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É aclamado Rei o Cardeal Dom Henrique


No mesmo dia [28 de Agosto], no infeliz ano de 1578, foi Coroado em Lisboa o Cardeal Henrique, o primeiro que uniu uma e outra púrpura: Celebrou-se o acto na Igreja do Hospital, sítio próprio para um Rei e Reino, enfermos ambos, e quase moribundos; Todavia, não se faltou ao luzimento e pompa que costuma haver em semelhantes ocasiões: Ornou-se ricamente a Igreja, e foi a ela o novo Rei, em hábito de Cardeal, em uma mula, cuja rédea levava Dom Álvaro da Silva, Conde de Portalegre, Mordomo-mor, precedendo a Nobreza, que então se achava na Corte, todos a pé e descobertos, excepto o Duque de Bragança Dom João, que ia a cavalo com o Estoque desembainhado, como Condestável. Na Igreja se havia prevenido um teatro com uma cadeira, onde El-Rei se sentou, e dado e recebido o juramento, como é costume, lhe foi entregue o Ceptro, e com esta Real insígnia na mão, voltou para o Palácio, na mesma forma, e ordem, com que viera.

Pe. Francisco de Santa Maria in «Ano Histórico, Diário Português: Notícia Abreviada de pessoas grandes e coisas notáveis de Portugal», 1744.

Aniversário de nascimento do Cardeal-Rei D. Henrique


No mesmo dia [31 de Janeiro], ano de 1512, nasceu em Lisboa o Infante Dom Henrique, filho dos Reis Dom Manuel e Dona Maria, e o filho que, nas feições do rosto, mais se pareceu a El-Rei seu pai. Foi baptizado por Dom Jorge de Almeida, Bispo de Coimbra, e pelos acidentes e variedades do tempo, veio a ser Rei de Portugal, já na última idade. No dia do seu nascimento se viu Lisboa coberta de neve, coisa naquela Cidade vista raras vezes. Fizeram-se vários juízos: Uns diriam que o novo Príncipe, por nascer tão remoto da sucessão do Reino, sem dúvida seguiria com singular pureza de costumes a vida Eclesiástica, da qual aquela virtude (simbolizada na neve) é o realce mais precioso. Outros poderiam dizer que com aquele Príncipe se havia de esfriar o antigo ardor dos Portugueses, com que sempre se uniram em defesa da pátria e da liberdade; e uns e outros (se fizeram estes juízos) é sem dúvida que acertaram neles.

Pe. Francisco de Santa Maria in «Ano Histórico, Diário Português: Notícia Abreviada de pessoas grandes e coisas notáveis de Portugal», 1744.