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Aniversário da descoberta oficial do Brasil


Excerto final da carta de Pêro Vaz de Caminha a El-Rei Dom Manuel:

Esta terra, Senhor, me parece que da ponta mais contra o sul vimos, até outra ponta que contra o norte vem, de que nós deste porto houvemos vista, será tamanha que haverá nela bem vinte ou vinte e cinco léguas por costa. Tem, ao longo do mar, nalgumas partes, grandes barreiras, delas vermelhas, delas brancas; e a terra por cima toda chã e muito cheia de grandes arvoredos. De ponta a ponta, é tudo praia-palma, muito chã e muito formosa.
Pelo sertão nos pareceu, vista do mar, muito grande, porque, a estender olhos, não podíamos ver senão terra com arvoredos, que nos parecia muito longa.
Nela, até agora, não pudemos saber que haja ouro, nem prata, nem coisa alguma de metal ou ferro; nem lho vimos. Porém a terra em si é de muito bons ares, assim frios e temperados, como os de Entre Douro e Minho, porque neste tempo de agora os achávamos como os de lá.
Águas são muitas; infindas. E em tal maneira é graciosa que, querendo-a aproveitar, dar-se-á nela tudo, por bem das águas que tem.
Porém, o melhor fruto que dela se pode tirar me parece que será salvar esta gente. E esta deve ser a principal semente que Vossa Alteza em ela deve lançar.
E que aí não houvesse mais que ter aqui esta pousada para esta navegação de Calecute, isso bastaria. Quanto mais disposição para se nela cumprir e fazer o que Vossa Alteza tanto deseja, a saber, acrescentamento da nossa santa fé.
E nesta maneira, Senhor, dou aqui a Vossa Alteza conta do que nesta terra vi. E se algum pouco me alonguei, Ela me perdoe, pois o desejo que tinha de tudo vos dizer, mo fez pôr assim pelo miúdo.
E pois que, Senhor, é certo que, assim neste cargo que levo, como em outra qualquer coisa que de vosso serviço for, Vossa Alteza há-de ser de mim muito bem servida, a Ela peço que, por me fazer graça especial, mande vir da ilha de São Tomé a Jorge Osório, meu genro – o que d'Ela receberei em muita mercê.

Beijo as mãos de Vossa Alteza.
Deste porto seguro, da vossa ilha da Vera Cruz, hoje, sexta-feira, primeiro dia de Maio de 1500.
Pêro Vaz de Caminha

Entra Duarte Coelho no Reino de Sião


No mesmo dia [27 de Novembro], ano de 1516, chegou Duarte Coelho de Albuquerque, ilustre Capitão Português, ao Reino de Sião [hoje Tailândia], aonde assentou paz e comércio com aquele poderoso Rei, e arvorou um Padrão com as Armas Reais de Portugal, no lugar mais notável da Cidade Hudiá, que é a Corte e Capital daquele Reino, ou Império, o qual se dilata por espaço de mais de trezentas e trinta léguas, e é abundantíssimo de frutos e riquezas: Pode o Rei pôr em campo um milhão de Soldados, e só na Cidade Hudiá assistem alistados continuamente cinquenta mil.

Pe. Francisco de Santa Maria in «Ano Histórico, Diário Português: Notícia Abreviada de pessoas grandes e coisas notáveis de Portugal», 1744.

Descoberta da Cidade de Malaca


Neste dia [28 de Setembro], ano de 1509, descobriu Diogo Lopes de Sequeira a famosíssima Cidade de Malaca, e foi esta a primeira vez que as bandeiras Católicas e Portuguesas foram vistas naquele porto: Os Mouros armaram várias traições, a fim de destruírem os Portugueses, mas de todas escaparam com valor e com fortuna, reservando-se a conquista daquele célebre Empório Oriental para o Grande Afonso de Albuquerque, como em outros dias dizemos.

Pe. Francisco de Santa Maria in «Ano Histórico, Diário Português: Notícia Abreviada de pessoas grandes e coisas notáveis de Portugal», 1744.

Descobre Pedro Álvares Cabral a Cidade de Cananor


Neste dia [15 de Janeiro], ano de 1501, descobriu Pedro Álvares Cabral a Cidade de Cananor, que então era muito populosa, e constava de muito nobres edifícios, e a sua comarca era sumamente abundante de frutos e drogas, que na Ásia são de maior estima. O Rei era gentio, e um dos três mais poderosos do Malabar, quais eram: os de Calecute, Coulão e este de Cananor. Ajustou ele paz com os Portugueses, e mandou seu Embaixador a El-Rei Dom Manuel, implorando a sua aliança e protecção.

Pe. Francisco de Santa Maria in «Ano Histórico, Diário Português: Notícia Abreviada de pessoas grandes e coisas notáveis de Portugal», 1744.

Parte Vasco da Gama ao descobrimento da Índia


Neste dia [8 de Julho] em Sábado, ano de 1497, partiu Vasco da Gama da barra de Lisboa a descobrir, por mares nunca dantes navegados, a remotíssima região do Oriente; Empresa que os homens mais sábios reputavam impossível; Mas vence impossíveis um coração valeroso e destemido! Com três navios, de que eram Capitães o mesmo Vasco da Gama, seu irmão Paulo da Gama e Nicolau Coelho, e cento e setenta companheiros, se deu princípio àquela tão incerta, como perigosa navegação. Concorreu na despedida, às praias de Belém, grande número de nobreza e povo. Ali foram infinitas as lágrimas dos que iam e dos que ficavam, nascidas da saudade e do temor, e dos vários e tristes pensamentos, que naturalmente ocorriam em caso tão novo. Estremeceram-se os corações de uns e outros, ao tempo que os marinheiros, despregando as velas, deram a sua costumada salva de Boa Viagem; Os que ficavam em terra alongavam os olhos pelas ondas, em seguimento dos navegantes; Estes não os podiam apartar da amada Pátria, e uns e outros estavam como atónitos, em profunda e medrosa suspensão, até que a distância separou as vistas, não assim os corações.

Pe. Francisco de Santa Maria in «Ano Histórico, Diário Português: Notícia Abreviada de pessoas grandes e coisas notáveis de Portugal», 1744.

Do apostolado missionário português


Afinal, quando os filhos do Rei D. João I lhe pediram autorização para a primeira expedição ultramarina, que implicou depois na libertação de Ceuta, o grande e piedoso monarca, antes de qualquer outra coisa, quis saber se a iniciativa seria útil para o serviço de Deus. A semelhança de todas as outras iniciativas que se seguiram, também esta teve como escopo principal a propagação da Fé, aquela mesma Fé que teria animado a cruzada do ocidente e as ordens de cavalaria na épica luta contra o domínio dos mouros.
Nas caravelas que, ostentando o branco pendão assinalado pela cruz de Cristo, deslocavam os intrépidos descobridores portugueses nas costas ocidentais da África e das ilhas adjacentes, navegavam também os missionários, "para atrair as nações bárbaras ao jugo de Cristo", como se exprimia o grande pioneiro da expansão colonial e missionária portuguesa, o Infante D. Henrique, o navegador.
O príncipe dos exploradores portugueses, Vasco da Gama, quando levantou âncora para iniciar a sua aventurosa viagem à Índia, levou consigo dois padres trinitários, um dos quais, após ter pregado com zelo apostólico o evangelho às gentes da Índia, coroou o seu árduo apostolado com o martírio. O seu sangue, e aquele de outros heróicos missionários portugueses, foi naqueles lugares remotos, como sempre e em toda parte é o sangue dos mártires, semente de cristãos; o seu luminoso exemplo foi para todo o mundo católico, mas antes de tudo para os seus generosos compatriotas, uma chamada e um estímulo ao apostolado missionário.

Papa Pio XII in encíclica «Saeculo Exeunte Octavo», 13 de Junho de 1940.

Descobre-se a Ilha de São Miguel


No mesmo dia [8 de Maio], ano de 1444, foi descoberta a Ilha de São Miguel, assim chamada em razão da festa que hoje celebra a Igreja ao Arcanjo do mesmo nome. Foi descoberta por Frei Gonçalo Velho, Comendador de Almourol da Ordem de Cristo, mandado pelo Infante Dom Henrique. Dista de Lisboa duzentas e oitenta léguas, tem de comprimento dezoito, de largo sete. É fresca de bons ares e cristalinas águas. Há nela dez Conventos, trinta e duas Paróquias, cinco Vilas e uma Cidade, que chamam Ponta Delgada, com uma famosa Fortaleza.

Pe. Francisco de Santa Maria in «Ano Histórico, Diário Português: Notícia Abreviada de pessoas grandes e coisas notáveis de Portugal», 1744.

Descobrem-se as Ilhas de Cabo Verde


O Cabo, chamado Verde pela cor, de que sempre estão vestidos os seus campos e montes, foi descoberto a primeira vez por Dinis Fernandes, Escudeiro que fora de El-Rei D. João o Primeiro, o qual trouxe a Portugal os primeiros negros, no ano de 1445. Depois no de 1460 foram descobertas neste dia [1 de Maio] as Ilhas que se contêm no mesmo Cabo, quais são: Santiago, São Filipe, São Vicente, Santa Luzia, São Nicolau, Santo Antão, Brava, Sal, Fogo e Boa Vista. O terreno é abundantíssimo de tudo o que serve ao sustento e delícia, mas o clima é pouco sadio. Dura o Inverno nos três meses de Agosto, Setembro, Outubro, nos outros, o Verão. Há nestas Ilhas muito nobres povoações e a Cidade fundada na de Santiago é Episcopal e Cabeça das mais. Nesta mesma Ilha nasceu de uma negra e de um mono, um misto e monstro de ordinária estatura e natural proporção de membros: só tinha larga beta de cabelos sobre os lombos, e não falava, mas fazia com esperteza o que lhe advertiam; sobre largas disputas se resolveu que não tinha alma racional, por ser bruto o seu mais nobre e principal generante.

Pe. Francisco de Santa Maria in «Ano Histórico, Diário Português: Notícia Abreviada de pessoas grandes e coisas notáveis de Portugal», 1744.

Vasco da Gama descobre o Rio dos Reis


No mesmo dia [6 de Janeiro], ano de 1498, descobriu Vasco da Gama o rio, a que, pela circunstância do mesmo dia, chamou dos Reis, o qual corta e fertiliza terras por extremo frescas e aprazíveis, cujos habitadores achou serem bem-apessoados, e de cor baça, e muito mais polidos que os do Cabo de Boa Esperança: Usavam de manilhas de cobre e traziam pedaços dele atados nos cabelos por galanteria, razão porque os Portugueses deram também ao mesmo rio o nome deste metal.

Pe. Francisco de Santa Maria in «Ano Histórico, Diário Português: Notícia Abreviada de pessoas grandes e coisas notáveis de Portugal», 1744.

Vasco da Gama descobre a terra de Natal


No mesmo dia [25 de Dezembro], ano de 1497, com mais de cinco meses da primeira viagem da Índia, descobriu Vasco da Gama na costa da Etiópia Oriental a terra, a que pela circunstância do mesmo dia, chamou do Natal. Para que a examinassem, deixou nela dois homens dos delinquentes, que levava de Lisboa para este efeito, e o informassem quando voltasse (se fossem vivos) da qualidade do País. Achou tanta satisfação dos habitantes que o seu Régulo bem acompanhado visitou a nossa frota; e com resgate de algum marfim e mantimentos, continuou Vasco da Gama a viagem em descobrimento da terra que buscava.

Pe. Francisco de Santa Maria in «Ano Histórico, Diário Português: Notícia Abreviada de pessoas grandes e coisas notáveis de Portugal», 1744.

Vasco da Gama descobre a Baía de Santa Helena


Neste dia [4 de Novembro], ano de 1497, descobriu o famoso argonauta Vasco da Gama uma formosa Angra, ou Baía, a que chamou de Santa Helena, onde desembarcou e foi ferido pelos Negros da terra, e este foi o primeiro sangue que se derramou nas jornadas e empresas do Oriente, em que depois se derramaram dilúvios, mas com grande glória da Nação Portuguesa, por serem despendidos por ela em obséquio da Fé e serviço dos seus Reis.

Pe. Francisco de Santa Maria in «Ano Histórico, Diário Português: Notícia Abreviada de pessoas grandes e coisas notáveis de Portugal», 1744.

Descoberta da província de São Francisco no Brasil


Este mesmo dia [4 de Outubro] deu o nome à Província, que entre as da nova Lusitânia [Brasil], se chama de São Francisco: O Rio, que beija os pés da povoação principal, é dos mais notáveis da América: Dizem que nasce das vertentes daquelas imensas serranias, donde também nascem o das Amazonas e o da Prata, e depois de larga carreira, encontra um sumidouro, que o recebe todo, e correndo doze léguas por baixo da terra, esta o vomita outra vez, tão caudaloso como de antes, e finalmente por duas bocas se precipita no mar, com porto capaz de navios pequenos, quase dez graus e meio para o Sul. As árvores das suas ribeiras vão-se às nuvens, e em tanto número, que tudo parece um bosque, em muitas partes tão fechado, que impede o céu e a luz: A Província não é menos fértil que as outras do Brasil, porém é menos habitada: O primeiro que a descobriu e cultivou foi Gabriel Soares de Sousa, o qual escreveu um curiosíssimo livro das coisas do Brasil.

Pe. Francisco de Santa Maria in «Ano Histórico, Diário Português: Notícia Abreviada de pessoas grandes e coisas notáveis de Portugal», 1744.

Profecia do descobrimento e comércio da Índia


Neste dia [9 de Agosto], ano de 1505, seis anos depois do descobrimento da Índia no Reinado d'el-Rei Dom Manuel, se acharam na Serra de Sintra, junto do mar, três colunas de pedra quadradas com letreiros Romanos, que em grande parte se não puderam ler, por estar a letra gastada do tempo; e em uma se leram com trabalho uns versos Latinos, cujo título dizia:

...Decretum
Sibil. Vaticinum Occidiis.

Os versos eram os seguintes:

Volventur saxa litteris, & Ordine rectis
Cum videas Oriens Occidentis Opes:
Ganges, Indus, Tagus (erit mirabile visu!)
Merces commutabit suas uterque sibi.

Os versos não estão mui certos e a causa é porque não se puderam ler melhor. A declaração é: Revolver-se-ão as pedras com as letras direitas e ordenadas, quando tu Oriente vires as riquezas do Ocidente; O Rio Ganges, Indo e Tejo (coisa maravilhosa!) trocarão entre si suas mercadorias. São muito célebres estes versos em Itália e só em Portugal se duvida da verdade deles; afirmando Pedro Apiano, insigne Matemático, no seu livro onde trata dos letreiros antigos da Europa, logo no princípio, que ele viu as colunas com seus olhos, e leu os sobreditos versos escritos em caracteres Romanos.

Pe. Francisco de Santa Maria in «Ano Histórico, Diário Português: Notícia Abreviada de pessoas grandes e coisas notáveis de Portugal», 1744.

Descoberta de São Vicente no Brasil


No mesmo dia [22 de Janeiro], descobriu Martim Afonso de Sousa aquela parte da nova Lusitânia, chamada de São Vicente, por causa do Santo, que no mesmo dia se festeja. El-Rei Dom João III a deu ao mesmo Martim Afonso, e hoje anda na casa dos Marqueses de Cascais. Está situada quase debaixo do Trópico Austral, com porto acomodado para navios grandes, e quatro importantes povoações, São Paulo, Nossa Senhora da Conceição, Santos, e São Vicente, da qual toma o nome toda a Província. Só esta, entre as mais, goza do mesmo clima de Espanha [Península Ibérica], sem outra diferença mais, que mudar-se o Verão para o tempo do Inverno. É abundante de searas de trigo, vinhas, pomares e flores, além dos outros frutos do Brasil, que produz com a mesma perfeição que as outras, e delas se pode chamar com muita propriedade, o celeiro e despensa universal. Aqui se achou o modo de fazer o açúcar, e aqui se acharam primeiro as canas, planta que inundou utilissimamente por todo o Brasil; Aqui finalmente se descobriram as minas de ouro, que também inunda em uma e outra Lusitânia.

Pe. Francisco de Santa Maria in «Ano Histórico, Diário Português: Notícia Abreviada de pessoas grandes e coisas notáveis de Portugal», 1744.

Tratado de Alcáçovas


A 4 de Setembro de 1479, foi assinado o Tratado de Alcáçovas entre El-Rei D. Afonso V, o seu filho D. João, e os Reis Católicos D. Isabel de Castela e D. Fernando de Aragão, no qual "Espanha" reconhecia a soberania portuguesa sobre os arquipélagos da Madeira, Açores e Cabo Verde, e Portugal renunciava à posse das Canárias, que ficariam sob domínio "espanhol". O acordo atribuía ainda a Portugal as terras que viessem a ser descobertas a sul do paralelo que passava no Cabo Bojador, enquanto "Espanha" ficaria com as terras a norte do mesmo paralelo. O Tratado foi ratificado em Toledo, a 6 de Março do ano seguinte, e devidamente reconhecido pelo Papa Sisto IV a 21 de Junho de 1481, na bula Aeterni regis.
No entanto, o Tratado de Alcáçovas-Toledo viria a ser revogado devido aos inúmeros incumprimentos "espanhóis" (p. ex. quando Cristóvão Colombo chegou à América em 1492, chegou a zona de exploração portuguesa). Foi por isso que a 7 de Junho de 1494 se assinou um novo tratado, em Tordesilhas, com uma nova divisão do mundo.

Descoberta da Ilha de São Lourenço ou Madagáscar


No mesmo dia [10 de Agosto], ano de 1506, descobriu o famoso Tristão da Cunha a Ilha de São Lourenço, nome que se lhe deu por ser descoberta em tal dia, chamando-se na língua da terra Madagáscar. É a maior Ilha de quantas se sabe no mundo até hoje: Tem trezentas léguas de comprimento e de largo noventa, divide-se em quarenta Reinos, é fertilíssima e habitada de Cafres de cabelo crespo e cor baça, que tira a vermelho como os Brasis: Está situada defronte da Ilha de Moçambique e separada da Etiópia Oriental por um braço de mar, que no mais estreito tem sessenta léguas de travessa: É regada de muitas fontes e ribeiras de águas excelentes: Tem muitos matos em que se cria todo o género de feras e animais silvestres: Acham-se nela muitas minas de ferro e cobre, e também de prata.

Pe. Francisco de Santa Maria in «Ano Histórico, Diário Português: Notícia Abreviada de pessoas grandes e coisas notáveis de Portugal», 1744.

A chegada dos primeiros escravos a Portugal


No outro dia, que eram oito dias do mês de Agosto, muito cedo pela manhã, por razão da calma, começaram os mareantes de correger seus batéis e tirar aqueles cativos para os levarem, segundo lhes fora mandado; os quais, postos juntamente naquele campo, era uma maravilhosa coisa de ver, cá entre eles havia alguns de razoada brancura, formosos e apostos; outros, menos brancos, que queriam semelhar pardos; outros tão negros como etíopes, tão desafeiçoados assim nas caras como nos corpos, que quase parecia aos homens que os guardavam, que viam as imagens do hemisfério mais baixo.
(...)
O Infante era ali em cima de um poderoso cavalo, acompanhado de suas gentes, repartindo suas mercês como homem que de sua parte queria fazer pequeno tesouro, cá de quarenta e seis almas que aconteceram no seu quinto, mui breve fez delas sua partilha, cá toda a sua principal riqueza estava em sua vontade, considerando com grande prazer na salvação daquelas almas que antes eram perdidas.
E certamente que seu pensamento não era vão, cá, como já dissemos, tanto que estes haviam conhecimento da linguagem, com pequeno movimento se tornavam cristãos. E eu, que esta história ajuntei neste volume, vi na vila de Lagos, moços e moças, filhos e netos destes, nados nesta terra, tão bons e tão verdadeiros cristãos, como se descenderam do começo da lei de Cristo, por geração, daqueles que primeiro foram baptizados.

Gomes Eanes de Zurara in «Crónica do Descobrimento e Conquista da Guiné», 1453.


Um milagre chamado Portugal


Como é possível que vós, embora sendo poucos, tenham feito tanto na santa cristandade? Onde Portugal encontrou forças para acolher tantos territórios da África e da Ásia sob o seu domínio, e estendê-lo até às mais distantes terras americanas? Onde, senão naquela ardente fé do povo português, cantada pelo seu maior poeta, e na sabedoria cristã dos seus governantes, que fizeram de Portugal um dócil e precioso instrumento nas mãos da Providência, para a realização de obras tão grandiosas e benéficas?

Papa Pio XII in encíclica «Saeculo Exeunte Octavo», 13 de Junho de 1940.

520º aniversário da descoberta oficial do Brasil


Esta terra, Senhor, me parece que da ponta mais contra o sul vimos, até outra ponta que contra o norte vem, de que nós deste porto houvemos vista, será tamanha que haverá nela bem vinte ou vinte e cinco léguas por costa. Tem, ao longo do mar, nalgumas partes, grandes barreiras, delas vermelhas, delas brancas; e a terra por cima toda chã e muito cheia de grandes arvoredos. De ponta a ponta, é tudo praia-palma, muito chã e muito formosa.
Pelo sertão nos pareceu, vista do mar, muito grande, porque, a estender olhos, não podíamos ver senão terra com arvoredos, que nos parecia muito longa.
Nela, até agora, não pudemos saber que haja ouro, nem prata, nem coisa alguma de metal ou ferro; nem lho vimos. Porém a terra em si é de muito bons ares, assim frios e temperados, como os de Entre Douro e Minho, porque neste tempo de agora os achávamos como os de lá.
Águas são muitas; infindas. E em tal maneira é graciosa que, querendo-a aproveitar, dar-se-á nela tudo, por bem das águas que tem.
Porém, o melhor fruto que dela se pode tirar me parece que será salvar esta gente. E esta deve ser a principal semente que Vossa Alteza em ela deve lançar.
E que aí não houvesse mais que ter aqui esta pousada para esta navegação de Calecute, isso bastaria. Quanto mais disposição para se nela cumprir e fazer o que Vossa Alteza tanto deseja, a saber, acrescentamento da nossa santa fé.
E nesta maneira, Senhor, dou aqui a Vossa Alteza conta do que nesta terra vi. E se algum pouco me alonguei, Ela me perdoe, pois o desejo que tinha de tudo vos dizer, mo fez pôr assim pelo miúdo.
E pois que, Senhor, é certo que, assim neste cargo que levo, como em outra qualquer coisa que de vosso serviço for, Vossa Alteza há-de ser de mim muito bem servida, a Ela peço que, por me fazer graça especial, mande vir da ilha de São Tomé a Jorge Osório, meu genro – o que d'Ela receberei em muita mercê.

Beijo as mãos de Vossa Alteza.
Deste porto seguro, da vossa ilha da Vera Cruz, hoje, sexta-feira, primeiro dia de Maio de 1500.
Pêro Vaz de Caminha

540º aniversário do Tratado de Alcáçovas

Divisão territorial de Alcáçovas-Toledo

A 4 de Setembro de 1479, foi assinado o Tratado de Alcáçovas entre El-Rei D. Afonso V, o seu filho D. João, e os Reis Católicos D. Isabel de Castela e D. Fernando de Aragão, no qual "Espanha" reconhecia a soberania portuguesa sobre os arquipélagos da Madeira, Açores e Cabo Verde, e Portugal renunciava à posse das Canárias, que ficariam sob domínio "espanhol". O acordo atribuía ainda a Portugal as terras que viessem a ser descobertas a sul do paralelo que passava no Cabo Bojador, enquanto "Espanha" ficaria com as terras a norte do mesmo paralelo. O Tratado foi ratificado em Toledo, a 6 de Março do ano seguinte, e devidamente reconhecido pelo Papa Sisto IV a 21 de Junho de 1481, na bula Aeterni regis.
No entanto, o Tratado de Alcáçovas-Toledo viria a ser revogado devido aos inúmeros incumprimentos "espanhóis" (p. ex. quando Cristóvão Colombo chegou à América em 1492, chegou a zona de exploração portuguesa). Foi por isso que a 7 de Junho de 1494 se assinou um novo tratado, em Tordesilhas, com uma nova divisão do mundo.