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Mártir São Lupo


São Lupo, a quem fez escravo a fortuna, mas a graça lhe participou tão generosos brios, que com santa liberdade defendeu as verdades da Fé, e por ela conseguiu o martírio neste dia [23 de Agosto], em Pontevedra, povoação, que então pertencia à nossa Lusitânia.

Pe. Francisco de Santa Maria in «Ano Histórico, Diário Português: Notícia Abreviada de pessoas grandes e coisas notáveis de Portugal», 1744.

Escravatura: potências maçónicas contra Portugal


Acabando de traduzir este artigo da humanidade despertou-se-nos a lembrança do que há pouco lemos na fala do Rei dos Ingleses, em que ele diz ter feito um Tratado com a França sobre a Escravatura, para destruir este flagelo que há tantos Séculos pesa sobre a humanidade, para cujo efeito se haviam reunir as forças navais das duas Nações em certos pontos, etc. Ora, a falarmos a verdade, a nossa política é tão rasteira, e nós tão pouco versados nas maniversas inglesas, que não podemos compreender como a humanidade Negra, que vive nos Sertões d'África, lhes mereça tanta atenção, quando a humanidade Branca, que vive debaixo de Leis férreas na Irlanda e nas Colónias em que dominam; assim como não podemos compreender como estas duas Nações se arvorassem em Procuradores dos Negros, para quem a Escravatura sem dúvida era um benefício, e dispusessem de forças Marítimas numa ocasião em que sem dúvida outras questões mais graves deviam chamar a sua atenção: também não sabemos como seja necessária essa união de Esquadras para um fim tão diminuto, como é obstar ao Contrabando dos Negros: Latet anguis in herba: aqui há serpente escondida, e é muito venenosa. Talvez se realize agora, o que há muito disse um Periódico Francês (l'Avenir) que tendo havido na França tantos Governos, desde que começou a Revolução, ainda lhe restava ter um, que era a liga do Leopardo com o Galo: cremos não estar longe. Estas Esquadras, que se diz reunirem-se por causa dos Negros, quem sabe para onde endireitarão a proa! Nos papéis Franceses se escreveu, e a nossa mesma Gazeta nos afiançou, que a Esquadra que saíra de Toulon em Junho do ano passado, ia para a Grécia, e eis senão quando aparece-nos no Cabo do Espichel, logo em Cascais, e daí a pouco em Lisboa; e se nos não enganamos, uma Curveta Inglesa fez sinais na véspera com tigelinhas, e no dia com bandeirolas, que todos viram, etc. E porque não acontecerá agora o mesmo? Que errem o rumo?! Não, não nos apanham de susto; não nos adormecem. Talvez também os 8 ou 10 mil homens que vieram para Toulon, com o fim aparente de irem para Argel mudar a Guarnição, talvez que venham entrar na Esquadra que vai defender os direitos dos Negros?! Olhem vossas mercês que há duas qualidades de Negros: Negros, a quem os raios do Sol na Zona tórrida fazem da côr de azeviche; e Negros, discípulos do diabo, que trabalham às escuras; é provável que por causa destes, e por causa da escravidão e extorsão, que um Fernando e um MIGUEL lhes preparam, se unam essas Esquadras. Mas, quid ad nos? Que nos importa tudo isso?! Toda a Nação é sempre poderosa, e demasiado forte, quando trata de defender a sua independência, a sua Religião, e o seu Rei: E que Rei?! Suspendemos por ora os nossos juízos a este respeito, e não queremos que este mesquinho papel aumente mais o número das extorsões. Ah! Se fizéssemos a oração pela passiva, que bem que ficava então esta palavra extorsões! (a bom entendedor meia palavra basta) mas lembramos sempre a todo o mundo, se possível é, que lance os olhos sobre a história do passado, e verá sempre que aquelas Nações, que têm sido auxiliadoras de Portugal, têm crescido e fizeram-se opulentas com as suas Alianças, donde resultava haver uma rivalidade imensa, sobre quem havia proteger mais este cantinho do Mundo; e pelo contrário, aquelas cuja Política era oprimir-nos, desandaram da sua grandeza e nunca mais voltaram a ser o que eram. Veja-se a Política do grande Richelieu e do profundo Pitt: e o que se encontra nela?! Dar a mão a Portugal a todo o custo, para sustentar a grandeza de qualquer daqueles Estados. Não falharam os seus planos, e a repetida experiência o mostrou. Mas uma Política, que tenha por base princípios opostos, poderá ter os mesmos resultados?! Não, não. Porque princípios diversos produzem diversas consequências. E talvez seja este o meio, de que a Providência queira servir-se para confirmar as promessas feitas ao 1º Afonso, deprimindo o orgulho, e premiando a inocência... Esta é a esperança, e quase certeza.

D. Frei Fortunato de São Boaventura in «Novo Vocabulário Filosófico-Democrático, indispensável para todos os que desejem entender a nova língua revolucionária», Nº 5, 1832.

Das obrigações morais de Amos e Criados


Das obrigações dos criados a respeito de seus amos.

P. Quais são as obrigações dos criados a respeito dos amos?
R. São quatro; porque lhes devem ter Amor, Respeito, Fidelidade, e Obediência.
P. Que casta de amor devem ter os criados a seus amos?
R. Amor, que os faça zelar os interesses da casa que lhes competem, e acudir por eles.
P. E em que consiste o respeito que lhes devem ter?
R. Consiste em lhes responder atenciosamente.
P. E qual é a fidelidade a que estão obrigados?
R. Consiste em não consentir que tenham seus amos prejuízo, nem nos bens que lhes entregam, nem nas pessoas que confiam à sua vigilância.
P. E em que estão obrigados os criados a obedecer a seus amos?
R. Em tudo o que pertence ao seu legítimo serviço, não sendo contra a Lei de Deus.

Das obrigações dos amos a respeito dos criados.

P. Que obrigações têm os amos a respeitos dos criados?
R. Devem-lhes seis coisas principais.
P. Quais são?
R. Devem-lhes o salário, o sustento, a instrução, a correcção, o bom exemplo, e a assistência.
P. Que obrigação é a do salário?
R. Eles devem pontualmente pagar-lhes o salário em que se ajustaram.
P. E será pecado retardar-lho se eles o pedem?
R. É um pecado que clama ao Céu.
P. E que casta de assistência devem os amos aos criados?
R. Devem curá-los nas suas enfermidades, e acudir-lhes com os remédios da alma e corpo, ou procurar quem os socorra.
P. E que instrução lhes devem dar?
R. A Doutrina Cristã e tudo o que é preciso que saibam para se salvarem.
P. E que correcção é a que lhes devem dar em consciência?
R. A correcção no que toca aos costumes.
P. Em que género lhes devem dar bom exemplo?
R. Não devem diante deles fazer acções más, nem dizer palavra que lhes possa ser prejudicial às suas almas.
P. E têm obrigação de fazer acções boas diante deles?
R. Devem mostrar-lhes que observam a Lei de Deus e da Igreja.

Fonte: «Catecismo da Doutrina Cristã, composto por mandado do Exmo. e Revmo. Senhor Cardeal de Mendonça, Patriarca de Lisboa», 1791.


De como eram ilegais os maus-tratos a escravos


Por morte do Bispo Dom Pedro Leitão, veio o Bispo Dom António Barreiros, que havia sido Dom Prior de Avis, a governar este Bispado do Brasil; era homem benigno, esmoler, e dotado de muitas virtudes; mas não era chegado de muitos dias, quando se ofereceu uma ocasião de diferenças, e desgostos, entre ele e o governador Luís de Brito; a ocasião foi esta:
Havia nesta terra um homem, aliás honrado e rico, chamado Sebastião da Ponte, mas cruel em alguns castigos, que dava a seus servos, fossem brancos ou negros; entre outros chegou a ferrar um homem branco em uma espádua com o ferro das vacas, depois de bem açoitado; sentido o homem disto, se embarcou e foi para Lisboa, onde esperando uma manhã a El-Rei, quando ia para a capela, deixou cair a capa, que só levava sobre os ombros, e lhe mostrou o ferrete, pedindo-lhe justiça com muitas lágrimas.
Informado El-Rei do caso, escreveu ao Governador que mandasse preso, e a bom recado ao Reino, o dito Sebastião da Ponte.
Teve ele notícia disto, e acolheu-se a uma ermida de Nossa Senhora da Escada, que está junto a Pirajá, onde o réu então morava: demais disto chamou-se às ordens, dizendo que tinha as menores, e andava com hábito e tonsura, porque não era casado, pelas quais razões deprecou o Bispo ao Governador não o prendesse, mas não lhe valeu, começou logo a proceder a censuras, e finalmente chegou o negócio a tanto, que houveram de vir às armas, correndo com elas o povo néscio e inconstante, já ao Bispo com o temor das censuras, já ao Governador com o temor da pena capital, que ao som da caixa se publicava, e o que mais era, que ainda depois de todos acostados ao Governador, seus próprios filhos, que estudavam para se ordenarem, com pedras nas mãos contra seus pais, se acostavam ao Bispo e a seus clérigos e familiares.
Porém, enfim, Jussio Regis urgebat, e se mandou o preso ao Reino, como El-Rei o mandava, onde foi metido na prisão do Limoeiro, e nela acabou como suas culpas mereciam.

Frei Vicente do Salvador in «História do Brasil», 1627.


A chegada dos primeiros escravos a Portugal


No outro dia, que eram oito dias do mês de Agosto, muito cedo pela manhã, por razão da calma, começaram os mareantes de correger seus batéis e tirar aqueles cativos para os levarem, segundo lhes fora mandado; os quais, postos juntamente naquele campo, era uma maravilhosa coisa de ver, cá entre eles havia alguns de razoada brancura, formosos e apostos; outros, menos brancos, que queriam semelhar pardos; outros tão negros como etíopes, tão desafeiçoados assim nas caras como nos corpos, que quase parecia aos homens que os guardavam, que viam as imagens do hemisfério mais baixo.
(...)
O Infante era ali em cima de um poderoso cavalo, acompanhado de suas gentes, repartindo suas mercês como homem que de sua parte queria fazer pequeno tesouro, cá de quarenta e seis almas que aconteceram no seu quinto, mui breve fez delas sua partilha, cá toda a sua principal riqueza estava em sua vontade, considerando com grande prazer na salvação daquelas almas que antes eram perdidas.
E certamente que seu pensamento não era vão, cá, como já dissemos, tanto que estes haviam conhecimento da linguagem, com pequeno movimento se tornavam cristãos. E eu, que esta história ajuntei neste volume, vi na vila de Lagos, moços e moças, filhos e netos destes, nados nesta terra, tão bons e tão verdadeiros cristãos, como se descenderam do começo da lei de Cristo, por geração, daqueles que primeiro foram baptizados.

Gomes Eanes de Zurara in «Crónica do Descobrimento e Conquista da Guiné», 1453.


Escravatura: contra a mistificação liberal-maçónica


§. VII. Mas como depois de feita a minha Análise se me quis fazer um novo ataque, trazendo-me em oposição as Leis, que permitem o comércio do resgate dos escravos da Costa d'África, os Alvarás do 1º de Abril de 1680 e o de 6 de Junho de 1775, que declaram livres todos os Índios do Brasil, proibindo a escravidão a respeito deles; assim como também as Bulas que os confirmaram; para que não se diga, que as ditas Leis são entre si antinómicas, ou contraditórias, nem também que a minha opinião, enquanto defende a justiça de umas, é contrária à justiça das outras; eu passo a dar uma breve notícia das diversas circunstâncias, em que se achavam os Índios do Brasil e os Pretos d'África, no tempo das descobertas dos Portugueses, em uma e outra parte do Mundo; circunstâncias, que deram ocasião às diversas disposições das ditas nossas Leis e Bulas.

§. VIII. Os Portugueses, que primeiro descobriram a Costa da Guiné, já acharam muitas Nações com algum género de Governo, obediência e subordinação, comércio e agricultura; entre as quais já também se achava introduzida a escravidão, ou dos vencidos na guerra, ou dos réus de certos crimes capitais; de tal sorte, que querendo eles comprar aos Portugueses alguns géneros de que eles necessitavam, ofereceram em troca e permutação, alguns dos seus escravos, que vindo para Portugal, foram comprados por aqueles, que de seus serviços precisavam; e ao Senhor Infante D. Henrique, como encarregado e Governador daquelas descobertas, e bons serviços que ele tinha feito a Portugal, lhe deu o Senhor Rei D. Afonso V, a dízima dos interesses do comércio dos escravos, como se vê na sua Carta de 15 de Setembro de 1448, confirmada pelo Senhor Rei D. Manuel por carta de 22 de Fevereiro de 1502. Este comércio foi aprovado por Bulas do Papa Nicolau V, de 6 de Janeiro de 1454, de Calisto III, de 3 de Março de 1455, de Xisto IV, de 21 de Junho de 1481, e de Leão X, de 3 de Novembro de 1514, por se achar ser este comércio o meio de se introduzir a nossa Santa Religião entre aquelas Nações bárbaras, ou ao menos salvar muitas almas, que aliás seriam perdidas no centro do Gentilismo.

§. IX. Os Portugueses, que primeiro descobriram as terras do Brasil, não acharam Nações propriamente, acharam sim alguns bandos de homens selvagens, sem algum género de governo, nem de subordinação; eram algumas famílias errantes e dispersas, que viviam em pobres choupanas, muito ainda no primeiro estado da Natureza, talvez desgarradas dos primeiros Habitantes do México ou do Peru: em toda a grande extensão do Brasil até hoje, não se tem descoberto algum vestígio de grande população, nem um só edifício ou Obra de Arte, que denotasse algum princípio de Civilização. Os montes, as serras, os campos, os bosques totalmente incultos, pareciam estar ainda com a mesma face, com que tinham saído das mãos da Natureza, e que ainda não eram habitados por Entes Racionais. Aqueles bandos de Selvagens errantes, apenas usavam da caça e da pesca, e de alguns frutos silvestres: eles se faziam a guerra como as feras para, ou afugentarem os seus inimigos, ou os devorarem: eles ainda não conheciam a Escravidão, nem a subordinação, este primeiro passo para a Civilização das Nações.

(...)

§. XI. Sendo pois o Índio pouco hábil para a agricultura, que era o fim da escravidão, e indomável pelo meio da força; pois que enquanto ali houvesse uma serra, uma brenha e um asilo para um selvagem, seria mais fácil destruí-los, do que sujeitá-los de repente a um trabalho para eles novo; e conhecendo-se também, que era mais fácil chamá-los para a comunicação dos Portugueses pelos meios doces e pacíficos da Religião, foi necessário proibir a escravidão daqueles Índios, e declará-los livres, para que uma vez entrados na Sociedade, se fossem com o tempo e com o exemplo, acostumando ao trabalho e a um novo género de vida.

(...)

§. XIII. O Preto d'África apresentou os atributos da força e das qualidades necessárias para cultivador das terras da Zona tórrida; conheceu-se que as Nações de África estavam já acostumadas aos trabalhos da Agricultura debaixo de um Sol ardente, e que já de tempos antiquíssimos estavam no costume da escravidão, e de venderem os braços que lhes eram pesados, inúteis, ou prejudiciais; costume que, ou a necessidade do seu maior bem, ou do seu menor mal, lhes tinha ensinado; ou que lhes tinha sido transmitido, o que era transcendente a todos os outros Povos do antigo Mundo sem exceptuar a Europa; se lançou mão deste meio sem alterar o estado em que se achavam aquelas Nações, melhorando-se a condição daqueles desgraçados, que pelas Leis da sua Nação eram já condenados a serem escravos, mortos, ou vendidos para fora do seu País, levando-os para a comunicação dos Povos civilizados e para a obediência das Leis protectoras, e defensoras da vida e da existência de tais escravos, Leis desconhecidas no seu País.

(...)

§. XVII. Quanto à Escravidão d'África; sabe-se que não há, nem pode haver, comércio senão daquilo que sobeja do necessário de cada um; porque ninguém vende o pão de que precisa para a boca: isto que procede a respeito de cada um, em particular, procede a respeito do todo de uma Nação de uma parte do Mundo, etc. Logo, não pode haver comércio sem haver supérfluo. Sabe-se mais que os objectos e a base do Comércio são os trabalhos da agricultura e da indústria dos homens, aquela que sobeja das necessidades de cada um.

(...)

§. XXII. Em uma palavra, a Escravidão na África já estava estabelecida, os Portugueses não fizeram mais do que aproveitarem os desperdícios daquelas Nações; e por isso, as nossas Leis e os nossos Soberanos, como bons políticos, e encarregados de fazer o maior bem dos seus Vassalos, o permitiram em favor da cultura das suas terras que, aliás, eram perdidas. A escravidão dos Índios do Brasil ainda não estava estabelecida, e se achou mesmo inútil estabelecê-la, e até contrária ao fim a que se tinha proposto; ela só servia de aumentar dificuldades aos meios doces, suaves e pacíficos, que se tinham adoptado para a civilização daqueles bárbaros e para a propagação do Evangelho no meio da Gentilidade que, por isso, que não tinham alguma Religião, era fácil de abraçar a primeira que se lhes ensinava; e como em tal caso, a Escravidão daqueles Índios já não era um bem, mas sim um mal para a Religião e para o Estado, foi necessário proibi-la.

§. XXIII. Sendo pois diversas as circunstâncias em que se achavam, e ainda se acham os Pretos d'África e os Índios do Brasil no tempo das descobertas dos Portugueses, em uma e outra parte do Mundo, foram também diversas as disposições das ditas Leis; e como a justiça das Leis humanas não é absoluta, mas sim relativa às circunstâncias, ficou cada uma das ditas Leis sendo justa relativamente ao objecto de que tratava; assim como também a minha opinião, a qual enquanto defende a justiça da Lei que permite a escravidão e o resgate dos Escravos da Costa d'África, não ofende a justiça da Lei que proíbe a escravidão dos Índios do Brasil.

(...)

§. XXV. Olhando para este negócio pela parte da Religião, eu não vejo coisa alguma contra ela. Os Apóstolos, tratando da escravidão, nunca disseram que ela era contra a Religião: S. Pedro na sua Epístola I. recomenda aos escravos que obedeçam aos seus Senhores, ainda que sejam maus ou rigorosos: S. Paulo, na sua Epístola aos Colossenses, recomenda aos Senhores que prestem aos seus escravos, o que a Justiça e a equidade pedem deles, e que se lembrem que eles têm um Senhor no Céu, que os há-de tratar como eles tratarem aos seus Escravos. A Epístola de S. Paulo a Filémon, em que lhe pede que perdoe ao seu escravo Onésimo o furto e a fugida que ele lhe tinha feito, é um chefe de obra de eloquência neste género: nada é mais terno, mais tocante, mais persuasivo, mais animado. S. Paulo, na sua Epístola, mistura as preces com a autoridade, os louvores com as recomendações, os motivos da Religião com os da civilidade e do reconhecimento: ele, enfim, tudo mete em obra para reconciliar o Senhor com o escravo, mas nunca disse que era injusto, nem contra a Religião, que Onésimo fosse seu escravo.

§. XXVI. Dirá por ventura um Cristão que a Moral de tais Filósofos é mais perfeita e mais sublime do que a Moral que nos ensinaram os Apóstolos, ou do que a Moral que os Apóstolos não reprovaram? A Moral de tais Filósofos, cujos princípios tem mostrado a experiência que, ou são falsos, ou revolucionários, havemos nós de adoptar? As obras dos homens não chegam, nem jamais chegarão, à suma perfeição, que é só reservada a Deus: o maior bem dos Homens no estado da Sociedade é o meio entre os extremos; querer sair deste meio é precipitar-se no abismo, é cair no furor, ou do fanatismo, ou da superstição.

§. XXVII. Eu me persuado que não ofendo quando defendo a justiça das Leis do meu Soberano; quando trabalho por sufocar a opinião que se opõe à Lei do Estado; quando só tenho em vista o sossego externo e interno dos meus Concidadãos; quando sirvo à minha Pátria; quando mesmo do mal, que fazem os Bárbaros entre si, eu para todos tiro um bem; e quando, enfim, a soma dos bens é tão grande, que ainda um mal à vista deles é nada.


§

Nota: D. José de Azeredo Coutinho foi Bispo de Olinda, Bispo de Elvas e Inquisidor-Geral do Reino de Portugal. Nasceu em Campos dos Goytacazes, a fidelíssima diocese de D. António de Castro Mayer.

A chegada dos primeiros escravos a Portugal


No outro dia, que eram oito dias do mês de Agosto, muito cedo pela manhã, por razão da calma, começaram os mareantes de correger seus batéis e tirar aqueles cativos para os levarem, segundo lhes fora mandado; os quais, postos juntamente naquele campo, era uma maravilhosa coisa de ver, cá entre eles havia alguns de razoada brancura, formosos e apostos; outros, menos brancos, que queriam semelhar pardos; outros tão negros como etíopes, tão desafeiçoados assim nas caras como nos corpos, que quase parecia aos homens que os guardavam, que viam as imagens do hemisfério mais baixo.
(...)
O Infante era ali em cima de um poderoso cavalo, acompanhado de suas gentes, repartindo suas mercês como homem que de sua parte queria fazer pequeno tesouro, cá de quarenta e seis almas que aconteceram no seu quinto, mui breve fez delas sua partilha, cá toda a sua principal riqueza estava em sua vontade, considerando com grande prazer na salvação daquelas almas que antes eram perdidas.
E certamente que seu pensamento não era vão, cá, como já dissemos, tanto que estes haviam conhecimento da linguagem, com pequeno movimento se tornavam cristãos. E eu, que esta história ajuntei neste volume, vi na vila de Lagos, moços e moças, filhos e netos destes, nados nesta terra, tão bons e tão verdadeiros cristãos, como se descenderam do começo da lei de Cristo, por geração, daqueles que primeiro foram baptizados.

Gomes Eanes de Zurara in «Crónica do Descobrimento e Conquista da Guiné», 1453.

Portugal na Capela Sistina


Os feitos portugueses causaram muita admiração em Roma; e Deus quis que Miguel Ângelo desse testemunho disso, para os que haveriam de vir, no painel principal da Capela Sistina (sobre o altar-mor), pintando a cena "o resgate dos escravos" (na qual Portugal com um longo rosário faz subir a África e a Índia).
Entre as dezenas de figuras desenhadas por Miguel Ângelo na famosa pintura "Juízo Final" – almas perdidas, anjos, demónios, apóstolos e santos – destacam-se dois homens pendentes num rosário, em movimento ascendente de Salvação.
Eles estabelecem uma relação simbólica com Portugal. São um negro e um indiano agarrados a um terço. O primeiro representa o continente africano, o segundo o mundo oriental e o rosário representa a oração.
Falta um índio da América – facto que talvez se possa atribuir à animosidade que então reinava contra os espanhóis. Mas a mensagem é clara: levado pelos missionários portugueses, o Evangelho salvaria o novo mundo do Fim dos Tempos.

Fonte: Ascendens

Da expressão "há mouro na costa!"


Relata a História que durante vários séculos toda a costa norte do Mediterrâneo, a região do Algarve e a orla marítima Alentejana, as Ilhas Britânicas e até mesmo a Escandinávia, foram objecto de frequentes razias protagonizadas por corsários e piratas mouriscos, na demanda de escravos europeus, os quais seriam consequentemente vendidos nos mercados esclavagistas de Argel, Marraquexe ou Trípoli.
Face a isto, os povoamentos localizados nas zonas costeiras encontravam-se em permanente estado de alerta de maneira a prevenir o perigo. Por toda a costa foram erguidos numerosos postos de vigia. Desde o alto dessas torres observava-se o horizonte, sendo que ao se avistarem as velas dos navios mouriscos, o sentinela de turno gritava desesperadamente: "há mouro na costa!". Acto contínuo, acendiam-se as fogueiras de sinal e as populações – alertadas – preparavam-se para se defenderem ou abandonavam as aldeias e dirigiam-se para o interior, onde os corsários não se atreviam a penetrar.
Esta prática criminosa perdurou durante séculos, havendo relatos destas incursões ainda em pleno século XIX. O grito "há mouro na costa!" passou a ser expressão de uso popular para advertir alguém sobre um eventual perigo. Em sentido inverso, a expressão antónima "não há mouro na costa!", serve para dar a entender que não existe perigo iminente para uma pessoa que procura realizar determinada tarefa.