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Salazar e o soneto de Plantin


António Ferro, no seu admirável livro de conversas com Salazar, confessa-nos que um dos poucos quadros que decoram as frias paredes do gabinete de trabalho do ditador, contém o texto do célebre e esquecido soneto de Plantin, Le bonheur de ce monde. Salazar preza tanto esse soneto, que o transpôs com a sua própria mão para o oferecer a António Ferro.

Avoir une maison commode, propre et belle,
Un jardin tapissé d'espaliers odorans,
Des fruits, d'excellent vin, peu de train, peu d'enfans,
Posseder seul sans bruit une femme fidèle,

N'avoir dettes, amour, ni procès, ni querelle,
Ni de partage à faire avecque ses parens,
Se contenter de peu, n'espérer rien des Grands,
Régler tous ses desseins sur un juste modèle,

Vivre avecque franchise et sans ambition,
S'adonner sans scrupule à la dévotion,
Dompter ses passions, les rendre obéissantes,

Conserver l'esprit libre, et le jugement fort,
Dire son chapelet en cultivant ses entes,
C'est attendre chez soi bien doucement la mort.

Trata-se de uma imagem auto-reveladora comovente, este soneto em que são louvadas tantas felicidades simples, sonhadas, sem dúvida, por Salazar, mas proibidas para si próprio pela sua vontade indomável, monástica, de cumprir até ao fim o seu sacrifício.

Mircea Eliade in «Salazar e a Revolução em Portugal», 1942.

O famoso Poeta Manuel de Galhegos


Manuel de Galhegos, insigne Poeta do seu tempo, a quem os Castelhanos chamaram novo Camões e Virgílio Português, e lhe deram outros títulos não menos ilustres, mas bem merecidos de seu singular engenho e admirável génio Poético, florida eloquência e viva discrição. Compôs vários Poemas, mas entre todos, o que intitulou Templo da Memória, lhe fez imortal a sua. Morreu em Lisboa neste dia [9 de Junho], ano de 1665. Jaz na Igreja de São Lourenço.

Pe. Francisco de Santa Maria in «Ano Histórico, Diário Português: Notícia Abreviada de pessoas grandes e coisas notáveis de Portugal», 1744.

Ao Serafim de Assis


Como louvarei eu, Serafim Santo,
Tanta humildade, tanta penitência,
Castidade e pobreza e paciência,
Com este meu inculto e rude canto.

Argumento que às musas põe espanto,
Que faz muda a grandíloqua eloquência.
Oh imagem que a divina Providência
De si viva em vós faz para bem tanto!

Fostes de santos uma rara mina;
Almas de mil a mil ao céu mandastes
Do mundo, que perdido reformastes.

E não roubáveis só com a doutrina
As vontades mortais, mas a divina;
Pois os seus Rubis cinco lhe roubastes!

Camões

Pedro Jacques de Magalhães


Pedro Jaques de Magalhães, primeiro Senhor e Visconde de Fonte Arcada, do Conselho de Guerra dos Reis Dom Afonso VI e Dom Pedro II. Varão a toda a luz insigne em valor e disciplina militar. Desde os primeiros anos seguiu a guerra na nova Lusitânia [Brasil]: Em Cartagena deu as singularíssimas provas de valor, constância e fidelidade, que dissemos em outro lugar. Ocupou os primeiros postos de Guerra nas que houve depois da Aclamação entre Portugal e Castela. Na Província da Beira, onde era Governador das Armas, fatigava com repetidas invasões o país inimigo. Rendeu e saqueou as Vilas de Guinaldo, Sobradilho, Serralvo, e outras; em uma entrada fez queimar mais doze Vilas e lugares, exercitando generosa clemência com os rendidos. Foi grande parte o seu valor nas vitórias de Elvas, do Canal, de Montes Claros, e a famosa de Castelo Rodrigo se lhe deveu inteiramente, como deixamos dito em outra parte. Passou depois a General da Armada de Portugal, e foi não menos valeroso e temido no mar, do que na terra. Em Pernambuco pôs o feliz fim à expulsão das armas Holandesas, que por espaço de trinta anos tinham resistido no Brasil a todo o poder de Espanha. Por entre os Mouros, que sitiavam a Cidade de Orão, e tinham posto os Espanhóis no estado da última ruína, meteu socorro naquela Praça, e foi causa de que triunfassem de todo o poder dos Mouros. Cheio de acções heróicas, e não menos de virtudes morais e Cristãs, morreu com grandes sinais de predestinado, em Lisboa, neste dia [8 de Dezembro], ano de 1688. Jaz na Igreja de Jesus dos Religiosos Terceiros de São Francisco. O Conde da Ericeira Dom Francisco Xavier de Menezes epilogou as acções deste famoso herói neste Soneto.

Fiel sofre um tormento áspero e duro;
Livra o Brasil da escravidão estranha;
De Badajoz, triunfa na Campanha;
De Elvas, foi o seu peito um firme muro.

No Canal o troféu deixou seguro;
Em Castelo Rodrigo vence a Espanha;
E fez de Montes Claros na façanha,
Seu nome claro, até no tempo escuro.

Sempre adquiriu na Beira imortal glória;
No mar lhe foge o Mouro temeroso;
Orão deve a seu eco uma vitória;

Itália o viu prudente e generoso;
E o que mais é morreu santo; Esta é a história
De Pedro Jacques, Luso Herói famoso.

Pe. Francisco de Santa Maria in «Ano Histórico, Diário Português: Notícia Abreviada de pessoas grandes e coisas notáveis de Portugal», 1744.

O Beato Condestável


Ó fulcro de sagrado patriotismo!
Ó expoente da rácica afoiteza!...
Ó bravo Cid da Raça Portuguesa!
Ó flor de santidade e de heroísmo!...

Ó génio de assombroso estoicismo!
Ó pio Job da humílima grandeza!...
Ó lusíada Galaaz de alta nobreza!
Ó crente do melhor catolicismo!...

Ó modelo da Fé mais arreigada!
Ó peito aberto à santa fidalguia!
Ó servo de Maria Imaculada!

Ó portento da audaz cavalaria!
Ó símbolo da Raça sublimada!
Ó Beato Nuno! – eleva a Pátria amada!

Santos Cravina in «Portugal Redimido: O Poema da Grei», 1949.

Falando com Deus


Só vos conhece, Amor, quem se conhece,
Só vos entende bem, quem bem se entende,
Só quem se ofende a si, não vos ofende,
E só vos pode amar quem se aborrece.

Só quem se mortifica, em Vós floresce,
Só é senhor de si quem se vos rende,
Só sabe pretender quem vos pretende,
E só sobe por Vós quem por Vós desce.

Quem tudo por Vós perde, tudo ganha,
Pois tudo quanto há, tudo em Vós cabe;
Ditoso quem no vosso amor se inflama,

Pois faz troca tão alta e tão estranha;
Mas só vos pode amar o que vos sabe,
Só vos pode saber o que vos ama.

Jerónimo Baía (1627-1688)

Nos 500 anos da excomunhão de Martinho Lutero


A 3 de Janeiro de 1521 o Papa Leão X excomungava o heresiarca Martinho Lutero, a quem o nosso poeta Garcia de Resende dedicou estes justíssimos versos:

Com heresias e manha
Vimos o falso Luterio
Converter em Alemanha
Tanta gente, que é façanha
Na maior força do império:
Contra nossa fé pregando,
E do Papa blasfemando,
Dos Bispos, dos Cardeais,
Venceu batalhas campais
A grande gente do seu bando.

Com sua língua maligna,
E preceitos desonestos,
Semeia sua doutrina
Cheia de luxúria indigna
E vergonhosos incestos:
O que mais deve doer,
É que vemos estender
Este veneno a mais terras
E com pestiferas guerras
Tarda remédio poer.

Garcia de Resende in «Miscelânea», 1554 (póstumo).

Ao Menino Deus em metáfora de doce


– Quem quer fruta doce?
– Mostre cá! Que é isso?
– É doce coberto,
É manjar divino.

– Vejamos o doce,
E depois que o virmos,
Compraremos todo,
Se for todo rico.

– Venha ao portal logo;
Verá que não minto,
Pois de várias sortes
É doce infinito.

– Descubra, minha alma.
Mas ah! Que diviso?
Envolto em mantilhas,
Um Infante lindo!

– Pois de que se admira,
Quando este Menino
É doce coberto,
É manjar divino?

– Diga o como é doce,
Que ignoro o prodígio.
– Não sabe o mistério?
Ora vá ouvindo:

Muito antes de Santa Ana,
Teve este doce princípio,
Porque já do Salvador
Se davam muitos indícios.

Mas na Anunciada dizem
Que houve mais expresso aviso,
E logo na Encarnação
Se entrou por modo divino.

Esteve pois na Esperança
Muitos tempos escondido,
Saiu da Madre de Deus,
Depois às Claras foi visto.

Fazem dele estimação
As freiras com tal capricho,
Que apuram para este doce
Todos os cinco sentidos.

Afirmam que no Calvário
Terá seu termo finito,
Sendo que no Sacramento
Há-de ter novo artifício.

Que seja doce este Infante,
A razão o está pedindo,
Porque é certo que é morgado,
Sendo unigénito Filho!

Exposto ao rigor do tempo,
Quando tirita nuzinho,
Um caramelo parece
Pelo branco e pelo frio.

Tal doce é, que, porque farte
Ao pecador mais faminto,
Será de pão com espécies,
Substancial doce divino.

É manjar tão soberano,
Regalo tão peregrino,
Que os espíritos levanta,
Tornando aos mortos vivos.

Tão delicioso bocado
Será de gosto infinito,
Manjar real, verdadeiro,
Manjar branco, parecido!

Que é manjar dos Anjos, dizem
Talentos mui fidedignos,
Por ser pão-de-ló, que aos Anjos
Foi em figura oferecido.

Jerónimo Baía (1627-1688)

A el-Rei D. João IV


Que logras Portugal? Um rei perfeito.
Quem o constituiu? Sacra piedade.
Que alcançaste com ele? A liberdade.
Que liberdade tens? Ser-lhe sujeito.

Que tens na sujeição? Honra e proveito.
Que é o novo rei? Quase deidade.
Que ostenta nas acções? Felicidade.
E que tem de feliz? Ser por Deus feito.

Que eras antes dele? Um labirinto.
Que te julgas agora? Um firmamento.
Temes alguém? Não temo a mesma Parca.

Sentes alguma pena? Uma só sinto.
Qual é? Não ser um mundo, ou não ser cento.
Para ser mais capaz de tal Monarca.

Sóror Violante do Céu (1602-1693)

Hino a Dom Miguel


Miguel Rei dos Lusos
Já foi aclamado;
O Céu destinado
A Palma lhe tem.

O Reino contente
Seu Anjo lhe chama,
O Jovem aclama
Por seu maior bem.

O Céu o defenda
Dos golpes da Parca,
Só este Monarca
Aos Lusos convém.

(Refrão)

Miguel sempre Grande,
Em nossa defesa,
Com sua firmeza
O Reino sustém.

(Refrão)

Os Lusos só querem
Miguel o Primeiro,
Legítimo Herdeiro
Do Trono que tem.

(Refrão)

Acolhe e premeia
O digno Vassalo;
Deixar de adorá-lo
Não pode ninguém.

(Refrão)

Herói de virtude,
Piedade e respeito,
Que dentro em seu peito
Ternura só tem.

(Refrão)

José Daniel Rodrigues da Costa in «Na aclamação do magnânimo e augustíssimo Senhor Dom Miguel I, Rei de Portugal», 1828.

Frei Nuno: Herói e Santo


Frei Nuno, Herói soldado,
É grande o teu ideal;
Repete a história o brado:
Por Deus e Portugal.
Prodígios são do Céu;
E o Carmo excelsa rota,
Sublima o nome teu.

Ó Condestável Santo,
Sê tu, nosso broquel
Esmague o teu encanto,
A sanha de Lusbel.
Ressoe e por toda a parte
Em pró do teu ideal.
Audaz pregão de guerra,
Dom Nuno de Portugal

Inspira à juventude,
De Deus, da Pátria o amor,
O culto da virtude,
Coragem e valor!
Nas lides da existência,
Sê sempre o seu farol.
E guia-a com clemência,
À luz do Eterno Sol!

Fonte: «Iconografia Condestabriana», 1971.

Milagre e Batalha de Ourique


Mas já o Príncipe Afonso aparelhava
O Lusitano exército ditoso,
Contra o Mouro que as terras habitava
De além do claro Tejo deleitoso;
Já no campo de Ourique se assentava
O arraial soberbo e belicoso,
Defronte do inimigo Sarraceno,
Posto que em força e gente tão pequeno;

Em nenhuma outra cousa confiado,
Senão no sumo Deus que o Céu regia,
Que tão pouco era o povo baptizado,
Que, para um só, cem Mouros haveria.
Julga qualquer juízo sossegado
Por mais temeridade que ousadia
Cometer um tamanho ajuntamento,
Que para um cavaleiro houvesse cento.

Cinco Reis Mouros são os inimigos,
Dos quais o principal Ismar se chama;
Todos experimentados nos perigos
Da guerra, onde se alcança a ilustre fama.
Seguem guerreiras damas seus amigos,
Imitando a formosa e forte Dama
De quem tanto os Troianos se ajudaram,
E as que o Termodonte já gostaram.

A matutina luz, serena e fria,
As Estrelas do Pólo já apartava,
Quando na Cruz o Filho de Maria,
Amostrando-se a Afonso, o animava.
Ele, adorando Quem lhe aparecia,
Na Fé todo inflamado, assim gritava:
«Aos Infiéis, Senhor, aos Infiéis,
E não a mim, que creio o que podeis!»

Com tal milagre os ânimos da gente
Portuguesa inflamados, levantavam
Por seu Rei natural este excelente
Príncipe, que do peito tanto amavam;
E diante do exército potente
Dos inimigos, gritando, o céu tocavam,
Dizendo em alta voz: «Real, real,
Por Afonso, alto Rei de Portugal!»

Luís Vaz de Camões in «Os Lusíadas», 1572.

As Rosas de Santa Isabel


Onde ides, correndo asinha,
Onde ides, bela Rainha,
Onde ides, correndo assim?
Porque andais fora dos Paços?
Que peso levais nos braços?
Oh! Dizei-mo agora a mim?...

A Santa, regalos novos,
Frutas, pão, e carne, e ovos,
No regaço e braços seus,
Sem cuidar ser surpreendida,
Ia levar farta vida
Aos pobrezinhos de Deus.

Coram-lhe as faces formosas,
E responde: – "Levo rosas..."
Dom Dinis deitou-lhe a mão,
Ao regaço, de repente;
Mas de rubra cor vivente
Só rosas lá viu então!...

Como o tempo era passado,
Nos jardins, no monte e prado,
De rosas e toda a flor,
El-Rei, cheio de piedade,
Nas rosas da caridade
Viu a bênção do Senhor!

E daquele rosal dela
Tirando uma rosa bela,
Que guardou no peito seu,
Disse-lhe: – "Em paz ide agora,
Que eu me encomendo, Senhora,
À Santa, ao Anjo do Céu."

João de Lemos (1819-1890)

Portugueses: poucos quanto fortes


A vós, à geração de Luso, digo,
Que tão pequena parte sois no mundo;
Não digo inda no mundo, mas no amigo
Curral de Quem governa o Céu rotundo;
Vós, a quem não somente algum perigo
Estorva conquistar o povo imundo,
Mas nem cobiça ou pouca obediência
Da Madre que nos Céus está em essência:

Vós, Portugueses, poucos quanto fortes,
Que o fraco poder vosso não pesais;
Vós, que, à custa de vossas várias mortes,
A Lei da vida eterna dilatais:
Assim do Céu deitadas são as sortes
Que vós, por muito pouco que sejais,
Muito façais na santa Cristandade,
Que tanto, ó Cristo, exaltas a humildade!

Luís Vaz de Camões in «Os Lusíadas», 1572.

O nascimento de Cristo profetizado por poeta pagão


Agora chegou a última idade cantada pela Sibila de Cumas; uma grande sucessão pacífica de séculos começa de novo; agora também volta a Virgem; volta o reinado de Saturno; uma nova geração humana desce do alto dos céus. Para o Menino que agora deve nascer, sob o qual a raça de ferro terminará, e uma raça de ouro surgirá no mundo todo, tu, casta Lucina, sorri favoravelmente, pois teu Apolo é agora rei.

Esta idade gloriosa começa em teu consulado, ó Polião, quando os meses poderosos começam seu curso. Sob tua liderança todos os vestígios que restem de nossa culpa vão desaparecer e libertar a terra de seu temor incessante. Ele [o Menino] receberá vida divina e verá heróis que se misturam com deuses e será ele próprio visto por eles. E ele governará um mundo pacificado pelas virtudes paternas.

Virgílio in «Bucólicas», 40 a.C.

§

Nota: Virgílio cita a Sibila de Cumas, oráculo da Antiguidade cuja profecia sobre o nascimento de Cristo inspirou o poeta romano. O Imperador Constantino, numa mensagem ao Concílio de Niceia (ano 325), citou uma passagem dos Livros Sibilinos contendo um acróstico profético, cujas iniciais dos versos são: Jesus Cristo Filho de Deus Salvador Cruz. Miguel Ângelo pintou a Sibila de Cumas no tecto da Capela Sistina, entre os profetas do Velho Testamento.

Jesus nasceu! Feliz Natal!

Presépio da Basílica da Estrela (século XVIII)

Nasce o Verbo em Belém, pobre, humilhado,
Sendo Supremo Rei de toda a Terra,
E no corpo pequeno, e breve, encerra
Do seu Divino Ser, o imenso estado.

Naquela idade se prepara armado
Contra o inferno imortal que almas enterra;
E ao soberbo Lusbel movendo guerra
Por humilde, se vê mais alentado.

Os Demónios cruéis todos se espantam,
Chora, treme de frio o Verbo eterno,
Os Anjos, com voz doce, nos encantam.

De sorte que o menino, e Deus superno,
Chora, porém de gosto os Anjos cantam,
Treme, porém de medo treme o inferno.

Manuel Botelho de Oliveira (1636-1711)

Do Francesismo


O deão da Sé de Elvas, José Carlos de Lara, dirige-se ao Convento dos Capuchos, em cuja cerca encontra um padre jubilado, com quem trava uma conversa acerca das estatuetas do jardim.

O bom Lara, que havia longo tempo,
Que, nesta santa Casa não entrava,
Aturdido ficou, quando a seus olhos,
Na Cerca entrando, juntos se lhe oferecem
As areadas ruas, as Estátuas,
Os Buxos, os Craveiros, as Latadas
De mil flores cobertas, e que, em torno,
O virente jardim adereçavam;
E não bem quatro passos tinha dado,
Quando, fitando curioso a lente
Na estátua, que primeira ali se encontra,
Pergunta ao Jubilado: «Quem é este
Monsieur Paris, segundo diz a letra,
Que por baixo, na base, tem aberta?
Se se houver de julgar pela aparência;
O nome, a catadura, o penteado
Dizendo-nos estão que este bilhostre
Foi Francês, e talvez Cabeleireiro,
Inventor do topete, que o enfeita.»
– «Páris, e não Paris diz o letreiro,
(Circunspecto lhe volve o Padre Mestre)
Nem Francês, como crê, Cabeleireiro
A personagem foi, que representa;
Mas em Tróia nasceu de estirpe régia.»
– «Pois, se Francês não foi (replica o Lara)
Como Monsieur lhe chamam?» – C'um sorriso
Lhe torna o Padre Mestre: «Não se admire
Que isto está sucedendo a cada passo:
Ao pé de cada canto, hoje, sem pejo,
Se tratam de Monsieurs os Portugueses.
Isto, Senhor, é moda; e como é moda,
A quisemos seguir; e sobretudo
Mostrar ao mundo, que Francês sabemos.»

– «De tanto peso pois (lhe volve o Lara)
É, Padre Jubilado, por ventura,
O saber o Francês, que d'isso alarde
Fazer quisessem vossas Reverências?
Por acaso, sem esse sacramento,
Não podiam salvar-se, e serem sábios?
Pois aqui, em segredo, lhe descubro,
Que o Francês, para mim, o mesmo monta,
Que a língua dos selvagens Botocudos.»

– «Não diga, Senhor, tal; que neste tempo,
Oh Tempos, oh Costumes! (diz o Padre)
O saber o Francês é saber tudo.
É pasmar ver, Senhor, como um pascácio,
De Francês com dois dedos se abalança,
Perante os homens doutos, e sisudos,
A falar nas ciências mais profundas,
Sem que lhe escape a Santa Teologia,
Alta ciência, aos Claustros reservada,
Que tanto fez suar ao grande Escoto,
Aos Bacónios, aos Lúlios, e a mim próprio.
Desta audácia, Senhor, deste descoco,
Que entre nós, sem limite, vai lavrando,
Quem mais sente as terríveis consequências,
É a nossa Portuguesa, casta linguagem,
Que em tantas traduções anda envasada
(Traduções, que merecem ser queimadas!)
Em mil termos, e frases Galicanas!
Ah! se as marmóreas campas levantando,
Saíssem dos Sepulcros, onde jazem
Suas honradas cinzas, os Antigos
Lusitanos Varões, que com a pena,
Ou com a espada e lança, a Pátria ornaram;
Os novos idiotismos escutando,
A mesclada dicção, bastardos termos,
Com que enfeitar intentam seus escritos
Estes novos, ridículos Autores;
(Como se a bela, e fértil língua nossa,
Primogénita filha da Latina,
Precisasse de estranhos atavios)
Súbito, certamente, pensariam
Que nos sertões estavam de Caconda,
Quelimane, Sofala, ou Moçambique;
Até que já, por fim, desenganados
Que eram em Portugal, que os Portugueses
Eram também, os que costumes, língua,
Por tão estranhos modos, afrontaram,
Segunda vez de pejo morreriam.

António Cruz e Silva in «O Hissope», 1768.

Todo-o-Mundo e Ninguém


Estão em cena dois diabos, Belzebu e Dinato, este preparado para escrever o que o companheiro observar.
Entra Todo-o-Mundo, homem como rico mercador, e faz que anda buscando alguma coisa que se lhe perdeu; e logo após ele um homem, vestido como pobre. Este se chama Ninguém.

Ninguém:
Que andas tu aí buscando?

Todo-o-Mundo:
Mil coisas ando a buscar:
delas não posso achar,
porém ando porfiando,
por quão bom é porfiar.

Ninguém:
Como hás nome, cavalheiro?

Todo-o-Mundo:
Eu hei nome Todo-o-Mundo,
e meu tempo todo inteiro
sempre é buscar dinheiro,
e sempre nisto me fundo.

Ninguém:
Eu hei nome Ninguém,
e busco a consciência.

Belzebu:
Esta é boa experiência!
Dinato, escreve isto bem.

Dinato:
Que escreverei, companheiro?

Belzebu:
Que Ninguém busca consciência,
e Todo-o-Mundo dinheiro.

Ninguém:
E agora que buscas lá?

Todo-o-Mundo:
Busco honra muito grande.

Ninguém:
E eu virtude, que Deus mande
que tope com ela já.

Belzebu:
Outra adição nos acode:
escreve logo aí a fundo
que busca honra Todo-o-Mundo
e Ninguém busca virtude.

Ninguém:
Buscas outro mor bem que esse?

Todo-o-Mundo:
Busco mais quem me louvasse
tudo quanto eu fizesse.

Ninguém:
E eu quem me repreendesse
em cada coisa que errasse.

Belzebu:
Escreve mais.

Dinato:
Que tens sabido?

Belzebu:
Que quer em extremo grado
Todo-o-Mundo ser louvado,
e Ninguém ser repreendido.

Ninguém:
Buscas mais, amigo meu?

Todo-o-Mundo:
Busco a vida e quem ma dê.

Ninguém:
A vida não sei que é,
a morte conheço eu.

Belzebu:
Escreve lá outra sorte.

Dinato:
Que sorte?

Belzebu:
Muito garrida:
Todo-o-Mundo busca a vida,
e Ninguém conhece a morte.

Todo-o-Mundo:
E mais queria o paraíso,
sem mo ninguém estorvar.

Ninguém:
E eu ponho-me a pagar
quanto devo para isso.

Belzebu:
Escreve com muito aviso.

Dinato:
Que escreverei?

Belzebu:
Escreve
que Todo-o-Mundo quer paraíso
e Ninguém paga o que deve.

Todo-o-Mundo:
Folgo muito de enganar,
e mentir nasceu comigo.

Ninguém:
Eu sempre verdade digo,
sem nunca me desviar.

Belzebu:
Ora escreve lá, compadre,
não sejas tu preguiçoso!

Dinato:
Quê?

Belzebu:
Que Todo-o-Mundo é mentiroso,
e Ninguém diz a verdade.

Ninguém:
Que mais buscas?

Todo-o-Mundo:
Lisonjear.

Ninguém:
Eu sou todo desengano.

Belzebu:
Escreve, ande la mano!

Dinato:
Que me mandas assentar?

Belzebu:
Põe aí mui declarado,
não te fique no tinteiro:
Todo-o-Mundo é lisonjeiro,
e Ninguém desenganado.


Gil Vicente in «Auto da Lusitânia», 1532.