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Dom Gualdim Pais


Dom Gualdim Pais, famoso Cavaleiro do tempo dos primeiros Reis de Portugal, nasceu em Braga, de nobre geração. Passou a militar na Síria, e foi um dos primeiros fundadores da famosa Ordem do Templo, juntamente com Arnoldo da Rocha, também Português, igualmente ilustre e valeroso. Naquela guerra fez Dom Gualdim assinalados serviços em obséquio da Fé contra os infiéis: Particularmente ostentou o seu valor na conquita das Cidades de Ascalão e Antioquia; Achou-se em muitas batalhas campais e sempre com glorioso nome. Voltou cheio de fama a Portugal, onde foi o primeiro Mestre daquela Ordem, e a fundou e enriqueceu neste Reino. Fundou os Castelos de Tomar, Pombal, Almourol, Idanha, Monsanto, e outras nobres Povoações. Morreu neste dia [17 de Abril] ano de 1195.

Pe. Francisco de Santa Maria in «Ano Histórico, Diário Português: Notícia Abreviada de pessoas grandes e coisas notáveis de Portugal», 1744.

Das qualidades dos Cavaleiros da Ordem de Cristo


Pela excelência desta Ordem ser de Jesus Cristo, nosso Senhor, e pela insígnia da Cruz que tem, que entre todas as das Ordens Militares, mais se assemelha e parece à em que Ele padeceu, merece ser muito venerada e respeitada: pelo que os que a ela forem recebidos, devem ser Nobres, Fidalgos, Cavaleiros, ou Escudeiros, limpos sem mácula alguma em seus nascimentos, nem outros impedimentos e defeitos que se apontam abaixo nos interrogatórios, porque se há-de perguntar, quando se habilitarem: e os Papas Pio V e Gregório XIII no ano de 1572 proibiram que nenhuma pessoa que descendesse de Mouro ou Judeu, ou fosse filho de mecânico* ou mecânica, nem neto de avô e avó mecânicos, possam ser recebidos ao hábito desta Ordem; o que ordenamos e definimos que assim se cumpra e guarde inviolavelmente, sem dispensação, nem remissão alguma, por ser tão necessário à autoridade e reputação da Ordem, e conforme ao que el-Rei D. Filipe II, de boa memória, Governador e perpétuo Administrador desta Ordem, com estas considerações resolveu e mandou por sua carta assinada de sua Real mão de 28 de Fevereiro de 1604, de que a cópia é a seguinte...

Fonte: «Definições e Estatutos dos Cavaleiros e Freires da Ordem de Nosso Senhor Jesus Cristo», 1717.

(*) É chamado de mecânico a todo o género de ofícios manuais ou servis, como carpinteiros, pedreiros, alfaiates, sapateiros, etc.

Das qualidades dos Cavaleiros da Ordem de Santiago


Nos estatutos desta Ordem, capítulo quarto, se ordena que o cavaleiro, a quem se houver de dar o hábito, seja de limpa e nobre geração, sem raça alguma de Mouro ou Judeu, ou outra infecta nação, e no Definitório novo se tornou a definir o mesmo; e é isto tão necessário que quem, com alguma das faltas que ali se apontam, recebesse o hábito, cometeria um grande sacrilégio, e por isso quando lhe fazem profissão, depois de lhe perguntarem se tem alguma coisa de Mourisco ou da nação, e ele responder que não, lhe declaram logo que veja bem o que diz, porque em qualquer tempo que se souber o contrário, o deitarão da Ordem, e lhe tirarão o hábito, com o que bem se dá a entender que não ficará válida a profissão, nem o tal professo poderá comer pão algum da Ordem, pois realmente não é professo.
O que nesta matéria é para estranhar mais que tudo, é que haja homens, os quais não podendo ignorar que há alguma falta destas em sua geração, não deixam contudo de ser pretendentes ao hábito, sendo que lhe não pode servir a pretensão mais que de maior ignominia, porque se não alcançar o fim dela por este impedimento, ficará mais patente aquilo que entre muitos, ou se não sabia, ou era duvidoso. E se o alcançar, ainda tenho isto por pior, porque é embaraçar a consciência com os escrúpulos que temos dito.
Costumam-se fazer as diligências com grande exacção e com muito segredo, sem intervir o pretendente, nem outrem por ele, mais que com os custos que primeiro se depositam; e não permita Deus que nesta matéria haja cavaleiro, ou freire, que não faça com toda a inteireza o que tem obrigação, porque além de cometer um grave pecado de perjúrio e sacrilégio; seria digno de gravíssimo castigo, pois se pode daí seguir um tão grande absurdo, como é desonrar toda uma Religião [= Ordem Religiosa] por amor de um sujeito, que por outros caminhos pode alcançar grandes honras, se as merece.

Pe. António Pereira in «Compêndio e Declaração da Regra e Estatutos da Ordem Militar de Santiago», 1659.

Das qualidades dos Cavaleiros da Ordem de Avis


Esta nossa Ordem em seu primeiro princípio foi estabelecida e fundada por generosos Cavaleiros, nobres e de grande linhagem: os quais ordenaram que nenhuma pessoa fosse recebida nela, não sendo Fidalgo, ou tal Cavaleiro que pudesse exercitar a arte Militar. E segundo isto, e constituições antigas, e Breves Apostólicos, ordenamos e definimos que a pessoa que houver de ser recebida por Cavaleiro nesta nossa Ordem Militar seja Fidalgo, Cavaleiro ou Escudeiro, de linhagem por parte de pai e mãe, legítimo e Cristão-Velho; sem raça alguma (por remota que seja) de Mouro, Judeu, ou Cristão-Novo; e sem que descenda de pessoa que cometesse crime de lesa-Majestade divina ou humana; e que seus Pais e Avós, inclusive de ambas as partes, não houvessem exercitado ofício ou ministério vil, e vivessem deles; nem tivessem em tempo algum ofício mecânico, nem algum outro baixo e indecente à nossa Cavalaria: nem menos que os que pretendem entrar tivessem servido qualquer ofício que lhes desse de comer pela mecânica de suas mãos; nem que sejam infamados ou afrontados de coisas que os façam incapazes de honras, por causas de que não estejam já limpos. E para que isto se guarde melhor, mandamos que os que forem recebidos ao hábito Militar desta nossa Ordem sejam avisados antes que se lhes der; que depois de o terem recebido, ainda que sejam professos e tenham comenda ou tença da Ordem, em qualquer tempo que se achar que tem alguma das faltas sobreditas, o lançarão fora dela e lhe tirarão o hábito. E os que o tomarem com fraude, ainda que não conste de seu defeito, só com eles o saberem, ficarão perdendo o domínio dos bens que tiverem da Ordem ipso jure; e como incapazes deles, ficarão obrigados aos restituir, sem esperar outra sentença ou acusação. E logo os aplicamos à redenção dos cativos. E no defeito de ter raça de Mouro, Judeu, Cristão-Novo, ou Herege, se não poderá dispensar para este efeito de não serem lançados da Ordem; assim como está definido que se não dispense para tomar o hábito.

Fonte: «Regra da Cavalaria e Ordem Militar de S. Bento de Avis», 1631.

A Cavalaria: excertos


Quando os cavaleiros assistiam à Missa e chegava a leitura do Evangelho, em silêncio, eles desembainhavam as espadas e as mantinham nuas e erectas diante do rosto, enquanto durasse a leitura sagrada. Esta altiva atitude queria dizer: se for preciso defender o Evangelho, nós estamos aqui! Neste gesto estava todo o espírito da Cavalaria. (página 30)

Recebe esta espada, em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, serve-te dela para a tua defesa, para a defesa da Santa Igreja de Deus e para a confusão dos inimigos da Cruz de Cristo. Vai e lembra-te que os santos não conquistaram os reinos pelo gládio, mas pela fé. (página 47)

Cavaleiros, não esqueçais que Deus vos fez para serdes a muralha da Igreja. (página 49)

Diante dos pobres é preciso que te humilhes, é preciso que te faças pequeno. Tu lhes deves ajuda e conselho. (página 53)

Oh Deus, Vós só permitis aqui na terra o uso da espada para combater a malícia dos maus e para defender a justiça. Fazei, pois, que o vosso cavaleiro jamais utilize do gládio para lesar injustamente quem quer que seja; mas que se sirva dele, para defender, aqui na terra, o que é justo e recto. (página 86)

Toma esta espada. Exerce com ela o vigor de justiça; abate com ela o poder da injustiça. Defende com ela a Igreja de Deus e seus fiéis. Dispersa com ela os inimigos de Cristo. O que está por terra, levanta-o. O que levantastes, conserva-o. O que é injusto aqui na terra, abate-o. O que é conforme a ordem, fortifica-o. É assim que, glorioso e altivo, unicamente pelo triunfo das virtudes, justitiae cultor egregius, chegarás ao Reino dos Céus, onde com Jesus Cristo, de que trazes a marca, reinarás eternamente. (página 304)

Léon Gautier in «La Chevalerie», 1884.