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A herança do "colonialismo"


Conta-se que, depois do 25 de Abril, um diplomata do Leste europeu visitou Lourenço Marques. Acompanhou-o ali um dos dirigentes da FRELIMO e apontou indignado para as palhotas:
Isto é uma herança do colonialismo!
O diplomata do Leste sorriu e comentou:
Isto aqui é África. A herança do colonialismo está ali.
E apontava para os altos prédios que se erguiam imponentes a umas centenas de metros...

Barradas de Oliveira in «Quando os Cravos Murcham», Volume II – A Vergonhosa Descolonização, 1984.


Relembro:

Vasco da Gama descobre o Rio dos Reis


No mesmo dia [6 de Janeiro], ano de 1498, descobriu Vasco da Gama o rio, a que, pela circunstância do mesmo dia, chamou dos Reis, o qual corta e fertiliza terras por extremo frescas e aprazíveis, cujos habitadores achou serem bem-apessoados, e de cor baça, e muito mais polidos que os do Cabo de Boa Esperança: Usavam de manilhas de cobre e traziam pedaços dele atados nos cabelos por galanteria, razão porque os Portugueses deram também ao mesmo rio o nome deste metal.

Pe. Francisco de Santa Maria in «Ano Histórico, Diário Português: Notícia Abreviada de pessoas grandes e coisas notáveis de Portugal», 1744.

Vitória sobre o Forte de Chicova no Rio de Sofala


Pelos anos de 1615, andavam os Portugueses em duras guerras no Sertão da Etiópia Oriental, em demanda das minas de prata, de que abundam as serras e terras chamadas Chicova, onde já tínhamos um Forte do mesmo nome, e andávamos em ajustes com o Imperador de Monomotapa, os quais se conseguiram e pouco depois se quebraram, com vários sucessos de que daremos em outros dias alguma notícia; Neste em que estamos [15 de Março] e no ano referido, atacaram o mesmo forte dez mil Cafres armados, não constando o presidio mais que de quarenta Portugueses. Foi incrível o ardor com que os bárbaros insistiram na empresa, atroando a terra com horrendas vozes e cobrindo-a com chuveiros de setas, já por elevação sobre a nossa gente, já direitas, e com tanta veemência, que passavam os reparos de parte a parte. Por todas em circuito nos acometiam, por todas os rechaçávamos, obrando os defensores maravilhas de valor, em tanta desigualdade de poder. Por vezes esteve a praça em manifesto perigo, porque já não havia braços, nem alentos em tão poucos defensores para tão porfiada invasão; Mas quando os Negros se dispunham ao último assalto com vivas esperanças da vitória, deram sobre eles umas companhias de Portugueses, que acudiram em socorro dos companheiros, com que, mortos muitos Cafres, muitos feridos, e confusos todos, nos deixaram nas mãos uma das grandes vitórias, que conseguiram naquelas partes as armas Portuguesas.

Pe. Francisco de Santa Maria in «Ano Histórico, Diário Português: Notícia Abreviada de pessoas grandes e coisas notáveis de Portugal», 1744.

9 de Abril de 1592: Tragédia em Moçambique


Sendo Capitão do Forte de Sena, nos rios de Sofala, pelos anos de 1592, André de Santiago, sucedeu que uma Nação de Cafres, chamados Muzimbas, entraram por aquelas terras, fazendo cruéis hostilidades, como tragadores, que eram, de carne humana. Fortificaram-se em um sítio defensável, receosos dos Portugueses, nos quais só podia achar oposição a corrente impetuosa do seu furor, e dali assaltavam com frequentes surtidas o país circunvizinho. Despertaram os clamores dos cafres, nossos aliados ao Capitão de Sena, que se resolveu a ir desalojar daquele sítio aos Muzimbas, antes que nele lançassem maiores raízes, e se fossem fazendo cada vez mais poderosos e mais soberbos. Saiu com os Portugueses, que havia no Forte, e com bom número de negros, mas vendo que era pouco o seu poder para aquela empresa, em que achou mais dificuldade do que havia imaginado, assentou o seu arraial à vista da fortificação oposta, e fez aviso a Pedro Fernandes de Chaves, Capitão do Forte de Tete, para que o viesse ajudar contra o inimigo comum daquelas terras, cuja defensa corria igualmente por conta de ambos. Acudiu o de Tete com mais de cem espingardeiros, entre Portugueses e mestiços, além dos negros da sua repartição. Os Muzimbas, que não dormiam, mandaram espiar os de Tete, e sabendo que caminhavam à desfilada, metidos em andores por resguardo do Sol, com as armas entregues a seus escravos, destacaram do seu exército um bom troço de gente escolhida, e emboscando-se em um mato espeço, aguardaram aos Portugueses, e caíram sobre eles improvidamente com tanto ímpeto e furor, que a todos mataram sem ficar um só vivo. Chegou logo esta notícia ao Capitão de Sena, e foi tal a perturbação e desacordo dos seus, que postos em precipitada fugida, foram acometidos do inimigo e mortos quase todos; Com que vieram a morrer neste dia [9 de Abril], cento e trinta Portugueses e mestiços, e os Capitães de Sena e Tete, a ferro frio, e a mãos de Cafres pouco menos que brutos, ainda que valentes e ferozes. Nesta ocasião morreu asseteado o Padre Frei Nicolau do Rosário da Ordem de São Domingos, por ser (como diziam os Muzimbas) o Cássis dos Cristãos.

Pe. Francisco de Santa Maria in «Ano Histórico, Diário Português: Notícia Abreviada de pessoas grandes e coisas notáveis de Portugal», 1744.


Sucesso infeliz em Moçambique


Pelos anos de 1585, habitava as terras fronteiras à Ilha de Moçambique, uma Nação de Cafres, chamados Macuas, gente bárbara e feroz, que vivia de contínuos roubos e homicídios, e usava comer carne humana, causando dano e terror universal em todas as nações circunvizinhas, de que não cabia pequena parte aos Portugueses, que moravam em Moçambique e tinham suas hortas, cearas e palmares na terra firme, à mercê daqueles cruéis gentios, que, como tais, lhes faziam, a cada passo, gravíssimos insultos e extorsões. Foi preciso castigá-los, e a este fim se ajuntaram quarenta Portugueses, que se achavam na Ilha, capazes de tomar armas, levando consigo seus escravos e cafres domésticos, e na madrugada deste dia [17 de Janeiro], deram sobre a principal povoação dos Macuas, e achando-os descuidados, degolaram boa parte deles e lhes puseram fogo às casas, ou choupanas, que por serem de palha, arderam brevemente. Conseguida a empresa a tão pouco custo, e em tão pouco tempo, parecia haveram logrado aqueles poucos Portugueses um grande dia, senão pela vitória, por se considerarem desafogados das precedentes opressões; Mas foi para eles muito maior o dano que o remédio: Porque os Macuas que escaparam, unidos com outros de outras povoações, se meteram em uns matos, por onde sabiam que haviam de voltar os Portugueses; Estes, na confiança de que os inimigos ficavam destruídos, e tão cortados do temor, que jamais ousariam levantar os olhos para eles, entregaram as armas aos seus escravos, e se meteram em andores, em que outros escravos os levavam às costas, e assim voltavam para Moçambique à desfilada, como por país seguro. Mas quando menos o cuidavam, deram sobre eles os Macuas, com tanta fúria e tanto a tempo, e com tão boa ordem, que apenas escaparam três Portugueses e alguns poucos Cafres da sua comitiva, que se puderam esconder nas brenhas. Ficou o campo alastrado de corpos mortos, que serviram de pasto à bárbara voracidade dos vencedores; Sendo este lastimoso caso uma nova confirmação de que o desprezo dos inimigos, ainda que fracos e vencidos, costuma tornar funestos os sucessos mais felizes.

Pe. Francisco de Santa Maria in «Ano Histórico, Diário Português: Notícia Abreviada de pessoas grandes e coisas notáveis de Portugal», 1744.