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Ajustam-se pazes entre Portugal e Castela


Cortada Castela de tantos golpes, esvaida de tanto sangue que deixou na memorável batalha de Aljubarrota, e em outras que se lhe seguiram, em que sempre foi sangrada e vencida pelo ferro e braço Português; Vendo-se sem as praças e terras que ocupava em Portugal, e que já lhe tomávamos as suas, e fazíamos a guerra dentro em sua própria casa; procurou El-Rei Dom João I de Castela fazer tréguas com El-Rei Dom João I de Portugal, e este lhas concedeu por três anos com condições de honra e vantagem nossa, e se assinou o tratado neste dia [29 de Novembro], ano de 1389. Morto depois o de Castela desgraçadamente, seu filho Dom Henrique, que lhe sucedeu, ratificou as mesmas tréguas no ano de 1393, e as prorrogou por quinze anos. Faltando, porém, à religiosa observância delas, lhe tomámos em represália a Cidade de Badajoz, com que se renovaram as guerras, as quais se concluíram com as pazes de Ayllón de 1411.

Pe. Francisco de Santa Maria in «Ano Histórico, Diário Português: Notícia Abreviada de pessoas grandes e coisas notáveis de Portugal», 1744.

Frei João da Barroca


Frei João da Barroca tomou o sobrenome de uma concavidade, que mandou abrir junto ao Convento de São Francisco de Lisboa, e nela se fez entaipar, deixando só uma pequena fresta para a luz e para a respiração, e na mesma, sem mais sair dela, perseverou até à morte no longo espaço de dezasseis anos, renovando, por seu modo, a memória do famosíssimo Estelita. Ali era buscado como Oráculo do Céu: Ele foi o que animou ao Mestre de Avis à dificultosa empresa da defesa do Reino, e lhe vaticinou a vitória e a coroa. Passou neste dia [6 de Janeiro] a gozar o prémio que não tem fim, ano de 1400.

Pe. Francisco de Santa Maria in «Ano Histórico, Diário Português: Notícia Abreviada de pessoas grandes e coisas notáveis de Portugal», 1744.

El-Rei Dom João I conquista a Praça de Ceuta


Na volta da famosa Cidade de Ceuta navegava o invictíssimo Rei de Portugal Dom João I com poderosa Armada, e sobre vinte e sete dias de viagem, e depois de vários acidentes que a inconstância do mar costuma trazer consigo, chegou finalmente à vista da mesma Cidade, e ao sair do Sol deste ditoso dia [21 de Agosto], ano de 1415, saiu também El-Rei (bizarro Sol Português) da Galé Capitania, e metido em um bergantim, discorreu pela Armada velozmente, influindo com a sua presença tão briosos espíritos nos Capitães e soldados, que já todos esperavam o sinal das trombetas, com impaciente ardor; Feriram elas os ares e ao mesmo tempo cortaram os Portugueses as ondas na volta da terra. Foram dos primeiros, os Infantes Dom Duarte e Dom Henrique, ansiosos de conseguirem naquela facção a imortalidade da fama, que se deve, não aos altos nascimentos, senão aos feitos ilustres; Saltaram do primeiro ímpeto seis Portugueses na praia, onde competia com o número das áreas o dos bárbaros: Logo cresceram os nossos a cento e cinquenta, e estes feitos em um corpo, carregaram aos inimigos com tão vigorosa impressão, que os fizeram ceder e retroceder um bom espaço; Entretanto foi concorrendo a nossa soldadesca, e sendo já trezentos (tudo gente nobre e escolhida) renovando o conflito, foram levando os Mouros às lançadas até uma porta da Cidade, e vendo desordem e confusão com que entravam nela, resolveram os Infantes entrar com eles de volta a todo o risco, e apelidando São Jorge e vitória, se travou um batalha horrível: Pelejavam os Mouros em defesa da pátria, da lei, da liberdade, da fazenda, da vida, das mulheres e dos filhos, e não duvidavam de oferecer-se à morte por motivos tão grandes: Os Portugueses traziam diante dos olhos o nome e reputação do seu Rei, a glória da Nação, tantas vezes vencedora dos infiéis, o triunfo da Fé, o aplauso da Cristandade toda, que toda estava absorta na expectação dos efeitos que nasciam de um tão estrondoso aparato; À medida destas considerações, era obstinadíssima, de uma e outra parte a contenda: Nos Portugueses excedia o valor, nos Mouros a multidão: Pelejavam estes cobertos dos muros e do alto deles choviam pedras e outras armas de arremesso sobre os nossos: Os mais valerosos acudiam a defender a porta, como posto onde consistia a suma facção; sobre os corpos despedaçados de uns, se ofereciam outros de boamente aos mesmos perigos; O aperto da gente era infinito, os brados e os golpes enchiam o ar de horror, a terra de mortandade; Mas posto que os defensores fizeram quanto deviam ao valor e ainda à desesperação, não puderam fechar a porta, nem impedir a entrada dos Portugueses na Cidade; Entrados em número de quinhentos e postos em um teso, esperavam o grosso do Exército para darem glorioso fim a princípios tão felizes; Então foi quando o Infante Dom Henrique, acompanhado de poucos, se entranhou sobejamente pelas ruas da Cidade, e encontrado com um esquadrão inimigo, se viu em pontos de perder a liberdade ou a vida, e com efeito se divulgou que era morto, notícia que El-Rei ouviu com ânimo constante: Ou porque era menor para sentir aquela perda, quando se achava com as armas nas mãos para vingá-la: Ou porque aquela morte em serviço da Fé e do seu Rei, mais era para invejada que sentida; Por outra parte Vasco Fernandes de Ataíde, Cavaleiro nobilíssimo, não contente de seguir aos mais, investiu com poucos companheiros outra porta, e sobre duríssima resistência a rompeu e entrou na Cidade, a qual acometida já por duas partes quase ao mesmo tempo e logo inundada pelos esquadrões que seguiam a pessoa d'el-Rei, se rendeu inteiramente dentro em poucas horas, e nas mais altas torres dela, se viram tremolando as vitoriosas Quinas de Portugal, as quais batidas dos ventos, apregoavam juntamente e aplaudiam triunfo tão glorioso. Logo El-Rei mandou purificar a Mesquita e consagrada ao culto do Senhor dos Exércitos lhe deu nela as devidas graças por favor tão singular: Armou Cavaleiros aos Infantes Dom Duarte e Dom Henrique e a outros Capitães e Soldados ilustres. Entre todos tiveram maior parte na glória desta empresa os mesmos Infantes e seu irmão o Senhor Dom Afonso; Mas singularmente sobressaiu nas provas do valor e dos perigos o Infante Dom Henrique, e com o sangue (que lhe corria de muitas feridas) esmaltou e enobreceu a fama e reputação do seu nome. É também digno de imortal memória o já nomeado Vasco Fernandes de Ataíde, que morreu pelejando com extremadíssimo valor. Morreram mais seis Portugueses, e se teve por evidente maravilha, que entre tantos perigos, perigassem tão poucos. É Ceuta uma das mais antigas Cidades (outros dizem a mais antiga) de toda a África: Desde os seus princípios foi célebre pela fortaleza do sítio e opulência do comércio; Foi Cabeça da Mauritânia em tempo dos Romanos; Depois na declinação destes a dominaram os Godos; E na destruição de Espanha [Península Ibérica] em tempo d'el-Rei Dom Rodrigo, ficaram os Mouros senhores dela; Até que sobre mais de setecentos anos de posse, lha arrancaram das mãos os Portugueses, neste dia, em quarta-feira, do ano referido. Soou por todo o Orbe a fama dos Portugueses que os levantava sobre as estrelas e El-Rei foi cumprimentado de todos os Príncipes da Cristandade, e por toda ela se ouviam repetidos os aplausos e os vivas ao seu valor e fortuna.

Pe. Francisco de Santa Maria in «Ano Histórico, Diário Português: Notícia Abreviada de pessoas grandes e coisas notáveis de Portugal», 1744.

D. João I parte à conquista de Ceuta


No mesmo dia [25 de Julho], ano de 1415, partiu da barra de Lisboa El-Rei Dom João I, na mais poderosa Armada que até então havia cortado o Oceano. Constava de duzentas e doze velas, de que eram trinta e três Naus de grande força, cinquenta e nove Galés, e cento e vinte navios menores. A esta proporção era a gente e munições. Embarcou-se nela aquele esclarecido Príncipe, com quase sessenta anos de idade e poucos meses de fadigas e trabalhos, e sem que o retardasse o peso dos anos, nem o perigo do mar, nem a contingência do sucesso, nem a chaga, ainda fresca, da morte da Rainha sua mulher, que sucedera poucos dias antes, nem a peste que havia no Reino, nem outras considerações e dependências políticas de grande importância; cortou por tudo em demanda de novas conquistas e novas glórias. Havia triunfado muitas vezes em Espanha, mas sempre com dor, por serem Católicos os vencidos: Agora quis ir provar a mão nos infiéis, e foi o primeiro Rei, que de Espanha passou a África a fazer-lhe guerra. Partiu, enfim, aquela Cidade nadante, largando as velas ao vento, tremolando infinitas bandeiras, e flâmulas de várias e vistosas cores, e, repetindo ao som marcial e alegre de trombetas e charamelas, a costumada salva de Boa Viagem, se alongou e finalmente desapareceu dos olhos dos que ficavam. Dos que ficavam, digo, flutuando em outro mar de saudades e temores, por verem, que se lhe ausentavam o seu Rei, os seus Príncipes, e a flor de Portugal, sem saber a quê, nem para onde.

Pe. Francisco de Santa Maria in «Ano Histórico, Diário Português: Notícia Abreviada de pessoas grandes e coisas notáveis de Portugal», 1744.

Aclamação d'el-Rei Dom João I


Neste dia [6 de Abril], ano de 1385, em uma quinta-feira, foi aclamado Rei em Coimbra o Mestre de Avis, Dom João, I do nome, entre os Reis de Portugal; tendo vinte e seis anos, onze meses e vinte e um dias de idade. A venerada Jurisprudência do Doutor João das Regras (o maior Letrado daqueles tempos) desfez tudo o que em direito podia fazer dúvida: O brio Português animou-se a vencer tudo o que na campanha lhe fizesse oposição, e pouco depois se decidiu o pleito a final na memorável batalha de Aljubarrota: No mesmo dia [6 de Abril de 1385], elegeu El-Rei Condestável do Reino a Dom Nuno Álvares Pereira; Julgando que não assegurava o Ceptro, se não entregasse a tamanho Herói o império e direcções da guerra.

Pe. Francisco de Santa Maria in «Ano Histórico, Diário Português: Notícia Abreviada de pessoas grandes e coisas notáveis de Portugal», 1744.

Descobre-se uma conjuração contra o Mestre de Avis


No mesmo dia [8 de Janeiro], ano de 1385, se descobriu uma conjuração que se havia urdido entre grandes personagens contra o Mestre de Avis, Dom João, depois Rei. O Reino o elegera defensor, e dos Fidalgos, que concorreram para a mesma eleição, houve alguns que depois se deixaram vencer da inveja ou da cobiça. Não podiam sofrer a felicidade com que as coisas caminhavam para exaltação do Mestre de Avis ao Trono Real: Nem tinham resolução para rejeitarem as grandes promessas que lhe fazia El-Rei de Castela; a uma e outra bateria se renderam o Conde Dom Gonçalo Telles, irmão da Rainha Dona Leonor: Dom Martinho, filho do mesmo Conde: Dom Pedro, Conde de Trastâmara: Dom Pedro de Castro: João Afonso Beça: Ayres Gonçalves: Garcia Gonçalves Valdez, e começaram a dispor por vários modos a traição; mas sendo descoberta neste dia, no mesmo foram uns presos, outros fugiram, e o último dos que acabamos de nomear (em quem devia ser maior a culpa e mais provada) foi condenado à morte e queimado em praça pública. Assim preservou o Céu de tão evidente perigo a vida daquele Católico e excelente Príncipe; o qual (sendo já Rei) mandou pôr em liberdade os Fidalgos que estavam presos pelo mesmo delito: Porque não era decoro à Majestade vingar El-Rei de Portugal as ofensas feitas ao Mestre de Avis.

Pe. Francisco de Santa Maria in «Ano Histórico, Diário Português: Notícia Abreviada de pessoas grandes e coisas notáveis de Portugal», 1744.

Reconquista de Campo Maior aos Castelhanos


Neste dia [13 de Outubro], ano de 1388, foi tomada à escala por assalto a Praça de Campo Maior, na Província de Alentejo, pelas armas Portuguesas, com grande mortandade dos Castelhanos, que a presidiavam e defendiam fortemente. Poucos dias depois capitulou o seu Castelo, que El-Rei Dom João I deu logo a Martim Afonso de Mello, por distinguir-se muito nesta ocasião.

Pe. Francisco de Santa Maria in «Ano Histórico, Diário Português: Notícia Abreviada de pessoas grandes e coisas notáveis de Portugal», 1744.

Reforma de D. João I que introduz a Era de Cristo


No mesmo dia [22 de Agosto], ano da Era de César de 1460, saiu El-Rei Dom João I de Portugal com um memorável Decreto, ordenando que em todos os Estados da sua jurisdição, se fizesse a conta aos anos pelo do Nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo; e logo se trocou a conta do sobre dito ano de 1460, que então corria segundo a Era de César, no de 1422, por exceder aquela Era à do Nascimento trinta e oito anos. Já em Castela se havia feito esta louvável introdução, sendo Autor dela o famoso Português Dom Pedro Tenório. Foi invento verdadeiramente digno da piedade Católica; Porque por este modo, todas as vezes que fazemos menção do ano que corre, renovamos por consequência a felicíssima memória daquele sacrossanto Mistério, de que resultou a maior glória a Deus, a Paz, e todos os bens aos homens.

Pe. Francisco de Santa Maria in «Ano Histórico, Diário Português: Notícia Abreviada de pessoas grandes e coisas notáveis de Portugal», 1744.

23 de Abril: Dia do Mártir São Jorge


Neste dia, em Portugal, a votiva solenidade do estrénuo cavaleiro de Cristo S. Jorge, tutelar de Sua Milícia, que nascendo em Capadócia da Grécia, o venera a Igreja Latina como a um de seus mais ilustres Mártires, em razão dos atrocíssimos tormentos que intrepidamente suportou pela confissão de seu inefável nome. A quem a piedosa Nação Portuguesa, reconhecida a tanto valor e fortaleza celestial, consagrou Templos e levantou Colónias em todas as idades, invocando intercessor nas batalhas e conflitos militares (como a Espanhola a Sant-Iago Apóstolo) experimentando por seu meio inumeráveis vezes venturosos sucessos nas armas, como apregoam nossas antigas histórias. Principalmente na memoranda de Aljubarrota, ano 1385, pois em sinal de troféu, mandou o Santo Condestável, D. Nuno Álvares Pereira (tronco da esclarecida Casa de Bragança), erigir no meio do campo em que se conseguiu a celebérrima vitória, um famoso Templo consagrado à Belipotente Rainha dos Angélicos esquadrões e ao invicto Mártir S. Jorge, Alferes da Igreja Católica. Debaixo de cujo soberano patrocínio, reedificou depois o Castelo de Lisboa, el-Rei D. João I, de feliz memória. O qual trouxe toda a vida a insígnia e divisa de sua Militar Ordem. E ordenou que na solene procissão do Corpo de Deus, fosse uma pessoa a cavalo, vestida de armas brancas, com lança vibrada e escudo embraçado, que representasse ao vivo o próprio Santo, como vemos ainda hoje em todas as cidades e vilas deste Reino, com tanto aparato e bizarria.

Pe. Jorge Cardoso in «Hagiológio Lusitano dos Santos e Varões ilustres em virtude, do Reino de Portugal e suas conquistas», Tomo II, 1657.

Uma prodigiosa aclamação de D. João I


No mesmo dia [5 de Abril], ano de 1385, estando o Mestre de Avis (depois glorioso Rei) na Cidade de Évora, prevenindo a defesa do Reino, quando este andava mais revolto e alterado sobre as pretensões de Castela, se ouviu dizer a uma criança de oito meses, com palavras claras e distintas: Real, Real, por Dom João Rei de Portugal. Passava-lhe o Mestre de Avis ao mesmo tempo pela porta, e este misterioso acaso certificou claramente qual era o Dom João, a quem se dirigiam aquelas vozes: Não é novo sucederem semelhantes prodígios em semelhantes ocasiões. E este se acha autenticado no arquivo do Senado de Évora.

Pe. Francisco de Santa Maria in «Ano Histórico, Diário Português: Notícia Abreviada de pessoas grandes e coisas notáveis de Portugal», 1744.

Portugal e a Serpe


A propósito da referência à serpente na publicação anterior...

Também diz o A. que o Timbre da Serpe de Portugal foi tomado por El-Rei D. Afonso Henriques, outros sentem que foi tomado por El-Rei D. João I, pondo sobre suas Armas Reais a Serpe de ouro pela de Moisés, que figurava a Cristo Senhor Nosso levantado na Cruz, ainda que parece que sua Crónica diz que pela devoção que tinha ao Mártir S. Jorge, por quem apelidava nas Batalhas contra Castela, por aquela Serpe que o Santo matou, como também por este Santo ser Padroeiro da Cavalaria e Ordem da Jarreteira, de que era Cavaleiro o mesmo Rei D. João Gracia Dei, dá por Timbre às Armas de Portugal um Cordeiro de prata assentado sobre uma Coroa de espinhos de sua cor, figura de Cristo Jesus, ainda que não achamos este Timbre usado nem nos Livros de Armaria.

D. António Caetano de Sousa in «Provas da História Genealógica da Casa Real Portuguesa», Tomo VI, 1748.

8 de Setembro: Nossa Senhora da Oliveira


No mesmo dia [8 de Setembro], ano de 1342, Reinando em Portugal Dom Afonso IV, sucedeu em Guimarães reverdecer de repente uma Oliveira, que de muitos tempos estava seca, defronte da porta de uma Igreja da Mãe de Deus, cuja festa então se celebrava, como em dia tanto seu; e por ocasião deste raro prodígio, se chamou Santa Maria da Oliveira a Imagem Sacrossanta, que ali se venera, à qual El-Rei Dom João I confessava dever a memorável vitória de Aljubarrota, e a foi visitar a pé, e em acção de graças se mandou (armado de todas as armas, e a cavalo) pesar a prata, que ofereceu à mesma Senhora, e Igreja: Esta é a nobilíssima Colegiada de Guimarães, que por sua antiguidade, privilégios, e grandezas, faz justa competência com as mais ilustres Catedrais do Reino.

Pe. Francisco de Santa Maria in «Ano Histórico, Diário Português: Notícia Abreviada de pessoas grandes e coisas notáveis de Portugal», 1744.

15 de Agosto: Festa da Assunção de Maria


Neste plausível dia, em sexta-feira, às três horas da tarde, ano 49 do Nascimento de Cristo, com setenta, ou setenta e dois anos de idade menos vinte e seis dias, segundo diversas opiniões, subiu milagrosamente ressuscitada a Virgem Maria, Mãe de Deus, nos braços de Nosso Senhor Jesus Cristo, seu amado Filho, ao mais alto do Empíreo; cujas suavíssimas memórias de triunfo tão glorioso, celebrado com imensa grandeza e majestade, festeja neste dia a Igreja Católica. Mas qual foi o Sumo Pontífice, que na mesma Igreja, instituiu e deu princípio a esta grande celebridade? Foi um Português, São Dâmaso, no ano de Cristo de 364. El-Rei D. João, I do nome em Portugal, aumentou o mesmo culto neste Reino, fazendo dedicar as Igrejas Catedrais à gloriosa Assunção da Augustíssima Senhora.

Pe. Francisco de Santa Maria in «Ano Histórico, Diário Português: Notícia Abreviada de pessoas grandes e coisas notáveis de Portugal», 1744.

14 de Agosto


14 de Agosto – Vigília da Assunção da Virgem Maria.



14 de Agosto de 1385 – Batalha de Aljubarrota.



14 de Agosto de 1433 – Morte de D. João I (vencedor em Aljubarrota).

Assim nasceu o Mosteiro da Batalha


Na manhã de 14 de Agosto de 1385, momentos antes da Batalha de Aljubarrota, o príncipe D. João, Mestre de Avis, fez um voto solene à Santíssima Virgem, no qual se comprometia erigir um mosteiro em Sua honra, em caso de vitória portuguesa. E assim aconteceu. Na véspera da Assunção de Nossa Senhora ao Céu, o pequeno exército português de 7 mil homens conseguiu um triunfo retumbante sobre o poderoso exército castelhano de 40 mil homens. O príncipe D. João cumpriu a sua promessa, e terminada a guerra com Castela, mandou edificar o Mosteiro de Santa Maria da Vitória, também conhecido como Mosteiro da Batalha.

A honra sobre o proveito


Depois da tomada de Ceuta aos Mouros, a 21 de Agosto de 1415, surgiram dúvidas sobre a manutenção da cidade:

O Reino é pequeno e a nossa riqueza foi gasta em guerras passadas. É loucura conservar a cidade entalada entre outros baluartes de Infiéis. Abandonemos a Praça aos Mouros, que não se pode suportar tamanha despesa!

Mas entre os conselheiros de El-Rei D. João I, houve quem tivesse mantido a clareza de espírito:

O quê? Eles antepõem as coisas proveitosas às honrosas! Senhor, se quereis largar a cidade, sois corsário e não rei!

Não tenhais receio, Senhor, que não vos minguará dinheiro para avançar no empreendimento que ora tendes encetado com tanta honra!

Senhor, se quereis conquistas, voltai-vos para Granada!

600 anos da tomada de Ceuta


Não sofre o peito forte, usado à guerra,
não ter amigo já a quem faça dano;
e assim não tendo a quem vencer na terra,
vai cometer as ondas do Oceano.
Este é o primeiro Rei que se desterra
da Pátria, por fazer que o Africano
conheça, pelas armas, quanto excede
a lei de Cristo à lei de Mafamede.

Luís Vaz de Camões in «Os Lusíadas».