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Vitória e acção generosa do Conde Dom Henrique


Nos princípios do Governo do Conde Dom Henrique, havia na Cidade de Lamego um Rei Mouro, por nome Ecla, o qual dominava a mesma Cidade e outras muitas terras circunvizinhas: Este, desprezando o pouco poder do novo Príncipe, se meteu com mão armada pelas povoações dos Cristãos, e levando muitos cativos e grandes despojos, se ia já recolhendo; Saiu-lhe ao encontro o valeroso Conde, e travando-se neste dia [28 de Outubro], ano de 1102, um duro combate entre fiéis e infiéis, ficaram estes vencidos, e preso Ecla e sua mulher, Axa, que viera com ele a participar da glória do triunfo que supunham infalível; Com esta nobre presa, para complemento da vitória, voltaram os Portugueses sobre a Cidade de Lamego, a qual facilmente se lhe rendeu; Então o despojado Ecla e sua mulher, vendo quanto Deus ajudava a parte dos Cristãos, e inferindo deste princípio que só a Lei de Cristo era verdadeira, disseram que se queriam baptizar: Estimou o Conde, muito mais que a vitória, esta acertada resolução, e com outra sumamente generosa, depois de instruídos e baptizados os dois Reis, os meteu outra vez de posse da Cidade e das terras que dantes possuíam, impondo-lhe um moderado tributo.

Pe. Francisco de Santa Maria in «Ano Histórico, Diário Português: Notícia Abreviada de pessoas grandes e coisas notáveis de Portugal», 1744.

2 de Setembro: Rei Santo Estevão da Hungria


Descendente dos orgulhosos e terríveis invasores, conhecidos pelo nome de Hunos, Estevão foi escolhido por Deus para unir os seus súbditos a Cristo e ao Seu vigário. O nome de Estevão foi-lhe dado no baptismo, porque a sua mãe tivera uma visão do Mártir Santo Estevão, predizendo-lhe que havia de converter a Hungria, sendo o seu primeiro Rei, após a erecção do País em Reino pelo Papa. Casando-se com a irmã do imperador Santo Henrique, cercou-se, para governar o seu Reino, de homens de santidade e prudência comprovadas. Passava noites inteiras na contemplação das coisas do Céu, praticando as maiores austeridades, e, auxiliado pela Rainha, sua piedosa esposa, dava grandes esmolas às viúvas, aos órfãos e às igrejas. Com justa razão, a grandeza do seu zelo pela extensão da fé, mereceu-lhe o título de Rei Apostólico ou de Apóstolo da Hungria, recebendo da Santa Sé o privilégio, transmitido também aos seus sucessores, de fazer levar a cruz diante de si. Fez construir uma grande basílica em honra de Maria, instituindo-a Padroeira da Hungria. «Seu zelo em propagar e fortalecer a fé no País valeu-lhe a glória da realeza celeste» (Postcomm.). Morreu em 1038 no «dia da Grande Senhora», denominação que, em virtude de um édito do Santo Rei, os Húngaros dão à festa da Assunção.

Fonte: «Missal Quotidiano e Vesperal», 1940.


Da palavra Império

Conde D. Henrique

Há um sem-número de palavras que toda a gente emprega, sem reflectir, e sem ter noção clara do conceito que elas traduzem.
Andam, essas palavras, no ar: a gente respira-as com o ar que respira, usa-as, e espalha-as, como usa e espalha o que emana do Inconsciente. A palavra Império, com os seus afins, é uma das tais palavras. Toda a gente fala em Império, em Imperialismo. A cada instante, nos jornais que nos fornecem o alimento espiritual normal, ou nos livros de polémica política que nos desorientam e endoidecem, esbarramos com essas palavras tremendas. E, no entanto, se fossemos perguntar a cada uma das pessoas que as usam e espalham, que ideia traduzem com elas, observaríamos a mais aflitiva das confusões, e a mais escandalosa das identidades. A palavra é velha como o homem.
Àquilo que os romanos chamavam Imperium, tinham os gregos chamado Arké, como se vê em Heródoto: «mégalen arkèn» (Clio, 91).
Da palavra latina é afim o termo Imperator, e da palavra grega o termo arkós (Odisseia, canto X, v. 204).
Imperium e Imperator são filhos de Impero, originariamente: in+paro, «tomar medidas, fazer preparativos para que uma coisa se realize» (Ernout et Meillet, Dictt. étym. de la langue latine, palavra impero).
Se os gregos tinham, a par do seu Arkós, os termos Autokrátôs ou Basileús, para designarem o poder supremo do Arké, os latinos possuíam, ao lado de Imperator, o Dux, com os seus filhos ducator e ducatus, ou Princeps, e outros. Isto, que parece extremamente simples, não tem nada de simples – dada a elasticidade da significação dos termos.
Tanto no grego, como no latim.
Neste, por exemplo, o Imperium tanto pode ser o poder paternal, como o supremo poder político, e o Imperator tanto pode ser o que César define, na sua Guerra Civil, em oposição ao Legatus, como aquele de que nos fala Cícero quando o considera senhor do mundo – «Populus imperator omnium gentium», ou Varrão, ao dizer-nos que ele é o vingador das injúrias feitas pelo inimigo ao império do Povo.
E dentro destes pontos limites, quantas modalidades, quantas cores, no significado do termo.
O que é certo, porém, é que na imprecisão da tradução conceitual, no mar imenso e revolto das ideias expressadas, na paisagem difusa e confusa das noções transmitidas, há um fundo em que todas as raízes mergulham, e algo de que todas as raízes se sustentam.
No Arké e no Imperium, há o poder; no Arkós e no Imperator, há o exercício do mando.
Quando chegamos àquela época a que, por acinte e infeliz má vontade, se chama Idade Média (Idade Média, porquê?!), quando chegamos a essa época, notamos coisas curiosas. Um rei de Inglaterra atribui-se três títulos: Basileus, Imperator e Dominus: «Ego Edgarus Anglorum Basileus, omniunque Regum Insularum Oceani, quae Britanniam circumjacent, cunctarumque Nationum infra eam includuntur, Imperator et Dominus» (Du Cange, Glossarium, palavra Imperatoris).
Não lhe bastavam os termos latinos: foi-lhe ainda preciso recorrer ao termo grego tão predilecto em Bizâncio...
Ao nosso próprio conde D. Henrique, se chamou, um dia, Imperator. É num documento de 1105 – uma doação: «Sub Adefonso Principis, et gener ejus Enricho Imperator Portugalense...» (in João Pedro Ribeiro, Dissertações, III, 1.ª parte, n.º 141). 
Imperator Portugalense! Imperator de Portugal. Não há outro vestígio de tão pomposo título. Mas este mostra, além do mais, que o Imperator está nas velhas tradições portuguesas.
O termo Império veio pelos tempos fora, e, entre nós, Camões, no século XVI, propõe-se cantar, entre outras coisas,

...as memórias gloriosas
Daqueles Reis que foram dilatando
A Fé, o Império...
(I, 2)

e aconselha o Rei a que estime os seus cavaleiros, pois estes, à custa do próprio sangue,

Estendem não somente a Lei de cima,
Mas inda vosso Império preeminente
(X, 151)

É outra vez a Fé e o Império. Qual, aqui, o conceito camoniano do Império? O conceito geográfico? O conceito político?
No primeiro sentido, o tomou Fr. Francisco de Santo Agostinho de Macedo, o monstro da Inteligência, quando, ao traduzir o termo, fala em «regni fines».
No segundo sentido o toma o doutíssimo Epifânio, quando interpreta: «senhorio político».
Qual dos dois interpreta bem o pensamento do Poeta? Só averiguá-lo dava para uma conferência...

Alfredo Pimenta in «O Império Colonial como factor de Civilização», 1936.

Conde D. Henrique


Destes Henrique, dizem que segundo
Filho de um Rei da Hungria experimentado
Portugal houve em sorte, que no mundo
Então não era ilustre nem prezado;
E, para mais sinal de amor profundo,
Quis o Rei Castelhano que casado
Com Teresa, sua filha, o Conde fosse;
E com ela das terras tomou posse.

Este, depois que contra os descendentes
Da escrava Agar, vitórias grandes teve,
Ganhando muitas terras adjacentes.
Fazendo o que a seu forte peito deve,
Em prémio destes feitos excelentes
Deu-lhe o supremo Deus, em tempo breve,
Um filho, que ilustrasse o nome ufano
Do belicoso Reino Lusitano.

Luís de Camões in «Os Lusíadas», 1572.

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