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O erro do Historicismo


Existe igualmente um falso historicismo, que se atém somente aos acontecimentos da vida humana, e, tanto no campo da filosofia como no dos dogmas cristãos, destrói os fundamentos de toda a verdade e lei absoluta.

Papa Pio XII in encíclica «Humani Generis», 12 de Agosto de 1950.

David Ricardo e Karl Marx


É importante notar que foi um banqueiro judeu inglês, o célebre economista David Ricardo, filho de um banqueiro judeu holandês que emigrou para Londres no final do século XVIII, o inventor e o teórico de uma concepção puramente económica do mundo, que hoje o domina quase por completo. O mercantilismo político contemporâneo, os negócios acima de tudo, os negócios considerados como fim supremo dos esforços humanos, provêm directamente de Ricardo. Além disso, o fundador do socialismo científico, o judeu alemão Karl Marx, colocou-se no mesmo terreno de Ricardo, para combatê-lo, aproveitando grande número das suas concepções, dos seus argumentos, das suas teorias e das suas conclusões.
A ligação misteriosa, a afinidade secreta que une, apesar de tudo, os mercantilistas e os negociantes puritanos, aos bolchevistas, provém, em grande parte, do facto de terem em comum, embora tirando diferentes consequências e conclusões, a mesma concepção e a mesma visão do mundo. As quais são produtos essencialmente semitas, saídos dos cérebros judeus de David Ricardo e Karl Marx.
A concepção místico-judaica-economista da humanidade é comum ao capitalismo puritano e ao socialismo dito científico, de onde saiu o bolchevismo.

Georges Batault in «Le problème juif», 1921.

No reino de Mamom


A proclamação solene dos direitos do «Terceiro Estado» em França constitui a etapa decisiva a que se seguem as variedades da «revolução burguesa», ou seja, exactamente da terceira casta, a que servem de instrumento as ideologias liberais e democráticas. Paralelamente é característica desta Era a teoria do contrato social: como vínculo social agora já nem sequer se encontra uma fides de tipo guerreiro, ou seja, relações de fidelidade e de honra. O vínculo social reveste-se de um carácter utilitário e económico: é um acordo assente na conveniência e no interesse material – o que só um mercador pode conceber. O ouro serve de intermediário e quem dele se apossar e souber multiplicá-lo (capitalismo, finanças, trusts industriais) por detrás da fachada democrática controla virtualmente também o poder político e os instrumentos que servem para formar a opinião pública. A aristocracia cede o lugar à plutocracia; o guerreiro, ao banqueiro e ao industrial. A economia triunfa em toda a linha. O tráfico de dinheiro e a agiotagem, outrora confinada nos ghettos, invadem toda a nova civilização. Segundo a expressão de Sombart, na terra prometida do puritanismo protestante, com o americanismo e o capitalismo, não vive mais que «espírito judaico destilado». E é natural que, dadas estas premissas de parentesco, os representantes modernos do judaísmo secularizado tenham quase visto abrir-se à sua frente, nesta fase, as vias da conquista do mundo. São características estas expressões de Karl Marx: «Qual é o princípio mundano do judaísmo? A exigência prática, a vantagem pessoal. Qual é o seu deus terrestre? O dinheiro. O judeu emancipou-se de uma maneira judaica, não só por se ter apropriado da potência do dinheiro, mas também porque, graças a ele, o dinheiro se tornou uma potência mundial e o espírito prático judaico se tornou o espírito prático dos povos cristãos. Os judeus emanciparam-se na medida em que os cristãos se tornaram judeus. O deus dos judeus mundanizou-se e tornou-se o deus da terra. O câmbio é o verdadeiro deus dos judeus». Na realidade a codificação religiosa do tráfico do ouro como empréstimo com juros, a que anteriormente sobretudo o judeu se tinha consagrado, faltando-lhe quase qualquer outro meio para se poder afirmar, pode ser considerada a própria base da aceitação e do desenvolvimento aberrante, no mundo moderno, de tudo o que é banca, finança, economia pura, fenómeno comparável ao avanço de um verdadeiro cancro. É este o momento fundamental da «Era dos Mercadores».

Julius Evola in «Rivolta Contro il Mondo Moderno», 1934.

Totalitarismo democrático


Talmon filia o nascimento desta concepção na revolução intelectual operada na segunda metade do século XVIII. Nessa época, um sector da filosofia ocidental, conclui que «as condições resultantes da fé, tempo e costumes, nas quais tinham vivido até então, eles e os seus antepassados, eram anti-naturais e tinham que ser substituídas por normas uniformes, deliberadamente planeadas, naturais e racionais».
No essencial, a democracia totalitária assenta na ditadura como método de imposição da utopia. A sociedade perfeita, o reino da vitória, é o fim supremo da acção humana e política. Para a instaurar, todos os meios são bons, todas as resistências devem ser esmagadas. Os Niveladores, os Jacobinos, os Bolcheviques, instauraram, ou tentaram instaurar, modelos de totalitarismo democrático: para que venha o Paraíso, a República dos Iguais, ou a Sociedade sem Classes, matam-se refractários, cortam-se cabeças, criam-se campos de reeducação e apetrecham-se hospitais psiquiátricos. A sociedade política não é um quadro de regras de jogo e compromissos, mas um instrumento, um degrau, um ensaio no caminho para a sociedade final, perfeita e acabada. Começa-se em Rousseau e acaba-se no Arquipélago Gulag, com uma lógica intrinsecamente perfeita.

António Marques Bessa e Jaime Nogueira Pinto in «Introdução à Política», 1977.

O erro do materialismo histórico


A teoria materialista da História, segundo a qual toda a política e ética são expressões da economia, é de facto uma falácia muito simples. Ela consiste, simplesmente, em confundir as necessárias condições de vida com as normais preocupações da vida, que são coisas muito diferentes. É como dizer que, porque o homem pode andar somente sobre duas pernas, então, ele só pode caminhar se for para comprar meias e sapatos. O homem não pode viver sem os amparos da comida e da bebida, que os suporta sobre duas pernas; mas sugerir que esses têm sido os motivos para todos os seus movimentos na História, é como dizer que o objectivo de todas as suas marchas militares, ou peregrinações religiosas, deve ter sido a perna dourada da Sra. Kilmansegg ou a perfeita e ideal perna do Sr. Willoughby Patterne. Mas são esses movimentos que constituem a História da espécie humana e sem eles não haveria praticamente História. Vacas podem ser puramente económicas, no sentido de que não podemos ver que elas façam muito mais do que pastar e procurar o melhor lugar para isso; e essa é a razão pela qual a história das vacas em doze volumes não seria uma leitura estimulante. Ovelhas e cabras podem ser economistas em suas acções externas, pelo menos; mas essa é a razão das ovelhas dificilmente serem heróis de guerras épicas e impérios, importantes suficientes para merecerem uma narração detalhada; e mesmo o mais activo quadrúpede não inspirou um livro para crianças intitulado Os Feitos Maravilhosos das Cabras Galantes. Mas, em relação a serem económicos os movimentos que fazem a História do homem, podemos dizer que a História somente começa quando os motivos das ovelhas e das cabras deixam a cena. Será difícil afirmar que os Cruzados saíram de suas casas em direcção a uma horrível selvajaria, da mesma forma que as vacas tendem a ir das selvas para pastagens mais confortáveis. É difícil afirmar que os exploradores do Árctico foram em direcção ao Norte imbuídos dos mesmos motivos materiais que fizeram as andorinhas ir para o Sul. E se deixarmos de fora da História humana, coisas tais como todas as guerras religiosas e todas a aventuras exploratórias audaciosas, ela não só deixará de ser humana, mas deixará de ser História. O esboço da História é feito dessas curvas e ângulos decisivos, determinados pela vontade do homem. A História económica não seria sequer História.

G. K. Chesterton in «The Everlasting Man», 1925.

Salazar e a sociologia do comunismo


Em muitos países o comunismo entra pela via intelectual, é por snobismo sustentado pelos detentores da fortuna, tem pouco que ver com a história ou a pobreza. Apresenta-se e difunde-se como uma religião, ou filosofia integral do homem e da vida, e conquista adeptos independentemente dos meios de viver.

António de Oliveira Salazar in entrevista ao jornal mexicano «Excelsior», 9 de Abril de 1960.

Do humanitarismo ou filantropismo


Se o objectivo principal do filantropo, a sua justificação para viver, é ajudar os outros, então o seu bem último exige que os outros estejam sempre em falta. A sua felicidade é o inverso da miséria alheia. Se ele deseja ajudar a "humanidade", toda a humanidade deve estar em necessidade. O humanitário deseja ser o motor principal na vida dos outros. Ele não pode admitir, nem a ordem divina, nem a ordem natural, pela qual os homens têm o poder de se ajudar a si mesmos. O humanitário coloca-se no lugar de Deus.

Isabel Paterson in «The God of the Machine», 1943.


Cartas de um diabo ao seu aprendiz


É muito recomendável o inapreciável trabalho de C. S. Lewis, professor de filosofia da Universidade de Oxford, Cartas de Broca, que tirou vinte e cinco edições em cinco anos. É uma série hipotética de cartas entre um tio velho, diabo, no Inferno, cujo nome é Broca, e um sobrinho, diabo, na Terra, que dá pelo nome de Réptil. Este esforça-se por ganhar a alma de um estudante seu colega e está em constante comunicação com o seu tio Broca sobre a melhor maneira de arruinar o rapaz. Por vezes Broca fala do «Inimigo» que é Deus. O contexto do livro é diabólico, e portanto o inverso da verdade; mas está apresentado de tal maneira, que se principia logo a ver a falácia do método demoníaco. Ao leitor, em vez de lhe ensinar o que é bom, ensinam-se-lhe os caminhos que conduzem firmemente à ruína. Entre outras sugestões encontram-se estas: Broca diz ao Réptil que deve deixar de argumentar com o colega sobre se as coisas são verdadeiras ou falsas, o que, di-lo ele, é o caminho do «Inimigo». Há poucos séculos, afirma ele, as pessoas estavam mais interessadas em saber se uma coisa se podia provar ou não. E diz-lhe mais: «Não percas tempo a fazer-lhe pensar – ao jovem – que o materialismo é verdadeiro. Mas diz-lhe antes que é a filosofia do futuro, ou que é progressivo, e que deve evitar tornar-se um reaccionário ou um medievalista». Broca também recomenda que o homem crédulo, sentimental, seja alimentado com poetas menores e com novelistas de quinto plano, até acreditar que o amor é irresistível, que toda a repressão é um erro, e que a bênção nupcial é uma ofensa.

Mons. Fulton Sheen in «Aprendei a Amar», 1957.

Duas faces da mesma moeda


Se na teoria progressista a fase marxista surge como um estádio superior à fase «burguesa», uma vez que tenta dar nova lógica e reformular problemas concretos que não encontram solução nos quadros mentais e materiais do capitalismo, o certo é que, na prática, a ideologia marxista não passa de uma tentativa de complementar a ideologia demoliberal, divergindo apenas nos meios que consagra para a obtenção dos fins últimos. Na realidade, o marxismo defende os mesmos objectivos que o liberalismo político: a felicidade material do indivíduo na terra, equitativamente distribuída por todos os homens até à igualdade universal. É precisamente na instrumentação da igualdade real dos homens que as doutrinas racionalistas divergem.

António Marques Bessa in «Ensaio sobre o fim da nossa Idade», 1978.

A escravatura dos tempos modernos


O que se deve antes salientar é que se houve alguma vez uma civilização de escravos em grande escala, foi exactamente a civilização moderna. Nenhuma civilização tradicional viu alguma vez massas tão numerosas serem condenadas a um trabalho obscuro, sem alma, automatizado, a uma escravatura que nem sequer tem como contrapartida a elevada estatura e a realidade tangível das figuras de senhores e de dominadores, mas que é imposta de maneira aparentemente inofensiva pela tirania do factor económico e pelas estruturas absurdas de uma sociedade mais ou menos colectivizada. E como a visão moderna da vida, no seu materialismo, retirou ao indivíduo todas as possibilidades de conferir ao seu próprio destino um elemento de transfiguração, de ver nele um sinal e um símbolo, assim a escravidão de hoje em dia é a mais tenebrosa e a mais desesperada de todas as que foram alguma vez conhecidas.

Julius Evola in «Rivolta Contro il Mondo Moderno», 1934.

O Credo do Incrédulo


Creio no Nada todo-produtor, que criou o Céu e a Terra.
E no Homo Sapiens, seu único Filho, Rei e Senhor,
Que foi concebido por Evolução do Procarionte e do Macaco.
Nasceu da Santa Matéria.
Lutou sobre a escuridão da Idade Média.
Foi inquirido, morto queimado.
Caiu na Miséria.
Inventou a Ciência.
Chegou à era da Democracia e da Inteligência,
E daí irá instalar no mundo o Paraíso Terrestre.
Creio no livre-pensamento,
Na Civilização da Máquina,
Na Inexistência do pecado,
No Progresso inevitável,
Na reabilitação da Carne,
E na Vida Confortável.
Ámen.

Pe. Leonardo Castellani

A perda do sentido sobrenatural


Relato na biografia do meu marido, "The Soul of a Lion", que poucos anos após a sua conversão ao Catolicismo, nos Anos 20, ele começou a ensinar na Universidade de Munique.
Munique era uma cidade católica. A maioria dos católicos da época ia à Missa, mas ele sempre dizia que foi ali que começou a preocupar-se com a perda do sentido do sobrenatural entre os católicos. Um incidente, em especial, ofereceu-lhe a prova suficiente, e isso entristecia-o imensamente.
Quando passava por uma porta, o meu marido deixava sempre entrar primeiro os seus alunos, que eram sacerdotes. Um dia, um professor, colega dele, expressou a sua admiração e desagrado: Por que deixa os seus alunos entrar antes de si? Porque são sacerdotes, respondeu o meu marido. Mas eles não possuem Doutoramento. O meu marido ficou arrasado. Valorizar um Doutoramento é uma reacção natural; mas estar ciente da sublimidade do sacerdócio é uma reacção sobrenatural. A atitude daquele professor provava que a sua reacção para o sobrenatural havia erodido.
Isso foi muito antes do Vaticano II. Mas até ao Concílio, a beleza e a sacralidade da Liturgia Tridentina mascarava esse fenómeno.

A Páscoa na União Soviética

Propaganda ateia na URSS.

Na noite de Sábado para Domingo de Páscoa, antes do início da missa, os templos cristãos em Moscovo eram cercados por polícias e drujiniki (uma espécie de milícias populares) que identificavam as pessoas antes de as deixarem entrar. No caso de estudantes da Universidade de Moscovo (Lomonossov), onde eu estudei, a ida a uma dessas cerimónias poderia significar a expulsão da escola superior... Além disso, a fim de afastar os cidadãos soviéticos das igrejas, principalmente jovens, a televisão transmitia programas musicais em que participavam cantores nacionais e estrangeiros que só muito raramente podiam ser vistos nos ecrãs.

José Milhazes in «A Mensagem de Fátima na Rússia», 2016.


Os dogmáticos modernos


O mundo moderno encontra-se repleto de homens que defendem dogmas tão avidamente que nem se apercebem que são dogmas.

G. K. Chesterton in «Hereges», 1905.

O ideal humano da superclasse mundial


Para o sistema dominante, o homem é concebido como uma matéria-prima (dito "recurso humano"). Ele deve, antes de tudo, ser permutável para as necessidades da oligarquia mercantil. Deve portanto ter quatro características negativas:

– Não ter raízes (nem raça, nem nação, nem religião);
– Não ter um ideal: deve ser um consumidor e um produtor materialista e relativista, disposto a engolir todos os produtos lançados no mercado (incluindo os produtos bancários permitindo endividá-lo e, portanto, submetê-lo melhor);
– Não ter religião para além da do seu próprio ego, para ser mais facilmente isolado e, portanto, manipulável;
– Não ter personalidade a fim de se fundir na massa (deve por isso ser educado de forma puramente técnica e utilitária, sem cultura que lhe permita situar-se como homem livre do sistema dominante).

Jean-Yves Le Gallou, comunicado «Les convergences paradoxales de l'extrême gauche et de la superclasse mondiale», 18 de Outubro de 2009.

Capitalismo e Comunismo


Tanto na vida individual, como na colectiva, o factor económico é hoje o mais importante, real e decisivo. Uma era económica é fundamentalmente anárquica e anti-hierárquica, representa uma subversão da ordem natural. Este carácter subversivo está presente tanto no marxismo como no seu aparente antagonista: o capitalismo moderno. O maior absurdo é aqueles que hoje dizem representar uma direita política permanecerem no círculo escuro e nebuloso desenhado pelo demoníaco poder da economia – um círculo habitado tanto pelo marxismo como pelo capitalismo, juntamente com uma série de fases intermédias. Hoje, aqueles que se alinham contra as forças da esquerda deveriam insistir nisto. Não há nada mais evidente do que o facto de o capitalismo ser tão subversivo quanto o marxismo. A visão materialista da vida, que é a base dos dois sistemas, é idêntica.

Julius Evola in «Gli Uomini e le Rovine», 1953.

Nem só de riqueza material vivem as Nações


A prosperidade material cegou os homens: eles só viam as estradas, os caminhos-de-ferro, as empresas, as fábricas. Deslumbrados pelo desenvolvimento material do País, eles não reparavam em que a Disciplina ia enfraquecendo, em que a Autoridade se ia desprestigiando, em que a Religião se ia entibiando, em que o respeito ia desaparecendo. Eles só viam portos, caminhos-de-ferro, estradas, fábricas, e não reparavam, na falência progressiva do nosso Património moral e cultural. Eles esqueciam que nem só de pão vive o homem, que nem só de riqueza material que vivem as Nações. Essa concepção materialista que já tenho ouvido muitas vezes na boca dos defensores do Liberalismo é um dos piores sintomas que a deficiência intelectual e a desorientação cultural nos podem oferecer.
Um regime político não se avalia só pelo bem-estar material que proporciona ou facilita ou permite a um Povo – porque nem os indivíduos nem os Povos vieram a este mundo, exclusivamente para os bens materiais.

Alfredo Pimenta in «Nas Vésperas do Estado Novo», 1937.

A doença análoga de Capitalismo e Comunismo


Pusemos demasiadas esperanças nas transformações político-sociais e notamos que nos tiraram o que tínhamos de mais precioso: a nossa vida interior. A Leste, é a feira do Partido que a calca aos pés, a Oeste, a feira do Comércio: e o que mais apavora nem é o facto do mundo ter estilhaçado, é o facto dos principais pedaços estarem atingidos por uma doença análoga.

Aleksandr Solzhenitsyn in «O Declínio da Coragem», 1978.

Natal não é quando o Homem quiser

Tolos

Nestes dias, que são os nossos, é muito comum, entre os círculos sociais que frequentamos, escutar a expressão: «Natal é sempre que o Homem quiser». E os Homens da nossa sociedade quiseram fazer um Natal à sua medida – um Natal puramente antropológico, sem qualquer rasgo de transcendência, porque isso poderia inviabilizar o "querer" dos Homens. Quiseram tanto um Natal à sua medida, que o Natal ficou sem medida alguma, sem altura nem profundidade. Deixou de ser Natal, para ser um tempo de maior dedicação à família, pelo menos o dia 25 de Dezembro, que quase ninguém prescinde de passar junto dos seus. Deixou de ser Natal para ser a época das iguarias tradicionais, e todos reivindicamos poder ter nas nossas mesas os sabores que ainda nos recordem aqueles tempos idos de quando ainda era Natal. Deixou de ser Natal para ser um tempo comercial, e nesta altura até surgem os mais interessantes dados estatísticos, que tentam, por exemplo, interpretar a preferência dos portugueses em efectuar os pagamentos através do multibanco. Outros há que tentam comprovar nestes tempos de maior agitação económica a famosa máxima «os portugueses deixam tudo para o último dia». Deixou de ser Natal para ser época de férias, e não apenas escolares, porque há muitos que aproveitam uns merecidos dias de repouso nas estâncias de neve. O Homem quis tanto um Natal à sua medida que despojou o Natal de significado, de sentido e lamentavelmente de transcendência.

25º aniversário da queda do Muro de Berlim


O quadro acima reproduzido chama-se Reunificação e é do pintor alemão Herbert Smagon, conhecido pelas suas obras bastante polémicas. Neste caso, o pintor quis ilustrar as duas Alemanhas separadas pelo Muro de Berlim, que representavam simultaneamente os dois blocos que governavam o mundo de então: o capitalista e o comunista. Do lado capitalista, vemos representado o individualismo, o consumismo e a luxúria dos prazeres sensuais. Do lado comunista, vemos o colectivismo uniforme, cinzento, frio e desprovido de vida. Em ambos os lados, vemos o materialismo, a ausência da dimensão espiritual. Como diria António Marques Bessa no seu Ensaio sobre o fim da nossa Idade: "tanto a Este como a Oeste o que domina é o reino imundo da quantidade, das ideias reflexas, do homem vegetativo" e acrescenta ainda que "a vida amputada da dimensão espiritual, vai-se progressivamente concentrando no económico, no puramente material". Também por isso, segundo este autor, "as angústias mais características do nosso tempo e da nossa civilização são as espirituais, que nascem da tensão entre o homem e a sociedade de massa, que o sufoca e aniquila em tudo aquilo que tem de supramaterial". De facto, o Muro caiu, as Alemanhas reunificaram-se e a guerra entre os dois blocos terminou. Venceu o materialismo. Perdemos todos.