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Dois sistemas envenenados


Os dois sistemas falharam inchando de exageros, de petições de princípio, de preconceitos camuflados, e – vendo bem de perto – de erros em muitos detalhes. E no entanto, encarados no seu conjunto, estes sistemas têm o efeito irresistível das mudanças de clima. Quando lanço um olhar aos dezoitos volumes das obras completas de Freud, nas prateleiras da minha biblioteca, lembro-me, por vezes, do aviso de Rembrandt aos visitantes do seu atelier, convidando-os a olhar para as suas telas de longe. – «Não metam o nariz nos meus quadros, o cheiro da pintura envenenar-vos-ia».
Poder-se-ia perguntar em que momento esse cheiro a pintura fresca se transformaria em veneno – em que momento Marx se torna "marxista" e Freud "freudiano". Seria satisfatório desculpar o mestre e atribuir todas as culpas aos alunos. Marx não teria provavelmente aprovado os métodos de Estaline e Freud ter-se-ia dificilmente responsabilizado pelos pesadelos iluminados de uma Mélanie Klein. Mas as sementes de tudo isto estavam já presentes no próprio mestre, na sua tendência fatal de saltar do pressentimento e da hipótese para a asserção dogmática, de brincar com os símbolos como um malabarista, de propagar uma mitologia pessoal na qual mistura o Museu Grévin e o Panteão Grego.

Arthur Koestler in prefácio a «La Scolastique Freudienne» de Pierre Debray-Ritzen, 1972.

Protestantismo: inimigo da Europa


O grande inimigo da Europa, que importa sufocar por todos os meios que não sejam criminosos, a úlcera funesta que se apega a todas as soberanias e que as corrói implacavelmente, o filho do orgulho, o pai da anarquia, o solvente universal, é o Protestantismo.
O que é o Protestantismo? É a insurreição da razão individual contra a razão geral, e, por conseguinte, é tudo o que de pior se possa imaginar. Quando o Cardeal de Polignac disse ao célebre Bayle: «Vós dizeis ser protestante; mas essa designação é muito vaga: sois anglicano, luterano, calvinista, etc.?» – Bayle respondeu: «Eu sou protestante no sentido pleno do termo: protesto contra todas as verdades». Este céptico famoso deu assim a verdadeira definição de Protestantismo, que é o inimigo essencial de toda a crença comum aos homens; o que o torna inimigo do género humano, porque a felicidade das sociedades humanas repousa sobre esse tipo de crenças.

Joseph de Maistre in «Réflexions sur le Protestantisme dans ses rapports avec la Souveraineté», 1798.

Muitas opiniões, mas poucas verdadeiras


Hoje, pelo contrário, o homem médio tem as "ideias" mais taxativas sobre quanto acontece e deve acontecer no universo. Por isso perdeu o uso da audição. Para quê ouvir, se já tem dentro de si o que necessita? Já não é época de ouvir, mas, pelo contrário, de julgar, de sentenciar, de decidir. Não há questão da vida pública em que não intervenha, cego e surdo como é, impondo a sua "opinião".
Mas não é isto uma vantagem? Não representa um progresso enorme que as massas tenham "ideias", quer dizer, que sejam cultas? De maneira nenhuma. As "ideias" deste homem médio não são autenticamente ideias, nem a sua posse é cultura. A "ideia" é um xeque-mate à verdade. Quem queira ter ideias necessita antes de dispor-se a querer a verdade, e aceitar as regras do jogo que ela imponha. Não vale falar de ideias, ou opiniões, onde não se admite uma instância que as regula, uma série de normas às quais na discussão cabe apelar. Estas normas são os princípios da cultura.

José Ortega y Gasset in «A Rebelião das Massas», 1929.

Voltar à realidade


«O homem sem pátria, sem família e sem Deus, já não está senão ligado à representação [subjectiva] que forma do universo», apontou com razão o Prof. De Corte. Platão notava que «o homem é o único ser da natureza que pode emigrar da realidade própria e instalar-se na imaginação».
Todo o problema do homem moderno consiste em voltar à realidade. Mas o homem não o consegue sem dificuldades, sem vontade, sem esforço intelectual. Nisso está em desvantagem relativamente ao resto da Criação, se nos atemos a um ponto de vista materialista.
«Todos os seres vivos – assinalou o Dr. Carrel –, à excepção do homem, possuem uma espécie de ciência inata do universo e de si mesmos. Esse instinto força-os a inserirem-se na realidade, de forma completa e segura. Não têm, pois, a liberdade de se enganar. Só os seres dotados de razão são falíveis, e por conseguinte, perfectíveis.»

Jacques Ploncard d'Assac in «Três Estudos Políticos», 1956.

A Fé e a "fé"


Segundo a doutrina católica, a Fé é uma anuência, uma submissão da inteligência à autoridade de Deus que revela, sob o impulso da vontade livre movida pela Graça. Por um lado o acto de Fé deve ser livre, ou seja, deve escapar a toda a coacção exterior que tivesse por objecto ou por efeito directo obtê-lo contra a vontade da pessoa. Por outro lado, sendo o acto de Fé uma submissão à autoridade divina, nenhum poder ou terceira pessoa tem o direito de se opor à influência da Verdade primeira, que tem o direito inalienável de iluminar a inteligência do fiel. Disto se segue que o fiel tem direito à liberdade religiosa; ninguém tem o direito de o coagir, e ninguém tem o direito de impedi-lo de abraçar a Revelação divina ou de realizar com prudência os actos exteriores de culto.

Entretanto os liberais, esquecidos do carácter objectivo, completamente divino e sobrenatural do acto de Fé, e os modernistas que correm no seu rastro, fazem da Fé uma expressão da convicção subjectiva do sujeito no fim da sua procura pessoal, ao tentar responder às grandes interrogações que lhe apresenta o universo. A Igreja, que propõe o facto da Revelação divina exterior, dá lugar à invenção criadora do sujeito, ou pelo menos o sujeito deve esforçar-se para ir de encontro à fonte... Sendo assim, então a Fé divina é rebaixada ao nível das convicções religiosas dos não-cristãos, que pensam ter uma fé divina, quando não têm mais do que uma persuasão humana, pois o motivo para aderir à sua crença não é a autoridade divina, mas o livre julgamento do seu espírito. Aí está a sua inconsequência fundamental: os liberais pretendem manter para este acto de persuasão completamente humano, o carácter de inviolabilidade e isenção de toda a coacção que não pertence senão ao acto de Fé divina. Eles asseguram que, pelos actos das suas convicções religiosas, os adeptos de outras religiões põem-se em relação com Deus, e que a partir daí esta relação deve ficar livre de toda coacção que possa afectá-la. Eles dizem: «Qualquer fé religiosa é respeitável e intocável».

Mas estes últimos argumentos são visivelmente falsos, pois pelas suas convicções religiosas, os adeptos das outras religiões não fazem mais do que seguir invenções do seu próprio espírito, produções humanas que não têm em si nada de divino, nem em seu princípio, nem em seu objecto, nem no motivo pelo qual aderiram a elas.

Isto não quer dizer que não há nada de verdadeiro nas suas convicções, ou que não possam conservar sinais da Revelação primitiva ou posterior. Mas a presença destas semina Verbi, não bastam, por si, para fazer das suas convicções um acto de Fé divina. Principalmente porque se Deus quisesse suscitar este acto sobrenatural pela Sua Graça, na maioria dos casos ver-se-ia impedido pela presença de inúmeros erros e superstições aos quais estes homens continuam ligados.

Frente ao subjectivismo e ao naturalismo dos liberais, devemos reafirmar hoje o carácter objectivo e sobrenatural da Fé divina que é a Fé católica e cristã. Somente ela tem o direito absoluto e inviolável ao respeito e à liberdade religiosa.

Mons. Marcel Lefebvre in «Do Liberalismo à Apostasia: A Tragédia Conciliar», 1987.

Catolicismo não é sinónimo de Sentimentalismo

Cristo não veio para nos tornar pessoas simpáticas. Ele veio para nos tornar homens novos.

A civilização moderna separou Cristo da Cruz, tomou-O sem ela e fê-l'O um moralista sentimental como Buda.

Mons. Fulton Sheen in «Aprendei a Amar», 1957.

Verdade e Realismo


A verdade consiste no acordo do pensamento com a realidade. E por isso, na sua obra A Metafísica, Aristóteles identifica a verdade com o ser e a falsidade com o não-ser. Com efeito, escreve o filósofo: «Uma coisa tem tanto de ser como de verdade». E acrescenta: «Ser e não-ser são, no sentido mais estrito, verdade e falsidade». Significa isto que é o ser e o não-ser que determinam a verdade e a falsidade dos juízos de existência e não-existência. E exemplifica: «Não é pelo facto de pensarmos com verdade que és branco, que tu és branco, mas é porque tu és branco que, ao afirmá-lo, dizemos a verdade».

Em oposição a isto, temos o Subjectivismo.

Subjectivismo

Inteligência

Subjectivismo é introduzir a liberdade na inteligência, quando pelo contrário, a nobreza desta consiste em submeter-se ao objecto, consiste na acomodação ou conformidade do pensamento com o objecto conhecido. A inteligência funciona como uma câmara fotográfica, deve reproduzir exactamente as características perceptíveis do real. A sua perfeição consiste na fidelidade ao real. Por este motivo a verdade define-se como a adequação da inteligência com a coisa. A verdade é esta qualidade do pensamento, de estar de acordo com a coisa, com o que é. Não é a inteligência que cria as coisas, mas as coisas que se impõem à inteligência tal como são. Consequentemente, a verdade de uma afirmação depende do que ela é, é algo de objectivo; e aquele que procura a verdade deve renunciar-se a si, renunciar a uma construção do seu espírito, renunciar a inventar a verdade.

Pelo contrário, no subjectivismo, é a razão que constrói a verdade: deparamo-nos com a submissão do objecto ao sujeito. Este passa a ser o centro de todas as coisas. As coisas não são mais o que são, mas o que se pensa delas. O homem passa a dispor da verdade conforme a sua vontade: a este erro chama-se idealismo no plano filosófico, e liberalismo no plano moral, político e religioso. Como consequência, a verdade será diferente conforme os indivíduos e os grupos sociais. A verdade torna-se necessariamente compartilhada. Ninguém pode pretender tê-la exclusivamente na sua integridade; ela faz-se e procura-se sem descanso. Pode ver-se o quanto isto é contrário a Nosso Senhor Jesus Cristo e à sua Igreja.

Mons. Marcel Lefebvre in «Do Liberalismo à Apostasia: A Tragédia Conciliar», 1987.