, senão depois de expulsado o Holandês, e assim o cumpriu pontualmente. Faleceu neste dia [31 de Agosto], ano de 1661, deixando, apesar da côr, esclarecida fama.

Pe. Francisco de Santa Maria in «Ano Histórico, Diário Português: Notícia Abreviada de pessoas grandes e coisas notáveis de Portugal», 1744.

Viva a Restauração de 1640!



Na Era de 1639, um ano antes da Aclamação deste Reino, teve esta visão a Venerável Serva de Deus Leonor Rodrigues, na qual viu o Duque de Bragança sentado num Trono Real, e a Santa Teresa [de Ávila] que com a mão esquerda lhe metia um ceptro na mão; e deu-se a entender a esta Serva de Deus, que dali a um ano teriam os Portugueses Rei natural, por intercessão da Santa, e por estar a sua mão esquerda em Portugal; por isso com esta mão lhe punha o ceptro, e não com a direita. Assim se cumpriu no ano seguinte de 1640.

Nossa Senhora, Rainha de Portugal

Quis a Providência que a Virgem de Fátima fosse coroada no 300º aniversário da coroação da Imaculada Conceição.

O amor ardente e reconhecido vos trouxe: e vós quisestes dar-lhe uma expressão sensível condensando-o e simbolizando-o naquela coroa preciosa, fruto de tantas generosidades e tantos sacrifícios, com que, por mão do Nosso Cardeal Legado, acabamos de coroar a Imagem taumaturga.
Símbolo expressivo, que, se aos olhos da celeste Rainha atesta o vosso filial amor e gratidão, primeiro vos recorda a vós o amor imenso, expresso em benefícios sem conta, que a Virgem Mãe tem desparzido sobre a sua «Terra de S. Maria». Oito séculos de benefícios! Os cinco primeiros sob a signa de S. Maria de Alcobaça, de S. Maria da Vitória, de S. Maria de Belém, nas lutas épicas contra o Crescente pela constituição da nacionalidade, em todos os heroísmos aventurosos dos descobrimentos de novas ilhas e novos continentes, por onde vossos maiores andaram plantando, com as Quinas, a Cruz de Cristo. Estes três últimos séculos sob a especial protecção da Imaculada, a quem o Monarca restaurador com toda a Nação reunida em Cortes aclamou Padroeira de seus Reinos e Senhorios, consagrando-lhe a coroa, com especial tributo de vassalagem e com juramento de defender, até dar a vida, o privilégio de sua Conceição Imaculada: «esperando com grande confiança na infinita misericórdia de Nosso Senhor, que por meio desta Senhora, Padroeira e Protectora de nossos Reinos e Senhorios, de quem por honra nossa nos confessamos e reconhecemos vassalos e tributários, nos ampare e defenda de nossos inimigos, com grandes acrescentamentos destes Reinos, para a glória de Cristo nosso Deus e exaltação de nossa Santa Fé Católica Romana, conversão dos Gentios e redução dos Hereges» (Auto da aclamação de Nossa Senhora da Conceição como Padroeira de Portugal, 1646).
E a Virgem fidelíssima não confundiu a esperança que n'Ela se depositava. Basta reflectir nestes três últimos decénios, pelas crises atravessadas e pelos benefícios recebidos equivalentes a séculos; basta abrir os olhos e ver esta Cova da Iria transformada em fonte manancial de graças soberanas, de prodígios físicos e muito mais de milagres morais. Que a torrentes daqui se derramam sobre todo Portugal, e de lá, rompendo pelas fronteiras, se vão espraiando por toda a Igreja e por todo o mundo.
Como não agradecer? Ou antes, como agradecer condignamente? Há trezentos anos o Monarca da restauração, em sinal do amor e reconhecimento seu e do seu povo, depôs a coroa real aos pés da Imaculada, proclamada Rainha e Padroeira. Hoje vós todos, todo o povo da Terra de Santa Maria, com os Pastores de suas almas, com o seu Governo, às preces ardentes, aos sacrifícios generosos, às solenidades eucarísticas, às mil homenagens que vos ditou o amor filial e reconhecido, juntastes aquela preciosa coroa e com ela cingistes a fronte de Nossa Senhora da Fátima, aqui neste oásis bendito, impregnado de sobrenatural, onde mais sensível se experimenta o seu prodigioso patrocínio, onde todos sentis mais perto o seu Coração Imaculado a pulsar de imensa ternura e solicitude materna por vós e pelo mundo.
Coroa preciosa, símbolo expressivo de amor e gratidão!
(...)
É que a sua realeza é essencialmente materna, exclusivamente benéfica.
E não é precisamente essa realeza que vós tendes experimentado? Não são os infindos benefícios, os carinhos inumeráveis com que vos tem mimoseado o Coração materno da augusta Rainha, que vós hoje aqui proclamais e agradeceis? A mais tremenda guerra que nunca assolou o mundo, por quatro longos anos andou rondando as vossas fronteiras, mas não as ultrapassou, graças sobretudo a Nossa Senhora, que deste seu trono de misericórdia, como de sublime atalaia, colocada aqui no centro do país, velava por vós e por vossos governantes; nem permitiu que a guerra vos tocasse, senão o bastante para melhor avaliardes as inauditas calamidades de que a sua protecção vos preservava.
Vós coroai-la Rainha da paz e do mundo, para que o ajude a encontrar a paz e a ressurgir das suas ruínas.
E assim aquela coroa, símbolo de amor e gratidão pelo passado, de fé e de vassalagem no presente, torna-se ainda, para o futuro, coroa de lealdade e esperança.
Vós, coroando a imagem de Nossa Senhora, assinastes, com o atestado de fé na sua realeza, o de uma submissão à sua autoridade, de uma correspondência filial e constante ao seu amor. Fizestes mais ainda: alistastes-vos Cruzados para a conquista ou reconquista do seu Reino, que é o Reino de Deus. Quer dizer: obrigastes-vos a trabalhar para que Ela seja amada, venerada, servida à volta de vós, na família, na sociedade, no mundo.

Papa Pio XII in «Anúncio radiofónico aos fiéis portugueses por ocasião da solene celebração da coroação de Nossa Senhora de Fátima», 13 de Maio de 1946.

Viva o 1º de Dezembro! Viva Portugal!


Episódios:
A – A morte do traidor Miguel de Vasconcelos.
B – A Restauração é proclamada entre a população de Lisboa.
C – D. João IV é jurado Rei de Portugal.
D – D. João IV é coroado Rei de Portugal.

Sobre Espanha e a Restauração de 1640

1128 e 1640

Pela morte formosíssima de D. Sebastião, em Alcácer Quibir, em 1578, o trono de Portugal ficou virtualmente vago, pois o Cardeal D. Henrique, pelo seu estado e pela sua idade, não podia assegurar a continuidade da dinastia. E pelo seu falecimento em 1580, a Corôa portuguesa, ocupada desde o seu início, em 1128, pelo Rei de Portugal, estava à mercê do mais forte: o mais forte era, nesse tempo, D. Filipe II de Castela. E o Estado português teve que suportar a afronta de passar a ser dirigido e governado pelo Rei castelhano.
Durou a afronta, que ainda hoje nos vexa e revolta, sessenta anos...
Em 1640, Portugueses leais, na Nobreza, no Clero e no Povo, agrupado à volta do Duque de Bragança, D. João, português de melhor têmpera, e diplomata da melhor escola, repetiram a façanha dos seus Antepassados de 1128.
Se estes repeliram e expulsaram da terra portuguesa, os galegos e leoneses seus inimigos, os portugueses de 1640 repeliram e expulsaram os castelhanos, tão seus inimigos, ou mais do que os outros.
«Que es esto, portugueses, onde está vuestra fidelidad?» – perguntava, pasmada, a Duquesa de Mântua, vice-Rainha de Portugal, em 1 de Dezembro de 1640, aos Nobres que lhe tinham invadido o Palácio.
E os Nobres, muito serenos, pela boca de D. Carlos de Noronha, responderam-lhe que estivesse quietinha, para não terem de lhe faltar ao respeito.
«A mi? Como?!» – retorquiu, irada, a Duquesa. E, sereno, D. Carlos de Noronha, a tranquilizá-la, e em linguagem de hoje: «Como? Baldeando V. A. por uma dessas janelas fora...»
É das páginas mais bonitas da nossa história, essa que se escreveu em 1 de Dezembro de 1640, – com valentia, com elegância, com habilidade, com um desprezo soberano pela morte.
À frente de todos, e a destacar-se pela acção prudente e firme, a figura varonil, bem desenhada, bem personalizada, do Duque de Bragança que uma História ignóbil, apostada a desvirilizar Portugal, a envergonhar Portugal de si mesmo, a desacreditar Portugal, nos ensinou a ter como figurino de poltrões.
Que fez o Duque de Bragança?
Responda, por mim, um homem insuspeito – insuspeito porque despido de toda a espécie de ambições; insuspeito, porque superiormente culto; insuspeito, porque de feitio avesso a lisonjas, antes acusado de excessivamente azedo nos seus juízos – Joaquim de Vasconcelos, erudito notável:
«Restaurar o reino em todo o sentido, reorganizar a administração, restabelecer as finanças, criar os complicados elementos de defesa, reconquistar quase todas as possessões de África e todo o Brasil, criar a Junta Geral do Comércio, negociar alianças valiosas, tudo isto em dezasseis anos... parece-nos uma obra digna de admiração e do nosso respeito, ainda que não fossem conhecidas as circunstâncias dificílimas em que estes trabalhos foram executados».
É este o D. João IV que os factos, as realidades, autorizam e levam a criar, e não o que formam as calúnias e misérias que aquela História anti-portuguesa tem forjado a seu respeito.
Foi D. João IV vítima dessa História infame. E com ele, a nobre Dinastia de Bragança, que, a despeito do desventurado D. Afonso VI, personagem ainda insuficientemente definida e, portanto, deformadamente julgada, se mostrou digna continuadora da acção admirável das dinastias suas predecessoras.
A Restauração começou em 1 de Dezembro de 1640. Mas foi uma rude e longa campanha que durou vinte e sete anos – desde aquela data até 13 de Fevereiro de 1668, e ocupou três reinados, os de D. João IV, D. Afonso VI e os três primeiros tempos de D. Pedro II.
Portugal aureolou-se de glória militar, – pelas notáveis vitórias alcançadas nos campos de batalha; de glória cívica, – pela tenacidade que revelou, pelo espírito de sacrifício de que deu exemplo constante; e de glória diplomática – pela posição que conquistou nas chancelarias europeias.
Como em 1128, como em 1383, como em 1580 – o inimigo está na fronteira de leste. Use ele as máscaras que usar; seja ele o arauto de que ideologias quiser; revista ele a forma política que revestir, o vizinho de leste é sempre o inimigo.
D. Afonso I sujeitou-o à sua espada, obrigando-o a reconhecer o nosso direito e a respeitar-nos; D. João I e o Condestável obrigaram-no a beijar o pó de Aljubarrota e a fugir desvairado para além das fronteiras; os generais da Restauração – naqueles campos famosos das linhas de Elvas, do Canal, de Montes Claros, derrotaram-no em sucessivos combates. Inimigo vencido – mas não convencido.
Pode, às vezes, dar-nos a impressão de adormecido ou desinteressado, com as unhas encolhidas, quase inofensivo. Não nos iludamos! O inimigo está vencido, mas não está convencido. E a toda a hora, seja qual fôr a sua posição no quadro dos acontecimentos do mundo, – ele vive da saudade indominada de 1580 a 1640, e da esperança de recomeçar 1580.
Desgraçadamente, cá dentro, há quem lhe alimente essa saudade, e lhe fortaleça essa esperança, sob o disfarce traiçoeiro da Aliança Peninsular ou da Hispanidade.
Devemos aos Humanistas – espíritos internacionalizados, isto é, desnacionalizados, cidadãos do mundo e não das suas pátrias, devemos, aos Humanistas do século XVI, esse conceito perigoso e falso do Hispanismo. Até o nosso Camões se deixou seduzir pelo canto da sereia maldita.
Perdão! Portugal nunca foi Espanha; foi sempre Portugal!
Quando D. Afonso VII se proclamou Imperador, em Toledo, em Junho de 1135, passou a designar-se nos diplomas da sua Chancelaria, «totius Hispanie Imperator», ou «Imperator hispaniorum», ou «hispaniarum Imperator»; e este título que Afonso VIII transformou em «Ispanorum rex», mostra claramente que Portugal não fazia parte das Espanhas, nem da Espanha, e os portugueses não pertenciam à grei dos espanhóis.
De resto, o termo Hispania, tão simples, à primeira vista, é muito mais complicado do que se supõe. Em muitos documentos dessa época, denomina-se Hispania tudo o que na Península está ainda em poder dos mouros. São vulgares as expressões de Hispania ou venire de Hispania ou ire de Hispania, como referindo-se a terras da Península ainda não conquistadas por cristãos. E Petter Rassow que isto nos revela, acrescenta que «Valencia, Murcia, Cordoba, y Malaga son las partes o terras de Hispania».
Seja como fôr, o que é indiscutível é que Portugal era Portugal, e nunca, ninguém, na Idade Média, concebeu a Espanha como abrangendo também Portugal, nem os Reis desse tempo, dizendo-se «de Hespanha», se supunham de Portugal.
Foi preciso que viessem os Humanistas do século XVI, com as suas invencionices, para que se criasse um conceito colectivo de Hispanidade, que prendesse no mesmo elo, ou fundisse no mesmo sangue, a Espanha e Portugal, como se entre uma e outro não houvesse um abismo que ninguém pode transpôr.
Esse conceito colectivo despertou ultimamente, na pena de António Sardinha, e na acção proselítica do desventurado Ramiro de Maeztu, assassinado canibalescamente pelas hordas vermelhas de Madrid, mas é preciso fazer-lhe frente, e negar-lhe passaporte de trânsito em terras de Portugal.
Compreendo que ele seduza o inimigo tradicional de Portugal; espíritos portugueses não pode seduzi-los, uma vez que não estejam doentes.
Não! A leste o inimigo – contra quem devemos ter sempre preparadas as nossas forças, as nossas energias, as nossas vontades, e as nossas vidas. Isto não significa que lhe queremos mal: quer dizer, sim, que nos queremos bem a nós próprios...
E o que acabo de dizer não se opõe a que possamos observar certos momentos de entendimento ou colaboração, como durante a última guerra de Espanha, ou como na hora que passa. Esses momentos são filhos de tendências pessoais deste ou daquele governante: não reflectem sentimentos colectivos. Tivemos desses momentos, depois de 1128 – o que não impediu 1385; voltamos a tê-los posteriormente, e nem por isso escapamos a 1580. É que acima das atitudes pessoais deste ou daquele homem de Estado – estão as condições psicológicas e as tradições históricas dos Povos, que nos impõem a verificação permanente das realidades, e nos defendem dos perigos das ilusões ocasionais.

Alfredo Pimenta in «A Fundação e a Restauração de Portugal», 1940.

Restauração: visão da Venerável Leonor Rodrigues


Gravura do século XVII ou XVIII representando Santa Teresa de Ávila (espanhola) e Dom João IV, onde se lê a seguinte descrição a respeito de uma visão da Venerável Leonor Rodrigues:

Na Era de 1639, um ano antes da Aclamação deste Reino, teve esta visão a Venerável Serva de Deus Leonor Rodrigues, na qual viu o Duque de Bragança sentado num Trono Real, e a Santa Teresa que com a mão esquerda lhe metia um ceptro na mão; e deu-se a entender a esta Serva de Deus, que dali a um ano teriam os Portugueses Rei natural, por intercessão da Santa, e por estar a sua mão esquerda [relíquia] em Portugal; por isso com esta mão lhe punha o ceptro, e não com a direita. Assim se cumpriu no ano seguinte de 1640.

Sobre a Venerável Leonor Rodrigues, pode ler-se no «Ano Histórico»:

A Venerável Leonor Rodrigues foi natural da Vila de Mourão da Província de Alentejo. Na Cidade de Évora tomou o hábito de Terceira Carmelita Descalça, e por grandes mestres espirituais desta Religião [ordem religiosa] foi dirigida por espaço de cinquenta anos contínuos. Era dotada de muitas virtudes. Teve espírito penitente, extático, milagroso, e profético. Depois da preciosa morte que teve neste dia [11 de Abril], ano de 1639, ficou como se estivera viva, tratável e flexível [corpo incorrupto]. Toda a Cidade a venerou sempre, e acompanhou o seu enterro até à sepultura, que se lhe deu na Igreja do Convento dos Remédios de Carmelitas Descalços.

Adeste Fideles


Vinde fiéis e acorrei,
Alegres e jubilosos;
Vinde todos a Belém!
Porque este recém-nascido
É o grande Rei dos Anjos:
Vinde todos adorá-lO. (3x)

Abandonando os rebanhos,
Encaminham-se ao presépio,
Os pastores deslumbrados!
Também nós, por nossa vez,
Corramos todos vibrantes:
Vinde todos adorá-lO. (3x)

Ali veremos oculto,
Sob o véu da carne humana,
O eterno esplendor do Pai!
Ao Deus, que Se fez menino,
Envolto em pobres paninhos,
Vinde todos adorá-lO. (3x)

A Quem por nós Se fez pobre,
E jaz em palhas deitado,
Abracemos e aqueçamos
Ao calor dos nossos beijos!
Como ficar sem amar
Àquele que tanto nos ama?
Vinde todos adorá-lO. (3x)

A el-Rei D. João IV


Que logras Portugal? Um rei perfeito.
Quem o constituiu? Sacra piedade.
Que alcançaste com ele? A liberdade.
Que liberdade tens? Ser-lhe sujeito.

Que tens na sujeição? Honra e proveito.
Que é o novo rei? Quase deidade.
Que ostenta nas acções? Felicidade.
E que tem de feliz? Ser por Deus feito.

Que eras antes dele? Um labirinto.
Que te julgas agora? Um firmamento.
Temes alguém? Não temo a mesma Parca.

Sentes alguma pena? Uma só sinto.
Qual é? Não ser um mundo, ou não ser cento.
Para ser mais capaz de tal Monarca.

Sóror Violante do Céu (1602-1693)