Mostrar mensagens com a etiqueta Santarém. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Santarém. Mostrar todas as mensagens

Novo milagre de Nossa Senhora da Piedade


No mesmo dia [27 de Maio], ano de 1663, estando na Ermida de N. Senhora da Piedade de Santarém as mesmas pessoas que no dia precedente ali se acharam, e outras muitas que concorreram de novo, rogando todas a Deus, por intercessão de sua Santíssima Mãe, para que se apiedasse deste Reino e lhe desse vitória de seus inimigos, tendo todas os olhos nas Soberanas Imagens da mesma Senhora e de seu Filho morto, se viu patentemente que a deste Senhor levantava o rosto para cima, e juntamente o corpo, em forma que ficou muito mais levantado do que estava nos braços da Senhora, ficando os rostos de ambos tão chegados um ao outro, que dificultosamente havia lugar de caber pelo meio deles um dedo, sendo que dantes estavam desviados em forma que cabia bem uma mão-travessa. E outrossim se viu o sangue da mesma Sacrossanta Imagem de cor muito viva e fresca, estando dantes denegrido e encoberto.

Pe. Francisco de Santa Maria in «Ano Histórico, Diário Português: Notícia Abreviada de pessoas grandes e coisas notáveis de Portugal», 1744.

Milagre de Nossa Senhora da Piedade de Santarém


Venerava-se de tempos antigos em uma pobre Ermida na Vila de Santarém, uma Imagem da Senhora da Piedade, com o Senhor morto nos braços, caído, ou inclinado o rosto do mesmo Senhor, em forma que ficava mais de uma mão-travessa apartado do rosto da Senhora. É uma e outra Imagem de barro, e ambas muito devotas. Achava-se no ano de 1663 este Reino em grande aperto pela invasão dos Castelhanos, os quais com poderoso Exército, haviam conquistado a Cidade de Évora, e prometiam, não sem grandes fundamentos, muito maiores operações. Concorriam àquela Ermida algumas pessoas devotas a invocar a protecção da Mãe de Deus sobre as calamidades e perigos em que o Reino se achava, e à vista daquele Sagrado Corpo defunto e cinco chagas, que nele se representavam, eram, sem dúvida, um poderoso motivo para se pedir e esperar, com grande fervor e confiança, a liberdade de um Reino que tem as mesmas chagas por brasão. Eis que neste dia [26 de Maio], em Sábado, das seis para as sete horas da tarde, do ano referido, estando presentes muitas pessoas, foi visto o rosto da Senhora muito mais encarnado e resplandecente, e o do Senhor muito mais enfiado e pálido, e ambos muito diferentes do que dantes eram. Admirados os presentes, e atónitos à vista daquela maravilha, não se atreveram a publicá-la, persistindo perplexos e duvidosos na averiguação do mesmo que estavam vendo, por se julgarem indignos de tão soberano favor. Maior prodígio se viu no dia seguinte, como nele diremos.

Pe. Francisco de Santa Maria in «Ano Histórico, Diário Português: Notícia Abreviada de pessoas grandes e coisas notáveis de Portugal», 1744.

Mendo Afonso


Mendo Afonso, Cavaleiro Templário, homem de insigne piedade, e como tal chamado naquele tempo, Pai dos órfãos, amparo das viúvas, socorro e abrigo dos peregrinos, singular defensor da Fé. Estes títulos lhe gravaram os antigos na sua sepultura, o que é prova evidente de que mereceu muito mais do que eles dizem. Faleceu ditosamente neste dia [11 de Maio], ano de 1236. Jaz em Santarém, na Igreja Colegiada de Santa Maria da Alcáçova.

Pe. Francisco de Santa Maria in «Ano Histórico, Diário Português: Notícia Abreviada de pessoas grandes e coisas notáveis de Portugal», 1744.

O Santo Milagre de Santarém


Em Santarém viviam uns casados pelos anos de 1266, e pela má vida que o marido dava à mulher, se queixou esta a uma sua amiga de Nação Hebreia, a qual lhe aconselhou que, quando comungasse, lhe levasse a Partícula Consagrada, porque com ela lhe faria um especial remédio [um bruxedo], com o qual obrigaria o marido a querer-lhe bem: assim o fez a pobre mulher, escondendo a Sagrada Partícula numa toalha na ocasião em que fingiu que comungava; mas milagrosamente, quando caminhava pela rua, lhe viram correr sangue do seio, onde levava o Sacrossanto Depósito; e assustada com a novidade, em que todos reparavam, voltou para casa, e meteu o Corpo de Cristo numa arca.
Na noite seguinte viu-se a casa toda iluminada, respirando suaves aromas e soando Angélicos Cânticos. Divulgou-se o caso, e então a Santa Partícula foi levada para a Paróquia de Santo Estêvão, onde depois se achou metida numa Âmbula de cristal por mão Superior.
Até hoje se conserva incorrupta, obrando prodígios tão frequentes e públicos, que a devoção dos fiéis lhe chama por toda a parte o Santo Milagre.

D. Frei Fortunato de São Boaventura in «Breve notícia dos desacatos mais notáveis acontecidos em Portugal, desde a sua fundação até agora, e o sermão de desagravo pelos últimos cometidos neste mesmo ano», 1825.

Reconquista de Santarém e São Miguel Arcanjo


Em Santarém, a soleníssima festa da Aparição de S. Miguel, esclarecido patrono desta antiga e populosa Vila, em cujo feliz dia [8 de Maio] foi recuperada dos Bárbaros pelo ínclito Rei D. Afonso Henriques, acompanhado mais de seu católico zelo e confiança divina, que do numeroso exército de soldados e bélicos instrumentos, com que se achava naquela apertada ocasião, aparecendo no Céu à noite precedente à batalha sinais demonstrativos da famosa vitória, que no seguinte dia havia de alcançar dos inimigos da Fé. Arvorado então o Estandarte Real nas ameias de seus muros por três valerosos soldados, que no maior silêncio da noite, subiram a eles com admirável ousadia. Aberta a porta daquela inexpugnável praça com um martelo de ferro, que outros administraram de fora, entrou logo o S. Rei, e ajoelhado em terra, mãos e olhos no Céu, fez oração a Deus e uma breve fala aos seus, dizendo em alta voz, para que de todos fosse ouvido: Eia valentes Soldados, aqui tendes a vosso Rei e companheiro, não só para testemunha das façanhas que neste comenos obrardes, mas para exemplo do muito que estais obrigados a executar contra os inimigos da Igreja. Animados com estas fervorosas palavras, os Cristãos, invocando o Patrão de Espanha [Patrono da Península Ibérica], fizeram bravo estrago e carniceira lastimosa nos Mouros, avantajando-se entre todas, aquela invencível espada, banhada tantas vezes do Agareno sangue, executando tão inauditas proezas, que escurecem as mais célebres que publica a trombeta da fama, ouvindo-se por todas as partes desentoados gritos e alaridos, acrescentando este miserável labirinto a confusão das armas e obscuridade da noite, com que não havia quem se pudesse valer e dar a conselho, até que passados aos fios dos luzentes ferros os principais Mouros que lhe resistiram. Ao romper da alva, teve a duvidosa e travada peleja feliz remate em favor dos Cristãos. Porque no tempo que os invencíveis Portugueses, em companhia de seu vitorioso Rei, meneavam as armas temporais nas terras de sua conquista, contra esta vil e infame canalha, em defesa da liberdade Real e exaltação da Religião Católica, meneavam as espirituais, não somente S. Teotónio no Mosteiro de S. Cruz de Coimbra, com seus Cónegos, mas também S. Bernardo no de Claraval, com seus Monges, implorando cada qual o glorioso triunfo, que o S. Rei conseguiu de seus contrários e declarados inimigos de Cristo. E vendo ambos com os olhos do espírito o processo de combate pouco favorável aos nossos, apressaram as rogativas e preces, com maior veemência, até que se decretou no Consistório divino, ficasse o campo e a vitória pelas Armas Católicas. Passados 24 anos, veio el-Rei de Sevilha, Albaraque, sobre a dita Vila com poderosíssimo exército, e vendo-se o magnânimo Rei D. Afonso Henriques apertado, recorreu (como tinha de costume) ao Céu, negociando o feliz despacho por meio do Arcanjo S. Miguel (de quem era particular devoto) e saindo os nossos ao campo, animados de suas afectuosas palavras e alentados com o diviníssimo Sacramento do Altar, andando o esforçado Rei no maior conflito da batalha, apareceu a seu lado um Braço armado com asa no coto, que jogava as armas destrissimamente (insígnia com que ordinariamente se pinta este tutelar da Igreja Católica e defensor do povo Cristão) fazendo bravo estrago nos Mouros, com que brevemente a duvidosa vitória ficou pelo S. Rei, e reconhecendo a ele a tão soberano patrocínio, instituiu no Real Mosteiro de Alcobaça a Cavalaria da Ala, com particulares Constituições, debaixo da Regra de S. Bento, que perseverou somente enquanto viveu. Por estes e outros singulares benefícios, que por intercessão do S. Arcanjo, alcançou esta nobre Vila do Senhor dos exércitos, lhe levantou Ermida, aonde vai o Senado dela todos os anos neste dia [8 de Maio], com solene Procissão, render as graças das assinaladas vitórias que ali conseguiram as Lusitanas Armas dos inimigos da Fé, nos primórdios deste escolhido e santificado Reino de Portugal.

Pe. Jorge Cardoso in «Hagiológio Lusitano dos Santos e Varões ilustres em virtude, do Reino de Portugal e suas conquistas», Tomo III, 1666.