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Salazar e o possível rompimento com os EUA


Em 1966, o Governo português planeava enviar a fragata Almirante Pereira da Silva a Luanda, para saudar a vinda de uma esquadra brasileira. A fragata, que era nova, tinha sido construída com colaboração financeira dos Estados Unidos. Porém, o Governo de Washington, sabendo da intenção portuguesa, opõe-se imediatamente à ida da fragata a Angola e ameaça rasgar o acordo naval com Portugal. O Ministro da Marinha, Quintanilha Dias, sem o conhecimento de Salazar, cede à pressão americana. A missão é cancelada, e, Salazar, ao saber de mais este incidente com os EUA, terá confessado a Franco Nogueira o seguinte:

«Recebemos uma bofetada, uma humilhação estúpida. Os Estados Unidos acabam de nos tratar sem consideração nenhuma, pior do que aos novos Estados negros, e isso não o podemos consentir. Não somos um protectorado americano, nem de ninguém. Está a chegar o momento em que temos de romper com os Estados Unidos, espero que seja ainda na minha vida».

Fonte: «Salazar – Volume VI – O último combate (1964-1970)», 1985.

Angola


Angola. Cidade e Reino na praia meridional de África, entre os rios Danda e Cuanza. O próprio nome deste Reino é Dongo; antigamente foi chamado Ambundo. Angola é o nome do primeiro fundador deste Reino, que com ele se levantou contra o Rei do Congo, do qual era tributário. Pela parte Norte confina o Reino de Angola com o do Congo, e pela parte do Sul com o de Matamba; a Este tem o Reino de Malemba, e a Oeste o Oceano. Haverá alguns cento e sessenta anos, que um dos Sobas do Congo, chamado Angola, e confederado com os Portugueses, venceu os Príncipes seus vizinhos: erigiu em Reino as suas conquistas e tomou o título de Inene. Seu filho, Dambi Angola, que lhe sucedeu, foi inimigo mortal dos Portugueses, mas o filho e sucessor deste, chamado Guilonge Angola, renovou amizade e união com os Portugueses. O primeiro governador de Angola foi Paulo Dias de Novais, que se apoderou de várias Cidades e Províncias. Na sua Descrição da África, pág. 368, escreve Dapper, que no ano de 1584, quinhentos Portugueses desbarataram 1 200 000 Negros de Angola. Foram os Holandeses algum tempo senhores de Angola, mas Salvador Correia de Sá a recuperou.

Pe. D. Rafael Bluteau in «Vocabulário Português e Latino», Tomo I, 1712.

Eclipse solar em Angola, 1680


No mesmo dia [30 de Março], em terça-feira, ano de 1680, pelas onze horas do dia, se viu um eclipse do Sol para a parte da Etiópia Austral, com que se tornou o dia noite. Na Cidade de São Paulo [de Luanda], capital do Reino de Angola, experimentaram os moradores uma tão estranha escuridão, que no meio das ruas se não conheciam, nem distinguiam uns dos outros; Foi-lhe necessário dentro das casas acenderem luzes: As estrelas se lhe ofereciam aos olhos tão claras e patentes, como na noite mais serena: Durou largo tempo, enchendo aquelas gentes de grande horror, por ser coisa nova e nunca vista, nem lembrada dos homens mais antigos.

Pe. Francisco de Santa Maria in «Ano Histórico, Diário Português: Notícia Abreviada de pessoas grandes e coisas notáveis de Portugal», 1744.

Quando a ONU apoiou o terrorismo contra Portugal


A insistência em menosprezar o princípio fundamental da não-intervenção nos assuntos internos dos Estados membros, mereceu tais reparos e causa tais apreensões aos que ainda depositam alguma confiança no futuro da Organização, que é de prever esta venha a alterar a sua conduta, no caso de desejar sobreviver.

O convite às autoridades portuguesas para cessarem imediatamente as medidas de repressão [ao terrorismo] é uma atitude, digamos, teatral do Conselho de Segurança [da ONU] e que ele não tem a menor esperança de ver atendida, tão gravemente ofende os deveres de um Estado soberano. Desde os meados de Março não acharam, nem o Conselho, nem a Assembleia, oportunidade para ordenar aos terroristas que cessassem os seus morticínios e depredações, e tantos dos seus membros o podiam ter feito com autoridade e eficácia. Mas quando intervém a autoridade cuja obrigação é garantir a vida, o trabalho e os bens de toda a população, essa obrigação, ou primeiro dever do Estado, não haverá de ser cumprido, porque é necessário que os terroristas continuem impunemente a sua missão de extermínio e de regresso à vida selvagem.

À consideração de que a situação em Angola é susceptível de se tornar uma ameaça para a paz e para a segurança internacionais, essa, sim, pode ter algum fundamento, mas só na medida em que alguns dos votantes [da ONU] se decidam a passar do auxílio político e financeiro que estão dando, para o auxílio directo com as suas próprias forças contra Portugal em Angola. Tudo começa a estar tão do avesso no mundo que os que agridem são beneméritos, os que se defendem são criminosos, e os Estados, cônscios dos seus deveres, que se limitam a assegurar a ordem nos seus territórios, são incriminados pelos mesmos que estão na base da desordem que aí lavra. Não. Não levemos ao trágico estes excessos: a Assembleia das Nações Unidas funciona como multidão que é, e portanto dentro daquelas leis psicológicas e daquele ambiente emocional a que estão sujeitas todas as multidões. Nestes termos é-me difícil prever se o seu comportamento se modificará para bem ou não agravará ainda para pior. Se porém virmos este sinal no céu de Nova lorque, é meu convencimento que estão para breve catástrofes e o total descalabro da Instituição.

António de Oliveira Salazar in discurso «O Ultramar Português e a ONU», 30 de Junho de 1961.

A Rainha Ginga


Governando o Reino de Angola, Fernão de Sousa, Senhor de Gouveia, tiveram os Portugueses guerra com o Rei daquele Reino, e o venceram e mataram, aprisionando-lhe três filhas, as quais, instruídas nos Mistérios da Fé, receberam o primeiro dos Sacramentos, que lhe administrou o Bispo, sendo Padrinho o Governador, e assistindo os Ministros da República e Cabos de Guerra, que então se achavam na Cidade de S. Paulo de Luanda. Foi aquele dia sumamente festivo para todos os moradores da mesma Cidade e das terras circunvizinhas, por verem três Princesas prostradas aos pés de Cristo, à imitação dos três Reis do Oriente, prostrados também em outro dia aos mesmos sagrados pés; verificando-se assim, que as Majestades da Terra, desde o nascimento do Sol até ao seu Ocaso, lhe renderam, e rendem, adorações. Chamou-se a primeira Dona Ana, a segunda Dona Graça, a terceira Dona Bárbara, e o Governador, em memória daquele acto sucedido no seu tempo, deu o seu apelido à primeira, e se chamou Dona Ana de Sousa. Foram, porém, muito vários os sucessos das três; A Dona Graça foi morta pelos Portugueses, por ser convencida em crime de traição contra o Estado: A Dona Bárbara, passando diferentes fortunas, já prósperas, já adversas, morreu Rainha de Matamba, com mostras de verdadeira Cristã e em boa correspondência com os Portugueses.
Dona Ana foi mulher de tão raro e tão extravagante génio, e de tanto juízo e valor, que a viver em tempos mais antigos, não seria menos celebrada do que o foram as Semíramis, as Cleópatras, as Zenóbias. Saiu furtivamente da Cidade de S. Paulo, e metida pelo Sertão, se armou contra os Portugueses, dizia ela, que em vingança da morte de seu pai. Largou o nome e sobrenome do Baptismo, e chamou-se como de antes Ginga Amena: Abraçou outra vez os ritos daquela bárbara Gentilidade e se fez dogmatista de outros novos, que lhe conciliaram tanta reputação, que era tida entre os Gentios por coisa celestial e superior: Vestiu-se em trajes de homem e não queria que lhe chamassem Rainha, senão Rei; Sustentava-se de carne humana e gostava muito das reções do peito, porque nelas entravam os corações: Qualquer leve descuido bastava para cortar as cabeças aos seus mais íntimos criados e aos que lhe eram mais chegados em sangue, e dizia, muito senhora de si: Que os Reis não tinham parentes. Vestia ricas galas e ornava-se com preciosas jóias: Recebia os Embaixadores dos Reis e Príncipes daquelas vastíssimas Regiões, com excessiva pompa, sentada em um majestoso Trono, em uma sala coberta de ricas alcatifas e ornada de vistosas armações, e só dava assento alto, em um banquinho de palha, ao Embaixador de El-Rei do Congo, a quem só reconhecia igual: Os Embaixadores de outro qualquer Rei sentavam-se no chão. Era tal para com a sua pessoa a veneração e tanto o respeito dos Negros (ou fossem amigos ou inimigos, ou a encontrassem vencida ou vencedora) que nenhum se atrevia a pôr nela os olhos, e a grande espaço do lugar, onde sabiam que ela estava, se lançavam por terra de bruços e não se levantavam sem ordem sua, e antes se deixariam matar do que fazerem o contrário; Servia-se de trezentos moços e de outras tantas moças de dezoito até vinte e cinco anos, eles em trajes de mulheres e elas de homens, e viviam divididos por seis estâncias, e em cada uma destas, cinquenta de um sexo e cinquenta do outro; Mas com pena inviolável de morte se alguns se desmandavam no vício sensual; ordenando ao mesmo tempo a união e mostrando abominar os efeitos que ela geralmente causa, procurando por este modo (que era o verdadeiro fim daquela extravagância) ter mais repetidas ocasiões de cortar cabeças. Fora das estâncias não tinha proibição alguma o vício da carne, mas com tal lei, que a nenhuma mulher se consentia parir dentro do arraial sob pena de morte, e quando lhe davam as dores, saiam aos campos e as seguiam uns cachorros, que já trazia costumados a este efeito, que logo despedaçavam e comiam as crianças, e as mães, lavando-se nos rios, tornavam para o arraial: Trazia nos braços duas argolas de latão, e nelas, dizem, que dois familiares com quem falava e consultava as suas coisas e sucessos; Tinha também uma arca de prata, cheia de ossos de defuntos e de outros trastes semelhantes, de que também usava para os seus malefícios; Isto, quanto ao estilo da sua vida na Côrte e na paz. Na campanha e na guerra, trouxe aos princípios um esquadrão volante, e a modo de salteadora, invadia as povoações dos seus mesmos naturais, sustentando-se, e aos seus, da carne dos velhos e inúteis que matava, incorporando no seu Esquadrão os moços para a guerra, e as moças para a multiplicação; Aos Portugueses fazia maiores danos, acometendo-os com tanta velocidade, que em nenhum lugar, nem tempo, se davam por seguros. Aparecia e desaparecia como relâmpago, mas sempre fulminando raios de ira e de vingança; Depois ajuntou numerosos exércitos e nos apresentou muitas batalhas campais, e em muitas ficou vencedora e em outras vencida, e em uma e outra fortuna, mostrava sempre igual valor e igual semblante; Quando os Portugueses a imaginavam sem forças e sem armas, então lhe aparecia mais poderosa e formidável: Sabia escolher os sítios, dispor os quartéis, formar os esquadrões, armar as ciladas, e todos os outros modos e artifícios de guerra, como o mais perito e experimentado Capitão; Com a entrada dos Holandeses em Angola, e fomentada por eles, cobrou novos brios e nos começou a invadir de novo e quase nos teve lançado fora daquelas terras; Mas com a expulsão dos mesmos [Holandeses] executada por Salvador Correia de Sá e Benevides, vendo-se já velha e cortada dos contínuos trabalhos, mandou pedir pazes aos Portugueses, e dali por diante viveu com eles em boa correspondência; Admitiu no seu Reino aos Religiosos Missionários e se deixou persuadir tão fortemente das suas admoestações, que se desfez de tudo o que lhe servia às suas más artes, abraçou os ritos Católicos, e começou a viver como verdadeira Cristã. Edificou na sua Côrte de Matamba um sumptuoso Templo dedicado à Mãe de Deus, e as mais das tardes ia a ele com as suas Damas rezar o Terço; Procurou com toda a eficácia que lhe foi possível, a conversão de todos os seus vassalos, o que em grande parte conseguiu: Morreu catolicamente, com todos os Sacramentos, e muitos Sinais de predestinada.

Fonte: «Notícia memorável da vida e acções da Rainha Ginga Amena, natural do Reino de Angola», 1749.

Vitória insigne no Reino de Benguela


Pelos anos de 1679, sendo Governador de Angola, Aires de Saldanha de Menezes e Sousa, se levantou nas vastíssimas campanhas do Reino de Benguela, um Negro chamado Quitequi, que na sua língua significa Feiticeiro; E valendo-se das más Artes, que eram próprias do seu nome, e não menos da sua grande indústria e valor, foi adquirindo um numeroso séquito; E crescendo-lhe com o poder a arrogância, começou a vexar aos Portugueses, que negociavam naquele Sertão, e muito mais aos Negros confinantes, que eram Vassalos de El-Rei de Portugal; Com que foi preciso castigá-lo, mas não foi fácil. Saiu em campanha contra ele, com duzentos e cinquenta Portugueses, o herói daqueles tempos naquelas partes, Luís Lopes de Sequeira, a quem precedia um esquadrão volante de Negros, nossos aliados, que serviam mais a engrossar que a fortalecer o corpo do nosso Exército: Porque geralmente aos primeiros ataques costumam desemparar aos brancos, levando mal o pelejarem contra os da sua côr. Estava o Quitequi alojado em umas altas penhas, com boas fortificações, e fiado na eminência do sítio, e muito mais no esforço dos companheiros, gente escolhida e bem armada, lançava do alto juntamente com grande número de pedras, muitas palavras injuriosas contra os Portugueses; Mas cedo experimentou o castigo da sua arrogância; Investiram os nossos aquele monte, posto que se lhe representava inexpugnável, e por entre infinitas pedras que se despenhavam furiosas, por entre inumeráveis balas e flechas, foram ganhando terra apesar de dura oposição: Uns empenhados em subir: Restados outros a lhe impedirem a subida; Chegaram finalmente os Portugueses ao alto, e começaram a batalhar-se corpo a corpo com os inimigos; Travou-se uma brava peleja, que durou mais de quatro horas; Até que caiu morto de uma bala o Quitequi, e com ele caíram os seus de ânimo, e largando as armas, se encomendaram aos pés: Muitos pereceram cortados do nosso ferro: Muitos precipitados daquelas eminências: Muitos foram metidos ao grilhão; Dos nossos ficaram mortos cinco, feridos dezasseis: E não houve quem não julgasse pequena a perda, na comparação de um sucesso tão glorioso, e de tantas consequências: Em que ficou castigada a soberba daquele bárbaro, desassombrados os Príncipes e Sobas amigos: Temido e respeitado o valor Português: Aberto e seguro o comércio; e os Soldados ricos e contentes com os despojos; conseguiu-se esta memorável vitória neste dia [9 de Agosto], no ano referido.

Pe. Francisco de Santa Maria in «Ano Histórico, Diário Português: Notícia Abreviada de pessoas grandes e coisas notáveis de Portugal», 1744.