Mostrar mensagens com a etiqueta Tourada. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Tourada. Mostrar todas as mensagens

Da Tourada


Pois é verdade, tenho esse fraco português, prefiro touros. Cada raça possui o seu sport próprio, e o nosso é o touro: o touro com muito sol, ar de dia santo, água fresca, e foguetes... Mas sabe o Sr. Salcede qual é a vantagem da tourada? É ser uma grande escola de força, de coragem e de destreza... Em Portugal não há instituição que tenha uma importância igual à tourada de curiosos. E acredite uma coisa: é que se nesta triste geração moderna ainda há em Lisboa uns rapazes com certo músculo, a espinha direita, e capazes de dar um bom soco, deve-se isso ao touro e à tourada de curiosos...
O marquês entusiasmado bateu as palmas. Aquilo é que era falar! Aquilo é que era dar a filosofia do touro! Está claro que a tourada era uma grande educação física! E havia imbecis que falavam em acabar com os touros! Oh, estúpidos, acabais então com a coragem portuguesa!...

Eça de Queirós in «Os Maias», 1888.

O moço de forcado


Então, o forcado. Ele disgrega-se do grupo dos valentes, que nessa manhã chegaram de Alcochete ou de Aldeia Galega [hoje Montijo], e só, no campo desafogado, adianta-se para o bicho em costume de gala: jaleca de ramagens, calção d'anta, cinta encarnada, meias bordadas, e sapatos de prateleira. O seu aspecto cheira ao sol da lezíria, ao rosmaninho da charneca e à terra revolvida pelas charruas. Palpita-lhe a força em cada músculo, e canta-lhe a saúde, vermelha e salgada em cada poro da pele. O touro investe com ele pela barriga. Ele empolga o touro de frente por entre os cornos, escarrancha-se-lhe na cara e afocinha-o no chão.
Não havia no mundo espectáculo mais nobremente sugestivo, mais virilmente belo, mais legitimamente português. Os que governam Lisboa, proibindo as pégas, suprimiram o moço de forcado. Depois demoliram a praça. Acabaram por fim com as tardes de touros em Lisboa.
De sorte que é por esse Ribatejo fora, as corridas da Alhandra, de Vila Franca de Xira, de Samora Correia, de Salvaterra de Magos, que eu terei de ir mais este Verão, de jaleca ao ombro, faca no bolso e uma melancia debaixo do braço, refazer-me de nacionalidade, de força, de literatura e de poesia na sagrada tradição da minha terra.
Às razões de brandura de costumes, de humanidade, de filosofia, de civilização, invocadas pelos que dirigem esta jigajoga, eu, humilde intérprete do povo, só uma coisa oponho: é que maus raios partam o zelo tísico de tanto maricas, de tanto chochinha, de tanto lambisgóia!

Ramalho Ortigão in «Álbum de Costumes Portugueses», 1888.