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Da Autoridade legítima e da justa Obediência


Além disso, é obrigação verdadeira prestar reverência à autoridade e obedecer com submissão às leis justas, ficando assim os cidadãos livres da injustiça dos iníquos, graças à força e vigilância da lei. A potestade legítima vem de Deus, e quem resiste à potestade resiste à ordenação de Deus; por isso, a obediência é grandemente enobrecida, pois é prestada à mais justa e elevada autoridade. Mas, quando falta o direito de mandar, ou se ordena algo contra a razão, contra a lei eterna ou contra os mandamentos divinos, é justo não obedecer aos homens, entendendo-se, porém, que se deve obedecer a Deus. Fechado deste modo o caminho à tirania, o Estado não absorverá tudo, e ficarão salvaguardados os direitos dos particulares, da família e de todos os membros da sociedade, concedendo-se a todos participação na verdadeira liberdade, que consiste, como demonstrámos, em poder cada um viver segundo as leis justas e a recta razão.
(...)
E com razão, porque esta liberdade cristã testemunha o supremo e justíssimo domínio de Deus sobre os homens e, ao mesmo tempo, a primeira e principal obrigação do homem para com Deus. Nada tem esta liberdade em comum com o espírito sedicioso e desobediente, nem de modo algum se deve pensar que pretenda eximir-se ao respeito devido à autoridade pública; pois a potestade humana só possui o direito de mandar e exigir obediência enquanto não divergir em coisa alguma da potestade divina, mantendo-se dentro dos limites por esta estabelecidos. Mas, quando se ordena algo que claramente contraria a vontade divina, ultrapassam-se esses limites e entra-se simultaneamente em conflito com a divina Autoridade; por isso, então, o justo é não obedecer.

Papa Leão XIII in encíclica «Libertas praestantissimum», 20 de Junho de 1888.

Da Cristandade


Tempo houve em que a filosofia do Evangelho governava os Estados. Nessa época, a influência da sabedoria cristã e a sua virtude divina penetravam as leis, as instituições, os costumes dos povos, todas as categorias e todas as relações da sociedade civil. Então a Religião instituída por Jesus Cristo, solidamente estabelecida no grau de dignidade que lhe é devida, em toda a parte era florescente, graças ao favor dos Príncipes e à protecção legítima dos Magistrados. Então o Sacerdócio e o Império estavam ligados entre si por uma feliz concórdia e pela permuta amistosa de bons ofícios. Organizada assim, a sociedade civil deu frutos superiores a qualquer expectativa, cuja memória subsiste e subsistirá, consignada como está em inúmeros documentos que artifício algum dos adversários poderá corromper ou obscurecer.

Papa Leão XIII in encíclica «Immortale Dei», 1 de Novembro de 1885.

A invalidade das ordenações anglicanas


Como dissemos no número passado da Voz, Leão XIII, depois de um maduro exame, declarou inválidas as ordenações anglicanas [na bula Apostolicae curae]. Essa declaração produziu, como era de esperar, benéficos resultados. O Cardeal Vaughan já dirigiu um apelo aos católicos ingleses para que se organize uma sociedade protectora dos pastores protestantes que abraçarem o Catolicismo.

Fonte: «Voz de S. António: Revista Mensal Ilustrada», 2º Ano, Nº 23, Novembro de 1896.

Da deseducação maçónica


A seita concentra também todas as suas energias e todos os seus esforços em se apoderar da educação da juventude. Os mações esperam poder facilmente formar de acordo com suas ideias essa idade tão tenra, e dobrar-lhe a flexibilidade no sentido que eles quiserem, nada devendo ser mais eficaz do que isso para preparar à sociedade civil uma raça de cidadãos tal como eles sonham dar-lhe. É por isso que, na educação e na instrução das crianças, não querem eles tolerar os ministros da Igreja, nem como censores, nem como professores. Já em vários países eles conseguiram fazer confiar exclusivamente a leigos a educação da juventude, como também proscrever totalmente do ensino da moral, os grandes e santos deveres que unem o homem a Deus.

Papa Leão XIII in encíclica «Humanum Genus», 20 de Abril de 1884.

Sobre a propriedade privada


A prudência católica, bem apoiada nos preceitos da lei divina e natural, procura com singular acerto também a tranquilidade pública e doméstica, pelas ideias que adopta e ensina a respeito do direito de propriedade e à divisão dos bens necessários ou úteis à vida. Porque enquanto os socialistas, apresentando o direito de propriedade como uma invenção humana contrária à igualdade natural entre os homens; enquanto, pregando a comunidade de bens, declaram que não se deve suportar a pobreza com paciência, e que impunemente se pode violar as propriedades e os direitos dos ricos, a Igreja reconhece muito mais sábia e utilmente que a desigualdade existe entre os homens, naturalmente tão diferentes pelas forças do corpo e do espírito, e que esta desigualdade existe até na posse dos bens.

Papa Leão XIII in encíclica «Quod Apostolici muneris», 28 de Dezembro de 1878.

O erro do "Pacto Social"


Os que pretendem que a sociedade civil se originou pelo livre consentimento dos homens, ao atribuir a origem da autoridade a essa mesma fonte, dizem que cada um cedeu parte do seu direito e que voluntariamente se submeteu ao direito daquele que havia reunido em si a soma desses direitos. Mas é um grande erro não ver o que é evidente, a saber: que os homens, não sendo uma espécie de andarilhos solitários, independentemente da sua livre vontade, nasceram numa comunidade natural; e, além disso, o pacto que pregam é claramente uma invenção e uma ficção, e não serve para dar à potestade política tão grande força, dignidade e firmeza, como exige a defesa da república [= da coisa pública] e a utilidade comum dos cidadãos. E o Principado [político] só terá esta majestade e suporte universal, se se compreende que emana de Deus, fonte augusta e santíssima.

Papa Leão XIII in encíclica «Diuturnum Illud», 29 de Junho de 1881.

Quando não se deve obedecer


Uma só razão têm os homens para não obedecer, e é quando se lhes pede algo que repugne abertamente o direito natural ou divino; pois todas aquelas coisas em que se infringe a lei natural ou a vontade de Deus, é tão ilícito o mandar como o fazer. Se, no entanto, suceder que alguém seja obrigado a escolher uma de duas coisas, ou a desprezar os mandamentos de Deus ou o dos Príncipes, deve obedecer a Jesus Cristo, que manda dar a César o que é de César e a Deus o que é de Deus, e seguindo o exemplo dos Apóstolos, responder animosamente: importa obedecer antes a Deus do que aos homens. Porém, não há razão para acusar quem procede deste modo de quebrar a obediência; pois se a vontade dos Príncipes contraria a vontade de Deus, eles ultrapassam os limites do seu poder e perturbam a justiça: nem mesmo assim pode valer a sua autoridade, a qual é nula onde não é justa.

Papa Leão XIII in encíclica «Diuturnum Illud», 29 de Junho de 1881.

A Maçonaria e a deseducação da juventude


A seita concentra também todas as suas energias e todos os seus esforços em se apoderar da educação da juventude. Os mações esperam poder facilmente formar de acordo com suas ideias essa idade tão tenra, e dobrar-lhe a flexibilidade no sentido que eles quiserem, nada devendo ser mais eficaz do que isso para preparar à sociedade civil uma raça de cidadãos tal como eles sonham dar-lhe. É por isso que, na educação e na instrução das crianças, não querem eles tolerar os ministros da Igreja, nem como censores, nem como professores. Já em vários países eles conseguiram fazer confiar exclusivamente a leigos a educação da juventude, como também proscrever totalmente do ensino da moral, os grandes e santos deveres que unem o homem a Deus.

Papa Leão XIII in encíclica «Humanum Genus», 20 de Abril de 1884.

Sociedade: união de elementos desiguais


Do mesmo modo que a perfeita constituição do corpo humano resulta da união e da articulação dos membros, que não têm as mesmas forças nem as mesmas funções, mas cuja feliz associação e concurso harmonioso dão a todo o organismo a sua beleza plástica, a sua força e a sua aptidão para prestar os serviços necessários, assim também, no seio da sociedade humana, acha-se uma variedade quase infinita de partes dissemelhantes. Se elas fossem todas iguais entre si, e livres, cada uma por sua conta, de agir a seu talante, nada seria mais disforme do que tal sociedade. Pelo contrário, se por uma sábia hierarquia dos merecimentos, dos gostos, das aptidões, cada uma delas concorre para o bem geral, vereis erguer-se diante de vós a imagem de uma sociedade bem ordenada e conforme a natureza.

Papa Leão XIII in encíclica «Humanum Genus», 20 de Abril de 1884.


Nem no Céu existe igualdade


Aquele que criou e governa todas as coisas, dispôs com a Sua providencial sabedoria que as coisas inferiores ajudadas pelas medianas e estas pelas superiores, alcançassem todas o seu fim. Por isso, assim como no Céu quis que os coros dos Anjos fossem distintos e subordinados uns aos outros, e na Igreja instituiu graus nas ordens e diversidade de ministérios, de tal forma que nem todos fossem apóstolos, nem todos doutores, nem todos pastores (I Cor. XII, 27); assim também estabeleceu que haveria na sociedade civil várias ordens diferentes em dignidade, em direitos e em poder, a fim de que a sociedade fosse, como a Igreja, um só corpo, compreendendo grande número de membros, uns mais nobres que os outros, mas todos mutuamente necessários e solícitos ao bem comum.

Papa Leão XIII in encíclica «Quod Apostolici muneris», 28 de Dezembro de 1878.

Da Autoridade e origem do Poder


O Sillon coloca a autoridade pública primordialmente no povo, do qual deriva em seguida aos governantes, de tal modo, entretanto, que continua a residir nele. Ora, Leão XIII condenou formalmente esta doutrina em sua Encíclica Diuturnum Illud (DP 12) sobre o Principado Político, onde diz: «Grande número de modernos, seguindo as pegadas daqueles que, no século passado, se deram o nome de filósofos, declaram que todo o poder vem do povo; que, em consequência, aqueles que exercem o poder na sociedade, não a exercem como sua própria autoridade, mas como uma autoridade a eles delegada pelo povo e sob a condição de poder ser revogada pela vontade do povo, de quem eles a têm. Inteiramente contrário é o pensamento dos católicos, que fazem derivar de Deus o direito de mandar, como de seu princípio natural e necessário». Sem dúvida, o Sillon faz descer de Deus esta autoridade, que coloca em primeiro lugar no povo, mas de tal forma que «sobe de baixo para ir ao alto, enquanto na organização da Igreja, o poder desce do alto para ir até ao baixo» (Marc Sangnier, discurso de Rouen, 1907). Mas, além de ser anormal que a delegação suba, pois é próprio à sua natureza descer, Leão XIII refutou de antemão esta tentativa de conciliação entre a doutrina católica e o erro do filosofismo. Pois prossegue: «É necessário observá-lo aqui: aqueles que presidem ao governo da coisa pública podem bem, em certos casos, ser eleitos pela vontade e o julgamento da multidão, sem repugnância, nem oposição, com a doutrina católica. Mas, se esta escolha designa o governante, não lhe confere a autoridade de governar, não lhe delega o poder, apenas designa a pessoa que dele será investido».

Papa São Pio X in carta apostólica «Notre Charge Apostolique», 15 de Agosto de 1910.


São José, Padroeiro da Santa Igreja


As razões que teve a Igreja, diz Leão XIII, para proclamar São José seu especial Patrono, e confiar tanto na valiosa protecção do grande Santo, não são outras senão as dos Títulos singulares que ele possuiu de Esposo de Maria e Pai adoptivo de Jesus Cristo (Quamquam pluries).
A José do Egipto, diz o Faraó, proclamando-o Vice-Rei: «Governarás a minha casa e ao império, da tua voz todo o meu povo te obedecerá» (Génesis, XLI, 40). «Ide a José e fazei o que vos disser».
O Rei dos Céus não deu menor poder ao novo José, Esposo de Maria.
Ite ad Ioseph é o que nos repete a Igreja, dando-nos como patrono São José.
Em 1869, setecentos e setenta e sete bispos, seis mil sacerdotes, por ocasião do Concílio Vaticano, pedem ao Santo Padre Pio IX, a aclamação solene e oficial do Patrocínio de São José sobre a Igreja Universal.
A 8 de Dezembro de 1870 a súplica é ouvida. O Pontífice da Imaculada Conceição e da Infalibilidade Pontifícia declara solenemente São José Patrono da Igreja Universal.

Pe. Ascânio Brandão in «Glória e poder de São José», 1945.

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Outrora, no dia de hoje, quarta-feira depois do Domingo de Pascoela, a Igreja inteira celebrava a festa do Patrocínio de São José. No entanto, esta importante solenidade foi suprimida do calendário litúrgico pelo Papa Pio XII, que a substituiu pela festa de São José Operário, a 1 de Maio de 1955.
Neste ano de 2020 cumprem-se cento e cinquenta anos sobre a solene proclamação do Papa Pio IX. Reavivemos, pois, a tão católica devoção do Patrocínio de São José.

São José, protector da Santa Igreja, rogai por nós!

8 de Março: São João de Deus


S. João de Deus nasceu em Portugal, em 1495. Depois de uma juventude tempestuosa, na idade de quarenta anos, um dia, ao escutar a palavra divina, sentiu-se de tal modo inflamado de caridade para com Deus, no próximo, que distribuiu aos pobres tudo o que possuía, consagrando a vida ao seu serviço. O amor de Deus confunde-se com o do próximo, diz o Evangelho, pois os homens trazem em si a imagem do Pai celeste, de quem são filhos, em virtude da sua união com Deus e com Jesus, pela graça [recebida no Baptismo]. Por sua abnegação e esmolas, obtidas para a erecção de dois vastos hospitais na cidade de Granada, enriqueceu a Igreja com uma nova família que tomou o nome de Irmãos Hospitaleiros de S. João de Deus, e que, à imitação de Cristo na sua vida de apostolado, se dedica ao mesmo tempo à cura dos corpos e das almas. Tendo-se declarado tremendo incêndio num hospital, o Santo atirou-se intrépido no meio das chamas, salvando todos os doentes, porque o fogo do amor divino, a abrasar-lhe o coração, era mais forte do que o fogo que ardia exteriormente. S. João, ao qual o seu grande amor divino fez acrescentar o nome de Deus, estava continuamente mergulhado na contemplação das coisas celestes. Atacado por grave moléstia, recebeu os últimos sacramentos, e, pondo-se de joelhos, morreu apertando contra o peito a imagem de Jesus crucificado, no ano de 1550. Leão XIII declarou-o Padroeiro dos hospitaleiros e dos enfermos, e ordenou que se colocasse o seu nome nas Ladainhas dos agonizantes. A exemplo de S. João de Deus, abrasem-se os nossos corações com o fogo da caridade divina, que nos purificará dos vícios, e recorramos à sua protecção a fim de estarmos sempre providos com os remédios que conduzem à eternidade.

Fonte: «Missal Quotidiano e Vesperal», 1940.

Democracia Cristã


A Democracia Cristã acredita no sufrágio universal que Pio IX chamava de «mentira universal», acredita que os incapazes de governar têm competência para escolher os que hão-de governar; a Democracia Cristã acredita na separação dos poderes que coloca o Estado numa situação absurda tirando-lhe toda e qualquer unidade de acção, a ele que deve ser o centro dirigente da vida nacional; a Democracia Cristã é republicana, desejando, pois, que o poder dependa do arbítrio da multidão ignara; a Democracia Cristã defende a existência dos partidos políticos, factores de dissolução nacional, que transformam os países em autênticos campos de guerra civil, guerra civil de que só vêm a aproveitar os arrivistas, os videirinhos de toda a espécie.
A Democracia Cristã tenta encarnar no nosso século os princípios da Revolução satânica que, pela voz de alguns dos seus corifeus, já ousa afirmar ser de raiz católica, embora desviada e transformada, tenta encarnar os princípios da destruição e da morte.
Partido dos tímidos e dos resignados, ao serviço de uma ideologia mortífera, envolvida em ténues véus de conservantismo e de moderação, é bem um resíduo vetusto do estúpido século destinado a desaparecer, quando renascerem «para ventura dos povos e tranquilidade do mundo» os princípios eternos da vitoriosa Contra-Revolução.

António José de Brito in «A Nação», Nº 24, 3 de Agosto de 1946.

Nota de A.J.B. – Sempre que empregamos a expressão Democracia Cristã, não queremos de forma alguma referir-nos ao sentido que Leão XIII, por exemplo, lhe atribuía. Com efeito, o Pontífice ensinava que «seria injusto que o termo de Democracia Cristã fosse desvirtuado para um sentido político... só se deve empregá-lo tirando-lhe todo o sentido político e não lhe ligando outra significação a não ser uma acção beneficente e cristã para com o povo» (Encíclica Graves de communi). Ora nós, evidentemente, queremos apenas fazer menção aos partidos políticos que tomam tal designação.

Falseando a origem do Poder

Santo Ambrósio e o Imperador Teodósio

Não menos que a família, sofre a ordem social e política, sobretudo pelas novas ideias que alteram o conceito do justo poder soberano, falseando-lhe a origem. Com efeito, desde que a autoridade soberana derive formalmente do consenso do povo e não de Deus, princípio supremo e eterno de todo o poder, perde o respeito dos que lhe são subordinados, privando-se de seu augusto carácter, e degenera em uma soberania artificial, baseada em fundamentos frágeis e movediços como a vontade do homem. E não se vê, porventura, o que daí resulta na própria legislação pública? Muito frequentemente representa ela, bem mais que o direito, a vontade predominante de um partido político. Deste modo animam-se os apetites licenciosos da multidão, larga-se o freio às paixões populares, embora perturbe a operosa tranquilidade civil, salvo em casos extremos, quando, então, se recorre às repressões violentas e sanguinárias.

Papa Leão XIII in encíclica «Parvenu à la vingt-cinquième année», 19 de Março de 1902.


Da desigualdade natural


O primeiro princípio a pôr em evidência é que o homem deve aceitar com paciência a sua condição: é impossível que na sociedade civil todos sejam elevados ao mesmo nível. É, sem dúvida, isto o que desejam os Socialistas; mas contra a natureza todos os esforços são vãos. Foi ela, realmente, que estabeleceu entre os homens diferenças tão multíplices como profundas; diferenças de inteligência, de talento, de habilidade, de saúde, de força; diferenças necessárias, de onde nasce espontaneamente a desigualdade das condições. Esta desigualdade, por outro lado, reverte em proveito de todos, tanto da sociedade como dos indivíduos; porque a vida social requer um organismo muito variado e funções muito diversas, e o que leva precisamente os homens a partilharem estas funções é, principalmente, a diferença das suas respectivas condições.

Papa Leão XIII in encíclica «Rerum Novarum», 1891.

A heresia do Americanismo


Chamou-se Americanismo ao movimento religioso de inspiração naturalista e liberal que surgiu em algumas dioceses dos E.U.A., em fins do séc. XIX. Este movimento, que tinha em vista facilitar as conversões à Fé, mediante uma conciliação entre a tradicional doutrina católica e as novas aspirações da religiosidade moderna, excitou várias reacções e polémicas, sobretudo na França, tendo sido finalmente condenado por Leão XIII, com a sua carta Testem benevolentiae, de 22.01.1899. As boas intenções dos promotores das novas doutrinas foram claramente demonstradas pela sua pronta e incondicional submissão ao Papa.
Principais pontos de doutrinas condenados:
1. A Igreja deve adaptar-se às exigências modernas, mitigando as suas fórmulas tanto disciplinares como dogmáticas.
2. Deve favorecer-se o espírito de liberdade individual, em assuntos tanto de moral como de fé.
3. As verdades naturais devem preferir-se às sobrenaturais; as virtudes activas, às passivas. A direcção espiritual e os votos religiosos, inconvenientes para o espírito moderno, não são requeridos para a perfeição cristã.

Fonte: «Enciclopédia Luso-Brasileira de Cultura», 1963.

Sã Filosofia


Para combater o subjectivismo e o racionalismo, que são a base dos erros liberais, não farei alusão às filosofias modernas infectadas precisamente de subjectivismo e racionalismo. Não é nem o sujeito, nem os seus conhecimentos e os seus anseios que a filosofia de sempre, e em particular a metafísica, toma por objecto, é o ser mesmo das coisas, é aquilo que é. Com efeito, é o ser com as suas leis e princípios, o que nosso conhecimento mais espontâneo descobre. E no seu ápice a sabedoria natural (que é essa filosofia) chega pela teodiceia ou teologia natural ao Ser por excelência, ao Ser subsistente por si mesmo. É este Ser primeiro que o senso comum, apoiado, sustentado e elevado pelas verdades da fé, sugere que seja colocado no topo do real, conforme a Sua definição revelada: Ego sum qui sum (Ex 3, 14): Eu sou aquele que sou. Bem sabeis que quando Moisés perguntou o Seu nome, Deus respondeu: Eu sou o que sou, o que significa: Eu sou Aquele que é por si mesmo, possuo o Ser por mim mesmo. É o ens a se: o ser por si mesmo, em oposição a todos os outros seres que são ens ab alio: ser por outro ser, pelo dom que Deus lhes fez da existência! Este é um princípio tão admirável, que se pode meditar sobre ele durante horas. Ter o ser por si, é viver na eternidade, é ser eterno. Aquele que tem o ser por si mesmo sempre teve que tê-lo, o ser nunca poderia havê-lo abandonado. É sempre, foi sempre, será sempre. Pelo contrário, aquele que é ens ab alio, ser por outro ser, recebeu de outro, portanto começou a ser em algum momento, portanto começou!

Como esta consideração nos deve manter humildes! Compenetrarmo-nos do nada que somos diante de Deus! "Eu sou aquele que é, e tu és aquele que não é", dizia Nosso Senhor a uma santa alma. Como é verdadeiro! Quanto mais o homem absorver este princípio da mais elementar filosofia, melhor saberá o seu verdadeiro lugar diante de Deus.

Somente o facto de dizer: eu sou ab alio, Deus é ens a se; eu comecei a ser, Deus é sempre. Que contraste admirável! Que abismo! É por acaso este pequeno ab alio, que recebe o seu ser de Deus, que teria o poder de limitar a Glória de Deus? Teria o direito de dizer a Deus: tens direito a isto, mas mais nada? "Reina nos corações, nas sacristias, nas capelas, sim; mas na rua e na cidade não!" Que insolência! Igualmente seria este ab alio quem teria o poder de reformar os planos de Deus, de fazer com que as coisas sejam de outra maneira, diferentes de como Deus as fez? E as leis que Deus, em Sua sabedoria e omnipotência criou para todos os seres e especialmente para o homem e para a sociedade, teria o desprezível ab alio o poder de rechaçá-las a seu capricho, dizendo: "Eu sou livre!" Que pretensão! Que absurda esta rebelião do Liberalismo! Vede como é importante possuir uma sã filosofia e ter assim um conhecimento profundo da ordem natural, individual, social e política. Para isto o ensinamento de Santo Tomás de Aquino é insubstituível. Leão XIII o citou na sua encíclica Aeterni Patris de 4 de Agosto de 1879:
«Some-se a isto que o Doutor Angélico procurou as conclusões filosóficas na razão e princípio das coisas, princípios estes que se estendem amplamente e encerram em seu interior as sementes de inúmeras verdades que dariam abundantes frutos com os mestres posteriores. Tendo empregado este método de filosofia, conseguiu vencer os erros dos tempos passados e fornecer armas invencíveis para refutar os erros que sempre haviam de se renovar nos séculos futuros.»

Mons. Marcel Lefebvre in «Do Liberalismo à Apostasia: A Tragédia Conciliar», 1987.

Os falsos princípios do Direito moderno


É uma consequência do liberalismo exprimida por Leão XIII nestes termos: "É incalculável o número de almas que se perdem por causa das condições criadas aos povos pelos princípios do direito moderno". Examinai, por exemplo, o mal produzido pela liberdade de imprensa. Quantas almas corrompidas pela leitura dos maus jornais, as produções imorais e ímpias que abundam em todos os países. Quantas almas estão perdidas para sempre por causa desta protecção conferida de direito a todas estas edições literárias, científicas e outras. Quantas almas estão condenadas neste momento, que não o seriam, se esta maldita liberdade de imprensa não existisse. O mesmo acontece com a liberdade de ensino. O que permite aos fautores da desordem de ensinar as suas doutrinas e corromper os espíritos, senão esta liberdade absoluta que lhes foi benevolamente outorgada?

Pe. Philippe C.SS.R. in «Catecismo dos Direitos Divinos na Ordem Social», 1926.

Liberdade


"Porque o homem livre é aquele a quem tudo acontece como ele deseja", diz-me um louco, "quero também que tudo me aconteça como me agrada". Ah, meu amigo! A loucura e a liberdade não se encontram nunca juntas. A liberdade é uma coisa não somente muito bela, mas muito racional, e não há nada mais absurdo e menos razoável que desejar temerariamente, e querer que as coisas aconteçam como nós as havíamos pensado. Quando tenho de escrever o nome de Díon, é preciso que o escreva não como quero, mas como é, sem lhe mudar uma única letra. Passa-se o mesmo em todas as artes e em todas as ciências! E tu... queres que na liberdade reine o capricho e a fantasia! Não, meu amigo: a liberdade consiste em querer que as coisas aconteçam não como te agrada, mas como elas na verdade são.

Epicteto, filósofo grego (55-135 d.C.)