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A mortificação cristã


«Deus criou o homem bem ordenado», diz a Escritura. O pecado, porém, introduziu a desordem no mundo, e despojou o homem da natural rectidão e justiça original. Desordem na inteligência, que ficou obscurecida e perturbada na sua inclinação à verdade; desordem na vontade, que facilmente deixa fascinar-se do que é mau, e se sente entorpecida para o que é bom; desordem nos sentidos, que amiúde se rebelam contra a sã razão; desordem, finalmente, em todo o nosso ser e durante toda a nossa vida, a qual, no dizer do Santo Job, é uma contínua luta.
Daqui resulta a necessidade da mortificação: o homem tem de reagir contra os desmandos dos sentidos, contra a rebeldia da vontade, contra o entorpecimento da inteligência, contra tudo que possa estorvá-lo de seguir pelo recto caminho. Tem, numa palavra, de fazer violência a si mesmo, que só assim poderá alcançar o Reino do Céu, que é a só coisa necessária a que deve aspirar.
A prática de todos os cristãos, em todos os séculos, o exemplo de todos os Santos e do mais Santo de todos os homens – do Filho de Deus – a isso nos persuadem também. Não haja, pois, quem seja remisso em associar-se ao espírito da Santa Igreja, nossa mãe, que, se em todos os tempos nos exorta à penitência e mortificação, neste Santo tempo da Quaresma no-la impõe como uma obrigação grave, a que não poderemos esquivar-nos.

Fonte: «Voz de S. António: Revista Mensal Ilustrada», 6º Ano, Nº 15, Março de 1900.

Começa a Quaresma


A observância da Quaresma é o laço de nossa Milícia; por ela é que nos distinguimos dos inimigos da Cruz de Jesus Cristo; por ela é que desviamos os flagelos da cólera divina, somos protegidos com o socorro celeste durante o dia, e nos fortificamos contra os príncipes das trevas. O relaxar dessa observância traz detrimento à glória de Deus, desonra da religião Católica, perigo para as almas cristãs, e, não há dúvida que essa negligência se torne fonte de desgraças para os povos, desastres nos negócios públicos e infortúnios para os particulares.

Papa Bento XIV, encíclica de 23 de Maio de 1741.

Meditação sobre o Inferno


Todo o Inferno está nestas palavras de Jesus Cristo: «Afastai-vos de Mim, malditos, para o fogo eterno».

1º O Inferno é a separação, a perda de Deus. «Afasta-te de Mim, pecador». É assim que Deus repele para longe de Si a alma pecadora. É a perda de Deus, a perda da suma beleza, da suma bondade, do sumo bem. Enquanto a nossa alma estiver presa no cárcere da carne, não poderá nunca compreender a imensidade desta desgraça que, na frase dos santos, constitui o inferno dos infernos.

2º O Inferno é a maldição de Deus. «Afasta-te, pecador maldito». A maldição eficaz de um Deus todo-poderoso. Se é terrível a maldição de um pai, de uma mãe, que será a maldição de Deus? Pecador maldito, maldito no corpo, maldito na alma. Olhos, língua, mãos, pés, inteligência, coração, vontade, tudo é maldito, porque tudo serviu de instrumento ao pecado.

3º O Inferno é o fogo. «Afasta-te de Mim, pecador maldito, para o fogo». Quando os profetas falam do Inferno, logo se lhes apresenta à imaginação o mar, o mar sem limites e sem fundo, e os condenados, nadando e mergulhando neste abismo de fogo. O fogo os envolve, penetra-os, circula em suas veias, insinua-se até à medula dos ossos.

4º O Inferno é a eternidade. «Afasta-te, pecador maldito, para o fogo eterno». A eternidade... quem pode compreendê-la! É um tempo que não acaba. Mil anos, milhões de anos, mil milhões de anos. Contai as gotas de água do oceano, os grãos de areia das praias, as folhas das árvores... a eternidade tem mais anos, mais séculos. Sempre! Nunca! Sempre queimar, sempre sofrer! Nunca o menor alívio, a menor esperança!

Se os condenados que estão no Inferno pudessem voltar à Terra, que fariam? Procurariam outra vez a ocasião do pecado, as danças, os espectáculos, as tabernas, as casas de perdição? Não! Correriam para a igreja, ao pé do altar do Santíssimo Sacramento, de Nossa Senhora, ao pé do confessor principalmente, para alcançar o perdão dos seus pecados. O que os condenados não podem mais, vós o podeis. Não estais no Inferno, mas talvez estejais no caminho do Inferno. Quanto antes, voltai para trás; talvez amanhã seja tarde.

Pe. Guilherme Vaessen in «O Pequeno Missionário», 1953.

Começa a Quaresma


Tende piedade de mim, ó Deus, pela Vossa misericórdia! Pela Vossa imensa piedade, apagai a minha iniquidade!
Lavai-me todo da minha culpa e limpai-me do meu pecado.
Eu reconheço a minha iniquidade e tenho sempre à vista o meu pecado!
Foi só contra Vós que eu pequei e fiz o mal que está à Vossa vista!
Por isso sois justo na Vossa sentença e recto no Vosso juízo.
Aqui estou eu nascido na culpa, e a quem minha mãe concebeu no pecado!
Aí estais Vós, que Vos agradais de um coração sincero, e que no meu íntimo me ensinais a sabedoria!
Aspergi-me com o hissope e ficarei limpo; lavai-me e ficarei mais branco do que a neve!
Fazei-me ouvir uma palavra de alegria e gozo, e que exultem estes ossos por Vós triturados!
Desviai o Vosso olhar dos meus pecados e apagai todas as minhas culpas.
Criai em mim, ó Deus, um coração puro e fazei renascer em mim um espírito decidido.
Não me queirais repelir da Vossa face e não me retireis o Vosso santo Espírito.
Dai-me a alegria de por Vós ser salvo e consolidai-me com um espírito generoso!
Hei-de ensinar aos maus os Vossos caminhos, e os pecadores hão-de voltar-se para Vós!
Deus, ó Deus, meu Salvador, livrai-me dos castigos sanguinários e que a minha língua exulte com a Vossa justiça!
Vós, Senhor, descerrareis os meus lábios e a minha boca publicará os Vossos louvores!
Porque não é só no sacrifício que Vós Vos comprazeis; e o holocausto não o aceitaríeis, se eu Vo-lo oferecesse.
O meu sacrifício, ó Deus, é um espírito contrito; e Vós não desprezais, ó Deus, o coração contrito e humilhado!
Pela Vossa bondade, Senhor, sede propício para com Sião, reconstruindo os muros de Jerusalém.
Então aceitareis os sacrifícios legais, as oblações e os holocaustos; então serão oferecidos novilhos sobre o Vosso altar!

Salmo 50