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D. José Pereira de Lacerda é criado Cardeal


No mesmo dia [19 de Novembro], ano de 1719, por nomina d'el-Rei D. João V, nosso Senhor, o Sumo Pontífice Clemente XI criou Cardeal Presbítero da Santa Igreja Romana ao ilustríssimo Dom José Pereira de Lacerda, Bispo do Algarve. Já dissemos dele em outro dia.

Pe. Francisco de Santa Maria in «Ano Histórico, Diário Português: Notícia Abreviada de pessoas grandes e coisas notáveis de Portugal», 1744.

O bioco algarvio


O bioco, este extraordinário bioco, é digno de crónica para esclarecimento e regalo do leitor estranho a esta região.
O bioco desenha-se em dois traços. Um capote, de farto cabeção, pesado e tão abundante de pano, que por completo encobre o corpo amplamente e até aos pés, encimando-se, e esta é a característica proeminente da estranha vestidura, por um chale preto, que, envolvendo e rebuçando rosto e cabeça, se enrola em forma pontiaguda, lembrando o bico enorme de uma ave fantástica e tenebrosa. Este tubo cónico termina por um pequeno orifício, fresta única para a respiração e raios visuais. De resto fica hermeticamente fechado o corpo humano que se encarcera nesta farpela impenetrável a toda as curiosidades, inacessível a todos os contactos, porque o bioco é inviolável, como coisa sagrada reverentemente velada em arca santa.

Júlio Lourenço Pinto in «O Algarve», 1894.

Dos assédios mouros à costa portuguesa: caso de Lagos


Alguns anos depois, sabendo os mouros o desenvolvimento de Lagos, começaram a vir da África, nas suas embarcações, denominadas chabeques, e tentaram a sua invasão, não se contentando só em levar os gados, mas fazendo cativos homens, mulheres e crianças, que vendiam para escravos em África. Os habitantes, para lhes escaparem a toda a sorte de crueldades e cativeiro, viam-se na necessidade de se refugiarem nos matos e cavernas. A esta calamidade acudiram João Lourenço, alcaide do castelo de Lagos, que diziam ser obra dos mouros, e João Parente, alvazil, governador, vereador ou juiz de primeira instância, os quais, expondo o que se passava e mostrando que em breve o lugar se despovoaria se lhe não dessem pronto remédio, conseguiram que D. Afonso IV mandasse cercar a povoação, emprestando o mesmo Rei, para isso, 12$000 reis, que mandou guardados por uma escolta de cavalaria, e, mais tarde, mais 8$000 reis. Um antigo manuscrito diz: Existe uma carta do Sr. D. Afonso IV, escrita ao senado de Lagos para continuar a obra da muralha da vila a dentro, que lhe faltavam 500 varas para se aliviarem os danos que os moradores da Vila padeciam dos mouros, que, continuamente, infestavam a costa e então tinham invadido a mesma Vila com 12 galés, o que tudo refere a dita carta que se conserva no arquivo da Câmara.

Manuel João Paulo Rocha in «Monografia de Lagos», 1909.


Milagre no cerco castelhano de Tavira


No ano de 1337 veio El-Rei Dom Afonso XI de Castela com mão armada sobre a Cidade de Tavira do Algarve, e posto seu arraial para a combater, neste dia [15 de Setembro] de manhã, em Sábado, olhando acaso para o telhado da Igreja de Santa Maria, viu nele a sete Cavaleiros de grande estatura, vestidos de branco, com Cruzes de Santiago nos peitos, brandindo as lanças; Perguntou El-Rei aos seus que lhe assistiam, se viam aqueles Cavaleiros, e como lhe respondessem que não, mandou chamar ao Guardião de São Francisco; Outros dizem que a um velho Ermitão de boa vida; para que lhe interpretasse aquela visão, como fez deste modo: Senhor, aquele telhado é da Igreja de Santa Maria, onde foram sepultados os sete Mártires que ajudaram a conquistar e tirar do poder dos Mouros esta Cidade, morrendo pela Fé de JESUS Cristo, como esforçadas Cavaleiros e verdadeiros Cristãos, quiçá serão eles que virão agora a defendê-la. Vendo o prudente Rei tão grande maravilha, levantou o seu arraial e voltou para Castela, dizendo: Que ele não pelejava com os Santos do Céu, mas com os homens da terra. Divulgado o sucesso, renderam os Tavirenses as devidas graças a Deus e aos Santos Mártires; e ficaram estes dali em diante mais conhecidos e venerados. Falamos deles em outra parte.

Pe. Francisco de Santa Maria in «Ano Histórico, Diário Português: Notícia Abreviada de pessoas grandes e coisas notáveis de Portugal», 1744.

Vitória naval contra piratas turcos no Algarve


No ano de 1554 infestava a costa do Algarve um famoso Corsário, chamado Xaramet, Turco de nação, com oito Galés bem providas de chusma e soldados; Era pelo mesmo tempo General da Armada Portuguesa, que defendia as costas de Portugal, Dom Pedro da Cunha, ilustre e valeroso Cavaleiro; Saiu em demanda de Xaramet com quatro Galés e cinco velas de pouco porte, mas a fortuna do General e o valor dos soldados, supria a desigualdade do poder; Recolheu-se em um porto do Algarve, a saber notícias do inimigo, e constando-lhe do lugar onde estava, mandou despregar as velas com tanta pressa, que alguns soldados que haviam saído a terra, ficaram nela; Porém dois irmãos (que o eram no sangue e na resolução) não achando naquele flagrante, outro remédio de se poderem embarcar, se lançaram às ondas, e a nado alcançaram as Galés; Avistaram-se neste dia [27 de Agosto] as duas Armadas, em uma enseada, que chamam a carvoeira, e como a falta do vento não desse lugar a que as outras velas nossas pelejassem, se reduziu a contenda às quatro Galés Portuguesas e às oito inimigas; Puseram as proas umas nas outras, e pelas bocas dos Canhões começaram a vomitar dilúvios de fogo e ferro; Logo passaram a combater-se com armas curtas, peito a peito, como em campanha rasa: De uma e outra parte era grande a constância e o esforço: Os inimigos excediam no número, os nossos no valor; Por vezes entraram aqueles a nossa Capitania, mas outras tantas os sacudimos dela, à custa de muito sangue e mortes. Corriam a mesma fortuna e perigo as outras três Galés, pelejando cada uma com duas dos contrários. Durou o conflito muitas horas com o mesmo tesão e porfia de parte a parte; Até que se declarou a vitória pelos Portugueses, que renderam a Capitania inimiga e duas Galés mais: Uma foi metida no fundo, e todos os que vinham nela pereceram afogados; As outras quatro fugiram cobertas com a noite e alastradas de corpos mortos; Dos nossos morreram quarenta e foi muito maior o número dos feridos; Na Capitania ficou cativo o General Xaramet, e foi trazido a Lisboa, e as três Galés rendidas, cuja vista alegrou a Corte, e logo a notícia a todo o Reino; Foi recebido Dom Pedro da Cunha, e seus valerosos companheiros, com extraordinárias honras das Pessoas Reais, e singulares parabéns e aplauso da nobreza e povo, como merecia uma acção tão bizarra e tão famosa.

Pe. Francisco de Santa Maria in «Ano Histórico, Diário Português: Notícia Abreviada de pessoas grandes e coisas notáveis de Portugal», 1744.

Algarves d'aquém e d'além-mar

Algarves d'aquém e d'além-mar.

A palavra «Algarve» vem do árabe «Al Gharb» e significa «O Ocidente». O termo é usado desde o tempo da invasão muçulmana, para designar os territórios mais ocidentais sob domínio mourisco, tanto na Europa como em África, conforme está indicado no mapa superior.
No entanto, a designação «Ocidente» não é uma originalidade mourisca. Pois já o geógrafo grego Estrabão, no ano 25 a.C., identificava o Cabo de São Vicente (em Sagres) como o extremo ocidental do mundo conhecido. E também, segundo os Gregos, ali era o local em que o Sol se punha, mergulhando no Oceano como ferro em brasa e ao dançar dos deuses.
Com a Reconquista Cristã, o Algarve passou para o domínio do Rei de Portugal. E assim, a partir do século XIII, o Rei de Portugal passou a ser também Rei do Algarve. Mais tarde, com o avanço da Reconquista para sul, até África, o nosso Rei tornou-se Rei dos Algarves d'aquém e d'além-mar em África, direito de posse que persistiu em todos os nossos Monarcas.

Algarve d'além-mar em África.