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Buscai primeiro o Reino de Deus...


Não faltará, quiçá, quem pergunte: mas por que nos deixa Deus por vezes expostos à privação das coisas necessárias à vida?
Deus faz isto por uma das seguintes razões:

– 1ª) Para nos castigar por nossas faltas;
– 2ª) Para nos fazer expiar o abuso dos bens temporais;
– 3ª) Para castigar o nosso amor ao supérfluo;
– 4ª) Para reprimir a nossa avareza ou cobiça;
– 5ª) Para corrigir a nossa ingratidão;
– 6ª) Para que pratiquemos a paciência;
– 7ª) Para nos fazer entender que os bens temporais não são nossos e não nos são devidos.

A conclusão que Nosso Senhor tira de todo o Seu discurso é admirável e resume-lo perfeitamente: Buscai, pois, primeiro o Reino de Deus e a Sua justiça, e tudo o mais vos será dado por acréscimo.
São João Crisóstomo comenta deste modo: Buscai os bens vindouros, e recebereis os perecíveis; não cobiceis os temporais, e os possuireis.

Pe. Juan Carlos Ceriani in «Sermão do 14º Domingo depois de Pentecostes», 11 de Setembro de 2022.

Opulência e Pobreza


Nesta sentença Evangélica fundou o glorioso S. Bernardino uma graciosa parábola. Diz que era um Rei que tinha duas filhas: uma delas de singular formosura, galhardo talhe, mui cortesã e alegre; a outra muito feia e pouco asseada, seu semblante pálido, seu trato retirado. Esta vendo-se tão inferior à outra, ia chorar ao pai, carpindo-se que ninguém a quereria por esposa. Disse-lhe o pai: – Aquieta-te filha, que eu tenho determinado que quem escolher a tua irmã não leve mais dote que a sua formosura e boa conversação; e quem te escolher a ti, levará por dote o meu Reino. Oh que boa doutrina! Este Rei é Deus: as duas irmãs são a opulência e a pobreza: e são filhas do mesmo pai; porque Deus fez o pobre e o rico: Dives et pauper obviaverunt sibi: et utriusque operator est Dominus (Prov. 22. 2). A opulência é formosa aos olhos do mundo, luz muito, traja bem, vive contente, onde quer acha entrada e aplauso. Pelo contrário a pobreza é feia e triste, mete ascos e anda encantoada. Porém quem se casa com a opulência, não leva mais dote que essa mesma glória e luzimento do mundo, que logo passa. E quem recebe a pobreza e vive em paz com ela, promete-lhe Deus o Reino do Céu: Beati pauperes spiritu, quoniam ipsorum est regnum Caelorum (Mat. 5. 3).

Pe. Manuel Bernardes in «Sermões e Práticas», 1711 (póstumo).

Da Pobreza


Pobreza. Ser pobre, segundo o senso cristão, não é uma desgraça, não é uma infelicidade; é não ter o espírito apegado aos bens do mundo e não ter a ambição de os possuir.
«Bem-aventurados os pobres em espírito, porque deles é o Reino dos Céus», disse Jesus Cristo (Ev. S. Mat. V, 3). Pobres em espírito, são aqueles que, não possuindo bens, não os ambicionam, e também aqueles que, possuindo-os, só fazem bom uso da sua riqueza e distribuem o supérfluo pelos que não possuem. O pobre em espírito não tem afecto aos bens que possui ou que são do seu uso, nem se entristece por nada possuir, nem apetece o que não é necessário à sua sustentação, nem desperdiça o que é aproveitável, nem gasta do que é supérfluo, nem se deleita do que lhe é dado, nem se desgosta do que lhe é negado. Espera, porém, que a pobreza, sofrida neste mundo, seja substituída pela bem-aventurança que Jesus lhe prometeu que gozaria no Céu.

Pe. José Lourenço in «Dicionário da Doutrina Católica», 1945.