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O Ministério da Verdade


O Ministério da Verdade – Miniver em Novilíngua – era extraordinariamente diferente de qualquer outro objecto à vista. Era uma enorme estrutura piramidal em betão branco cintilante, erguendo-se, terraço após terraço, 300 metros no ar. De onde o Winston estava, era possível ler, destacado na parede branca, em letras elegantes, as três máximas do Partido:

GUERRA É PAZ
LIBERDADE É ESCRAVIDÃO
IGNORÂNCIA É FORÇA

Dizia-se que o Ministério da Verdade tinha três mil salas acima do nível do solo, e as ramificações correspondentes abaixo. Espalhados por Londres, havia somente outros três edifícios de aparência e tamanho semelhante. Eles ofuscavam completamente a arquitectura da cidade, que do telhado das Mansões Vitória, era possível ver os quatro em simultâneo. Eram as sedes dos quatro Ministérios, entre os quais todo o aparato governamental estava dividido. O Ministério do Verdade, responsável pelas notícias, entretenimento, educação e artes plásticas. O Ministério da Paz, responsável pela guerra. O Ministério do Amor, que mantinha a lei e a ordem. E o Ministério da Abundância, responsável pelos assuntos económicos.

George Orwell in «Nineteen Eighty-Four», 1948.

Abandonada a verdade, só sobra a propaganda


Tens noção que o passado foi, desde ontem, realmente abolido? Se ele sobreviver nalgum lugar, será em poucos objectos sólidos, sem qualquer palavra inerente, como aquele pedaço de vidro além. Literalmente, já não sabemos quase nada sobre a Revolução e os anos anteriores à Revolução. Todo o registo foi destruído ou falsificado, todo o livro foi reescrito, toda a imagem foi retocada, toda a estátua e edifício público foi renomeado, toda a data foi alterada. E esse processo continua, dia após dia, minuto após minuto. A História parou. Nada existe, excepto um presente sem fim, no qual o Partido está sempre certo. Eu sei, logicamente, que o passado é falsificado, mas ser-me-ia impossível prová-lo, mesmo quando eu próprio fiz a falsificação. Depois de que a coisa é feita, mais nenhuma prova subsiste. A única prova está na minha própria cabeça, e eu não tenho a certeza que outra pessoa partilhe das mesmas memórias.

George Orwell in «Nineteen Eighty-Four», 1948.